segunda-feira, 13 de novembro de 2017

O TEMPO NA VIDA DE UM GRANDE ARTISTA

O velho guerreiro faz um gesto que
demonstra estar ativo e olhando
pra frente nas coisas que o cercam
no seu atelier  em Pituaçu
Durante esses vários anos que me dedico  a registrar os principais eventos da artes visuais em nossa cidade,tenho tido a oportunidade de estar diante de importantes artistas daqui e mesmo internacionais . Foram encontros muitas vezes memoráveis para mim , porém, nenhum deles me emocionou tanto como a visita que fiz no dia 9 de novembro, ao velho guerreiro Mário Cravo Jr. Este artista de 96 anos de idade, que mesmo na sua fragilidade física mantém o seu olhar de águia e sua memória com lampejos de  sabedoria, construída pela leitura e muito trabalho a ferro e fogo em suas oficinas ao longo da vasta existência.
 Este criador incansável que há décadas se mistura com as sucatas de vários tipos de metais,  grossos pedaços de madeira de construções que foram incendiadas ou demolidas, de parafusos e tarugos, borrachas, considerados por nós simples viventes como coisas imprestáveis, e resinas que se transformam em obras de arte. Ele soube e sabe como ninguém dar-lhes a grandeza criando esculturas e telas de alta qualidade, e  eternas, que estão ai nas praças, nos museus e nas coleções espalhadas por vários países.

Na conversa que tivemos pude sentir o lado humano e a sua consciência da nossa finitude. "Filho a cada novo dia, é um dia a menos de vida".Respondi brincando "mestre a gente vai morrendo  desde o primeiro dia em que nascemos. " E Mário de repente lamenta os vários conflitos que se estendem pelo sofrido continente africano e depois faz referências às migrações e a maneira como os países poderosos reagem a chegada de novos imigrantes. Para fechar a conversa sobre este assunto que tanto nos aflige nos dias de hoje ele arremata . "Minha política é a minha arte".
Escultura de madeira pintada
e tarugo de ferro datada de 1985.
São frases que marcam para sempre este homem que é o último representante do grupo de artistas modernistas que mudou o rumo das artes em nosso Estado. Juntamente com Carlos Bastos, Carybé, Genaro de Carvalho, Sante Scaldaferri, Jenner Augusto e depois Floriano Teixeira e Calazans Neto, todos ligados ao escritor Jorge Amado construíram aqui uma arte de qualidade rompendo com os maneirismos dos artistas ligados à Escola de Belas Artes que ainda cultuavam a arte dos impressionistas franceses.
Em certo momento o mestre mostrou-se com certo cuidado em responder a algumas perguntas. Disse que sempre esteve ligado a gente da Bahia , mas que sua arte "foge do folclore. Vejo a minha arte como algo que transcende o artista, e traz elementos do sonho do homem que é a permanência da obra de arte através do tempo."
Sobre as muitas perguntas que teve que responder durante sua existência disse que " quando a gente é jovem responde muitas vezes provocando ou mesmo instigando uma postura ou outra de alguém, mas à medida que vamos amadurecendo e ficamos velhos, o tempo é diferenciador." Mas, fez questão de ressaltar que sempre pensou livre e nunca ficou se escondendo atrás de poderosos.
 Portanto, para perguntas que vão criar polêmicas ou embaraços atualmente prefere ficar calado. "Quem faz arte como eu e tem uma mente criativa está ligado ao que pode produzir ".
Eu ao lado de um dos mitos da
 escultura modernista no Brasil
Deixei o mestre à vontade e quase o tempo inteiro ficou segurando em meu braço esquerdo num gesto carinhoso e sempre quando prosseguia o diálogo começava  com a palavra fraterna me chamando de filho.  Nunca tive muita aproximação com o velho Mário. Tinha uma boa amizade com seu filho Máriozinho, o grande fotógrafo reconhecido no mundo inteiro e que desapareceu precocemente. Mas, nesta manhã inesquecível me senti como uma pessoa que tivesse com ele uma convivência constante e fraterna. Por várias vezes me disse: "Filho venha me visitar." E depois corrigiu ,"venha me ver pra a gente conversar . Este negócio de visitar lembra incomodar, e quero que apareça pra a gente ficar aqui conversando. Viu filho?" . 
Cumprimento de cabeças .Um gesto
carinhoso e fraterno de Ivan com
seu pai .
Foi graças ao seu filho Ivan Cravo que marquei este encontro. Ivan trata o seu pai com muito carinho e por algumas vezes eles se cumprimentaram e se acariciaram .O gesto mais repetido era o encontro de suas cabeças. Ivan me disse que tem horas que Mário chega a bater a cabeça na dele  um pouquinho mais forte que até dói. Fala rindo a acariciando a cabeça do pai.
Durante quatro ou cinco dias na semana Mário vai à sua oficina e fica por lá criando pequenas peças, especialmente de madeira, fazendo suas obras e mexendo nas tintas. Embora nesta idade ele não consegue ficar longe de sua oficina, e isto com certeza lhe dar forças para continuar aos 96 anos de idade com certa autonomia .
"É difícil falar de mim. Entende filho? É difícil falar de si sem ser hipócrita.Construí uma obra durante anos e está ai. Agora são as pessoas que vão ver, examinar e até julgar. Certamente uns vão gostar, outros nem tanto. Mas, o que fiz foi o melhor que poderia fazer".
Disse que durante às tardes fica em casa  e sempre está atualmente criando alguma coisa com pastel."Isto me dá prazer e me mantém ativo."
Sobre o gosto pela arte lembrou que sua mãe sempre disponibilizou papel e lápis para ele e os irmãos  desenharem . "Sou  neto de um almirante da Marinha de Guerra brasileira e  ele nos levou para a Europa e lá permanecemos meses . Sempre meu avô nos levava para visitar museus em todas as cidades que a gente ia conhecer. "
Sabemos que Mário Cravo Jr. é filho de um abastado empresário, que trouxe para aqui concessionárias de Williams e da Volks. A Cravo Motor , que na época as pessoas ficavam na fila esperando a hora pra comprar um carro. Ele mexia também com café e outras atividades. Porém, Mário ainda jovem queria fazer arte e foi para os Estados Unidos estudar escultura com o famoso escultor Ivan Mestrovic um amante da arte monumental, e talvez por esta influência Mário Cravo Jr. tenha hoje vários monumentos em praças, avenidas e em prédios públicos e privados. O mais conhecido na Bahia é aquele da Praça Cairu contrastando com o casarão colonial e o majestoso Elevador Lacerda.

