sábado, 22 de setembro de 2012

A MULTIDÃO É A TEMÁTICA DO BAIANO JOSÉ SABÓIA - 21 DE MARÇO DE 1983.

JORNAL A TARDE SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 21 DE MARÇO DE 1983

A MULTIDÃO É A TEMÁTICA DO BAIANO JOSÉ SABÓIA


Entre os pintores de temática popular brasileira, José Sabóia é, sem dúvida, um dos mais originais, com boa receptividade entre colecionadores e a crítica de arte. Nascido em Almadina, Bahia, em 1945, chegou ao Rio de Janeiro no final da década de 60, aqui iniciando-se autodidaticamente na pintura. Com dez exposições coletivas, inclusive temáticas, como “Futebol/Interpretações”, na Galeria de Arte Banerj e “Universo do Futebol”, na Galeria de Arte Acervo, ambas em 1982. Os agrupamentos humanos, nas colheitas, nos campos de futebol, nas festanças interioranas estão sempre em suas telas de irresistível empatia pelo toque de brasilidade que delas se desprende.
Começou a pintar com 20 anos mais ou menos, porque gostava de pintar.
Depois foi para Feira Hippie, em Ipanema, e deu certo. Não teve, portanto uma vocação definida desde criança para a pintura, que só aconteceu posteriormente.
Por ser autodidata e não ter recursos técnicos, começou a pintar á maneira primitiva, utilizando aqueles motivos que lhe eram mais afins, que via através de reproduções e pintores que apareciam em Ilhéus.
A Galeria de Arte Banerj está apresentando uma exposição individual de pinturas de temática popular de José Sabóia. Baiano de nascimento, radicado no Rio de Janeiro, começou a participar de salões e exposições coletivas em 1969, em Fortaleza, Ceará.
Em 1973, fez sua primeira exposição individual no Rio de Janeiro, na extinta Galeria Grupo-B, seguindo-se outras mostras em São Paulo e Campinas. Recentemente, um quadro de sua autoria foi adquirido para o acervo do Museu da Arte Brasileira, da Fundação Armando Alvarus Penteado, de São Paulo.

A multidão tem sido a temática principal do artista, seja nos campos de lavouras interioranas, principalmente do sul da Bahia, seja da paisagem urbana, representada pelos torcedores dos grandes estádios de futebol.
“Normalmente sempre estou em multidão”, explica o artista, afirmando:“Gosto de escola de samba, de futebol.
Tenho essa identificação então pinto o que conheço. Por isso falo das florestas, porque são bonitas, é uma parte, para mim, decorativa. (...) A massa é igual.
Junto, todo mundo é igual. Na massa você vê se é branca ou preta, você é igual.
Para Geraldo Edson de Andrade, na apresentação de sua mostra, “a paisagem humana dos nossos estádios, representada por entusiasmados torcedores, é o enfoque de José Sabóia nesta sua exposição individual, a11ª de sua carreira. Concentrando o seu interesse num único time de futebol, sintomaticamente o mais popular de todos, o Flamengo, o pintor baiano procura sintetizar formas e cores com expressividade feérica. Plasticamente bonitas porquanto criações de um artista genuíno, as cenas flamenguistas de Sabóia formam, por outro lado, um amplo painel sociológico, estádio, torcedores, policiais, bandeiras desfraldadas de uma das demonstrações coletivas mais brasileiras. Nelas, o homem carioca e, por extensão, o homem brasileiro dá vazão à sua impulsiva criatividade no preto e no vermelho do seu clube-paixão”.

A exposição de José Sabóia ficará aberta ao público até o dia 09 de abril de 1983.
Seu primeiro quadro, era um perfil de Raimundo de Oliveira, porque ele era muito conhecido em sua terra. Me lembro que tinha saído uma reportagem sobre ele em “O Cruzeiro” e quando cheguei aqui fiz esse quadro, que levei para uma pessoa ver. Depois não fiz mais, confessa Sabóia.
Conta ainda o artista, nessa época da feira Hippie existia uma excitação geral pela pintura. O povo gostava de tudo, comprava tudo. Sorte minha e de muita gente. Quando você vende no início, dá um pique diferente; e, depois, as galerias impunham condições para trabalhar com artistas que estivessem fora da feira. A primeira vez levei uns trabalhos para a feira e vendi, na segunda vez vendi, então cada vez pintava mais para a feira. Então não dá; ia para trás em vez de ir para frente, ganha dinheiro mais não ganha. E a galeria é outra coisa, você mostra melhor; e eu tinha outras idéias, muita sorte também de sair e dar certo, porque podia ter saído e não ter dado. A feira, para mim, foi o que o salão é para muita gente, aquela excitação de você mandar, de ser cortado, então para mim era na feira, o contato com as pessoas também. O início da feira foi uma época muito bacana.
Ele começou a pintar o futebol quando o Cruzeiro foi campeão. Fez um trabalho enfocando o Cruzeiro. Depois outro do Internacional. E quando o Geraldo morreu, o Flamengo jogou com um calção preto, aí fez uma série, todos com o calção preto. Depois, de brincadeira, fazia sempre grupo de jogadores... Quando o Márcio Braga era candidato, tinha um outro candidato que era amigo de um amigo do artista, então fazia umas faixas contra o Márcio Braga, porque era aquele negócio “champagne e caviar no Flamengo dá azar”. “Então comecei a fazer... O Flamengo foi ganhando e eu fui mudando porque participava, ia sempre aos jogos. Então mudou completamente o sentido”.
“As melhores coisas que eu fiz foram em São Paulo, inclusive as exposições. No Rio não, foram mais ou menos.
Em São Paulo, as três últimas exposições eu acho que foram boas, tudo saiu bem. E aqui não. Não sei por que isso. E gosto também de São Paulo. É um prazer fazer exposições lá, ás vezes mais do que no Rio, porque o Rio para mim é a minha terra. São Paulo é para conquistar. Eu não tinha segurança de fazer no Rio uma exposição enfocando somente o Flamengo. Aguardemos que o baiano Sabóia seja convidado para expor em Salvador.
A ARTE CONTEMPORÂNEA DA ESPANHA 
NO SOLAR DO UNHÃO

