sexta-feira, 28 de setembro de 2012

RUBENS GERCHMAN EXPÕE NO MAMB VOYER AMOROSO - 01 DE AGOSTO DE 1983.

JORNAL A TARDE SALVADOR TERÇA-FEIRA, 01 DE AGOSTO DE 1983.

RUBENS GERCHMAN EXPÕE NO MAMB VOYER AMOROSO


“Voyer Amoroso” foi à expressão que encontrou o artista Rubens Gerchman para designar o espectador do amor. Ou seja, aquela pessoa sensível capaz de perceber a pura amizade entre duas pessoas.Assim, podemos entender estas 20 litografias e serigrafias que o artista está expondo no Museu de Arte Moderna da Bahia, de 1° a 8 de agosto. Certa vez Rubens Gerchman disse “o que melhor caracteriza o homem é a multidão”. Dentro dessa visão durante a década de 60 trabalhou obrigando o espectador a pensar através dos detalhes, dos pedaços do cotidiano, levando-o muitas vezes até ajoelhar para mirar melhor uma                obra de sua autoria. Na foto Rubens Gerchman que expõe 20 litografias e serigrafias.
Na década 70 Gerchman se apodera de novos símbolos, até chegar ao “Voyer Amoroso”, cuja série começou a elaborar em 1975 com “Boa Noite”, sempre abordando temas amorosos e o que se chama de lado afetivo, sem qualquer agressividade. Os beijos demorados, e o apalpar das coxas surgem em suas litografias e serigrafias dentro de uma linguagem natural e não chocam, nem mesmo uma pessoa mais reacionária ou que tenha muitos preconceitos. A abordagem tem uma conotação lírica da efetividade, da abordagem natural e parece que Gerchman se colocou, como um verdadeiro voyer escondido atrás de sua criatividade para captar aqueles momentos vividos a sós com toda intensidade.
Inquieto, por temperamento, Rubens Gerchman com mais de 20 anos de experiência, tem não apenas captado o cotidiano deste Brasil. É bom lembrar, das misses e dos índios que realmente alcançaram como imagem e mensagem plástica todo este país. É um profissional que acompanha de perto o seu trabalho, mesmo quando necessita utilizar de métodos mecânicos. Como é o caso da reprodução em série. Revelou a este colunista que na série das litografias e serigrafias “Voyer Amoroso” fez todas as matrizes conseguindo uma variação de cores espetacular. São dez cores que estão devidamente definidas. “E, este resultado sintetiza o meu trabalho”.

ATENTO E METICULOSO

Voyeurs somos todos nós, espectadores do que está acontecendo a nosso redor. Somos os que deitam o olhar demoradamente sobre o que nos cerca, os objetos e as ações de outras pessoas e mesmo dos animais. Percebendo e ficando muitas vezes surpresos com o que acontece e que nos preocupamos em olhar e registrar.
Enquanto falava Rubens Gerchman mostrava muito carinho com sua filhinha que brincava correndo de um lado para outro.Estava na posição de um pai amoroso, não mais do espectador, de voyer, mas de um participante do jogo amoroso tão comum entre as pessoas que se amam
É verdade que Gerchman é um pintor figurativo e atento ao que acontece dentro de seu ambiente. Tem os pés no chão, tem a cabeça dentro da realidade, a qual observa como espectador e sabe recriar como artista que e, sempre trazendo inovações ou chamando a atenção das pessoas para estas ocorrências.
Na série das misses, nas dos índios e agora no jogo amoroso, Rubens Gerchman é quase um artista que transpõe para tela ou papel, as coisas que estão acontecendo, as quais preocupam alguns, interessam a poucos e passam despercebidas por muitos.
Sua pintura de certa forma é autobiográfica, são retalhos de sua existência que ele transpõe, como que tivesse fotografando para a posterioridade. Só que este “álbum” ele não guarda como um egoísta para admirar sozinho. E, esta série “Voyer Amoroso” é exatamente o reflexo da felicidade que Gerchman traduz em sua linguagem plástica e vem compartilhar conosco.
      Aqui uma manifestação de amor retratada por Gerchaman

                                             OPINIÃO

Reunidos na sexta-feira passada no primeiro andar do casarão principal do Solar do Unhão com Améris Paolino, Grijó, o artista Rubenas Gerchman revelou que foi uma grata surpresa a exposição de fotografias de Améris. Ele não conhecia nada de fotógrafa paulista, e realmente ficou gratificado com o seu trabalho. Quanto a Grijó já o conhecia, e foi responsável pelo primeiro emprego do artista português, que deu um curso na Escolinha do Parque Lage. O elemento novo, segundo Rubens, é a cor.
Lembra que Grijó trabalhava com objetos quase fetichistas, mágicos. “Ele trabalhava materiais pobres e conseguia dar-lhes nobreza e dignidade. Agora vejo uma arte construída, cuidadosa, recortando a tela, deixando que os espaços brancos penetrem”. E, finalmente, disse que “a cor e as formas são elementos de ligação entre os dois artistas que ora expõem do Unhão”.
Portanto, quem leu o que escrevi há duas semanas notará a semelhança das observações que fiz com a de Rubens Gerchman. E, quem ainda não visitou a exposição de Améris e Grijó ainda há tempo. Mas não deixem de ver até o dia 8 de agosto as serigrafias e litografias de Gerchman.

GILSON RODRIGUES VOLTA COM RETALHOS DE 
UM PEDAÇO
Depois de sete anos quase totalmente dedicados ao teatro onde produziu belos figurinos e cenografias, eis que retorna às galerias o artista Gilson Rodrigues. Ele foi o responsável pelos figurinos e cenografias das peças “Língua de Fogo”. “Mulheres de Tróia” e “Decameron”, dentre várias outras peças que fizeram sucesso em Salvador. Portanto, Gilson não perdeu durante este período o contato com o desenho.
Este retorno é cheio de curiosidade e felicidade. A mostra chama-se “Retalhos de um Pedaço”. E será apresentada no Hotel Merídien, a partir de 13 de agosto até o dia 30. Será, portanto numa sexta-feira, dia 13, só que a Lua é crescente e não, minguante o que garante uma boa dose de otimismo para que Gilson alcance sucesso de público.
Afastado das galerias, Gilson Rodrigues como que estava sentado num platô observando o bater das ondas do mar, os peixes, as pinturas, e quando anoitecia lá para casa observar os objetos ao seu redor. Assim aparecem os pilões, os pesos de ferro, tão comuns das feiras livres do Interior deste país. E, é claro, que a flora e a fauna não poderiam estar fora desta colcha de retalhos, que é a sua exposição. São realmente pedaços, que juntos, representam momentos que estão gravados no inconsciente de Gilson Rodrigues. O desenho é perfeito e entremeado de pinceladas gestuais que vão compondo os volumes como notas de uma partitura musical. São closes de coisas comuns, que estão no nosso dia-a-dia, que servem como objetos de decoração, utilitário, e mesmo apropria subsistência do homem.
Diria que Gilson Rodrigues deu um mergulho no tempo, enquanto construía suas cenografias e desenhava seus figurinos.Umas das telas mostra um pássaro com olhar altivo, envolvido por uma cobra, que mais parece que veio para dar cor à sua plumagem.
Como que convivem harmoniosamente. Quando iniciamos a olhar surge à mensagem que a cobra está matando-o.Gilson retorna com individual depois de 7 anos de ausência.
Mas, ao contrário quando examinamos mais detalhadamente notamos que se completam. Talvez a dualidade do bem e do mal.Uma imagem de Gilson Rodrigues, que é uma pessoa sensível e frágil. Encontrei o artista em sua casa na Boca do Rio debruçado sobre o mar envolvido pelo coqueiral. Os peixes e os moluscos são integrantes da sua própria paisagem. Esta exposição não poderia ter um nome mais sugestivo, porque na realidade são pedaços ou retalhos que estão harmoniosamente unidos pela cor e pela abordagem plástica de Gilson Rodrigues. Acredito que o artista quis revelar momentos de seu próprio viver, e que agora nos revela.
As figuras têm formas definidas e os volumes são salientados por pequenas pinceladas gestuais, possibilitando a leitura do que Gilson deseja transparecer. Quando lhe pedi que pronunciasse algumas palavras sobre seus novos trabalhos ele apenas adiantou:
“São pedaços”. Sim, são pedaços, que juntando podemos ter uma idéia do que existe dentro do seu inconsciente e que aos poucos ele vai revelando. Acho que esta nova mostra de Gilson é um grande passo em sua carreira, já pontilhada de boas realizações.

                  MARIA HELENA ESTÁ AQUI

A artista Maria Helena de Moura Dória expõe a partir de 3 de agosto na Teresa Galeria de Arte, no Rio Vermelho. Desde os 14 anos de idade que ela pinta. Tem vários cursos realizados em institutos e ateliers de artistas, além de várias exposições individuais e coletivas. Sua mostra reflete a própria vocação para a paisagem lírica, onde a artista parece estar debruçada numa janela como uma boa observadora que capta todos os elementos para o surgimento de uma composição. Os volumes mostram harmonia plástica e as cores como que traduzem tardes bucólicas. O trabalho impresso no catálogo e que reproduzo ao lado, mostra que sua pintura não tende ao primitivismo, como salienta uma das apresentações. Conheço pouco o trabalho de Maria Helena, mas pelo que pude apreciar acho que tem futuro promissor, se continuar insistindo na melhoria da técnica e na busca de um a linguagem própria. O simples retratar paisagens bucólicas está a exigir um vôo mais alto para que sua criatividade pulse livremente. O que importa é o seu sentimento e sua vontade de pintar, de passar para a tela a visão do que lhe cerca. É preciso que continue assim buscando soltar o traço e imagens outras que lhe possibilitem a encontrar outros horizontes plásticos.

