sábado, 1 de setembro de 2012

SANTE VESTIU OS EX-VOTOS COM A FRAQUEZA DOS HOMENS - 12 DE JULHO DE 1982.


JORNAL A TARDE TERÇA-FEIRA, SALVADOR 12 DE JULHO DE 1982

SANTE VESTIU OS EX-VOTOS COM 
A FRAQUEZA DOS HOMENS

Eles podem ser encontrados nas encruzilhadas, nas cruzes abandonadas à beira da estrada ou mesmo nas igrejinhas de povoados, onde a civilização ainda não chegou com sua febre de modernidade. São esculpidos por gente sem cultura, mas sensíveis por acreditarem no mundo após a morte e “temerem a Deus”. São os ex-votos, encomendados por familiares de pessoas que acreditam, ter alcançado uma graça ou mesmo beneficiados por um milagre. E, assim como os homens em sua grande maioria temem a morte e o que poderá acontecer apões a sua chegada, enquanto vivem, cultuam os espíritos e um ex-voto é uma prova desta postura. 
Sante nos jardins de sua casa em Itapuã , ao lado de uma das telas que vai expor.

Porém, Sante enxerga o ex-voto com toda sua misticidade e importância, que transcende a própria concepção de quem mandou fazer ou mesmo o esculpiu em barro, cerâmica ou ferro. Sua obra está diretamente ligada ao ex-voto, uma manifestação tão forte quanto a sua própria obra. A identificação chega a tal ponto que só enxergo Sante colocado num cruzeiro, daqueles enormes, que ficam encimados, rodeado de alecrins e unhas-de-gato no alto de pequenos morros que circundam as cidades do sertão. Este é o lugar mais apropriado para entendermos o Sante Scaldaferri.
Seu físico e também seu nome, têm algo que transcendem a própria matéria e dão aquele místico que cerca o ex-voto.
Diria que Sante tem a imagem e o cheiro de ex-voto. Conheço outros artistas que têm influência marcante em suas obras dos ex-votos. Mas ouso assegurar que ninguém tem uma identificação tão perfeita como Sante.
Esta identificação passou do campo do imponderável para o material. E vejo as fraquezas do caráter humano incorporadas nos ex-votos. Uma dualidade digna de registro. O misticismo, a pureza do ex-voto sendo invadida propositadamente para mostrar as fraquezas do homem. Como que a pureza do homem rude do sertão, que ainda venera o Padim Padre Cícero, Antônio Conselheiro ou Frei Damião foi impregnada pela fraqueza que povoa os escritórios, as universidades e outros locais urbanos tão freqüentados. Os ex-votos ganharam pernas, mentes e uma representatividade. Como que estão trabalhando numa peça de teatro e vão percorrer os quatro cantos deste mundo conturbado, tentando sensibilizar as pessoas com a estampadura dos horrores da gula, da invejado puxa-saquismo, da traição, da mentira e tanto e tantos outros atributos que tem os mortais
Sante não é um artista de formação primitiva. È um erudito que sabe ser simples. Cansa de repetir o velho e sempre atual Dorival Caymmi, “o simples e o belo”, ele sabe ser simples e com estas temática é capaz de nos mostrar quanto contemporâneo ele é ao ponto de ter acesso a qualquer mostra do que tem sido feito ultimamente neste país em termos de artes plásticas. Além disto, Sante dos artistas considerados realizados profissionalmente em Salvador, é o mais simples, o mais aberto, o que procura dialogar com os mais jovens. Não vive fechado no sucesso e numa rosa de pouco amigos. É irônico no falar, no pintar.
Suas formas desconcertantes muitas vezes não são entendidas por alguns.
Essas pessoas, menos avisadas, sacam de imediato que seu desenho é primário.
Incapazes portanto, de alcançar a ambientação mística, toda a conotação que transcende o simples desenho alcançando sua plenitude no conhecimento e reconhecimento posterior. Não conseguem penetrar, nem sentir este mundo puro dos ex-votos ou não querem enxergar as suas próprias fraquezas estampadas nas figuras desproporcionais que ganharam a vida e, acima de tudo, as fraquezas do caráter humano. Dão de ombros e continuam seu caminho, mergulhados na inveja, na luxúria, na vaidade e em muitos outros atributos que normalmente as pessoas não enxergam em si próprias.
Portanto, não deixem de visitar esta nova exposição de Sante Scaldaferri que está aberta ao publico a partir do dia 16, no Solar do Unhão, numa promoção do Museu de Arte Moderna da Bahia. Ele convida a todos que gostam de arte, independentemente de ter recebido ou não convites para que compareçam porque acha que sua mostra é um ato popular que deve contar como o maior número possível de pessoas.

