quarta-feira, 19 de setembro de 2012

ESTOU AGUARDANDO - 7 DE FEVEREIRO DE 1983.

JORNAL A TARDE, SEGUNDA-FEIRA, 07 DE FEVEREIRO DE 1983

               ESTOU AGUARDANDO

Estive afastado em gozo de férias. Ao chegar, fiquei sabendo das denúncias feitas por A TARDE do sumiço de centenas de peças do Museu de Arte da Bahia e também do Livro de Tombo do Museu de Arte Moderna. Não foi surpresa para mim, que venho acompanhando o descaso e a falta de profissionalismo que ocorrem em nossos museus. Ainda não estão ciosas as autoridades da necessidade de colocar pessoas nessas instituições que realmente estejam interessadas em preservar nossos bens culturais e divulgá-los através de exposições bem organizadas de seus acervos. Assim, passaram muito tempo os museus a meros depósitos de “velhos” e empoeirados objetos de arte em seus depósitos mal cuidados e inseguros. Fiquei sabendo, que muitas peças estavam emprestadas. Empréstimos que duram anos e anos. Assim os museus baianos ficam desfalcados e as peças terminam por ganhar outro destino. Uma lástima! Uma postura que merece ser criticada em todos os níveis. Este comentário não é tardio. Não é, porque sempre será oportuno falar da falta de profissionalismo, Falar da falta de atenção para o bem público que pertence a todos nós. Houve omissão generalizada em todos os níveis, inclusive nas várias administrações que se sucederam desde a criação da Fundação Cultural. Não posso entrar no mérito porque fulano saiu ou deixou de sair do órgão. O que sei é que medidas eficazes não foram tomadas a nível de Secretária de Educação ou mesmo de Governo. E, sinceramente não acredito que medidas saneadoras sejam tomadas e que os responsáveis sofram qualquer punição. Espero, no entanto que pelo menos sejam adotadas as mínimas providências para que todas as peças que ainda estão por aí fiquem catalogadas em seus respectivos livros de Tombo, até que as pessoas criteriosas resolvam de uma vez por todas com estes problemas que enegrecem e desfalcam o patrimônio cultural da Bahia.
Sei que os museus sempre cedem sob empréstimo peças a outros museus em casos especiais. Mas tudo é feito dentro de contratos rígidos, com segurança, com prazos estabelecidos e que são obedecidos e estão sujeitos a punições em casos de não cumprimento de determinadas cláusulas.
Agora, emprestar e esquecer-se de devolver, e principalmente de cobrar, é realmente uma coisa lamentável.
Lembro agora que certa vez estive no Museu de Arte Moderna e encontrei o seu acervo encaixotado, embolorado e na oportunidade denunciei o descaso mostrado que o salitre, que invade o prédio do Solar do Unhão, estava destruindo as telas de Portinari, Tarsila, Di Cavalcanti e muitas outras.
Soube que arranjaram um local mais apropriado para o acervo.
Tomara que seja verdade. O que posso dizer é que sou persistente e continuarei cobrando uma providência, aliás estou aguardando...

                150 ANOS DA INDÚSTRIA BAIANA

Será, inaugurada hoje, ás 17h, no Arquivo Público do estado antigo prédio da Quinta do Tanque a exposição “Bahia 150 Anos de Indústria”. A mostra expressa uma visão geral do processo industrial na Bahia a partir da instalação das primeiras grandes fábricas, como a Santo Amaro do Queimado, Nossa Senhora da Conceição (Salvador) e a Todos os Santos, em Valença, apresentando marcas de produtos de grande valor artístico e histórico, que refletem costumes e mentalidade da época.
Em exposição, reproduções fotográficas de documentos antigos e marcas de produtos como charutos, tecidos, bebidas e outros fabricados no Estado, que se encontravam em livros de registro do final do século passado e início do atual: acervos fotográficos antigos de fábricas como a Empório Industrial do Norte, Cia. Leite Alves, Dannemann, Suerdieck, ao lado de fotos atuais.
A mostra é uma produção conjunta da Fundação Cultural do Estado da Bahia, Arquivo Público e Secretária da Indústria e Comércio, ficando aberta para visitação durante todo o mês de fevereiro.