                                                              CABEÇA DE TEMPO

Escultura de madeira pintada
datada de 1989.
Quando Ivan me presenteou com um exemplar do belo catálogo da exposição Cabeça de Tempo organizada pelo galerista Paulo Darzé ele indagou se queria que fizesse uma dedicatória e quando respondi positivamente passou a elogiar a mostra. "Montar uma exposição tem que ter o dom artístico. Afinal é um trabalho de arte. A exposição está muito bem montada e bonita". Realmente as 70 peças estão expostas numa maneira muito profissional.
São belas esculturas muitas delas feitas em toros de madeira que sobraram do incêndio do Mercado Modelo na década de setenta que Paulo Darzé conseguiu reuni-las e montar esta mostra. São peças que foram reunidas pacientemente pelo galerista conseguindo uma bela unidade. Os cortes que lembram àqueles feitos com machado e as cores fortes remetem à icnografia da esculturas africanas, porém se diferenciam na medida em que contextualizamos a ambientação da nossa Bahia. Mário  é um  artista moderno e foi ele um dos pioneiros deste movimento aqui em Salvador. Sua inquietude criadora atravessou décadas e sempre foi uma figura altiva.
Mário numa pose altiva
e num gesto blasé,
segundo definiu a foto
de Máriozinho.
Ao mostrar a foto tirada por seu filho Mariozinho que ilustra a capa do catálogo e o convite da mostra ele riu e disse: "Esta foto dá uma ideia de arrogância e depois corrigiu. Arrogância não, altivez, mas olhe que estou com o pé fora da sandália numa pose blasé. " E riu em seguida. Como podemos ver o mestre continua atento à tudo aos 96 anos de idade.
Não quero aqui escrever palavras emboladas e linguagem incompreensível para mostrar uma falsa erudição que não tenho e não curto. Quando escrevo sobre um artista ou uma exposição procuro me colocar com o olhar de uma pessoa sensível que gosta de arte, que observa a técnica, que se encanta com as cores e com a elaboração da obra de arte. O que procuro fazer é um registro jornalístico dos eventos, com uma linguagem objetiva e nesta reportagem trago o lado humano deste grande artista que já respondeu a todas as perguntas possíveis, ganhou muitos prêmios, está presente nas praças, museus e coleções com suas obras, e também já foi enaltecido pelos maiores críticos daqui e de fora.
Lembrei de uma cena que me foi contada por uma pessoa muito próxima. Na década de 70 Mário Cravo Jr. foi convidado para dar uma palestra durante uma comemoração no Colégio da Bahia, que depois virou Colégio Central, localizado na Avenida Joana Angélica. Na hora combinada lá estavam a diretoria e os professores esperando o convidado, todos bem vestidos e empertigados. Daqui a pouco eis que surge no portão o Mário à vontade com suas sandálias .Parou diante de um jovem que vendia picolés numa caixa de isopor. Mário  tirou o dinheiro do bolso escolheu um picolé e veio saboreando ao encontro daqueles que os esperavam. Entrou no colégio e foi fazer sua palestra sendo ovacionado pelos professores e estudantes. Este é o Mário que escolhi para falar .Quanto à sua vasta e variada obra está ai eternizada para que os apreciadores e os críticos se deliciem e escrevam laudas e laudas sobre a sua grandiosidade e especificidade.




sexta-feira, 10 de novembro de 2017

REVISITANDO PARIS REÚNE VINTE ARTISTAS

Os artistas Isa Oliveira,Márcia Magno,Justino Marinho,Leonel Mattos,
Fernando Rocha (diretor do shopping),Juarez Paraíso,César Romero, Jayme Figura,
Arléo e Henrique Medeiros,superintendente do shopping Salvador.
Esta época do ano a cidade de Paris se enfeita pra receber milhões de turistas durante o período natalino. São milhares de luzes piscando por toda parte, os principais monumentos ganham reforço na iluminação e o comércio vive seu melhor momento. Tudo é festa e alegria. Foi pensando nisto que o shopping Salvador fez sua decoração natalina com o tema de Paris, e o artista e galerista Leonel Mattos convidou 20 artistas para apresentarem uma obra que tivesse alguma referência com a Cidade das Luzes.  A exposição Revisitando Paris foi aberta  dia 8 com as presenças dos artistas e convidados.
Tela a óleo de Leonel Brayner
Estive na abertura da exposição e algumas obras me chamaram mais a atenção entre elas dos artistas Juarez Paraíso, Leonel Brayner, Juraci Dórea, do performático Jayme Figura ,Isa Oliveira, Justino Marinho e Gustavo Moreno. Todas as obras são de qualidade e remetem à temática proposta, mas estas a meu ver os artistas encontraram soluções e técnicas que vem de encontro ao tema pela leveza e frescor da execução, sua elaboração técnica.
Obra de Juraci Dorea
O artista Leonel Brayner reproduziu com  autenticidade o  atelier de um artista francês com a indefectível garrafa de vinho, um grosso livro, reprodução de uma gravura de Morandi na parede,os pincéis, as tintas, e principalmente com as cores que  escolheu  recriando uma atmosfera perfeita.
Obra de Isa Oliveira
Já Juraci Dórea que tem uma obra facilmente identificável com seus traços largos e elementos da cultura nordestina lembrando as capas dos livrinhos de cordel contextualizou estes elementos do sertão com símbolos parisienses como a Torre Eifel, um hotel onde costuma se hospedar quando viaja, o Museu do Louvre , o casario. Enfim, conseguiu jogar com estes símbolos em perfeita sintonia . Só olhando amiúde para ver exatamente esta sintonia que ele trabalhou com carvão sobre tela.
A artista Isa Oliveira me surpreendeu representando o Arco do Triunfo como elemento principal nesta revisitação e o envolveu com flores e outros elementos conseguindo uma leveza e harmonia das cores.
Tela do artista Gustavo Moreno
Já o Gustavo Moreno disse estar atento a tudo que vê e sempre procura documentar através da fotografia. Falou que esteve durante cinco anos
entre Rio de Janeiro e Londres e com isto teve oportunidade de manter contato com o que existe de novidade nas artes plásticas. Sua obra mostra uma autêntica parisiense de costas andando com um belo chapéu na cabeça e muito elegante. Ele criou uma textura especial dando a sensação de que a parisiense está andando num amplo espaço com um destino indefinido. Esta transposição da fotografia para a tela Gustavo Moreno conseguiu com maestria.
Obra de Jayme Figura
Obra de Juarez
Paraíso
O mestre Juarez Paraíso apresenta uma escultura clássica e pintou parte do corpo com as cores da bandeira francesa .Foi escolhida por Leonel para a vitrine de sua galeria ao lado de uma escultura de metal criada pelo performático Jaime Figura. Estas duas obras representam bem a ideia desta revisitação e a pluralidade das visões dos vinte artistas convidados. Estão participando da mostra os artistas: Almandrade, Arléo,Bel Borba,César Romero,Erickson Britto, Gustavo Moreno,Isa Oliveira, José Henrique Barreto, Jayme Figura ,Juarez Paraíso,Juraci Dorea, Justino Marinho,Leonel Brayner, Leonel Mattos, Luiz Cláudio Campos, Márcia Magno, Maria Luedy,Miguel Cordeiro, Murilo e Ricardo Sena.
