A DIVULGAÇÃO AJUDA A REFREAR A REPRESSÃO - 29 DE AGOSTO DE 1983.

JORNAL A TARDE SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 29 DE AGOSTO DE 1983.

DIVULGAÇÃO AJUDA  REFREAR A REPRESSÃO NA RÚSSIA

Declarou um artista russo exilado, que os meios de comunicação do Ocidente poderiam promover a respeitabilidade dos artistas soviéticos e reduzir as perseguições oficiais ou a prisão desses artistas na União Soviética.
“É por esse motivo que realizamos esta exposição, ela ajuda os artistas na Rússia”, disse Michael Chemiakin, diante de um quadro intitulado “Composição Metafísica”, durante uma mostra de “arte soviética não-oficial”, no Capitólio dos Estados Unidos.
Chemiakin, de 40 anos, é um dos 47 artistas soviéticos cujas obras foram expostas recentemente, no Capitólio. Dezenove dos artistas representados na mostra continuam na União Soviética, mas nenhum deles é considerado “oficial” porque preferiram não sentir o dogma oficial de “realismo social” determinado pelas autoridades soviéticas.
A mostra é co-patrocinada pelo representante Tom Lantos, democrata pela Califórnia, que lutou contra os nazistas em seu país de origem, a Hungria, durante a Segunda Guerra Mundial, e por Alexander Glezer, diretor do Museu de Arte Russa Contemporânea no Exílio, em Jersey City, no Estado de Nova Jersey.”Mesmo muito tempo depois de Yuri Andropov ter sido relegado ao lixo da história”, disse Lantos na inauguração da mostra,” o espírito livre dos homens e mulheres na União Soviética manifestar-se-á na poesia, música e pintura”.
Chemiakin disse que foi expulso da União Soviética, em 1971, por causa da sua obra não-conformista. Filho de um general do Exército, Chemiakin foi aceito na Escola de Pintura Repine, de Leningrado, aos 14 anos de idade, mas foi expulso, dois anos depois, disse ele, “porque fui considerado muito burguês”. Após sua expulsão da escola de arte, , foram-lhe atribuídas funções subalternas, tais como as de lixeiro, faxineiro e gari. Apesar de tudo, prosseguiu com sua arte. Em virtude de suas funções no Museu Hermitage, onde era uma espécie de pau-para-toda-obra, convenceu o diretor da entidade a permitir-lhe que expusesse seus trabalhos artísticos, em 1964. A exposição foi fechada pelas autoridades três dias depois, e o diretor foi despedido, disse Chemiakin.
Chemiakin disse que, aos 27 anos, foi confinado em um hospício, em Lenigrado, onde o amarraram a uma mesa e fizeram incidir sobre ele fachos de luzes coloridas, enquanto fones presos a seus ouvidos bradavam propaganda. Após sua libertação, prosseguiu em sua obra artística. Durante uma entrevista, por ocasião da mostra, Chemiakin ressaltou que não se considera um dissidente político, mas um artista em busca de auto-expressão.
“A arte para os comunistas é parte de sua propaganda Ideológica”, acrescentou  que, sob o regime de Andropov, a situação dos artistas n União Soviética é pior do que no tempo de Brejnev.
Solicitado a dar um exemplo de como a publicidade ocidental pode ajudar os artistas soviéticos, Chemiakin narrou o caso do caricaturista Vyacheslav Sysoyev, que foi preso, em fevereiro, e condenado, em maio, a dois anos de trabalhos forçados.
Por causa da cobertura dispensada, ao caso na Europa e Estados Unidos, disse Chemiakin, a sentença foi de, apenas, dois anos, e não os costumeiros sete a 10 anos.

UMA EXPOSIÇÃO HOMENAGEIA  SURREALISTA MAX ERNST

Acaba de ser inaugurada na “Cote d’Azur” francesa uma exposição do “mago do surrealismo”, Max Ernst (1891-1976), revelando à “realidade interior do irracional” que esse grande artista procurava sem cessar, autoqualificando-se de “plástico e escritor de origem alemã e expressão francesa”.
Durante três meses, a Fundação Maeght, de Saint-Paul de Vence (Sul da França) mostrara ao público 160 pinturas, esculturas e colagens de Max Ernst, cedidos por museus franceses e estrangeiros, o de Arte Moderna de Nova Iorque; o Stedelljk,de Amsterdã; o de Dusseidorf; o Centro Georges Pompidou de Paris, e por importantes coleções particulares.
A exposição, concebida com um propósito cronológico, apresenta produções de Ernst que aparecem como marcos da obra total do artista, dentre as quais se destacam “Edipus Rex, “Horde”, Lo’Plop Superieur dês Oiseaux. Esses trabalhos lembram que, contrariamente ao que acontecia com outros surrealistas, Max Ernst questionou com seriedade e aplicação as profundezas do subconsciente humano.
Ernts nasceu em Bruhl, Renânia, na Alemanha, em 1891, e foi não somente pintor e escultor, mas também escritor. Sobre esta última “qualificação vocacional”, uma vez que se negava a mencionar o termo “profissional” em seus escritos e declarações, gostava de ser considerado “também como um escritor francês de origem alemã”.
Seus primeiros estudos foram orientando para a Psicologia, Filosofia e História da Arte, e não tardou em interessar-se pela Literatura, especialmente pelos românticos alemães Holderling e Novalis. Enquanto no domínio filosófico Friedrich Nietzchs exercia uma considerável influência sobre o artista, no campo da Psicologia era atraído pelas obras de Freud, cuja leitura foi de grande utilidade para seus trabalhos de indagação do subconsciente através da expressão plástica.
Desde 1910, isto é, com apenas 19 anos, Max Ernst entregou-se de corpo e alma à pintura, o que o levou a fazer amizade com seu compatriota August Macke (1887-1914). Depois de realizar telas expressionistas, ficou fascinado pela obra de Georgio de Chirico.
Em 1919, juntamente com Vaargeld, fundou o Movimento Dadaísta de Colônia, Alemanha. Foi a grande época “impugnadora” de Max Ernst que surpreendeu o mundo com suas colagens irreverentes.
Em 1925 descobriu o “Frottement” (papel colado nos vãos dos pisos de madeira e, posteriormente, em diversas superfícies), e utilizou também outros procedimentos semi-automáticos.
Em 1941, Ernst emigrou para os Estados Unidos, onde trabalhou no Arizona, regressando à França em 1954.
Ernst realizou uma obra no mesmo tempo, visionária e cheia de humor, com uma rara diversificação estilística e técnica, que vai do realismo prolixo e voluntariamente neutro até a procura da plástica, de linhas estilizadas e de cores, especialmente em suas paisagens “cósmicas”, onde aparece a obsessão do círculo e que, às vezes, chegam aos limites da abstração.
O artista realizou também uma importante obra de escultura, onde se destaca o imponente “Le Carpicorne” (1948). Foi assim que graças a uma obra que ele mesmo, “fora da pintura”, conseguiu ampliar o campo destinado até então à expressão plástica. Ele morreu em 1976 aos 85 anos de idade.

ESTÁ AMEAÇADA DE ACABAR A GIBITECA DE CURITIBA

Depois de reunir um número significativo de revistas em quadrinhos e humor do Brasil e do exterior e fundar a Gibiteca, Maria Lúcia Darcanchy foi afastada do cargo pela Fundação Cultural de Curitiba.
Parece até que os paranaenses andam copiando um pouco da incompetência, que tanto nos aflige em alguns órgãos encarregados de nossa cultura.
Por considerar importante esta iniciativa, que não pertence somente a Curitiba, mas a todos aqueles que gostam do humor e das histórias em quadrinhos deixo o desabafo de Paulo Serra, cartunista baiano e trechos do artigo escrito por Aramis Milarch, no Estado do Paraná.
Diz Serra. “Quando estive em Curitiba, em abril, conheci um trabalho ímpar e pioneiro no país, ligado a nossa área de humor e história em quadrinhos a Gibiteca, primeira biblioteca de gibis do Brasil, com um acervo maravilhoso catalogando os principais personagens da HQ mundial e principalmente a do Brasil,um trabalho feito com muito amor e dedicação por Maria Lúcia Darcanchy que conseguiu o apoio e a colaboração dos principais nomes do humor brasileiro além de doações valiosas.
Agora em agosto recebi a triste notícia de que a Lula , responsável por este valioso trabalho, fora afastada do cargo por intrigas políticas, e a nossa Gibiteca está correndo o risco de ser desativada, ela que é a única nossa memória gráfica a ser jogada às traças nos porões da vida.
Algumas palavras da jornalista Aramis Millarch :”Quando a Gibiteca foi inaugurada na Galeria Schaffer , a 15 de outubro de 1982, ocupando uma das – várias – lojas que estavam – e continuam – vagas naquele espaço comercial cultural, se falou muito na necessidade dos colecionadores, do passado ou do presente, de revistas de histórias quadrinhos doarem seus acervos à primeira biblioteca oficial de um gênero de publicações que durante anos foi vítima de preconceitos e até campanhas.
Hoje, finalmente, as histórias em quadrinhos adquiriram o status universitário – pois o  pioneirismo do gaúcho, primeiro schoclar a lecionar a cadeira de Intrudução às Histórias em Quadrinhos nos cursos de Letras e Comunicação da Universidade de Brasília – lá pelos idos de 1969 -, a matéria passou a constar nas grades de dezenas de estabelecimentos , inclusive de nossa septuagenária e artereosclerosada Universidade Federal do Paraná.
 A senhora Maria Lúcia Darchanchy a estimada, bela e simpática – Lula – que nos anos 60 era citação obrigatória nas mais refinadas colunas sociais da cidade, se dedicou de corpo e alma, durante oito meses, à Gibiteca. Experiente na área de bibliotecas infantis , tendo desenvolvido um belíssimo trabalho na Biblioteca Miguel de Cervantes, na Praça da Espanha, Lula compensou sua falta de maior conhecimento teórico da área dos comics com uma grande vontade de aprender e um excelente relacionamento nacional, com nomes como: Millor Fernandes – um de seus grandes amigos – e o admirável Adolfo Aizem , pioneiro das História em Quadrinhos, no Brasil, fundador do Suplemento Juvenil e, posteriormente da EBAL – Editora Brasil América, hoje a maior casa publicadora de quadrinhos do continente.