         120 OBRAS DE ARTE SERÃO LEILOADAS

Cento e vinte obras de artistas contemporâneos nacionais e autênticos tapetes orientais vão a leilão no próximo dia 9, quarta-feira, a partir das 21 horas, no Salão Monte Pascoal do Salvador Praia Hotel. O leilão será presidido por Noelina G. Lacerda, leiloeira pública oficial, tendo Luiz Caetano S. Queiroz como preposto em exercício. Segundo Luiz Caetano, esta é uma promoção pioneira em Salvador e a primeira de uma série que pretende realizar por todo este ano.
Nas grandes cidades do mundo, grandes leilões de obras de arte são acontecimentos rotineiros. Há excelentes mercados consumidores e a lei da oferta e da demanda funciona plenamente. Salvador, contudo, apesar de desenvolvida não tem ainda um público consumidor constante, pois o baiano não tem ainda o hábito de participar de leilões. É necessário que ele seja estimulado para isso.
“Aí é que está o grande problema”, afirma Luiz Caetano. “Como fazer com que o baiano passe a freqüentar leilões, a participar deles? Talvez o seu não comparecimento tenha, como motivo, a imagem errada que se criou em torno de leilões, principalmente quanto ao valor dos lances. Valor inacessível ao poder aquisitivo do consumidor de arte em potencial da classe média”. Tem contribuído demais para isso os filmes que passam na televisão, mostrando acontecimentos leiloeiros. Neles, os lances são excessivamente altos, acessíveis apenas para as pessoas com posses.
É preciso dar um fim a essa imagem falsa: o leilão é uma atividade democratizada e coloca uma obra de arte ao alcance de qualquer pessoa.
Nesse grande leilão do dia 9, estarão presentes obras de artistas bastante conhecidos dos baianos, alguns até internacionalmente conhecidos, como: Scliar, Rapoport, Francisco Oswald, Bustamante Sá, José Paulo Moreira da Fonseca, Dacosta, Jenner Augusto, Volpi, Fernando Coelho, Carybé, Rescála, Tati Moreno, Floriano Teixeira, Calasans Neto, José Maria de Souza, Carlos Bastos, Heitor dos Prazeres, Mirabeau Sampaio,  Fred Shaeppi, Scaldaferri, Leonardo Alencar, José de Dome, Emanuel Araújo, Mário Cravo, Yeda Maria, Itamar Espinheira e Dupaty.

O ESCULTOR HENRI MOORE TEM EXPOSIÇÃO NO MÉXICO


“Henry Moore no México” é o nome da mostra desse artista inglês ( Foto ao lado) que ofereceu a todos nós, exuberância de formas cores, texturas e reminiscências da arte Maia em 145 esculturas, 88 desenhos e 46 gravuras admirados por 225 mil pessoas durante três meses no Museu de Arte Moderna.
A exposição significa para os mexicanos um reencontro com o passado pré-cortesiano, pois este artista, de 84 anos, sofreu uma extraordinária influência da arte maia assim como da escultura mexicana monumental da época moderna. No México, Henry Moore é considerado como o maior escultor vivo do mundo, possuidor de uma hierarquia estética à altura do francês Auguste Rodin.
Coube ao artista inglês o privilégio de mostrar sua obra num dos mais importantes espaços culturais do país. O Museu de Arte Moderna localiza-se no Bosque de Chapultepec, oferecendo aos visitantes, além de peças em exibição, maravilhosa paisagem.
A mostra de Moore, patrocinada pelo Conselho Britânico, pela Fundação Henry Moore e por ele próprio, chama a atenção pois em todas as esculturas apresentadas em posição reclinada, é possível contemplar, de forma estilizada ou direta, evocações do artista relacionadas com a figura maia “Chac-Mool”, que significa “jaguar vermelho”.
Uma das características do Chac-mool, peça esculpida em pedra e existente na zona arqueológica de Uxmal, no sudeste do México e que tal obra aparece deitada, não de lado mais de costa com a cabeça voltada para um lado.
Suas linhas estéticas são a inspiração de Moore. Porém, isso não significa imitação mais sim reconhecimento e aceitação de uma escola estética que não se esgotou com o desaparecimento da civilização maia.
O escultor inglês comentou que a escultura mexicana lhe pareceu autêntica assim que a descobri, talvez porque imediatamente encontrei nela semelhanças com alguns entalhes do século XI que vi nas igrejas de Yorkshire”.
Para Moore, a escultora mexicana possui uma grande “qualidade pétrea”, fidelidade aos materiais e espantosa variedade nas formas, não sendo superada “por nenhum outro período de escultura em pedra”.
A exposição vista no México confirma o pensamento de Henry Moore de que “uma escultura deve ter vida própria” e que ao invés de oferecer a impressão de “um objeto menor talhado a partir de um bloco maior, deve levar o espectador a sentir o que vê, deve contar dentro de si sua própria energia orgânica, abrindo-se para fora.”

