sábado, 6 de julho de 2013

CHESCHIATTI, UM CAMINHEIRO

JORNAL A TARDE, SALVADOR,  SÁBADO, 15 DE NOVEMBRO DE 1975

Banhistas, obra do escultor Cheschiatti
"Com dois bons amigos vemos caminhando pela vida.
Eu, absorvido pela Arquitetura, inventando formas, brincando com o concreto armado; ele, o nosso Cheschiatti, a fazer suas esculturas. Essas mulheres lindas, barrocas, cheias de curvas, que seu talento cria para o mármore. Como gosto de vê-las", Oscar Niemeyer.
Esta declaração de Niemeyer é suficiente para entendermos a importância de Cheschiatti, escultor, autor das Banhistas, aquelas duas mulheres puxando os cabelos instaladas estrategicamente no lago do Palácio da Alvorada, dos anjos e dos profetas da Catedral de Brasílica e das três figuras militares do Monumento aos Mortos de II Guerra, no Rio.
Agora ele está expondo na Bolsa de Arte, reunindo trabalhos de diversas fases, compreendidas num período que vai de 1942 a 1972.
Uma coisa curiosa é que a maioria dos artistas reluta em encomendas porque é uma concessão. Nem sempre, e uma prova disto é que Cheschiatti responde " prefiro as encomendas, porque o trabalho fica localizado numa arquitetura.Gosto que ele tenha um destino, que funcione para alguma coisa."
Ele não expõe há 19 anos e declara que "hoje, acho que a moderna escultura está ficando acadêmica. Todas tem as mesmas formas abstratas. Através da figuração creio que se pode fazer sempre coisas diferentes."
Justificando a exposição Cheschiatti respondeu que  "fiz esta exposição porque me cobraram. Eu não sentia necessidade, porque meu trabalho sempre foi o de complementar a arquitetura, colaborando com Oscar e outros arquitetos. Uma escultura muito engajada. E além disso eu já não sou mais novidade, diante desta garotada toda que expõe todo dia." Prefere ficar em seu atelier, no Santo Cristo, no Rio de Janeiro.

            QUINZE BAIANOS NA GALERIA GENTILLI


Quinze plásticos estão reunidos na Galeria Gentil, que fica na Rua Guedes Cabral, 203, no Rio Vermelho. Entre esses destaco Edmilson Ribeiro, Almiro Borges e Hamilton Ferreira, cujos trabalhos já tive a oportunidade de examiná-los e acompanho na medida do possível o desenvolvimento de suas obras.
Entalhe de Edmilson 
Edmilson Ribeiro, mestre de entalhe, um dos bons artistas que possui a Bahia, o qual vem temendo, através da presença de relevos e outras formas a passar para a escultura, jogando com o espaço.
Almiro Borges continua pintando a velha Bahia, os seus pontos postais como o Elevador Lacerda, das ladeiras incertas ou as igrejas em ruínas. Vindo de Alagoinhas Almiro integrou-se na magia de Salvador e daí retira a essência para a elaboração de seus quadros.
Hamilton Ferreira identifica-se com o candomblé e suas figuras míticas dançando, movimentando-se num colorido tropical. Suas figuras são singelas e frágeis e quase sempre representam Orixás, ou mesmo baianas, que normalmente vemos nos bairros mais tradicionais como Santo Antônio, Pelourinho e outros.

                                            AS SEREIAS
Mixel Gantus, carioca, um dos expositores na Sereia

Trinta e três artistas estão mostrando sereias na Galeria Sereia, no Pelourinho as quais estão sob os cuidados de Dimitri. A exposição foi inaugurada ontem, à noite, razão porque não posso fazer uma apreciação melhor já que a coluna é feita com certa antecedência. Entre alguns participantes destacam-se Alonso, Anito Sartori, Luís Britto, Bronko, Bruno Furrer, Candoca, Carlos Bastos, Carybé, Edsoleda Santos, Faróleo, Fernando Coelho, Floriano Teixeira, Jotacê, Juarez Paraíso, Lozano, Miguel Najar, Pedroso, Eckenberger, Udo Knoff e Yuriko.
 O marchand Dimitri escolheu o tema Sereia para que esses artistas apresentassem alguns trabalhos em homenagem ao próprio nome da Galeria, que vem se destacando no movimento artístico baiano.

                                         PORTRAITS

A Bahia foi transformada num bom mercado para os retratistas. Estamos com três ou quatro  que retratam as madames da sociedade ou expoentes da economia, da educação e assim por diante. Agora é a vez da exposição de Gilberto Vital, na Pousada do Convento do Carmo com abertura prevista para hoje, ás 21 horas.
Como retratista, o Gilberto preferiu colocar em seu catálogo três fotografias suas, o que demonstra uma preocupação narcisista.Porém, não é original. Outro pintor vem cultuando o seu físico por este Brasil afora, e o clímax foi uma exposição realizada na igrejinha do Solar do Unhão, onde ele aparecia numa foto enrolado numa imensa cobra colorida.