Dedicando-se a Gibiteca, procurando motivar a presença de colecionadores, criando concursos,fazendo contatos nacionais, Lula Darcanchy conseguiu, sem maiores recursos formar um acervo de 5.900 publicações, entre as quais raridades dos anos 30 e 40. Nada menos que 160 pessoas, de vários estados, ofereceram revistas à Gibiteca, enfim, um trabalho idealista, bonito e bem intencionado.
Independente das razões e méritos da demissão de Maria Lúcia Darcanchy da Gibiteca e das explicações oficiais que a Fundação Cultural de Curitiba possa oferecer, um fato é indiscutível: a confiança e excelente trabalho que ela desenvolveu nestes oito meses junto às pessoas que se dispunham a colaborar foi interrompido. É possível que muitos dos doadores retirem, inclusive, seus acervos, temendo o caminho que a Gibiteca venha a ter. E mais uma vez, se prova que o trabalho perde quando entra em questão a política e a perseguição pessoal. E quem perde, mais uma vez, é a cidade de Curitiba .

OS SÍMBOLOS DE CÉSAR ROMERO EXPOSTOS NA GALERIA ÉPOCA - 11 de JULHO DE 1983.

JORNAL A TARDE SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 11 DE JULHO DE 1983

    OS SÍMBOLOS DE CÉSAR ROMERO EXPOSTOS 
    NA GALERIA ÉPOCA
Uma das coisas mais importantes para um artista é a definição de sua própria linguagem, que funciona como marca registrada de sua criação. Na caminhada íngreme da profissionalização muitos ficam para trás ou seguem sem conseguir uma marca, ficando o trabalho numa mistura cheia de incertezas. É por isto que fiquei contente ao observar os novos trabalhos concebidos por César Romero nos dois últimos anos, pois me parece que acaba de encontrar a sua linguagem plástica, ligada à sua própria realidade nordestina.
Embora para os leigos parece fácil a simplificação dos objetos apresentados numa tela, mas ao contrário a dificuldade reside exatamente em conseguir simplificar. Isto tenho observado com curiosidade nos festivais de música popular, por exemplo, que quando começam a maquinar muito os sons e a própria letra a música acaba sendo chata e hermética. Outras mais simples, tocadas e cantadas espontaneamente são duradouras. O mesmo ocorre nas artes plásticas, porque é na simplicidade da mensagem que atingimos e sensibilizamos os que a consomem.
Reprodução da obra Emblema Nordeste II, de autoria de César Romero.
Os sinais, signos e emblemas que vemos em nossas festas populares como São João, Carnaval e outras, estão agora presentes na pintura de César Romero. Vivemos no mundo de símbolos, e cada vez mais a sociedade procura uma comunicação mais rápida e visual. Lembremos dos sinais luminosos do trânsito, onde o vermelho significa parar, o verde andar e o amarelo, atenção. Numa simples olhadela o motorista recebe a mensagem dando preferência aos outros. Seria cansativo falar dos logotipos de empresas públicas e privadas que rapidamente as identificam.
Caminhamos assim para uma sociedade de símbolos. E, esta linguagem remota tempos imemoriais. Lembremos dos homens primitivos que embrenhavam-se nas selvas, e para não se perderem marcavam as árvores com grandes talhos ou simplesmente quebravam os galhos, garantindo assim  o retorno ao local da partida.
Lembremos fumaça que servia de sinais entre os índios, especialmente os norte-americanos. É por isto que esse caminho que ora percorre César Romero e o encontro de sua própria linguagem plástica, nos deixam confiantes que seu trabalho dentro de pouco tempo terá um reconhecimento ainda maior no Sul do país.
Não é preciso falar em pesquisa de infância ou outras coisas deste tipo, para justificar um caminho percorrido e que ainda tem muito a percorrer. Basta realmente viver a própria realidade. Basta enxergar que este nosso estado é coberto em 80% de seu território pelo semi-árido, e que está inserido numa região seca, onde as manifestações culturais diferem totalmente dos grandes centros urbanos, mesmo com a presença massificantes das redes de televisão e o crescimento do jornalismo impresso. É só fincar os pés no chão, que o artista encontra ao seu redor um vasto manancial de trabalho para uma explosão de cores e formas, até o saudável encontro de uma linguagem plástica que o identifique.
Foto  da obra Emblema Nordeste III, de  Romero em exposição.
“A paisagem é o recorte nordestino, com suas pequenas, elevações longínquas, sua vegetação, suas estradas de ferro quase extintas, seu sol com a dualidade vida-morte, a lua e suas lendas, os rios das fazendas, os mata-burros separando pastagens, os recortes das ilhas da Baía de Todos os Santos”. Estas palavras do artista são também suficientes e inclusive servem de alerta para que muitos artistas baixem um pouco as vistas dentro do ambiente em que vivem. É preciso conhecer primeiro, a própria realidade para início de um caminho que dê acesso a outros horizontes...

ENCERRAMENTO DAS INSCRIÇÕES DA FOTOBAHIA  DIA 15


Estão abertas até o dia 15 deste mês a inscrições para a exposição “Fotobahia 83”, que acontece dia 15 de agosto a 4 de setembro, no Foyer do Teatro Castro Alves.
Os profissionais e amadores interessados devem entregar suas fotos, slides ou outros trabalhos em linguagem audiovisuais no Sindicato dos Jornalistas, na Rua Chile, 22, Edifício Bráulio Xavier, sala 301, de segunda a sexta-feira, das 8 às 12h e das 14 às 18h. Os participantes do interior podem mandar seus materiais e respectivas inscrições pelo correio. Maiores informações com Aldeci no Sindicato dos Jornalistas ou pelo telefone 3243-7962.
Para participar da “Fotobahia 83”, o fotografo deve apresentar cinco fotos no máximo sobre o tema “Bahia” nos seus múltiplos aspectos - social, econômico, político, natural, nas dimensões mínimas de 18x24 e máxima de 30x40, sendo que a margem fica a critério de cada um. As fotos deverão ser entregues sem montagem, para ser feita de foram unificada pela equipe organizadora- o Grupo de fotógrafos da Bahia.
Quanto aos participantes com trabalhos em linguagem audiovisual, devem se atentar para se apresentar suas criações no conjunto, acompanhadas ou não de trilha sonora, mas com todas as instruções para a projeção e os equipamentos necessários.
Junto, deverá conter o nome do criador, número de seqüência (para o caso de slides) e não esquecer, de enviar em embalagem apropriada para evitar danificação.
Antes da “Fotobahia 83”, a Bahia vai participar do “Encontro Nacional dos Fotógrafos”, em agosto, em Brasília. Para discutir a participação da Bahia nesse encontro a realização da “Fotobahia” e outros eventos que acontecerão paralelos a essa exposição, o Grupo de Fotógrafos da Bahia reuniu todos os fotógrafos baianos na quita-feira, dia 7, na sede da Associação dos Agrônomos, ao lado do Passeio Público. Fotos de Antenor Gondin.

  COMEMORADOS OS 80 ANOS DE ORÓZIO BELÉM

Uma grande exposição comemorativa dos oitenta anos de Orózio Belém está sendo preparada e será inaugurada no dia 23 de agosto na Galeria Maria Augusta, no Shopping Cassino Atlântico. Orózio nasceu em Sabará, MG, em 23 de agosto de 1903, matriculando-se em 1924, na Escola Nacional de Belas Artes.
Obteve, os principais prêmios nos salões oficiais, entre eles “Viagem ao País”, “Viagem a Europa” e “Medalha e Ouro”. De outros salões, consta ainda uma procissão de premiações, destacando-se a Medalha de Prata no Salão Paulista, as Medalhas de Ouro do Salão de Petrópolis, do Salão Rural e da SBBA.
Esteve, dois anos na Europa, fixando-se principalmente na Espanha e em Portugal. Foi professor de desenho e de pintura do IMBA onde lecionou durante 21 anos. Fez, por longos anos, inúmeras ilustrações para os principais jornais e revistas do país. Tem, trabalhos seus em diversos museus, ministérios e coleções particulares do Brasil e do exterior.É membro efetivo da Academia Brasileira de Belas Artes.
Orózio vem pintando como nunca, tanto em qualidade como em qualidade e os “80 anos do Orózio Belém”, reúne elaboradas obras de sua última safra, das clássicas e perfeitas cabeças de negro às belíssimas paisagens de Ouro Preto, passando pela fantasia encantada de seus criativos espantalhos.
Reproduções de auto retrato de Orózio e a capa da revista O Cruzeiro desenhada pelo artista mineiro.
Orózio, juntamente com Manoel Santiago, Amando Vianna, Volpi, Bustamante Sá e Ângelo Cannone, faz parte do rol de pintores brasileiros que ultrapassaram os 50 anos de pintura. E esta exposição é uma justa homenagem ao seu trabalho e o reconhecimento à imortalidade de seu talento. Ele faleceu em 1985 no Rio de Janeiro .



OS ORIXÁS DE TATTI MORENO FORAM DANÇAR EM BRASÍLIA - 20 DE JUNHO DE 1983.

JORNAL A TARDE SALVADOR TERÇA-FEIRA, 20 DE JUNHO DE 1983.