sexta-feira, 27 de outubro de 2017

DOIS FOTÓGRAFOS FOCADOS NA ÍNDIA

Este olhar enigmático captado por Armando nos impressiona
Estamos vivendo a época das selfs e de todo tipo de imagens, muitas delas desnecessárias onde as pessoas expõem suas vidas desmesuradamente nas redes sociais. Tem pessoas que colocam mais de uma dezena de fotos, quase na mesma pose ou cena. Esta superexposição é um espelho desta nova realidade.
Porém, ao lado deste quadro de milhões e milhões de imagens descartáveis, muitas das quais nunca serão impressas num papel fotográfico, estão os  profissionais da arte fotográfica com expertise para clicar com sua sensibilidade a alma das pessoas através um olhar,gesto ou  um movimento inesperado .Eles conseguem captar  com ajuda das suas lentes  além do real dos homens e mulheres, objetos e cenários que surgem em seus caminhos.
Duas mulheres ao encontro do Rio Ganges. Foto de Sinísia.
A fotografia é o documento vivo daquele momento que nunca mais acontecerá. É como a água do rio que segue o seu curso e  jamais será a mesma que passou por você num instante qualquer.
Muitas vezes estranhamos quando alguém nos mostra uma fotografia, mesmo a mais despretensiosa  e espontânea. Não aceitamos porque sempre tem um detalhe que a câmera captou e não gostamos. Quando acontece o contrário  achamos que saímos bonitos, ai salvamos a foto, e até a redistribuímos entre parentes, amigos e amores.
A exposição fotográfica Uma Índia , Dois Olhares que o casal Armando Correia Ribeiro e Sinísia Coni estão fazendo no Museu da Misericórdia, no centro da Cidade, até o dia 17 de dezembro,  é a celebração de um trabalho feito com carinho a quatro mãos.

IMPRESSÕES

A festa Holi (Primavera) com muito pó colorido em Mathura
captada por Armando
Conta Armando Correia Ribeiro que durante dois meses permaneceu na Índia com sua esposa Sinísia, também fotógrafa, especialmente na cidade de Mathura onde acontece todos os anos a tradicional festa Holi, quando os indianos festejam a chegada da Primavera. Eles saem às ruas portando vasilhames e saquinhos cheios de pós coloridos e também, com garrafas de água que atiçam nas pessoas. Todos são molhados e coloridos.
Para se proteger dos pós Sinísia colocou um xale cobrindo a cabeça e uma parte do rosto. Mas, de nada adiantou. Puxaram o xale e lançaram pó e água . Tudo isto é feito num ambiente de cordialidade e doçura.
Indiana imerge parte do seu corpo no sagrado Rio Ganges.
Foto de Sinísia
Os fotógrafos ficaram também impressionados com a religiosidade dos indianos e a capacidade de resiliência em  suportar a pobreza ,como se fosse um carma , na esperança de quando morrer alcançar o Reino dos Céus.
Também, a ligação deste povo com o Rio Ganges é um fenômeno impressionante porque mesmo poluído eles entram, se banham e lançam em suas águas diariamente cerca de 250 corpos, além dos que são cremados em grandes fogueiras em suas margens. Eles chegam conduzindo o corpo do parente ou amigo envolto em flores. Montam uma fogueira e ali tocam fogo e entoam suas preces e fazem meditações.
Na realidade o casal  já tinha informações sobre o que iria encontrar na Índia. Porém, mesmo assim foi uma viagem que marcou as suas vidas para sempre. Conta Sinísia que tinha tomado um barco para fotografar a cidade de Varanasi vista do Rio Ganges. Quando voltava e desceu do barco, algumas moedas que estavam em seu poder caíram no chão. Próximos a ela estavam alguns pedintes que ficaram parados, e um deles veio em sua direção e tocou-lhe levemente no braço apontando as moedas no chão. Se fosse aqui no Brasil será que deixariam a Sinísia ir embora ou avançariam nas moedas?

FOTOGRAFIAS

Armando e Sinísia
O casal de fotógrafos focou com o olhar e sentimento de cada um. Sinísia se fixou mais nas mulheres, nos gestos femininos, na relação delas com o Rio Ganges. Armando está expondo principalmente  algumas fotos de homens com seus olhares fixos e enigmáticos e cenas coletivas.
As imagens falam por si. Elas se bastam, e mesmo o poeta mais sensível seria incapaz de traduzir àqueles momentos mágicos vividos pelos fotógrafos diante desses homens e mulheres anônimos, e dos cenários deslumbrantes.
No catálogo da mostra o psicanalista Marcelo Veras escreveu: Uma Índia, Dois Olhares  "não deixa de ser um exercício de amor, ou seja, fazer surgir o Um onde há dois. A Índia os divide, a exposição os une".
Portanto, não deixe de visitar esta exposição, porque é também uma prova da individualidade  de cada olhar diante do que vemos e vivemos.