Uma oportunidade ímpar para os jovens e a comunidade espanhola é esta mostra que será realizada no Museu de Arte Moderna da Bahia (Solar de Unhão), nesta quinta-feira, dia 24, abertura à 21h, da “Gráfica Española Contemporânea”, que reúne obras de dezenas de artistas representantes de diversas tendências pictóricas espanholas. Promoção conjunta do Museu de Arte moderna da Bahia e o Consulado Espanhol em Salvador.
“Gráfica Española Contemporânea” reúne nomes conhecidos das artes plásticas espanholas, como Genovês, um dos mais importantes, Agustín Ubeda, com exposições em cidades como: Paris, Madri, Montreal e Japão, Rafael Canogar, premiado nas bienais de São Paulo e Veneza, Eduado Chillida, conhecido por seus trabalhos em escultura, Joan Miro, considerado um dos três melhores artistas espanhóis e um dos grandes mestres da arte do século XX, e Antônio Saura, primeiro prêmio de pintura na Exposição Internacional de Pittsburgo em 64.
Ao lado obra do espanhol M. Gudiol integrante da Gráfica Espanhola Contemporânea.
Panorama- esta exposição é organizada pela direção geral das relações culturais do Ministério de Assuntos Exteriores da Espanha com a idéia de mostrar um panorama amplo sobre a gravura espanhola contemporânea. Na exposição, “alguns dos variados e excelentes trabalhos realizados por artistas espanhóis com os mais diversos procedimentos: água-forte, litografia, serigrafia...”
O diretor do Museu de Arte Moderna, Chico Liberato, falou da oportunidade da comunidade baiana ver esta exposição, pela colocação da expressão plástica espanhola dentro do contexto universal. Ele ressalta a contribuição espanhola para as artes plásticas em todos os tempos.
“Podemos citar artistas como Tapies, Genovês, Canogar, Tharrats, que deram uma contribuição direta ás artes plásticas no Brasil, na década de 60, no início da corrente do Neo-realismo, Realismo Crítico e Nova Figuração”. “Além disso, prosseguiu, esta exposição, por trazer uma experiência em gravura ( a partir do grande mestre Goya até a gravura contemporânea) traz uma importância muita grande para a comunidade baiana por trazer diferentes obras usando várias técnicas em gravura”.
“Gráfica Española Contemporânea” começou no Brasil, em Brasília e depois, de salvador seguirá para Recife e Fortaleza, possivelmente indo depois para outras cidades da América Latina. No Museu de Arte Moderna da Bahia fica até 31, com visitas de terça a sexta das 11 às 17h e aos sábados, domingos e feriados das 14 às 17h.

                  DOIS TRABALHOS DOCUMENTAM AS ARTES

Dois trabalhos de documentação das artes plásticas brasileiras, um no Estado do Mato Grosso do Sul e outro em Pernambuco, estão sendo realizados por críticos e artistas daqueles estados com o apoio do Instituto nacional de artes plásticas da Funarte, inseridos no Projeto Levantamento de Produção das regiões, que o INAP implantará durante o ano de 83.
“Historiografia das Artes Plásticas de Pernambuco” e “Artes Plásticas em Mato Grosso do Sul são as pesquisas que estão sendo realizadas respectivamente sob a coordenação do pintor pernambucano José Cláudio Silva e da crítica e pesquisadora mato-grossense Aline Figueiredo. Os trabalhos serão editados, logo que forem concluídos, enriquecendo a bibliografia das artes plásticas no Brasil.
O homem de Pernambuco, seus costumes, a paisagem de Olinda, de Itamaracá, do Recife e de outros sítios pernambucanos sempre foram registrados pelos artistas plásticos que percorrem aquela região desde o século XVI. Para o artista plástico José Cláudio, “Pernambuco é um dos estados brasileiros cuja iconografia constitui, por sua qualidade e riqueza documental, um dos troncos da produção artística brasileira”.
“Artes Plásticas em Mato Grosso do Sul”, por uma visualidade mato-grossense é um levantamento sistemático das artes plásticas de Mato Grosso do Sul. Para a coordenadora da pesquisa, a crítica e pesquisadora Aline Figueiredo, “Mato Grosso tem uma necessidade imperiosa de definir os seus valores culturais. Esse trabalho, além de estimular o estudo da memória plástica do estado, servirá para colaborar para o estudo e reflexão da sua história, contribuindo para a afirmação de uma identidade cultural sul-mato-grossense, a visualidade, bem como para a conscientização desse valor cultural”.
Mato Grosso conta apenas com um livro de informação bibliográfica e iconográfica de suas artes visuais, “Artes Plástica no Centro-Oeste”, de Aline Figueiredo, realizado com o apoio do INAP/Funarte. Devido a essa carência bibliográfica, as pesquisas serão feitas diretamente nas fontes, na base da oralidade.