OS ORIXÁS DE TATTI MORENO FORAM DANÇAR 
EM BRASÍLIA


O escultor Tatti Moreno não poderia escolher uma época melhor para levar seus orixás para a capital federal.Quando os boatos agourentos ganham os imensos espaços do Planalto Central chegam ao Sul e ao Nordeste do país, somente a força dos Orixás pode afastar ou anular os apóstolos da desgraça.
Recentemente entrevistando um velho carranqueiro do São Francisco, ele disse que ao fazer uma carranca, que é a representação do demônio, tem o cuidado para não ser surpreendido pelo diabo. Uma crença que herdou de seus ancestrais, como também acontece com a maioria das pessoas que cultua os deuses africanos. Assim, uma simples escultura em bronze de um Orixá, ganha força de misticismo porque atrás de sua imagem, existe toda uma herança cultural religiosa e uma gama de seguidores convictos e fervorosos.
A postura dos Orixás, que foram agrupados para a fotografia da capa do catálogo, nos lembra um flagrante de um terreiro de candomblé, quando os Orixás baixam para a felicidade dos pobres mortais desta terra. É um encontro celestial entre vivos e mortos, homens e deuses que encarnam seus espíritos fazendo as pessoas cair, roda e se bater contra o solo. Uma manifestação de fé.
Portanto, mesmo que o artista esteja imune a própria relação objeto-religião, pessoas que olham suas esculturas representando os Orixás, não estão centenas e centenas de outras pessoas  que olham suas esculturas representando os Orixás.
E, utilizando latão, ele vai armando o seu mundo místico unindo os pedaços deste metal de cor dourada com pontos de solda elétrica. Um trabalho tão significativo, como dos verdadeiros artesãos que o antecederam nesta tarefa de cultuar os deuses da África negra. Seu trabalho é como a prece de um crédulo.
Com as palavras de suas orações vai alinhando pensamentos, pedidos e agradecimentos. Só que Tatti dá um sentido mais concreto, quando retorce, corta, fura e bate a folha do latão e vai juntando os pedaços, até a encarnação de seu Orixá.
São esses Orixás de latão, cobre e ferro que deixaram Salvador e voaram para Brasília, local próprio para exercer a proteção sobre este país, que mais parece um porta-aviões à deriva. Aproveitando os grandes espaços de Brasília que são tão escassos em nossa Bahia, eles vão dançar e cantar para afastar os perigos que nos rondam. A exposição será aberta no dia 21 e permanecerá até 30 de junho no Saint Paul Park Hotel.

     VESTINDO A ARTE DE MARIA ADAIR

 A idéia surgiu de um trabalho de arte integrada que Maria Adair apresentou os Estados Unidos, sobre o qual já falei alguns meses atrás. O trabalho inicial foi montado no Museu de Arte de Iowa. Slides de suas pinturas foram projetados em cima dos corpos de dançarinos. Aí ela sentiu que suas formas em jatos de luz vestiam as pessoas. Um passo à frente e resolveu pintar com o objetivo de vestir as pessoas. Tudo isto será mostrado na Livraria Corrupio, através de uma coreografia especialmente preparada por Beth Grebler com seu corpo de baile: Lily Graça, Ana Nossa, Telma Almeida, Simone, Beto de Souza e Nem. Os dançarinos maquilados pelo aerógrafo de Poló.
A baiana Maria Adair retornou ao Brasil em janeiro, deste ano, depois de estudar e realizar algumas exposições nos Estados Unidos. Sua arte traz em seu bojo a vitalidade e o palpitar dos órgãos que formam o próprio corpo humano, esta máquina fantástica e inimitável. É a natureza toda a fundamentação do seu trabalho artístico tanto no campo animal, como no campo vegetal. São as estruturas que normalmente não vemos porque estão cobertas pela pele ou pela casca. Realmente se você se detiver diante de uma tela de Maria Adair certamente ficará emocionado com a trama que ele cria e derrama com cores fortes, suaves e linhas sinuosas.
É como quisesse revelar o íntimo das pessoas e das plantas através uma radiografia, possibilitando uma total nudez e dissecação da matéria. Tudo isto brota de uma instantaneidade invulgar, que somente as pessoas mais chegadas à artista podem realmente avaliar a sua capacidade expressiva.

PERDEMOS A FORÇA DE HANSEN E, AGORA, 
A DOÇURA DE ILSE
“Nesta casa encontrareis a alegria de viver e o humanismo, a paz e o trabalho criador, a doçura de Ilse e a força de Hansen, o amor da Bahia”. Estas palavras de Jorge Amado são suficientes para a gente sentir quanto à Bahia perdeu com o desaparecimento da força de Hansen e da doçura de Ilse. Tudo começou, quando Hansen partiu. Lembro-me da última vez que o vi, em São Félix no leito, com parte do corpo envolto numa grossa colcha de lã quadriculada a levantar-se várias vezes, para dar ordens aos operários que trabalhavam na construção de uma piscina na sua nova casa.
Ao lado, a esposa querida. A ex-aluna que captou o seu trabalho forte, belo e sensual. A esposa-aluna que durante dias e noites soube compartilhar os seus sentimentos e a grandeza na hora do sofrimento deste artista que viveu para a arte. Hansen dormia e vivia pensando em suas gravuras, em suas novas publicações. Usou toda a força interior que lhe restava para a construção de uma obra, que ainda será reconhecida com muito mais intensidade. Vejo a sua obra como que guardada para um momento maior de explosão e reconhecimento em todos os recantos.
Desta união da força e da doçura nasceu exatamente esta dupla de artistas que encantava os amigos com suas conversas alegres, descontraídas e sinceras.
Lembro também de sua casa que construiu com tanto zelo em Salvador, com trabalhos seus e de amigos incrustados nas paredes, lembro principalmente de sua inquietação com a chegada dos tratores barulhentos a destruir o coqueiral que descortinava de sua casa-atelier. Ficava nervoso. Quando por várias vezes lá estive, desabafava e prometia mudar. Eu não acreditava, tal o zelo com que construíra a sua casa. Parecia que estava ali assentado para o resto da vida. Qual foi minha surpresa quando comprou a Fazenda Santa Bárbara, fora do centro de São Félix e lá começou a erguer sua última casa. E, Ilse numa das poucas entrevistas que deu, dizia “que ele procurava a Bahia de 1950, que veio encontrar aqui”. Foi exatamente lá que os dois vieram a falecer num ambiente da Bahia dos anos 50.
Partiram daquele alto descortinado o Paraguaçu descendo vagarosamente, batendo suas águas nas pedras e nas barrancas em busca do mar. Muitos dos painéis que projetou para a sua nova morada nem chegaram a ser concluídos.
Estão lá, intactos à espera que alguém se interesse em promover uma campanha para que possam continuar a envaidecer todos aqueles que gostam de obras de arte. A casa está lá, desprovida da força de Hansen e da doçura de Ilse.
Gostaria de ter escrito antes sobre estes dois amigos que partiram. Aliás, sobre Hansen escrevi uma página neste jornal na época da sua morte. Porém, estive viajando. Mas nunca é tarde para falar de amigos, principalmente de amigos sensíveis e criadores.

FOTÓGRAFOS BAIANOS REUNIDOS NA FOTOBAHIA, 
NO DIA 15 DE AGOSTO

Os fotógrafos profissionais e amadores podem participar da Fotobahia 83, de 15 de agosto a 4 de setembro, no Foyer do Teatro Castro Alves. O tema é “Bahia”, em seus diversos aspectos sociais, econômicos e culturais. A produção é do Grupo de Fotógrafos da Bahia que, paralelo à exposição, também vai promover a “Mostra de Audiovisuais” e o “4º Encontros de Fotógrafos da Bahia”, de 1º a 4 de setembro, com participação de debatedores famosos nacionalmente, como Luiz Humberto, de Brasília; Pedro Vasquez, do Rio de Janeiro; Nair Benedito e Ricardo Malta, de São Paulo.
Os fotógrafos baianos interessados em participar da “Fotobahia 83” devem entregar suas fotos e fazer suas inscrições até o dia 15 de julho. Só serão aceitas cinco fotos, no máximo, que não devem ser montadas e que tenham mínimo de 18x24 e o máximo de 30x40.Além das fotos para exposição, cada fotógrafo deve reservar todos extras para o catálogo e divulgação do evento.
A “Mostra de Audiovisuais” é um novo espaço para apresentação de trabalhos em linguagem audiovisual e /ou slides.. E o” 4° Econtro de Fotógrafos da Bahia”, além dos debates com profissionais importantes do país que discutirão questões como “ O Fotógrafo Como Autor”, “Cultura e Fotografia”, “Fotojornalismo” e “Eexercício da Profissão e Formas de Organização”- será uma oportunidade de avaliação e desenvolvimento da arte de fotografar aqui na Bahia. A propósito, os fotógrafos baianos elaboraram este documento dirigido à Fundação Cultural.Vejamos:
“O Grupo de Fotógrafos da Bahia, representados pelos abaixo-assinados, é uma entidade particular que, há cinco anos, vem realizando e produzindo a principal exposição fotográfica do estado, a Fotobahia, cuja importância e valor são reconhecidos nacionalmente, tanto que tem participado de vários eventos culturais como 32ª Reunião da SBPG, 1960, no Rio de Janeiro, 33ª. Reunião de SBPG, 1981, em Salvador, 1ª Semana da Fotografia realizada pelo Núcleo de Fotografia/Funarte, em 1982 no Rio de Janeiro, Feira da Cultura Brasileira, 1983, em São Paulo.
Paralelamente à divulgação da Fotografia Baiana, o GFB vem assumindo a luta pelos direitos dos Fotógrafos (Direitos Autorais e Regulamentação da Profissão), bem como a discussão do papel da fotografia na nossa comunidade e no nosso tempo.
Assim sendo, nos sentimos no direito e no dever de apresentar as seguintes considerações e solicitações:
1º- A produção fotográfica da Bahia é reconhecida como expressiva, nacional e internacionalmente. Nesta produção está incluída toda a atividade fotográfica desde a dos fotógrafos que aqui se instalarem, no fim do século passado.
2º- Existe na Bahia um grande acervo de fotografias que vem desde o século passado, que cobrem todo este tempo, e estão esquecidas e se perdendo em vários arquivos públicos e particulares, sem os necessários cuidados da conservação nem de divulgação, correndo sério perigo de desaparecimento. E a fotografia tem um sério papel na conservação da Memória Nacional.
3º- Existem importantes projetos fotográficos nas áreas de artes plásticas, educação, Linguagem Fotográfica, Documentação etc., que não podem ser realizados por absoluta falta de apoio.Outros estão em andamento, graças a recursos particulares ou a apoio de entidades de fora do estado.
4º- fotografia é uma linguagem nova (tem só 160 anos). Rica, complexa, com características e problemas particulares é o espelho da nossa sociedade e tem poderes de influir sobre ela. E o fotógrafo é o produtor e autor desta linguagem.
5º- Não tem existido até o momento, por parte da Fundação Cultural da Bahia, uma política cultural específica, elaborada a partir do encontro com os fotógrafos, que cuida da fotografia no que tange a produção, circulação e conservação, enquanto bem cultural.
Assim, solicitamos na Fundação Cultural da Bahia a realização de um seminário, que englobando todos os ramos da produção fotográfica, possa tornar claros os caminhos a seguir para incentivar e cuidar a nossa fotografia.
Para tanto o Grupo de Fotógrafos da Bahia se coloca à disposição da Fundação Cultural para discussão e realização desta proposta.
Certos do atendimento, cordialmente, pelo GFB:Rino Marconi, Aristides Alves e Adenor Queiroz Gondim.