segunda-feira, 16 de outubro de 2017

MARIA ADAIR PINTANDO PARA SUA MOSTRA DOS 80 ANOS

Maria Adair em seu atelier na mesa de trabalho, bairro da Graça
 Uma das mais produtivas e criativas artistas da Bahia completará  80 anos no próximo ano, e para celebrar esta data está trabalhando para realizar uma grande exposição que terá o título de "Cruzando Caminhos e Pontuando a Vida", na Galeria Paulo  Darzé, no Corredor da Vitória,Salvador,Bahia
Trata-se de Maria Adair, esta mulher de estatura baixa e que tem uma força criativa indiscutivelmente                           desproporcional à sua massa corporal. 
Ela guarda a primeira tela que pintou
da fazenda de seus pais em Itiruçu, Bahia
Conheço Maria Adair há muitos anos e sempre foi assim quase elétrica correndo de um lado pra outro descobrindo novos suportes para expressar a sua arte. Quase tudo lhe serve de suporte. Um pato de cerâmica encontrado em Maragogipinho, um aviãozinho ou helicóptero artesanal, cadeiras, bancos, copos, jarras,talheres, mesas, etc Enfim, ela lança mão dos mais variados e díspares objetos para transformá-los em arte. 
Sua pintura tem uma identidade própria com suas linhas que se cruzam e se lançam ao infinito. Assim ela está trabalhando freneticamente e todas as pinturas e objetos serão inéditos. Portanto, não se trata de uma retrospectiva, como é padrão entre os artistas que celebram datas especiais. 
Esta tela fará parte de sua exposição dos 80 anos
Na entrevista que me concedeu em seu atelier no bairro da Graça, justificou dizendo que seria muito trabalhoso uma retrospectiva com obras de todas suas fases porque existem trabalhos espalhados em vários estados e no exterior. Por isto ,decidiu  pintar agora todas as obras . É um trabalho de fôlego porque muitas das telas tem 1 m x 1,30 m e até de 1,10 x 1,50 m. Pretende expor oitenta trabalhos.
Esta mostra terá duas séries: Cruzando Caminhos e Pontuando a Vida 
Disse a artista que "os trabalhos não tem nada de realista. São linhas e pontos que se cruzam e se lançam ao infinito. Os pontos ela  representará em 80 cubos de madeira pintados e nas telas está pensando em colocar nomes dos locais por onde passou desde Itiruçu.Vi nestas novas obras de Maria Adair a presença de aplicações de folhas de ouro, prata e de outros metais os quais proporcionam um up ground perceptivo.
Obra Procissão de Nossa
Senhora da Conceição
da Praia


                                      TRAJETÓRIA

Nascida na cidade de Itiruçu Maria Adair veio pra Salvador e aqui estudou na Escola de Belas Artes, sendo depois professora e orientadora de vários artistas iniciantes. Tem um temperamento surpreendente porque gosta de conversar, e de repente faz indagações ou questionamentos que se o interlocutor não estiver preparado e  desinibido vai calar de vez. Durante a entrevista se comportou assim em alguns momentos. Como já conheço a Adair fui levando a conversa colocando outra pergunta, mesmo que parecesse inadequada para aquele instante, mas funcionou como um ponto de seguimento.

Obra Dois de Julho no
Centro Histórico

Ela conta que em 2007 fez uma exposição com obras da sua fase Orgânica no Centro Cultural dos Correios, que fica no Terreiro de Jesus, Salvador, Bahia. Esta mostra ocupou os três pavimentos do imóvel.
Depois vieram outras fases como a Viva o Risco, O Espaço Urbano .Viajou por vários países como Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, Itália, França, Marrocos e Grécia , e dai a surge a  fase Caminhos Cruzados numa clara referência às suas andanças. Nestes países pintou por lá telas e também objetos que encontrou.

           SEU MUNDO

Este trabalho é da fase Espaço Urbano
A artista mora numa casa na rua Djalma Ramos que é  enladeirada e fica no bairro da Graça. Tive alguma dificuldade em encontrar porque além de estreita o volume de carros estacionados nestas ruas da Graça é realmente assustador. Ao entrar a gente se depara com um mundo fantástico e agradável repleto de objetos de arte por todos os espaços. Um verdadeiro bazar de arte onde você encontra copos, jarras,cadeiras, bastões, panelas,patos de cerâmica ,cacos de porcelanas,cadeiras,mesas,bancos. São quatro pisos e todos completamente repletos de obras de arte, inclusive nos quartos onde mora com seus filhos. 
Obra Doce de Banana
de Rodinha , do
Universo Amado
Confesso que senti  mais calma em relação à última conversa que tive há alguns anos atrás. Olhei a janela e vi que os vidros também viraram suportes para sua arte. Ela tinha riscado os desenhos  e mandado jatear . Ao abrir a janela apareceu o céu. Brincando eu lhe disse: Aqui só falta você pintar o céu. Ela riu. Mas, se tivesse um jeito certamente pintava um pedacinho .
Na mostra intitulada O Universo Amado que fez juntamente com Eliana Kertész , no Palácio das Artes, o crítico Marcos de Lontra Costa escreveu : "Ela é uma artista das telas, mas também a artista dos pratos, dos cacos, das farras, das garrafas, das cerdas e das pedras, de todas as coisas que a Terra põe à disposição da mão humana e que Maria com sofreguidão cria e recria como se sua vida fosse regida pelo compromisso de Labão nas palavras de Camões: Para tão grande amor, tão curta é a vida". 



domingo, 15 de outubro de 2017

MORRE O ARTISTA JOÃOZITO

O artista Joãozito trabalhando em seu atelier
Faleceu hoje, dia 15, o artista Joãozito Pereira, casado com a artista Lanussi Pascoali. Era conhecido simplesmente por Joãozito, e sua morte ocorre aos 51 anos de idade, vítima de um câncer. Conheci o artista em novembro de 1990, conforme registro abaixo em minha Coluna Artes Visuais, quando divulguei a sua exposição.
Ele me procurou na redação do jornal e lá conversamos um pouco sobre os trabalhos que ia expor. Estudou na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia .
De lá para cá tive pouco contato com o artista , mas acompanhei de longe seu caminho construindo sua trajetória artística, e infelizmente agora recebo a notícia do seu falecimento.
Tenho conhecimento de que
Obra da série Cabeças do artista Joãozito
participara de uma bienal que era realizada ai no Recôncavo.Fez um trabalho de ocupação artística em casarões que ficam atrás da igreja da Misericórdia. Foi um dos idealizadores da Feira Pedra Papel e Tesouro, e também da exposição Cabeças .
Joãozito fez várias ilustrações para eventos e também gostava de tocar guitarra. Um de seus amigos o  definiu como  um "rebelde,visionário e alegre".
Fez muitos trabalhos de cenografia e realizou sua primeira mostra em 1988 sob o título "encontros com Da Vinci".
Pesquisando hoje, dia 16, sobre a obra de Joãozito fiquei sabendo que pautava sua produção por pintar pessoas marginalizadas e figuras insólitas. Sempre buscando pautar sua produção artística por sair do estereótipos.
Sua obra vai ficar ai eternizada e as boias lembranças que o artista deixa como legado para seus familiares e amigos.
( Fotos Google )





























