sexta-feira, 28 de setembro de 2012

OS ORIXÁS DE TATTI MORENO FORAM DANÇAR EM BRASÍLIA - 20 DE JUNHO DE 1983.

JORNAL A TARDE SALVADOR TERÇA-FEIRA, 20 DE JUNHO DE 1983.

OS ORIXÁS DE TATTI MORENO FORAM DANÇAR 
EM BRASÍLIA


O escultor Tatti Moreno não poderia escolher uma época melhor para levar seus orixás para a capital federal.Quando os boatos agourentos ganham os imensos espaços do Planalto Central chegam ao Sul e ao Nordeste do país, somente a força dos Orixás pode afastar ou anular os apóstolos da desgraça.
Recentemente entrevistando um velho carranqueiro do São Francisco, ele disse que ao fazer uma carranca, que é a representação do demônio, tem o cuidado para não ser surpreendido pelo diabo. Uma crença que herdou de seus ancestrais, como também acontece com a maioria das pessoas que cultua os deuses africanos. Assim, uma simples escultura em bronze de um Orixá, ganha força de misticismo porque atrás de sua imagem, existe toda uma herança cultural religiosa e uma gama de seguidores convictos e fervorosos.
A postura dos Orixás, que foram agrupados para a fotografia da capa do catálogo, nos lembra um flagrante de um terreiro de candomblé, quando os Orixás baixam para a felicidade dos pobres mortais desta terra. É um encontro celestial entre vivos e mortos, homens e deuses que encarnam seus espíritos fazendo as pessoas cair, roda e se bater contra o solo. Uma manifestação de fé.
Portanto, mesmo que o artista esteja imune a própria relação objeto-religião, pessoas que olham suas esculturas representando os Orixás, não estão centenas e centenas de outras pessoas  que olham suas esculturas representando os Orixás.
E, utilizando latão, ele vai armando o seu mundo místico unindo os pedaços deste metal de cor dourada com pontos de solda elétrica. Um trabalho tão significativo, como dos verdadeiros artesãos que o antecederam nesta tarefa de cultuar os deuses da África negra. Seu trabalho é como a prece de um crédulo.
Com as palavras de suas orações vai alinhando pensamentos, pedidos e agradecimentos. Só que Tatti dá um sentido mais concreto, quando retorce, corta, fura e bate a folha do latão e vai juntando os pedaços, até a encarnação de seu Orixá.
São esses Orixás de latão, cobre e ferro que deixaram Salvador e voaram para Brasília, local próprio para exercer a proteção sobre este país, que mais parece um porta-aviões à deriva. Aproveitando os grandes espaços de Brasília que são tão escassos em nossa Bahia, eles vão dançar e cantar para afastar os perigos que nos rondam. A exposição será aberta no dia 21 e permanecerá até 30 de junho no Saint Paul Park Hotel.

     VESTINDO A ARTE DE MARIA ADAIR

 A idéia surgiu de um trabalho de arte integrada que Maria Adair apresentou os Estados Unidos, sobre o qual já falei alguns meses atrás. O trabalho inicial foi montado no Museu de Arte de Iowa. Slides de suas pinturas foram projetados em cima dos corpos de dançarinos. Aí ela sentiu que suas formas em jatos de luz vestiam as pessoas. Um passo à frente e resolveu pintar com o objetivo de vestir as pessoas. Tudo isto será mostrado na Livraria Corrupio, através de uma coreografia especialmente preparada por Beth Grebler com seu corpo de baile: Lily Graça, Ana Nossa, Telma Almeida, Simone, Beto de Souza e Nem. Os dançarinos maquilados pelo aerógrafo de Poló.
A baiana Maria Adair retornou ao Brasil em janeiro, deste ano, depois de estudar e realizar algumas exposições nos Estados Unidos. Sua arte traz em seu bojo a vitalidade e o palpitar dos órgãos que formam o próprio corpo humano, esta máquina fantástica e inimitável. É a natureza toda a fundamentação do seu trabalho artístico tanto no campo animal, como no campo vegetal. São as estruturas que normalmente não vemos porque estão cobertas pela pele ou pela casca. Realmente se você se detiver diante de uma tela de Maria Adair certamente ficará emocionado com a trama que ele cria e derrama com cores fortes, suaves e linhas sinuosas.
É como quisesse revelar o íntimo das pessoas e das plantas através uma radiografia, possibilitando uma total nudez e dissecação da matéria. Tudo isto brota de uma instantaneidade invulgar, que somente as pessoas mais chegadas à artista podem realmente avaliar a sua capacidade expressiva.