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

COSTA PINTO EXPÕE 21 TELAS NA ÉPOCA GALERIA DE ARTE - 15 DE AGOSTO DE 1983.


JORNAL A TARDE SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 15 DE AGOSTO DE 1983

COSTA PINTO EXPÕE 21 TELAS NA ÉPOCA GALERIA DE ARTE
 A obra Panorama do Porto da Barra, tríptico, uma das mais significativas  de Costa Pinto.

O artista Jorge Costa Pinto está expondo 21 trabalhos na Época Galeria de Arte, no bairro do Rio Vermelho. Conheço Jorge Costa Pinto há vários anos, quando trabalhávamos na antiga Inspetoria Seccional, hoje, Delegacia do MEC. Na época era um simples escrevente datilógrafo, e Jorge um conceituado inspetor federal de ensino. Naquela época os colégios e escolas eram fiscalizados pelos inspetores federais que gozavam de grande prestígio, e às vezes até eram temidos pelas exigências que faziam visando à melhoria e a seriedade do ensino. Talvez, se os inspetores federais continuassem o trabalho, como realizavam antigamente, o ensino estivesse em situação bem melhor que a de hoje.
Portanto, o nosso conhecimento é antigo, embora ocupasse um cargo hierarquicamente menor, mas tão digno quanto o dele.
Cabia a mim datilografar as ordens de bolsas de estudos e outros documentos. Sempre nos encontramos mesmo que rapidamente.
Porém, ao longo do tempo venho acompanhando com interesse suas exposições e principalmente sua pintura marcada pelo geometrismo, retratando a paisagem baiana, que tanto nos agrada.

Acima o artista Jorge Costa Pinto e sua esposa D. Vera.
É um mestre em simplificar as composições, definindo as massas com traços negros como a limitar os espaços para cada elemento. É metódico no seu ofício de pintar. Costuma sair com um caderno de anotações onde registra as principais linhas de uma paisagem qualquer. De posse dos desenhos vai para o seu atelier onde os transpõe para a tela. “Muitas vezes não fica quase nada do original. Modifico tudo o que tinha anotado, inicialmente”, confessa Jorge Costa Pinto. Sim, a modificação está exatamente em abandonar muitos detalhes, dando maior expressão aos elementos que elege como mais significativos. E, as massas contornadas pelos traços firmes e negros dão maior grandiosidade às composições que concebe.
O artista trabalha normalmente com tinta acrílica holandesa marca “Talens”, e o veículo que usa para dissolver é a água. Assim, consegue efeitos especiais que vão daqueles que permite uma aquarela ou sejam efeitos suaves e transparentes, até os efeitos densos utilizados pelos que usam tinta óleo. Acostumado com este tipo de tinta Jorge Costa Pinto, sabe usá-la em doses certas para cada situação. E, outro detalhe importante é que pelo seu próprio temperamento não tem pressa. Portanto, pode elaborar e reelaborar seus trabalhos em busca de uma maior perfeição. Paciente, Costa Pinto demora-se também em suas anotações captando os elementos mais significativos, podendo depois simplificar sem retirar das paisagens que recria as suas próprias identidades sendo facilmente identificadas pelos que se interessam pela arte e têm sensibilidade.
O artista Jorge Costa Pinto sabe como nenhum outro pintor baiano captar o ambiente calmo dos locais, que ainda não foram parcialmente ou totalmente destruídos pela ânsia do progresso ou da especulação imobiliária, que tanto aflige as populações que residem nas grandes cidades.
Ás vezes penso na capacidade do artista em retratar dentro de sua visão geométrica os locais que nos são mais caros desta velha Bahia. È verdade que não existe uma preocupação documental, porém, se nos transportarmos para anos adiante certamente pensamos que suas obras servirão pelos menos como um referencial para o que era a nossa gente, mas alerto que é preciso cuidar, antes que seja tarde demais, dessas paisagens, desses locais bucólicos que surgem calmos e vigorosos dos pincéis de Jorge Costa Pinto.
Jorge geometriza a paisagem baiana, dando destaque às massas e volumes contornando-as com seus traços vigorosos. O triptico intitulado “Panorama do Porto da Bahia”, é um dos trabalhos mais significativos entre os expostos. Nele o artista destaca o quebra-mar e os casarões em volumes bem definidos, e os barcos deitados sobre o mar em total calmaria, aliás, como se apresenta quase sempre este pedaço do Atlântico que beija as nossas praias.

ADVOGADO- PINTOR

Embora tenha revelado no início deste artigo a sua condição de inspetor federal de ensino, o artista Jorge Costa Pinto passou grande parte de sua existência entre a advocacia, a repartição pública, e nas horas vagas pintando. A pintura foi despertada desde a infância, mas a necessidade de abraçar uma carreira, que lhe garantisse de imediato a sobrevivência, afastou Jorge Costa Pinto da arte. Mas, não totalmente, porque se aproveitava, dos fins de semana e até das madrugadas para a intimidade com as tintas e os pincéis. Foi assim por quase duas décadas e o curioso é que foi descoberto pelo professor Adams Firnekaes, então assessor técnico do ICBA, que o convidou para expor juntamente com outros artistas. Foi o início de uma série de outras exposições individuais e coletivas, aqui e em outros estados. Hoje, seus trabalhos figuram em museus, coleções particulares e oficiais.
O então pintor de domingo ou pintor nas horas vagas , é hoje um profissional dedicado exclusivamente à arte. Fechou a sua banca de advocacia, embora tenha sido insistentemente consultado para que continuasse advogando. Mas, com os filhos já encaminhados Costa Pinto resolveu cuidar do que mais gosta, e para isto recebeu o apoio incondicional de D. Vera, esposa, companheira, e acima de tudo uma pessoa que sabe entender as necessidades e anseios do artista. Hoje, o ex-advogado e ex-inspetor federal de ensino tem o tempo inteiro dedicado à sua arte, dando uma contribuição importante, pela qualidade do seu trabalho, para o engrandecimento da cultura baiana. Portanto, se você ainda não visitou a exposição de Jorge Costa Pinto poderá fazê-lo até o final desta semana.

                        FOTOBAHIA 83 COM TREZENTAS IMAGENS

Está chegando a Fotobahia 83, importante espaço de expressão dos fotógrafos, que já se firmou no calendário cultural de Salvador. Abertura será amanhã, às 21 horas, no Foyer do Teatro Castro Alves. Serão expostas , cerca de 300 fotos de amadores e profissionais, coloridas e em preto e branco, com vários enfoques sobre a realidade baiana.
Participam da mostra cerca de 80 fotógrafos apresentando a Bahia em seus múltiplos aspectos – social, econômico, político, natureza, arquitetura -.Fotobahia 83 apresenta também um catálogo com uma foto de cada participante.
Fotobahia faz agora seis anos de criada: “Surgiu em 1978 com a intenção de abrir um espaço para reunir e mostrar os trabalhos produzidos por profissionais e amadores que atuassem na área. Não havia tema definido, nem seleção, pretendia-se fazer, de uma maneira concreta, o primeiro levantamento dos fotógrafos atuantes em Salvador, suas área de trabalho, abordagem temática e como utilizavam da técnica fotográfica”, explica Arestides Alves.                                                                                         Foto Gente do Sertão, de Juracy Dórea.
É organizada por um grupo de fotógrafos independentes, que busca atuar junto à categoria heterogêna, promovendo eventos que possam ajuda na transformação do nível profissional do fotógrafo.
Este ano a mostra acontecerá no Foyer do Teatro Castro Alves e ficará até o dia 4, quando ocorrerá também – de 1º a 5 – o Encontro de Fotógrafos e Oficina de Fotografia, na Escola de Belas Artes. Fotobahia 83 tem o patrocínio da Funarte e colaboração da Fundação Cultural do Estado da Bahia e da Prefeitura Municipal de Salvador.