segunda-feira, 2 de outubro de 2017

TRÊS MOSTRAS SINGELAS E PALESTRA NO MAM-BA

Sabemos que os nossos museus e outras casas de cultura da Bahia a exemplo da Biblioteca Central  estão vivendo à míngua. Não existe uma preocupação do governo em estimular e apoiar a cultura, e o turismo a ponto do Centro de Convenções desabar por falta de manutenção. e o nosso Centro Histórico estar às moscas.
Mesmo assim, alguns dos dirigentes destas instituições fazem um esforço tremendo para apresentar alguma programação.É o caso do Museu de Arte Moderna ,que funciona no combalido Solar do Unhão, que está apresentando três singelas mostras.  
Lá já funcionou um bom restaurante , inclusive era mais um atrativo para que o MAM fosse visitado. O restaurante fechou .Quando estive no ano passado por lá já havia outro inquilino cuidando do restaurante, só que bem mais simples. Agora, não existe mais nada ,nem pra você tomar uma água. O pier de atracação está sem piso.O equipamento  era usado por turistas que ali embarcavam e desembarcavam para navegar pela Baia de Todos os Santos em seus passeios programados . Uma lástima. 
Basta dizer que os museus baianos são subordinados ao Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia - IPAC  ao invés de serem vinculados à Fundação Cultural, e esta mudança foi promovida  por Paulo Souto pouco antes dos petistas assumirem o governo. Piorou.Esta relação é sempre distante e às vezes até conflituosa. 
Agora foi substituído  o Secretário da Cultura. Trocaram seis por meia dúzia. Nada de importante vai acontecer.
No alto à esquerda  pintura em acrílico sobre tela , sem título, de autoria de Davi Caramelo.


AS EXPOSIÇÕES

Voltando ao MAM-Ba uma das exposições ocupa a capela, composta de obras de alunos e professores da Escola de Belas Artes da Ufba. Intitulada de Mostra Gráfica 3  apresenta  muitos trabalhos  produzidos por alunos que dão seus primeiros passos. Encontrei alguns trabalhos interessantes ,outros nem tanto, mas, compreendo porque eles estão na fase de aprendizado e aprimoramento . Isto é muito importante.
Esta aproximação das Oficinas do MAM com a Escola de Belas Artes é positiva  e vem reforçar o movimento da gravura na Bahia, que já foi um dos mais importantes do país.Ao lado obra de Patricia Martins "Com quantas queixas perco o seu retrato".
Obra de Fábio Magalhães " Dos
lugares que me Prendem
".Óleo
sobre tela.

Já  no salão principal estão expostos telas e objetos produzidos por  artistas da nova geração. Chamada de Pertencentes. Informam os organizadores que esta mostra " inicia um processo de pensar que lugar é este a que chamamos de Estado Bienal". Dizem ainda que "outros artistas serão convidados a dialogar com o objetivo de pensar o museu e aproximá-lo dos artistas e das comunidades".
À esquerda detalhe da obra de Vinicius SA "Sorria você está sendo filmado",composta de pequenas lâmpadas que lembram olhos.

Esta terceira mostra está no galpão . Intitulada "Da razão ao Informalismo".São telas  do acervo onde estão obras de Caetano Dias, Almandrade, Fernando Coelho,Florival Oliveira, dentre outras. Acho interessante também que estas obras do acervo sejam retiradas da reserva técnica e mostradas de tempos em tempos ao público, assim vão contribuindo de certa forma para maior conhecimento do que existe .
Foto de Acácia Novaes
Este esforço que vemos não apenas no MAM como também no Palacete das Artes, Museu de Arte da Bahia e no Museu Costa Pinto dentre outros, é uma demonstração que seus gestores querem trabalhar e precisam urgente de apoio financeiro. Sem dinheiro não se faz quase nada a não ser singelas ações 
para que as traças e as aranhas não tomem conta dos espaços.
À esquerda visitantes observam a obra de Caetano Dias.


PALESTRA
Foi cancelada a palestra de Paulo Herkenhoff , depois de ser adiada. Segundo o Mam-Ba informa o cancelamento é por problemas pessoais do convidado.

Ainda dentro deste esforço do MAM-BA de realizar eventos culturais ligados à sua identidade será feita  uma palesta no próximo dia 13, às 15 horas , pelo conceituado crítico de arte e curador Paulo Herkenhoff .
Ele vem a convite do artista e diretor do MAM-Ba Zivé Giudice, e sua fala será  no Casarão do Solar do Unhão, quando abordará o tema "O Estado Bienal', onde fará uma reflexão sobre a arte, polÍticas culturais , e a cidade onde o museu está inserido. 






quinta-feira, 28 de setembro de 2017

MUSEUS BAIANOS RELEGADOS PELO GOVERNO

Veja o perigo deste barracão de materiais velhos dentro
da área do Conjunto do Solar do Unhão.
Estive visitando o conjunto arquitetônico do Solar do Unhão, equipamento belíssimo onde está instalado o Museu de Arte Moderna  da Bahia. Ai já encontrei um contraste gritante de um museu que se propõe a expor a arte moderna e contemporânea localizado num conjunto arquitetônico colonial à beira da Baía de Todos os Santos. Suas obras, por mais que estejam guardadas numa sala especial e climatizada, vão sofrer com o salitre  que é prejudicial e vai diminuir a vida útil das obras.
O pior é que o conjunto necessita de obras urgentes como a implantação de central elétrica e outros equipamentos para que o museu possa minimamente funcionar. O MAM-Ba precisa de uma sede moderna e de fácil acesso para os visitantes.
A situação de penúria do MAM-Ba é tamanha que não existe dinheiro para tocar as suas oficinas , tão importantes para movimentar o museu e incrementar a arte entre a sociedade. O esforço que os diretores do MAM-Ba, do Museu Palacete das Artes, Museu Costa Pinto  e do Museu de Arte da Bahia , dentre outros desprendem  é imensurável, mas frustante porque por mais disposição e ideias que tenham seus diretores não dispõem de  recursos para tocarem suas gestões. Os eventos são singelos porque sem dinheiro quase nada se faz. Estão tirando leite de pedra, como se diz no popular.
Estive há mais de um ano atrás e reclamei que o pier do MAM-Ba havia desabado. Hoje acrescento   que dois barracões horrorosos de obras paralisadas estão interferindo na visão daquele conjunto arquitetônico, inclusive colocando em perigo devido a presença de tábuas velhas e outros materiais de fácil combustão.
Colocaram na Secretaria de Cultura, um professor que nunca foi gestor de nada, e que não tem a expertise de dirigir coisa nenhuma. Hoje, saiu uma noticia de que teria pedido demissão. Tomara que seja verdade , porque também vem demonstrando total falta de prestígio para conseguir recursos para sua pasta. 
Não se pode dirigir uma Secretaria de Cultura como fosse uma sala de aula , focado apenas em editais para privilegiar cantores de pagode e axé em detrimento de manifestações de outros segmentos. 
Tudo que diz respeito a turismo e cultura na Bahia estão praticamente abandonados, porque este governo que ai está certamente não entende nada desses assuntos e acha irrelevantes. A Bahia deu muitos passos atrás no cenário local e nacional no que diz respeito a sua imagem de uma terra que recebe muitos turistas e que tem uma cultura rica e forte.Até estas qualidades conseguiram estragar.