PERDEMOS A FORÇA DE HANSEN E, AGORA, 
A DOÇURA DE ILSE
“Nesta casa encontrareis a alegria de viver e o humanismo, a paz e o trabalho criador, a doçura de Ilse e a força de Hansen, o amor da Bahia”. Estas palavras de Jorge Amado são suficientes para a gente sentir quanto à Bahia perdeu com o desaparecimento da força de Hansen e da doçura de Ilse. Tudo começou, quando Hansen partiu. Lembro-me da última vez que o vi, em São Félix no leito, com parte do corpo envolto numa grossa colcha de lã quadriculada a levantar-se várias vezes, para dar ordens aos operários que trabalhavam na construção de uma piscina na sua nova casa.
Ao lado, a esposa querida. A ex-aluna que captou o seu trabalho forte, belo e sensual. A esposa-aluna que durante dias e noites soube compartilhar os seus sentimentos e a grandeza na hora do sofrimento deste artista que viveu para a arte. Hansen dormia e vivia pensando em suas gravuras, em suas novas publicações. Usou toda a força interior que lhe restava para a construção de uma obra, que ainda será reconhecida com muito mais intensidade. Vejo a sua obra como que guardada para um momento maior de explosão e reconhecimento em todos os recantos.
Desta união da força e da doçura nasceu exatamente esta dupla de artistas que encantava os amigos com suas conversas alegres, descontraídas e sinceras.
Lembro também de sua casa que construiu com tanto zelo em Salvador, com trabalhos seus e de amigos incrustados nas paredes, lembro principalmente de sua inquietação com a chegada dos tratores barulhentos a destruir o coqueiral que descortinava de sua casa-atelier. Ficava nervoso. Quando por várias vezes lá estive, desabafava e prometia mudar. Eu não acreditava, tal o zelo com que construíra a sua casa. Parecia que estava ali assentado para o resto da vida. Qual foi minha surpresa quando comprou a Fazenda Santa Bárbara, fora do centro de São Félix e lá começou a erguer sua última casa. E, Ilse numa das poucas entrevistas que deu, dizia “que ele procurava a Bahia de 1950, que veio encontrar aqui”. Foi exatamente lá que os dois vieram a falecer num ambiente da Bahia dos anos 50.
Partiram daquele alto descortinado o Paraguaçu descendo vagarosamente, batendo suas águas nas pedras e nas barrancas em busca do mar. Muitos dos painéis que projetou para a sua nova morada nem chegaram a ser concluídos.
Estão lá, intactos à espera que alguém se interesse em promover uma campanha para que possam continuar a envaidecer todos aqueles que gostam de obras de arte. A casa está lá, desprovida da força de Hansen e da doçura de Ilse.
Gostaria de ter escrito antes sobre estes dois amigos que partiram. Aliás, sobre Hansen escrevi uma página neste jornal na época da sua morte. Porém, estive viajando. Mas nunca é tarde para falar de amigos, principalmente de amigos sensíveis e criadores.