                 SANTE SCALDAFERRI FOI PREMIADO

O artista Sante Scaldaferri acaba de ser agraciado com mais um prêmio. Ele participou da V Mostra do Desenho Brasileiro, realizada em Curitiba, e foi premiado, tendo sido convidado para a inauguração da exposição que ocorreu no último dia 10 na Sala de Exposições do Teatro Guaira. Sante concorreu com três desenhos de 80 x 65 cm: A Família Real, Flores para Monarcas e A Lista dos Convidados.
Esta mostra de desenhos é realizada todos os anos e dezenas de artistas são convocados a concorrer. A promoção tem por finalidade reunir em Curitiba obra de destacados desenhistas brasileiros em uma visão panarômica e documental das atuais tendências do desenho no país. De acordo com o regulamento complementam a estrutura da mostra, salas especiais artístico-didáticas apresentando conceituados artistas especialmente convidados e obras gráficas do patrimônio cultural brasileiro. Foram concedidos prêmios de aquisição e prêmios unitários de Cr$80 mil, sendo o nosso amigo Sante Scaldaferri um dos convidados premiados. 
Na foto o desenho premiado: A Família Real.

ARTE NORDESTINA EXPOSTA NA GALERIA DEBRET, EM PARIS - 4 DE JULHO DE 1983.


JORNAL A TARDE SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 04 DE JULHO DE 1983

ARTE NORDESTINA EXPOSTA NA GALERIA DEBRET, 
EM PARIS

A Galeria Debret de Paris (28, Rue La Boétle) realizou recentemente, a exposição intitulada “Influências Populares na Arte Contemporânea Brasileira”, na qual os franceses puderam apreciar uma seleção de gravuras anônimas do Nordeste brasileiro e trabalhos de dois entalhadores contemporâneos- Gilvan Samico e Newton Cavalcanti, cujas obras trazem em si fortes influências populares.
A gravura popular do Nordeste brasileiro tem a sua origem na tradição dos trovadores e cantadores ambulantes, que remonta à Idade Média européia e trazida da Península Ibérica, pelos primeiros colonizadores. Aqui ela se enriqueceu, em seguida, mesclada que foi com os valores de uma tradição similar africana: aquela do akpaló ou dos cantores bantos, que iam de cidade em cidade contando suas histórias.
Ainda em nossos dias esses cantores são encontrados nas feiras livres e festas do Nordeste, os quais, acompanhados de uma viola recitam para um vasto público versos fantásticos ou circunstanciais, históricas místicas ou épicas, líricas ou trágicas, religiosas ou humorísticas. 
Reprodução de um detalhe da obra de A Luta dos Homens , de Gilvan Samico.
A literatura oral do Nordeste passou a ser aproveitada em pequenos livretos nos fins do século XIX, com o surgimento dos primeiros impressos. As folhas eram expostas em cordas, sem encadernação, sendo que a este tipo de disposição deu-se o nome de “livros de cordel”.
A xilografia popular nordestina surgiu para ilustrar as histórias de cordel, inicialmente sob a forma de vinhetas, depois para ilustrar as capas. Daí o seu caráter ilustrativo e sua variedade temática. Entre os folhetos mais antigos, sabe-se da existência de exemplares datados de 1907, apresentando como tema o bandido Antônio Silvino. A ilustração dos livros de cordel, que registram importantes tiragens, chegando até 40 mil exemplares, conforme a popularidade do autor ou do tema escolhido, revelou mestres famosos como José Cavalcanti e Ferreira (Dila), José Costa Leite, José Francisco Borges e muitos outros.
Este tipo de trabalho alcançou um graude personalização tal que acabou por estimular a independência das gravuras em relação aos livros. Das dimensões reduzidas da primeira página, os gravadores ocuparam os espaços mais largos, produzindo trabalhos destinados a um público mais distantes dos centros de difusão da literatura oral e que se sentia primordialmente atraído pela produção plástica. Este fenômeno, que data das duas últimas décadas, não interrompeu, porém, a produção de textos ilustrados, nem mesmo as atividades dos cantadores. Antes, aliado a outros fatores da modernização, veio contribuir para modificar os modelos vigentes.
É possível que o progresso, a televisão, o próprio processo de alfabetização das populações rurais e as novas técnicas de impressão de livros determinem o fim da produção cordelista. Até agora, não somente esta produção se mantém ativa mais coexiste com as formas mais eruditas que ela soube tão bem influenciar, alimentando-as com a sua vitalidade criativa.

           THOMAZ DE MELLO EXPÕE NO ESTORIL


Constituiu um importante acontecimento artístico a inauguração da exposição que o pintor Thomaz de Mello /Tom, nascido em 1906 no Rio de janeiro e que aos 16 anos se fixou em Portugal, mantendo, porém, a sua nacionalidade brasileira, está realizando na Galeria de Arte do Casino Estoril e que compreende um conjunto de 24 óleos e 20 desenhos numa mostra intitulada Bahia /82, já que todos os trabalhos apresentados versam sobre temas da Bahia, recolhidos numa viagem que aquele artista fez a Salvador, em setembro do ano passado.
No vernissage estiveram presentes dois ministros, três secretários de Estado, o embaixador do Brasil, Dário de Castro Alves e o cônsul geral, Dr. Félix de Faria, além de mais de cinco centenas de convidados, que em poucos minutos adquiriram todos trabalhos expostos. Tom, assim é conhecido este artista em Portugal, que com esta sua exposição comemora 55 anos  de atividade artística, tem uma obra vastíssima desenvolvida em várias áreas,designadamente na pintura, desenho, artes gráficas, caricatura, decoração e design. A sua vinda à Bahia para recolher os temas que constituem esta sua exposição foi patrocinada pela TAP, sendo de realçar a importante ação de intercâmbio cultural que tem vindo a ser incentivada pela diretoria comercial de Lisboa, à frente da qual está Manuel Bastos e pelo representante geral da TAP no Brasil, Antônio Morgadinho, autor de numerosas iniciativas para a aproximação cultural entre Portugal e o Brasil.
Quando Thomaz de Mello esteve na Bahia foi recebido e apoiado por Manoel Castro, então secretário da Industria e Comércio e atual prefeito e por Paulo Gaudenzi, presidente da Bahiatursa, dois bons amigos de Portugal. Toda a imprensa portuguesa, bem como a Rádio e TV se têm referido largamente à exposição de Tom, em que aparece como motivos de primeiro plano as belas mulheres baianas, podendo se dizer que esta exposição Bahia /82 é um hino em louvor das mulheres da Bahia.

O ÁLBUM  SOBRE A BAHIA

Vinte dos trabalhos apresentados nesta exposição foram reproduzidos em cor num álbum de luxo que tem texto e apresentação de Jorge Amado e do pintor português Lima de Freitas, ilustrado com uma dezena de desenhos também sobre a Bahia. Trata-se do primeiro lançamento de uma nova editora, “Atlântico”, de que é diretor Nuno Lima de Carvalho, o português que mais ama a Bahia e que vai fazer incidir a sua atividade de preferência sobre a edição de obras de arte de autores brasileiros e portugueses num intercâmbio cultural e artístico, que vem em seguimentos de outras iniciativas levadas a cabo pela Estoril-Sol, como seja a Semana do Estoril na Bahia e a apresentação do Estoril, de diversos artistas baianos, Carybé, Floriano Teixeira, Carlos Bastos, Mário Cravo, Calasans Neto e Jenner Augusto.
Uma obra ao lado enfocando nossa Bahia.
No texto de apresentação deste álbum e que foi lançado com grande êxito durante a exposição, Jorge Amado escreveu: Tom foi conquistado pela beleza lírica e dramática da Bahia, pela graça e doçura de seu povo. Aos muitos títulos que possui, Thomaz de Mello pode agora somar mais um:“Adorável pintor das terras e gentes da Bahia”. Com este valioso apoio de Jorge Amado a Bahia está de novo presente em Portugal, deste Vaz, através da paleta e dos pincéis de um grande pintor, brasileiro de nascimento e português de coração. Morreu aos 84 anos em   1990,  Lisboa.

COMEÇAM HOJE AS INSCRIÇÕES PARA O VI SALÃO NACIONAL DE ARTES PLÁSTICAS

Já saiu o regulamento do VI Salão Nacional de Artes Plásticas que se realizará no Rio de Janeiro, abertos aos artistas brasileiros e estrangeiros residentes no país. Qualquer artista poderá se inscrever bastando preencher e enviar a ficha de inscrição e os trabalhos, a partir de hoje até o dia 12 de agosto. Existem quatro prêmios no valor de CR$ 2 milhões, sendo dois a intitulados “Prêmio de Viagem ao Exterior” e dois “Prêmio de Viagem no País”. Além de um Prêmio Especial de CR$400 mil cruzeiros. Eis o regulamento na íntegra:
“Considerando a Portaria Ministerial nº 6.426, de 30 de junho de 1977, que criou o Salão Nacional de Artes Plásticas, resolve a Comissão Nacional de Artes Plásticas, designada pela portaria nº009, de 31 de março de 1982, baixar as seguintes normas regimentais:

REGIMENTO

Art. 1- A Fundação Nacional de Arte-Funarte- realizará o VI Salão Nacional de Artes Plásticas, entre 01 de dezembro de 1983 e 15 de janeiro de 1984, no Rio de Janeiro, no Palácio da Cultura e/ou Museu de Arte Moderna;
Art. 2 - O VI Salão Nacional de Artes Plásticas apresentará uma manifestação paralela através de uma Sala especial.

DA INSCRIÇÃO

Art. 3 - O VI Salão Nacional de Artes Plásticas estará aberto aos artistas brasileiros e estrangeiros residentes no Brasil;
Art. 4 - A inscrição para o VI Salão Nacional de artes Plásticas será realizada através da ficha própria no período compreendido entre os dias 04 de julho e 12 de agosto de 1983;
Parágrafo 1º - A ficha de inscrição estará a disposição dos candidatos na sede da Funarte/INAP, à Rua Araújo Porto Alegre, 80- Sala 15, Rio de Janeiro; no Museu Histórico Nacional, Praça Marechal Âncora s/nº, nos escritórios de representação da Funarte em Brasília, Curitiba e São Paulo e delegacias regionais do MEC nos demais estados; 
Parágrafo 2º - os trabalhos acompanhados da respectiva ficha de inscrição deverão ser entregues ou remetidos para:-Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional- Praça Marechal Âncora, s/nº- RJ-20021 Tel.: (o21) 240-7978.