domingo, 3 de setembro de 2017

EDMUNDO SIMAS É SEPULTADO

Foto recente de Edmundo Simas
no espaço de Leonel Mattos
Uma notícia triste. Foi sepultado  hoje pela manhã no cemitério de Brotas o artista Edmundo Simas, conhecido por Super Boy, que sempre estava circulando pelo centro histórico mantendo contatos com seus colegas de profissão daquela área. Era um artista talentoso e tinha uma facilidade enorme em desenhar , especialmente os heróis de Histórias em Quadrinhos. Com seu jeito extrovertido o Super Boy provocava alegria com suas tiradas desconcertantes e certeiras.
Seu nome completo era Edmundo Luiz da Silva Simas,nasceu Ubaitaba vindo depois pra Salvador no ano 1941,também chegou a morar em São Paulo.
Obra que atesta o talento
do Edmundo Simas
Conheci o artista  nos anos 70, na Galeria Rag, que ficava no bairro da Boca do Rio e  reunia muitos desses artistas que não tinham muitas oportunidades e até guarida em outras galerias. Esta galeria pertencia a uma figura inesquecível que chegou a Salvador vindo da cidade de Valença, e aqui se entusiasmou pelas artes plásticas, acumulando um imenso acervo. Gostaria de saber qual o destino que foi dado a tantas obras que ele guardava em sua galeria. 
Foi ali que Simas realizou uma exposição em 1976. Consta que antes  fez duas exposições na Biblioteca Pública  em 1969 e 1971.Participou de outras mostras coletivas e até de salões.Seu forte era desenhar figuras populares, orixás  e heróis em quadrinhos, inclusive chegou até a publicar o seu livro Espadachim. Seus heróis traziam a marca da tradição.Era amigos do pessoal do Grupo Novos Baianos e  participou  do filme.
Segundo seu colega e agitador cultural  Leonel Mattos - um artista compulsivo que desenhava onde estivesse.Não usava o azul em suas pinturas,dizia que vermelho era vida, o preto  sombra e o amarelo  a luz." Recentemente Edmundo , de camisa amarela,  e seu amigo Kahan, que aparecem na foto de mãos dadas ,  pintaram duas  portas de um velho casarão no Pelourinho  fechadas com  tijolos pelas autoridades encarregadas do patrimônio histórico.
Edmundo Simas vinha enfrentando um câncer muito agressivo, o qual terminou tirando sua vida na quinta-feira passada.Mesmo doente ainda continuava fazendo seus desenhos com certa dificuldade até que faleceu.


HOMENAGEM MERECIDA A MATILDE MATOS

Uma das grandes damas das artes
visuais em nossa Bahia
Fiquei contente quando recebi uma mensagem pelas redes sociais de Leonel Mattos que estaria sendo organizada uma homenagem a Matilde Matos, esta grande dama, que sempre prestigiou e enalteceu as artes plásticas e os artistas baianos. Foi ela que verbalizou em 1974 aquele projeto do Etsedron que tinha à frente o artista Edison da Luz e seus companheiros. Este projeto foi muito elogiado , destaque nas artes plásticas em todo o país e participou da Bienal Nacional de São Paulo onde recebeu o Grande Prêmio, sendo que o grupo acabou em 1979.
Matilde também sempre se destacou como uma crítica de qualidade, com seus textos  cheios de sabedoria e conhecimento. Quando falo em críticos me vem à mente Herbert Magalhães, além de Wilson Rocha e seu irmão Carlos Eduardo da Rocha e também, meu querido amigo Ivo Vellame, Aldo Tripodi  que se foram. Não lembro de terem feito homenagens quando estavam vivos pelo trabalho inesquecível que desempenharam e ajudaram a muitos artistas.
 Por isto, sou a favor e defendo que a gente deve homenagear as pessoas que merecem em vida, para que elas possam usufruir deste reconhecimento, que é verdadeiro e  importante .
Infelizmente, não fui ainda visitar a exposição porque estava fora, mas irei com muito prazer o mais breve possível.Para observar e usufruir também desta homenagem a Matilde Matos, que está no espaço  Leonel Mattos, no Shopping Salvador. 
A exposição tem o nome de 90 olhares  para Matilde, em comemoração aos seus 90 anos de idade completados em maio passado. Composta de 90 trabalhos nas diversas plataformas como pinturas, esculturas ,cerâmica,gravuras ,desenhos e outras que estão sendo comercializados a preços especiais ,cujo resultado será destinado à própria homenageada. A exposição conta com obras dos mais consagrados e importantes artistas baianos, principalmente os que ainda estão em atividade em nosso Estado.
Na realidade desde a década de 50 que Matilde Matos com seu jeito acolhedor sempre esteve à disposição dos artistas para opinar e até mesmo orientá-los sobre suas obras .Acompanhava de perto a produção das artes visuais não somente na Bahia, mas sempre antenada com o que era produzido no Brasil e fora de nossas fronteiras..
 A Homenageada
A crítica Matilde Augusta de Matos, é natural de Caicó, no Rio Grande do Norte, onde nasceu em 1927. Chega à Bahia em 1933, depois de morar no sertão baiano, exatamente na bela Serrinha e depois na Princesa do Sertão, a nossa vizinha Feira de Santana , para finalmente em 1943 fixar residência em Salvador.
Ela tem uma vasta obra de apresentações em catálogos,livros publicados e recentemente teve uma atitude digna de registro que foi a doação de 80 obras de sua coleção para o Estado da Bahia, as quais estão no acervo do Palacete das Artes, no bairro da Graça. Este gesto é mais uma demonstração do espírito aberto de Matilde Matos. 
Uma imagem da presença de artistas e convidados na abertura da mostra em homenagem a Matilde