                           MURAL

PASOLINI- “O fim terrível de Píer Parolo Pasolini”, esta foi uma das esculturas expostas na Bienal de artes Visuais em Veneza, na Itália, de autoria do escultor vienense Alfredo Hrdiicka. É bom lembrar que Pasolini teve uma morte trágica devido a seu relacionamento homossexual. Porém, recordo que Pasolini esteve em Salvador há mais de dez anos, juntamente com sua amiga Maria Callas, também falecida. Fui entrevistá-los no antigo Hotel da Bahia. Pasolini estava no balcão entregando a chave de seu apartamento à recepção quando o abordei. Falei em espanhol meio quebrado e o italiano pouco entendeu. Começou a falar em italiano e as palavras saiam que nem as balas das metralhadoras israelenses contra frágil Beirute.
Nada entendi. Ele mudou para o francês e aí mantivemos um rápido diálogo. Em seguida, nervoso, saiu em disparada dizendo que ia chamar a Polícia. Voltei ao jornal e fiz a matéria. Foi, aliás, a primeira matéria que fiz para A TARDE. Daí a lembrança e também o rápido e nervoso encontro porque o Pasolini saíra do Rio com destino à Europa, anunciado por todos os jornais cariocas, mas ele veio para a Bahia onde permaneceu, dois dias.

OPALINA- “A beleza da opalina e seu destaque no século XIX” é a exposição que ora está sendo promovida no Museu do reconhecimento dos Humildes, em Santo Amaro, até o dia 31 do corrente. O museu está aberto à visitação pública de terça a sábado, das 9 às 11 horas e das 14 às 17 horas e aos domingos das 9 às 12 horas.
Já o Museu das Alfaias, em Cachoeira, apresenta “Memórias do 25 de Junho”, organizadas pelas escolas da região.

NAS OFICINAS- O Museu de Arte Modera da Bahia apresenta na sua galeria da gravura (Solar do Unhão), uma exposição didática do melhores trabalhos dos alunos das oficinas de Arte em Série. A mostra reúne 50 trabalhos selecionados dos cursos de iniciação às Técnicas de Xilogravura, Gravura em Metal, Litogravura e Serigrafia que o MAMB promove a cada semestre.
Todos os trabalhos são em papel, mostrando o resultado das técnicas aprendidas durante os três meses de cursos realizados pelos artistas e professores Márcia Magno e Guache (xilogravura), Paulo Rufino (litogravura), Yeda Maria (gravura em metal) e Jamir Teixeira (serigrafia). Além desses, a mostra consta de trabalhos do acervo (que permanecem no museu, doados por artistas profissionais que passaram pelas oficinas do MAMB.

GALEÃO SACRAMENTOEm Mar Grande, exatamente no Hotel Galeão Sacramento estarão reunidos, no próximo dia 17, obras de César Romero, Antonetto, Lígia Milton, Justino marinho, Anísio Dantas, Sante Scaldaferri, Arlindo Gomes, Nilza Barude Neves e Souza e muitos outros. Na foto uma tela de Lígia Milton.(foto)






AS MENINAS DE ALICE- A desenhista gaúcha Alice Soares inaugurou sua mostra individual de desenhos, tendo como temática a criança.
Escrevendo sobre o trabalho de artista, disso o crítico Carlos Sarinci, em 1980: “As meninas” de Alice são, com efeito, imprescindíveis para a sua compreensão da vida, toda feita de dedicação aos jovens, num magistério de arte que, praticamente, durou a existência inteira. É no olhar rasgado destas figuras juvenis que se expressa tanto o espanto, como a curiosidade e a esperança diante de um mundo ainda insondável cujo enigma, além da expectativa é promessa e, de certo modo, ameaça, vislumbre de algo ainda desconhecido que, por isso mesmo, se dá com estranheza fundamental, mas também como desejo e poesia. “É nele, no olhar, que compreendemos, juventude”.
Nascida em Uruguaiana, Rio grande do Sul, Alice Soares estudou no Instituto de Belas-Artes de Porto Alegre, do qual foi, posteriormente, professora durante 40 anos. A partir de 1949, começou expor em coletivas, tendo feito sua primeira exposição individual em 1957.
Premiada diversas vezes em salões gaúchos em 1954 conquistou o 1º prêmio em desenho do Salão da Câmara Municipal de Porto Alegre, Alice Soares tem exposto freqüentemente, não só no Brasil ma também no exterior. Em 1976, o Instituto Cultural Brasileiro-Alemão homenageou-a com uma retrospectiva de sua obra. Esta é a 4ª mostra individual da artista, que anteriormente, expôs na Galeria Macunaíma (1963). Galeria Goeldi (1964) e Galeria IBEU (1969). A exposição de Alice Soares permanecerá aberta ao público de 13 a 31 de julho de 1982. Horário: das 10 às 22 horas, na Galeria Banerj, no Rio de Janeiro.

YEDA MARIA -A professora Yeda Maria, da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia e da Oficina do Museu de Arte Moderna, fará, de amanhã até o dia 15, no Museu de Arte Moderna, no Solar do Unhão, na Ladeira do Contorno, uma nova exposição. Nesta exposição, a professora Yeda Maria mostrará gravuras, pinturas e desenhos, cujo tema é a alimentação, além de destacar a realidade e a cor. Conhecida por ter trabalhos expostos em vários museus e galerias, a artista tem duas outras exposições programadas para este ano.