Art. 5 - Os candidatos ao VI Salão Nacional de Artes Plásticas poderão inscrever-se nas seguintes categorias: Pintura, Escultura, Desenho, gravura, Tapeçaria, Fotografia e em mídias contemporâneos. Entende-se por mídias contemporâneos as seguintes técnicas ou linguagens: Instalação, performance, vídeo-tape, filmes de 16mm e super-oito, audiovisual, objeto, neon, laser e holografia;
  Parágrafo 1º- os artista poderão inscrever-se em apenas uma categoria, estando obrigados a apresentar 3 (três) trabalhos quando se tratar de Pintura, Escultura, Desenho, gravura, Tapeçaria ou Fotografia. As obras não poderão ocupar um espaço de parede ou painel acima de 4(quatro) metros lineares ou 10 (dez) metros quadrados em planta baixa, excetos nos casos de mídias contemporâneas, nos quais os artistas poderão apresentar somente 1(hum) trabalho; 
Parágrafo 2º -  Para inscrever-se em instalação os artistas devem apresentar desenhos indicativos ou maquete, além de memorial descritivo e foto. 
Parágrafo 3º- cada trabalho inscrito em instalação não poderá ocupar área superior a 10 (dez) metros quadrados; 
Parágrafo 4º -Será de responsabilidade do artista, durante a seleção e exposição de trabalhos com novos mídias, a montagem, funcionamento, desmontagem e transporte das obras, bem como o funcionamento, preservação e operação dos equipamentos; 
Parágrafo 5º - A duração dos filmes super-oito e 16mm, vídeo-tapes e audiovisuais, deverá ser de no máximo 15 minutos cada; 
Parágrafo 6º - A Funarte dispõe de projetor para filmes super-oito (sonoro), projetor para filmes 16mm (som ótico e magnético), equipamento para reprodução de vídeo-cassete com monitor sistema VHS- sinal de vídeo PAL-M e conjunto de projeção de slides com 2 (dois) projetores Kodak Ektagrafic e sistema de sincrotape. Esta aparelhagem será utilizada na projeção de trabalhos, conforme programação a ser estabelecida para o Salão, e, portanto, não poderá ser decida ao uso individual permanente em qualquer obra; 
Parágrafo 7º - Os artistas que apresentarem trabalho, para cuja projeção seja necessário aparelhagem não incluída na relação do 6º parágrafo deste artigo, devem fornecer o equipamento necessário, nos termos do 4º parágrafo deste artigo; 
Parágrafo 8º - Os trabalhos deverão ser entregues em perfeitas condições para serem expostos; 
Parágrafo 9º - A Funarte determina o local e os horários destinados à exibição dos trabalhos de que trata o parágrafo 5º deste artigo efeito de seleção.
Art. 6 - Os artistas selecionados não poderão alterar ou retirar seus trabalhos antes do encerramento do salão e deverão obedecer o projeto original na íntegra sob pena de não serem apresentados na mostra do salão;
Art. 7- A premiação do trabalho realizado em parceria ou por grupo de artistas será outorgada ao responsável, o qual deverá estar previamente indicado na ficha de inscrição; Art8- A subcomissão de seleção e premiação escolherá uma obra de cada artista premiado com viagem ao exterior e viagem ao país, a qual será doada a museus, a critério da Funarte.

DO RECEBIMENTO E DEVOLUÇÃO DAS OBRAS

Art. 9 - Correrão por conta dos artistas inscritos as despesas de remessa de obras para os locais de inscrição e a devolução das mesmas, caso tenham sido recusadas; Parágrafo Único- As obras, no momento de inscrição, deverão estar embaladas em perfeitas condições para transporte, quando necessário; 
Art 10 - As obras recusadas deverão ser retiradas dos locais de recepção referidos no presente regimento em até 30 (trinta) das subseqüentes à publicação dos resultados da seleção, após os quais a Funarte não mais se responsabilizará pelas mesmas; 
Parágrafo 1º - As obras recusadas dos artistas não-residentes nos locais de recepção serão enviadas ao endereço de origem indicado na ficha de inscrição com frete a cobrar;
 Parágrafo 2º - As obras selecionadas de artistas residentes no Rio de Janeiro-RJ deverão ser retiradas do local até 15 (quinze dias subseqüente ao término da exposição, após os quais a Funarte reservar-se o direito de remetê-las ao endereço de origem indicado na ficha de inscrição com frete a cobrar.

DOS PRÊMIOS

Art. 11- O VI Salão Nacional de Artes Plásticas concederá os seguintes prêmios: a) quatro no valor de CR$ 2.000.000,00 (dois milhões de cruzeiros) cada, sendo dois intitulados “Prêmio de Viagem ao Exterior e dois Prêmios de Viagem no País”; b) Prêmio Especial Gustavo Capanema no valor de CR$400.000;00 (quatrocentos mil cruzeiros); 
Art 12 - Os trabalhos adquiridos serão pagos no valor nunca inferior ao declarado pelos expositores nas respectivas fichas de inscrição; 
Parágrafo único - O total das aquisições não excederá a importância de CR$700.000,00 (setecentos mil cruzeiros), devendo ser as obras incorporadas ao patrimônio da Funarte;
  Art. 13 - Para os efeitos de seleção e premiação será constituída uma subcomissão composta de três membros indicados pela Comissão Nacional de Artes Plásticas e três membros eleitos pelos artistas inscritos no salão, além do diretor do Instituto Nacional de Artes Plásticas /Funarte, que a presidirá com direito a voto de qualidade; 
Parágrafo 1º- são irretratáveis e irrecorríveis as decisões finais da subcomissão a que se refere o presente artigo;
Parágrafo 2º- Os três membros da subcomissão indicados pela Comissão Nacional de artes Plásticas não poderão nela participar dois anos consecutivos; 
Art. 14 - Os candidatos ao VI Salão Nacional de artes Plásticas indicarão na própria ficha de inscrição os nomes de seus representantes na subcomissão de seleção e Premiação;
 Parágrafo 1º - Os representantes indicados pelos artistas inscritos no Salão  Nacional de Artes Plásticas que participarem do Júri de Seleção e Premiação não poderão ser eleitos dois anos consecutivos. O voto concedido à pessoa inelegível será considerado nulo com relação àquele nome, sendo válido artista, com relação aos demais;
Parágrafo 2º - o artista quando preencher a fixa de inscrição, deverá votar em três nomes distintos.A repetição de um mesmo nome na ficha de inscrição implicará na nulidade do nome repetido;
 Parágrafo 3º- Serão eleitos para membros de Subcomissão de seleção e Premiação os três nomes mais votados pelos artistas inscritos, deverão ser pública a apuração de suas indicações, previstas para o dia 24 de agosto de 1983, às 14h, na Sala Aloísio Magalhães na sede da Funarte;
 Art. 15- A Subcomissão de Seleção e Premiação deverá selecionar o conjunto de obras inscritas de cada artista concorrente na categoria por ele declarada na respectiva ficha de inscrição, não sendo permitida a recusa parcial ; 
Art. 16 - Durante os trabalhos de seleção e premiação do VI Salão Nacional de Artes Plásticas, somente poderão entrar no recinto membros da Subcomissão da Seleção e Premiação e funcionários do INAP/Funarte diretamente ligados ao trabalho.
 Art. 17 - Os casos omissos serão resolvidos pela Comissão Nacional de Artes Plásticas; 
Parágrafo Único - Os casos omissos, surgidos no julgamento dos trabalhos de seleção e premiação, serão resolvidos pela respectiva subcomissão.




quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A FOTOGRAFIA NA ARTE DE JOSÉ OITICICA E HUMBERTO - 23 DE MAIO DE 1983.

JORNAL A TARDE SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 23 DE MAIO DE 1983.

 A FOTOGRAFIA NA ARTE DE JOSÉ OITICICA E HUMBERTO
 

“Libertem-se um pouco da máquina fotográfica, procurando dominá-la com o cérebro. Olhem, vejam, compareçam e procurem fazer algo diferente quanto à concepção, quanto à apresentação do assunto. Não se prendam ao não pode”

Quem disse isso ousou a revolucionar a arte fotográfica, gerando uma rica discussão em nosso meio cultural. E para quem perdeu as exposições realizadas pela Funarte, a obra de José Oiticica Filho (1906-1964), estará agora presente em A Ruptura da Fotografia nos anos 50. Com textos de Paulo Herkenhoff e dos filhos de Oiticica, César e Hélio Oiticica, que acompanham mais de 70 fotografias, da passagem do fotoclubismo ao Projeto Construtivo, o livro desse importante artista plástico, fruto de uma pesquisa do Projeto Exposições do Núcleo de Fotografia da Funarte, foi lançado dia 3 de maio.

           INTERPRETAR A REALIDADE
 
 
Para o etnólogo, pesquisador, matemático e fotógrafo que inovou, teorizando e definindo questões plásticas, demarcando uma linguagem fotográfica para sua arte, o artista Paulo Herkenhoff escreveu: “A opção construtiva de José Oiticica Filho estabeleceu um embate em dois níveis: Imagem e processo. A primeira questão, a crítica da fotografia figurativa, se aprofundaria. Oiticica, que sempre lhe atribuíra uma função mimética, mesmo se o fotógrafo buscasse a câmara para interpretar a realidade, apresentava agora um argumento estético: as possibilidades de composição (realismo-figurativismo) dentro do retângulo já foram praticamente esgotadas”.