Os Artistas
Estão participando da homenagem à Matilde Matos os artistas: Adenise Romana,Albina Sampaio,Álvaro Machado,André Dragão,André Fonseca,André Viana,Antônio Leal,Arthur Fraga,Ayrson Heráclito, Bel Borba,Bruno Ribeiro, Célia Mallett, César Romero,Chico Mazzoni,Darlene Bezerra,Davi Caramelo, David Glat,Diego Cardoso, Ducca Rios, Dulce Cardoso, Edison da Luz,Elenilson Café,Eliezer Nobre, Enock B. Silva,Fernando Freitas Pinto, Fernando Oberlaender, Filinto do Carmo, Gabriel Passos, Gabriela Joau, Giovana Dantas, Graça Ramos, Guache Marques, Gustavo Moreno, Hilda Salomão,Inda Brandão, Inês Vitória, Isa Oliveira, Isabel Gouveia, Jacira Gabriel,J. Cunha, José Henrique Barreto,Joselita Borges, Juarez Paraíso, Juraci Dórea, Justino Marinho,Kithi,Leonel Mattos, Lidia Sepúlveda, Ligia Aguiar,Lilian Moraes, Linda Cortes, Luiz Cláudio Campos, Márcia Magno, Marcos Buarque, Marcus Schaaf,Maria Luedy,Maria Nazaré Santos,Marizia,Maurício Calabrich,Maurício Requião,Mili Genestreti, Miriam Belo,Moema Gusmão,Murilo,Neide Cortizo,Neidja Bombola, Palmiro, Paulo Melo,Pedro Arcanjo,Quaresma,Raimundo Mudin,Ramon Rá,Ricardo Franco,Ricardo Sena, Rina Dalenca,Rodrigo Seixas,Roger Hale,Ruy Carvalho,Ruy Garcez,Sérgio D'Almeida,Sérgio Rabinovitz,Silvério, Tereza Mazzoli,Valéria Simões,Viga Gordilho,Waldo Robatto,Wilson Bernardo e Yuri Ferraz.


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

O MUNDO DE BRENNAND O MESTRE DOS SONHOS

                                                  foto Gogle e demais do autor do texto
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O artista Francisco Brennand
Cerâmica vitrificada  "Ligia"
Estive visitando a exposição o Mestre dos Sonhos que homenageia os 90 anos do pernambucano Francisco Brennand, que hoje é o maior ceramista do nosso Continente. Ele tem uma obra vasta e rica com introdução de elementos grandiosos e oníricos, e encontra-se em plena atividade artística. A mostra está na Caixa Cultural, onde podemos apreciar desenhos, pinturas e cerâmicas de um  artista versátil , inclusive com belos textos explicativos e reproduções de obras, além de vídeos onde o visitante tem oportunidade de ver e ouvir as ideias do Brennad. A curadoria é de Rose Lima e a exposição fica em Salvador até o dia 1º de outubro.
Nesta mostra podemos ver que Francisco Brennand tem habilidade nas diversas técnicas e plataformas que utiliza para expressar sua arte focada nos mistérios da vida. Sua figura com aspecto messiânico combina com os temas que aborda e o visitante tem oportunidade de sentir isto observando as 31 esculturas que estão expostas, as quais vieram da Oficina Cerâmica Francisco Brennand, além das fotografias,textos , relatos de amigos e inclusive alguns fragmentos de seus diários escritos desde 1940.

                                                                    FORTE EXPRESSÃO
São Franscisco,
tela do MAM-Ba

Ao visitar a exposição de  Brennand você  entra  numa nuvem de sonhos. O visitante é  transportado para locais oníricos onde pode sentir a força e  a poesia de suas esculturas. Estes seres imaginários de Brennand não assustam, ao contrário eles nos transmitem um clima de contemplação e perplexidade. O que levou o artista a criar estas obras como a A fonte do Desejo, Ligia,Torre de Babel dentre outras? Só vendo , contemplando e sonhando junto com ele para entendermos todos os enigmas.
Nossa Senhora, da série
Auto da Compadecida,
desenho
O impacto é forte quando você começa a ficar diante das grandes esculturas de FranciscoGosto muito da obra São Francisco, uma pintura a óleo sobre tela com 2,03 x 1,22 cm, que pertence ao acervo do MAM baiano. Outra obra que me chamou a atenção foi um desenho em nanquim e lápis aquarelado intitulado "Nossa Senhora " da série que ele fez para o seu amigo Ariano Suassuna para o Auto da Compadecida.
Temos ainda oportunidade de saber que ele vem de uma família de empresários .Ele nasceu em Recife em 1927 e foi batizado com o nome de Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand .
Obra Joana D'arc Guerreira
Instalou o seu primeiro ateliê aos 19 anos.Em 1947 recebeu seu primeiro prêmio na 6º Salão de Arte do Museu do Estado de Pernambuco. Em 1949 foi para a França ,sendo amigo de Cícero Dias, também grande pintor pernambucano.
Foi em Paris que impressionou-se com a cerâmica, através uma exposição de Picasso ,e assim abandonou o preconceito que tinha acerca da arte da cerâmica, que veio a abraçar para o resto da sua vida.
Na década de 50 ainda fez alguns desenhos, mas de volta ao Brasil escolheu o barro e o forno para criar suas obras que hoje são reconhecidas e apreciadas em todo o mundo. Em 1960 ele expôs no foyer do Teatro Castro Alves ,que era o local do Museu de Arte Moderna da Bahia, antes de se instalar no Solar do Unhão, onde se encontra atualmente.
Em 1971 instalou-se nas ruínas da Cerâmica São João iniciando a recuperação do espaço,enquanto produzia suas obras.
De lá pra cá tem produzido sem parar. São obras de todos os tamanhos, algumas monumentais para gosto e apreciação de todos àqueles que amam a arte e em particular a arte cerâmica.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

