sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A DIVULGAÇÃO AJUDA A REFREAR A REPRESSÃO - 29 DE AGOSTO DE 1983.

JORNAL A TARDE SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 29 DE AGOSTO DE 1983.

DIVULGAÇÃO AJUDA  REFREAR A REPRESSÃO NA RÚSSIA

Declarou um artista russo exilado, que os meios de comunicação do Ocidente poderiam promover a respeitabilidade dos artistas soviéticos e reduzir as perseguições oficiais ou a prisão desses artistas na União Soviética.
“É por esse motivo que realizamos esta exposição, ela ajuda os artistas na Rússia”, disse Michael Chemiakin, diante de um quadro intitulado “Composição Metafísica”, durante uma mostra de “arte soviética não-oficial”, no Capitólio dos Estados Unidos.
Chemiakin, de 40 anos, é um dos 47 artistas soviéticos cujas obras foram expostas recentemente, no Capitólio. Dezenove dos artistas representados na mostra continuam na União Soviética, mas nenhum deles é considerado “oficial” porque preferiram não sentir o dogma oficial de “realismo social” determinado pelas autoridades soviéticas.
A mostra é co-patrocinada pelo representante Tom Lantos, democrata pela Califórnia, que lutou contra os nazistas em seu país de origem, a Hungria, durante a Segunda Guerra Mundial, e por Alexander Glezer, diretor do Museu de Arte Russa Contemporânea no Exílio, em Jersey City, no Estado de Nova Jersey.”Mesmo muito tempo depois de Yuri Andropov ter sido relegado ao lixo da história”, disse Lantos na inauguração da mostra,” o espírito livre dos homens e mulheres na União Soviética manifestar-se-á na poesia, música e pintura”.
Chemiakin disse que foi expulso da União Soviética, em 1971, por causa da sua obra não-conformista. Filho de um general do Exército, Chemiakin foi aceito na Escola de Pintura Repine, de Leningrado, aos 14 anos de idade, mas foi expulso, dois anos depois, disse ele, “porque fui considerado muito burguês”. Após sua expulsão da escola de arte, , foram-lhe atribuídas funções subalternas, tais como as de lixeiro, faxineiro e gari. Apesar de tudo, prosseguiu com sua arte. Em virtude de suas funções no Museu Hermitage, onde era uma espécie de pau-para-toda-obra, convenceu o diretor da entidade a permitir-lhe que expusesse seus trabalhos artísticos, em 1964. A exposição foi fechada pelas autoridades três dias depois, e o diretor foi despedido, disse Chemiakin.
Chemiakin disse que, aos 27 anos, foi confinado em um hospício, em Lenigrado, onde o amarraram a uma mesa e fizeram incidir sobre ele fachos de luzes coloridas, enquanto fones presos a seus ouvidos bradavam propaganda. Após sua libertação, prosseguiu em sua obra artística. Durante uma entrevista, por ocasião da mostra, Chemiakin ressaltou que não se considera um dissidente político, mas um artista em busca de auto-expressão.
“A arte para os comunistas é parte de sua propaganda Ideológica”, acrescentou  que, sob o regime de Andropov, a situação dos artistas n União Soviética é pior do que no tempo de Brejnev.
Solicitado a dar um exemplo de como a publicidade ocidental pode ajudar os artistas soviéticos, Chemiakin narrou o caso do caricaturista Vyacheslav Sysoyev, que foi preso, em fevereiro, e condenado, em maio, a dois anos de trabalhos forçados.
Por causa da cobertura dispensada, ao caso na Europa e Estados Unidos, disse Chemiakin, a sentença foi de, apenas, dois anos, e não os costumeiros sete a 10 anos.

UMA EXPOSIÇÃO HOMENAGEIA  SURREALISTA MAX ERNST

Acaba de ser inaugurada na “Cote d’Azur” francesa uma exposição do “mago do surrealismo”, Max Ernst (1891-1976), revelando à “realidade interior do irracional” que esse grande artista procurava sem cessar, autoqualificando-se de “plástico e escritor de origem alemã e expressão francesa”.
Durante três meses, a Fundação Maeght, de Saint-Paul de Vence (Sul da França) mostrara ao público 160 pinturas, esculturas e colagens de Max Ernst, cedidos por museus franceses e estrangeiros, o de Arte Moderna de Nova Iorque; o Stedelljk,de Amsterdã; o de Dusseidorf; o Centro Georges Pompidou de Paris, e por importantes coleções particulares.
A exposição, concebida com um propósito cronológico, apresenta produções de Ernst que aparecem como marcos da obra total do artista, dentre as quais se destacam “Edipus Rex, “Horde”, Lo’Plop Superieur dês Oiseaux. Esses trabalhos lembram que, contrariamente ao que acontecia com outros surrealistas, Max Ernst questionou com seriedade e aplicação as profundezas do subconsciente humano.
Ernts nasceu em Bruhl, Renânia, na Alemanha, em 1891, e foi não somente pintor e escultor, mas também escritor. Sobre esta última “qualificação vocacional”, uma vez que se negava a mencionar o termo “profissional” em seus escritos e declarações, gostava de ser considerado “também como um escritor francês de origem alemã”.
Seus primeiros estudos foram orientando para a Psicologia, Filosofia e História da Arte, e não tardou em interessar-se pela Literatura, especialmente pelos românticos alemães Holderling e Novalis. Enquanto no domínio filosófico Friedrich Nietzchs exercia uma considerável influência sobre o artista, no campo da Psicologia era atraído pelas obras de Freud, cuja leitura foi de grande utilidade para seus trabalhos de indagação do subconsciente através da expressão plástica.
Desde 1910, isto é, com apenas 19 anos, Max Ernst entregou-se de corpo e alma à pintura, o que o levou a fazer amizade com seu compatriota August Macke (1887-1914). Depois de realizar telas expressionistas, ficou fascinado pela obra de Georgio de Chirico.
Em 1919, juntamente com Vaargeld, fundou o Movimento Dadaísta de Colônia, Alemanha. Foi a grande época “impugnadora” de Max Ernst que surpreendeu o mundo com suas colagens irreverentes.
Em 1925 descobriu o “Frottement” (papel colado nos vãos dos pisos de madeira e, posteriormente, em diversas superfícies), e utilizou também outros procedimentos semi-automáticos.
Em 1941, Ernst emigrou para os Estados Unidos, onde trabalhou no Arizona, regressando à França em 1954.
Ernst realizou uma obra no mesmo tempo, visionária e cheia de humor, com uma rara diversificação estilística e técnica, que vai do realismo prolixo e voluntariamente neutro até a procura da plástica, de linhas estilizadas e de cores, especialmente em suas paisagens “cósmicas”, onde aparece a obsessão do círculo e que, às vezes, chegam aos limites da abstração.
O artista realizou também uma importante obra de escultura, onde se destaca o imponente “Le Carpicorne” (1948). Foi assim que graças a uma obra que ele mesmo, “fora da pintura”, conseguiu ampliar o campo destinado até então à expressão plástica. Ele morreu em 1976 aos 85 anos de idade.