FOTÓGRAFOS BAIANOS REUNIDOS NA FOTOBAHIA, 
NO DIA 15 DE AGOSTO

Os fotógrafos profissionais e amadores podem participar da Fotobahia 83, de 15 de agosto a 4 de setembro, no Foyer do Teatro Castro Alves. O tema é “Bahia”, em seus diversos aspectos sociais, econômicos e culturais. A produção é do Grupo de Fotógrafos da Bahia que, paralelo à exposição, também vai promover a “Mostra de Audiovisuais” e o “4º Encontros de Fotógrafos da Bahia”, de 1º a 4 de setembro, com participação de debatedores famosos nacionalmente, como Luiz Humberto, de Brasília; Pedro Vasquez, do Rio de Janeiro; Nair Benedito e Ricardo Malta, de São Paulo.
Os fotógrafos baianos interessados em participar da “Fotobahia 83” devem entregar suas fotos e fazer suas inscrições até o dia 15 de julho. Só serão aceitas cinco fotos, no máximo, que não devem ser montadas e que tenham mínimo de 18x24 e o máximo de 30x40.Além das fotos para exposição, cada fotógrafo deve reservar todos extras para o catálogo e divulgação do evento.
A “Mostra de Audiovisuais” é um novo espaço para apresentação de trabalhos em linguagem audiovisual e /ou slides.. E o” 4° Econtro de Fotógrafos da Bahia”, além dos debates com profissionais importantes do país que discutirão questões como “ O Fotógrafo Como Autor”, “Cultura e Fotografia”, “Fotojornalismo” e “Eexercício da Profissão e Formas de Organização”- será uma oportunidade de avaliação e desenvolvimento da arte de fotografar aqui na Bahia. A propósito, os fotógrafos baianos elaboraram este documento dirigido à Fundação Cultural.Vejamos:
“O Grupo de Fotógrafos da Bahia, representados pelos abaixo-assinados, é uma entidade particular que, há cinco anos, vem realizando e produzindo a principal exposição fotográfica do estado, a Fotobahia, cuja importância e valor são reconhecidos nacionalmente, tanto que tem participado de vários eventos culturais como 32ª Reunião da SBPG, 1960, no Rio de Janeiro, 33ª. Reunião de SBPG, 1981, em Salvador, 1ª Semana da Fotografia realizada pelo Núcleo de Fotografia/Funarte, em 1982 no Rio de Janeiro, Feira da Cultura Brasileira, 1983, em São Paulo.
Paralelamente à divulgação da Fotografia Baiana, o GFB vem assumindo a luta pelos direitos dos Fotógrafos (Direitos Autorais e Regulamentação da Profissão), bem como a discussão do papel da fotografia na nossa comunidade e no nosso tempo.
Assim sendo, nos sentimos no direito e no dever de apresentar as seguintes considerações e solicitações:
1º- A produção fotográfica da Bahia é reconhecida como expressiva, nacional e internacionalmente. Nesta produção está incluída toda a atividade fotográfica desde a dos fotógrafos que aqui se instalarem, no fim do século passado.
2º- Existe na Bahia um grande acervo de fotografias que vem desde o século passado, que cobrem todo este tempo, e estão esquecidas e se perdendo em vários arquivos públicos e particulares, sem os necessários cuidados da conservação nem de divulgação, correndo sério perigo de desaparecimento. E a fotografia tem um sério papel na conservação da Memória Nacional.
3º- Existem importantes projetos fotográficos nas áreas de artes plásticas, educação, Linguagem Fotográfica, Documentação etc., que não podem ser realizados por absoluta falta de apoio.Outros estão em andamento, graças a recursos particulares ou a apoio de entidades de fora do estado.
4º- fotografia é uma linguagem nova (tem só 160 anos). Rica, complexa, com características e problemas particulares é o espelho da nossa sociedade e tem poderes de influir sobre ela. E o fotógrafo é o produtor e autor desta linguagem.
5º- Não tem existido até o momento, por parte da Fundação Cultural da Bahia, uma política cultural específica, elaborada a partir do encontro com os fotógrafos, que cuida da fotografia no que tange a produção, circulação e conservação, enquanto bem cultural.
Assim, solicitamos na Fundação Cultural da Bahia a realização de um seminário, que englobando todos os ramos da produção fotográfica, possa tornar claros os caminhos a seguir para incentivar e cuidar a nossa fotografia.
Para tanto o Grupo de Fotógrafos da Bahia se coloca à disposição da Fundação Cultural para discussão e realização desta proposta.
Certos do atendimento, cordialmente, pelo GFB:Rino Marconi, Aristides Alves e Adenor Queiroz Gondim.