                    UMA IDEIA, UM MERCADO

A ideia de um local no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro para vendas de livros, desenhos, revistas, pequenas esculturas, objetos, gravuras, tapeçarias, pinturas e outras peças faz surgir em 1973 a Galeria no MAM, que passou a funcionar com acervo de trabalhos de vários artistas, em consignação. Atualmente a Galeria está vendendo desenhos de Wanda Pimentel, Ivens Machado, Rogério Luz, Sérgio Campos Mello, Nelson Augusto e gravuras de Eduardo Sued, Thereza Miranda, Anna Bella Geiger, Ivan Serpa, Abelardo Zaluar e outros. A Galeria funciona de terça a sábado, das 14 horas às 19 horas no foyer do MAM.

           ARTE GAÚCHA NO SOLAR DO UNHÃO

Foto  de Zorávia Bettiol
No intuito de promover as artes plásticas o MEC através do Programa de Ação Cultural organizou uma exposição Artistas Gaúchos que está no Solar do Unhão. Esta exposição já esteve em Brasília e percorrerá diversos estados. O objetivo da mostra também é de  aproximar os artistas de diversos estados possibilitando um intercâmbio através do conhecimento do que vem sendo realizado em cada lugar, no caso Rio Grande do Sul.
Oxalá e Yemanjá no País do Sol,
xilo de Zorávia Bettiol
Quando falamos em gaúchos pensamos logo em churrasco, em paisagens dos pampas.Mas, nada disso o que é louvável nos é apresentado nesta mostra.Isto demonstra uma preocupação em apresentar um agrupamento de trabalhos sem regionalismo. É a ambição da universalidade da arte que rompe com este regionalismo que limita a criatividade voltando-se para um mercado de lembranças. As gerações vem se sucedendo, pesquisando, e procurando novas formas e utilizando novos materiais os quais devem ser aplicados e jogados dentro desta concepção maior, a busca de uma linguagem universal.
Enquanto os gaúchos nos apresentam uma arte rompida com o regionalismo muitos baianos continuam pintando casarios, alagados e outras coisas já saturadas, desgastadas e inertes.
Mesmo a paisagem urbana de Ado Malagoli não se identifica com o regionalismo e pode ser considerada uma paisagem urbana de qualquer parte do país ou mesmo europeia.
Já a gravura pioneira de Danúbio Gonçalves demonstra uma disciplina e uma técnica apurada.E, finalmente, quero destacar as xilos de Zorávia Bettiol que poderiam ter sido feitas por um baiano devido a temática tratada.

  MESTRE RAYMUNDO AGUIAR NA GALERIA LE DÔME

O mestre Raymundo Aguiar com uma obra recente
 Comemorando seu décimo aniversário de fundação a Galeria Le Dôme organizou uma exposição do mestre Raymundo Aguiar, cuja vernissage foi realizada ontem, às 20 horas.
Quando falamos em Raymundo Aguiar lembramos dos seus 82 anos de idade e aquela vontade de criar.Agora ele mostra 15 trabalhos, concebidos nesses últimos meses.
Ao lado disso, temos a festa de dez anos de fundação da galeria que vem lutando terrivelmente para continuar realizando novos valores e principalmente tentando desenvolver o incipiente mercado de arte na Bahia. Uma coisa curiosa que acontece aqui é que a maioria dos artistas baianos trabalha para fora, produzem aqui e vendem para turistas ou colecionadores do sul o País. Poucos vendem trabalhos a colecionadores locais. Assim a Galeria Le Dôme merece um respeito e consideração pelo trabalho pioneiro, como outras galerias, que realiza. Uma das metas de sua atual diretoria é conseguir uma sede própria onde este trabalho possa crescer ainda mais.
Voltando ao mestre Raymundo Aguiar, notamos em seus trabalhos uma segurança cada vez maior, dentro é claro, do estilo que ele executa. Raimundo tem mais de 50 anos de vida dedicada à pintura e seu primeiro prêmio foi quando da realização do Salão Oficial em comemoração ao Centenário da Independência da Bahia.
Dedicou-se também aos desenhos, charges, gravuras e principalmente ás pinturas, e paralelamente ensinava na Escola de Belas Artes. Para os que não conhecem de perto Raymundo Aguiar nasceu em Portugal, em 1893. Fez curso primário, secundário em Lisboa, chegando ao Brasil com 29 anos de idade para ser comerciante. Naturalizou-se brasileiro e somente em 1917 começa a trabalhar com o mestre Oséas dos Santos e na A Tarde. Em 1923 participa de um salão oficial, em 1927 realizou mais duas exposições em Santo Antônio de Jesus e Salvador. Em 1928 largou o comércio dedicando-se às artes plásticas. Estudou Belas Artes e foi convidado para Professor Assistente na mesma escola, na cadeira de Sombras, Perspectiva e Estereotomia, tornando-se catedrático e afastando-se por força de aposentadoria aos 70 anos de idade.