ESTÁ AMEAÇADA DE ACABAR A GIBITECA DE CURITIBA

Depois de reunir um número significativo de revistas em quadrinhos e humor do Brasil e do exterior e fundar a Gibiteca, Maria Lúcia Darcanchy foi afastada do cargo pela Fundação Cultural de Curitiba.
Parece até que os paranaenses andam copiando um pouco da incompetência, que tanto nos aflige em alguns órgãos encarregados de nossa cultura.
Por considerar importante esta iniciativa, que não pertence somente a Curitiba, mas a todos aqueles que gostam do humor e das histórias em quadrinhos deixo o desabafo de Paulo Serra, cartunista baiano e trechos do artigo escrito por Aramis Milarch, no Estado do Paraná.
Diz Serra. “Quando estive em Curitiba, em abril, conheci um trabalho ímpar e pioneiro no país, ligado a nossa área de humor e história em quadrinhos a Gibiteca, primeira biblioteca de gibis do Brasil, com um acervo maravilhoso catalogando os principais personagens da HQ mundial e principalmente a do Brasil,um trabalho feito com muito amor e dedicação por Maria Lúcia Darcanchy que conseguiu o apoio e a colaboração dos principais nomes do humor brasileiro além de doações valiosas.
Agora em agosto recebi a triste notícia de que a Lula , responsável por este valioso trabalho, fora afastada do cargo por intrigas políticas, e a nossa Gibiteca está correndo o risco de ser desativada, ela que é a única nossa memória gráfica a ser jogada às traças nos porões da vida.
Algumas palavras da jornalista Aramis Millarch :”Quando a Gibiteca foi inaugurada na Galeria Schaffer , a 15 de outubro de 1982, ocupando uma das – várias – lojas que estavam – e continuam – vagas naquele espaço comercial cultural, se falou muito na necessidade dos colecionadores, do passado ou do presente, de revistas de histórias quadrinhos doarem seus acervos à primeira biblioteca oficial de um gênero de publicações que durante anos foi vítima de preconceitos e até campanhas.
Hoje, finalmente, as histórias em quadrinhos adquiriram o status universitário – pois o  pioneirismo do gaúcho, primeiro schoclar a lecionar a cadeira de Intrudução às Histórias em Quadrinhos nos cursos de Letras e Comunicação da Universidade de Brasília – lá pelos idos de 1969 -, a matéria passou a constar nas grades de dezenas de estabelecimentos , inclusive de nossa septuagenária e artereosclerosada Universidade Federal do Paraná.
 A senhora Maria Lúcia Darchanchy a estimada, bela e simpática – Lula – que nos anos 60 era citação obrigatória nas mais refinadas colunas sociais da cidade, se dedicou de corpo e alma, durante oito meses, à Gibiteca. Experiente na área de bibliotecas infantis , tendo desenvolvido um belíssimo trabalho na Biblioteca Miguel de Cervantes, na Praça da Espanha, Lula compensou sua falta de maior conhecimento teórico da área dos comics com uma grande vontade de aprender e um excelente relacionamento nacional, com nomes como: Millor Fernandes – um de seus grandes amigos – e o admirável Adolfo Aizem , pioneiro das História em Quadrinhos, no Brasil, fundador do Suplemento Juvenil e, posteriormente da EBAL – Editora Brasil América, hoje a maior casa publicadora de quadrinhos do continente.


Dedicando-se a Gibiteca, procurando motivar a presença de colecionadores, criando concursos,fazendo contatos nacionais, Lula Darcanchy conseguiu, sem maiores recursos formar um acervo de 5.900 publicações, entre as quais raridades dos anos 30 e 40. Nada menos que 160 pessoas, de vários estados, ofereceram revistas à Gibiteca, enfim, um trabalho idealista, bonito e bem intencionado.
Independente das razões e méritos da demissão de Maria Lúcia Darcanchy da Gibiteca e das explicações oficiais que a Fundação Cultural de Curitiba possa oferecer, um fato é indiscutível: a confiança e excelente trabalho que ela desenvolveu nestes oito meses junto às pessoas que se dispunham a colaborar foi interrompido. É possível que muitos dos doadores retirem, inclusive, seus acervos, temendo o caminho que a Gibiteca venha a ter. E mais uma vez, se prova que o trabalho perde quando entra em questão a política e a perseguição pessoal. E quem perde, mais uma vez, é a cidade de Curitiba .