MORREU O ARTISTA REINALDO ECKENBERGER

                                                                                                                                       Fotos Google
Reinaldo Eckeberger em sua casa atelier no
 Santo Antônio Além do Carmo.
O artista plástico argentino radicado na Bahia Reinaldo Eckenberger, 77, comemorou este ano 50 anos de trajetória profissional  com uma instalação cheia de criatividade mostrando suas pinturas, desenhos, assemblagens - colagens com objetos tridimensionais - , objetos, esculturas e as inconfundíveis bonecas de panos na Caixa Cultural, na rua Carlos Gomes. Ontem, ele veio a falecer vítima de um infarte fulminante deixando mais uma importante lacuna nas artes plásticas baianas.
Figura esguia e seu sotaque marcavam sua presença onde chegasse. Seu sobrenome estrangeiro dava uma dimensão imediata que este cidadão era um estrangeiro, mesmo já estando morando por décadas em nossa cidade. Era um cara doce, que inspirava humildade ,e assim Eckenberger vivia em sua casa atelier em Santo Antônio Além do Carmo, na zona do Pelourinho.
Lembro que ficava curioso e ao mesmo tempo fascinado com as figuras deste multi artista ao olhar uma aquarela, uma cerâmica, e principalmente suas bonecas que nos transportam a um mundo fantasmagórico e fantástico. 
Uma visão parcial de sua última exposição
na Caixa Cultural
As formas de colocar suas bonecas, as mutilações e as desarticulações feitas propositadamente para mexer com nossos sentimentos e ao mesmo tempo nos fazer enxergar ali a presença do humano. Também, trazia algumas obras com temática erótica. Sempre dizia orgulhoso ser de Escorpião e gostar de sexo.

Estudiosa da obra de Reinaldo Eckenberger a baiana Luciana Accioly lembra a presença em suas obras nas várias plataformasde cenas de sexo oral, perversão, carícias , e os fetiches com pênis,língua estirada,o nariz em forma de falo e os olhos salientes .

O artista nasceu em Buenos Aires, em 1938, estudou arquitetura, optando depois pelas artes plásticas: faz o curso da Escola Superior de Belas Artes e o curso de Cenografia no Teatro Colón. Em 1958 realizou sua primeira mostra individual em Buenos Aires. Depois de ter viajado pela Europa, veio ao Brasil, conhecer a Bahia. Não resistindo aos encantos, aqui ficou.
Foi o ganhador do Primeiro Prêmio Estadual de Pintura da 1ª Bienal Nacional de Artes Plásticas. Aqui realizou dezenas  de exposições, como também em alguns estados brasileiros.

domingo, 4 de junho de 2017

SEGUNDA GRANDE EXPOSIÇÃO DE BURLE MARX EM NEW YORK


Republicado de IstoÉ Independente
Crédito: Tyba
PINTURA ABSTRATA Roberto Burle Marx em seu ateliê, nos anos 1980. Os azulejos que decoram as paredes também são de sua autoria (Crédito: Tyba)


Roberto Burle Marx – Brazilian Modernist/ The Jewish Museum, NY/ até 18/9








PAISAGISMO URBANO Vista do Biscayne Boulevard (acima), em Miami, cujo pavimento foi desenhado por Burle Marx em 1988
PAISAGISMO URBANO
Vista do Biscayne Boulevard (acima), em Miami, cujo pavimento foi desenhado por Burle Marx em 1988 (Crédito:Burle Marx& Cia Ltda)

Paulistano, e “naturalizado” carioca, Roberto Burle Marx atuou desde o final dos anos 20 até sua morte, em 1994. Nesse arco de quase 70 anos de trabalho, desenvolveu uma obra multidisciplinar, “tão variada quanto fascinante”, segundo Jens Hoffman, o curador da grande retrospectiva de sua obra, organizada no The Jewish Museum. Esta é sua segunda exposição individual em Nova York. A primeira foi no MoMA-NY, em 1991, o primeiro solo dedicado a um arquiteto paisagista jamais realizado no museu nova-iorquino. Pintura, escultura, arquitetura, mosaico, cerâmica, gravura, design de joias, figurino de teatro, colecionismo e até culinária estão entre as suas habilidades, evocadas pela nova exposição, que apresenta um criador muito além dos importantes jardins tropicais que o consagraram no Brasil. “Um homem renascentista no século 20”, define o curador.
Ainda assim, o paisagismo é de fato sua marca distintiva. “O brasileiro é indiscutivelmente um dos mais influentes arquitetos paisagistas do século 20”, destaca Hoffman. Ele criou cerca de 2 mil jardins – em parte, nunca realizados – e descobriu cerca de 50 espécies de plantas. Antes de Burle Marx, os jardins brasileiros seguiam o padrão francês, valorizando as simetrias e a flora importada. Ele quebrou a regra, ao se interessar e valorizar a natureza local, nativa da Amazônia, da Mata Atlântica e da caatinga, tida então como “incivilizada”. Ao levantar a bandeira da brasilidade, Burle Marx está para o paisagismo assim como Villa-Lobos está para a música erudita, Tarsila do Amaral para a pintura e a poesia Pau-Brasil de Oswald de Andrade para a literatura.







Tapeçaria criada para a Prefeitura de Santo André, em exibição no The Jewish Museum
Tapeçaria criada para a Prefeitura de Santo André, em exibição no The Jewish Museum (Crédito:Paula Alzugaray)

Embora tenha iniciado a carreira como pintor figurativo, investindo em retratos e naturezas mortas – Burle Marx foi assistente de Portinari no final dos anos 1930 –, a exposição mostra como o criador abraça a abstração como princípio guia de seu design e paisagismo urbano. Com o partido geométrico, Burle Marx pode ser considerado um precursor dos movimentos de abstração geométrica que surgem na Venezuela e no Brasil, como o Concretismo e Neoconcretismo. O artista foi um pioneiro principalmente porque sua geometria desafiava categorias e buscava “o equilíbrio no desequilíbrio”.
Isso se reflete diretamente nos primeiros jardins, desenhados já no início dos anos 1930, sob influência da Bauhaus; em sua primeira obra pública comissionada pelo governo brasileiro, o jardim do edifício do Ministério da Educação e Saúde, no Rio, – um ícone da arquitetura moderna brasileira –, em 1937. Mas se consagra no design de pavimentos de parques e avenidas como o calçadão de Copacabana, hoje o símbolo máximo da cidade.
Acompanhada de uma publicação de 210 páginas, a exposição reúne peças – entre elas a tapeçaria criada em 1969 para a Prefeitura de Santo André (SP) –, esmiúça projetos e atualiza a influência do artista no mundo de hoje, ao apresentar trabalhos de artistas contemporâneos. Integram a mostra a francesa Dominique Gonzalez-Foerster, as brasileiras Paloma Bosquê e Beatriz Milhazes – que mostra no saguão do museu a instalação “Gamboa” (2013), composta por móbiles feitos de flores artificiais – e o compositor Arto Lindsay, autor da paisagem sonora “Butterflies, Molasses” (2016), especialmente composta para a exibição.