          RAIMUNDO OLIVEIRA TEM UM LIVRO

“Senta-te aqui ao meu lado, Raimundo, e vou te contar dos acontecimentos depois que puseste as asas da morte e partiste para teu céu de pureza e paz”, Assim escreveu Jorge Amado, um dos grandes amigos de Raimundo Oliveira. E na última sexta-feira, no Museu de Arte da Bahia, na Vitória, a Fundação Cultural do Estado da Bahia lançou a Via Crucis de Raimundo de Oliveira, um livro que reúne uma grande parte dos trabalhos do artista e dados biográficos da sua vida. Na apresentação, as palavras do governador Antônio Carlos Magalhães: “A Bahia possui notável tradição cultural, perpetuada, ao longo de séculos, pelos seus poetas, pensadores, ensaístas, escritores, pintores, músicos e escultores, homens que foram e são responsáveis pela grandeza e riqueza do panorama intelectual e artístico do Brasil e fora dele. Hoje, como já o fizemos em outras ocasiões, presenteamos o público brasileiro com um livro sobre a vida e o talento de Raimundo de Oliveira, um pujante exemplo da cultura dessa terra privilegiada”.

TOURO- Raimundo Falcão de Oliveira nasceu em Feira de Santana, no dia 24 de abril de 1930, á meia-noite em ponto.Era do signo de Touro. Profundamente religioso, era visto sempre nas manhãs de domingo, ao lado de sua mãe, dona Santa, a caminho da igreja matriz. Entravam pelo portão da frente. Estava sempre vestido de preto (de paletó e gravata).
Tinha a cabeça grande e o olhar tranqüilo, como se estivesse sempre conversando com a solidão. E pintava o que estava dentro e fora dela: aos anjos, os santos, as casas de Jerusalém, as frutas de feira de Santana e os deuses.
Um dia deixou a cidade onde surgiu e foi pintar no Rio de Janeiro e São Paulo. Mas voltou e foi outra vez e voltou. E confessou a um amigo: “Enquanto lá estive não pintei um único quadro. Vivi esses meses na boemia”. Era 1966, janeiro.Em um quarto do Hotel São Bento tragou a vida e pintou seu último quadro: a sua existência.

DOCUMENTO- Hoje, 17 anos depois, é feito um documento vivo. Dentro dele como num baralho da cartomante, a vida corre solta delineada nas palavras escritas pelos amigos, como Jorge Amado: “ ... Esse pintor, esse grande pintor da Bíblia e da Bahia, esse que passou a limpo, a violência e o tornou de maciez e veludo, esse que encheu de flores a áspera antiga, digo, tragédia antiga, esse moço de voz tímida e segura certeza, esse Raimundo de Oliveira é um profeta com alma de Francisco de Assis. Sá a Bahia o podia produzir, nos caminhos da cidade onde nasce o sertão: Só a Bahia o podia alimentar e oferecer às galerias do Sul, à glória e a fama, pois sua Bíblia tem uma respiração de candomblé (não Fosse ele filho de Mãe Senhora do Opô Afonjá) e não houvesse aprendido cozinhar com Olga de Alaketo). O profeta Raimundo, o grande da pintura brasileira, carregado de drama, de solidão e de pecado, é, no entanto, o mais alegre e terno, o mais puro e numeroso, jamais sozinho, pois sua palavra é de solidariedade e na sua mensagem é o maior entre os seres humanos, é a alegria fluindo dos pincéis e de seu coração. É o profeta de Feira de Santana, lá vem montado em seu jumento e vai levar sua carga de amor aos confins do mundo.
“A Via Crucis de Raimundo de Oliveira” tem projeto editorial de Emanuel Araújo, editoração de textos de Claudius Portugal e Myriam Fraga, trabalho de realização de Zilah Costa Azevedo. O preço de lançamento é CR$ 10.000,00