Filho de um conhecido escritor anarquista e pai de Hélio Oiticica, nome representativo na arte brasileira, ligado ao movimento neoconcretista e a tropicália, José Oiticica Filho é um elo cultural entre essas duas gerações que afirmava em 1955, quando perdia o apoio dos fotoclubes e entrava na sua fase abstrata: “É pesquisando, portanto que a arte evolui. Vejam bem, conscientemente. Liberdade consciente significa conhecer bem o assunto, tê-lo aprendido. Significa desviar-se do aprendido, conhecendo bem o antigo caminho e procurando o novo caminho com conhecimento de causa. Significa libertar-se de líderes, principalmente em se tratando de Arte, com A maiúsculo”.

 
               A VISÃO FOTÓGRAFO DE LUÍS HUMBERTO

 
Para os que começam ele diz, “quando estiverem com prestígio e forem procurados pelos novos, mantenham-se recatados, mas receptivos e lembrem-se que cada um de nós é apenas um elo na cadeia do conhecimento”.
Talvez a frase sintetize o momento de mais alta reflexão do fotógrafo Luís Humberto, 21 anos de profissão, sendo 15 dos quais dedicados à produção teórica e que agora surge em seu livro Fotografia, Universos e Arrabaldes, cujo lançamento foi dia 18, segunda-feira, às 18 horas, na Galeria de Fotografia n Funarte (Rua Araújo Porto Alegre, 80, Centro).
                                                                                      Foto de Luís Humberto no Palácio do Planalto.

A obra desse fotógrafo inicia a Coleção Luz e Reflexão, do Núcleo de Fotografia da Funarte que pretende sistematizar a consciência sobre a fotografia no Brasil, evitando os aspectos técnicos, para definir e analisar a especificidade da linguagem fotográfica e seu papel no contexto geral das artes plásticas. Para dar vida a essa teoria, Luís Humberto, no dia do lançamento do livro, fez uma palestra acompanhada de slides, e falou da sua vida profissional dedicada à câmara e ao pensamento teórico.

 POR QUE LUÍS HUMBERTO
 Seu nome surgiu por unanimidade no I Encontro de Fotógrafos Brasileiros, realizado, em agosto de 1982, pelo Núcleo de Fotografia e no qual apareceu a vontade de se criar uma coleção destinada ao debate nessa área. No encontro, os fotógrafos tiveram a iniciativa de apontar Luís Humberto que sempre foi um dos que lutaram pelo reconhecimento profissional do fotógrafo brasileiro e a valorização de sua arte como um meio de expressão. Para o fotógrafo Pedro Vasquez que prefaciou o Livro, “Humberto é um verdadeiro agitador cultural, quer como fotógrafo, quer como professor, ensaísta ou conferencista na origem de inúmeras manifestações fotográficas, desde que abandonou a arquitetura par decompor e reconstruir a realidade com a força de sua visão”.
Acontecerá, certamente, num clima de muita emoção o lançamento de Fotografia, Universo e Arrabaldes, pois o autor reconhece a importância de suas palavras sobre uma platéia repleta de fotógrafos. Para os iniciantes, Humberto dará conselhos que estão no último capítulo do livro. Em Aos que Começam, o fotógrafo saberá que deve “estar preparado para conviver com situações penosas e extremamente sofridas, atentar para a renovação, mesmo que isso destrone os donos da verdade da véspera, saber usar o prestígio em favor de causas justas e nunca desprezar as coisas simples e aparentemente banais”. E para mais tarde quando vier o sucesso e os mais novos lhe procurarem, Humberto recomenda “manter-se recatado, mas receptivo e lembrar-se que cada um de nós é apenas um elo na cadeia do conhecimento e que o trabalho de cada um deve ter um sentido maior, além de suprir unicamente nosso próprio egoísmo”. Os livros podem ser adquiridos na loja Funarte (Rua México, 101, Centro, Rio de Janeiro, CEP 20.030) ou pelo reembolso postal:

 DOIS ARTISTAS E DOIS ESTILOS DE VER O
MUNDO CONTEMPORÂNEO


 O desenhista Luis Ernesto fez sua primeira exposição individual no Rio de Janeiro. Seus desenhos são todos executados a lápis grafite de diversas numerações, com os quais consegue uma definição de tons e rica textura. Os temas de Luiz Ernesto englobam objetos e elementos das grandes cidades e de interiores domésticos, que ele transforma em animais, numa fantasia onde predomina, sobretudo a forma.
Luiz Ernesto nasceu no Rio de janeiro em 1955. Estudou, quando criança, com Misabel Pedrosa e, posteriormente, na Escola de Artes Visuais, com Rubens Gerchman, Roberto Magalhães e Antônio Grosso. Formado em Engenharia Mecânica pela Pontifícia Universidade Católica de Petrópolis, em 1978, não chegou, todavia a exercer a profissão, optando pelo desenho.
Na foto Filtro, do artista Liís Ernesto.
A partir de 1978, começou a mostrar seus trabalhos de litografia no I Salão Nacional de Artes Plásticas, em outras mostras coletivas no Rio de Janeiro e em diversas cidades brasileiras, bem como no exterior- Buenos Aires, New York e Maryland. Em 1980, conquistou o I Prêmio de Desenho no IV Salão Carioca de Arte, promovido pela prefeitura da cidade do Rio de Janeiro e, no mesmo ano, o Prêmio Acervo da “Casa de Gravura” na III Mostra Anual de Gravura de Curitiba.
Desenhista que alia fértil imaginação a uma temática irreprensível, vê o mundo ao seu redor com olhos de prestidigitados, transformando certos elementos usuais da paisagem urbana ou da vida doméstica, caixa de correio, orelhões, telefone público, liquidificador, ferro elétrico, panelas, etc..., em animais de variadas espécies, não pelo seu lado agressivo, que não é a sua proposta, mas justamente pela poética de cada situação exposta”, diz dele Geraldo Edson de Andrade.

                                O OUTRO É LUÍZ NELSON

 

Após longo período no exterior, quando freqüentou, em Paris, os cursos de Pintura e Desenho, da Escola Nacional de Belas Artes; de Desenho e Técnica de Pintura, da Academia Julian; e da História da Arte, do Museu do Louvre, voltou ao Brasil e assumiu a cadeira de Desenho e Pintura do Instituto de Belas Artes, atual Escola de Artes Visuais do Parque Laje, indicado pelo Prof. Manoel Santiago para substituí-lo, está de volta o artista Luiz Nelson Ganem. Participou do Salão Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, obtendo Menção Honrosa (1965), Medalha de Bronze (1966), Medalha de Prata (1967) e medalha de ouro (1969). Integrou coletivas aqui e no estrangeiro: Instituto Brasil –Estados Unidos, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Salão Paulista de Arte Moderna, Escola Nacional de Belas Artes e Salão de Outono, as duas últimas em Paris.
Obteve Menção Honrosa no concurso para o mural do novo edifício da Caixa Econômica Federal do Rio de Janeiro.
 
Na reprodução a obra São Jorge e o Dragão, do artista Luiz Nelson.
A respeito dele, Paschoal Carlos Magno, em 1968, escreveu: “Visitando o último Salão nacional de Belas Artes, encontrei a presença de um excelente pintor, de arte luminosamente incisiva, sem hesitação na escolha de temas  e no manejo das cores, com densidade emocional, alargando a imaginação dos que lhe admiravam os quadros, com sua desabusada imaginação criadora.

Tratava-se do brasileiro Luiz Nelson Ganem, recém-chegado de longas e demoradas andanças por este mundão de Deus, cujo aprendizado artístico se fizera em Paris, Roma, sob a vigilância de sua própria sensibilidade e cultura, não querendo de maneira alguma perder o melhor de si mesmo, em virar papel carbono dos mestres, cujos cursos freqüentara. Encontrei-o mais tarde como um dos professores do Instituto de belas Artes, cercado de alunos de todas as idades, orientando-os sem deformá-los, não os perturbando na sua espontaneidade, como fazem tantos professores, mais interessados em satisfazer seu narcisismo na repetição de seus processos técnicos e na aceitação de seus princípios estéticos.

 GUIGA ESTÁ ORGANIZANDO UMA EXPOSIÇÃO PARA
SÃO PAULO

 O cearense Álvaro Guimarães Pinheiro, mais conhecido por Guiga, está empenhado em reunir um número significativo de artistas naifs para uma exposição na Galeria Maison Arts. O título da expo será Norte/Nordeste em Cores, a qual deverá ser inaugurada em junho próximo. O artista está entusiasmado com a idéia e vem trabalhando intensamente, reunindo trabalhos de seus colegas dentro desta linha pictórica. Segundo Guiga esta mostra coletiva será um acontecimento marcante para os artistas destas duas regiões, “pois mostraremos trabalhos de qualidade concebidos dentro de toda a pureza do primitivo.
“É a maneira simples da gente, ver as coisas e agente através de tintas fortes, tão fortes como essa gente que habita locais quase inacessíveis”.
Guiga que também é poeta escreveu alguns versos que considero interessantes: “Quantas matas desmatadas- Quantas aves em revoadas/ em busca de suas pousadas/Que se exterminam, enfim/Homem, animal destruidor...”/Portanto, mostra que embora tenha deixado sua terra Quixadá, e emigrando para a Bahia, continua preso as suas raízes, preocupado com a devastação da flora e da fauna, já pobres, no Norte e Nordeste. O problema de falta d’água, nas terras ressequidas, tem uma resposta paliativa quando observa as águas salgadas nas lindas praias de Fortaleza ou na Bahia. E, o mar é também uma presença em sua obra. A luz, através das cores fortes que derrama em suas telas, é uma demonstração da própria luminosidade desta terra tropical com suas praias de águas ainda límpidas e coqueiros a balançar preguiçosamente suas palhas, dando água boa e sombra aos que passam.Ele já fez dezenas de exposições individuais e coletivas e seus quadros figuram em coleções de alguns países.