terça-feira, 18 de setembro de 2012

MIGUEL DOS SANTOS PODERÁ EXPOR ESCULTURAS NA BAHIA - 17 DE MAIO DE 1982.


JORNAL A TARDE,SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 17 DE MAIO DE 1982.

MIGUEL DOS SANTOS PODERÁ EXPOR 
ESCULTURAS NA BAHIA

O pintor, escultor e ceramista, Miguel dos Santos pretende realizar uma exposição em Salvador. Sua pretensão deve receber o apoio do Museu de Arte Moderna da Bahia e outras instituições encarregadas de nossa cultura. Os trabalhos de Miguel revelam a sua ligação com os mistérios da religiosidade da gente do Nordeste. A própria simplicidade dos objetos demonstram as dificuldades do sertão, despojado da exuberância tropical.
O crítico Frederico Morais quando escreveu sobre sua obra disse. “Mas se Brennand (outro ceramista pernambucano) nas cores e nos temas representa, sobretudo, a Zona da Mata, com sua exuberância tropical, Miguel dos Santos é muito mais sertão, o seco e áspero, cortante e despojado. No vazio sem fim do sertão (o ser tão ). Na monotonia do tempo e do espaço, é a imaginação que cria a paisagem e os frutos, melhor, é ela que povoa aquele mundão de seres fantásticos, alados, encapsulados, heróis e reis destronados, carregados de ancestralidade e mistério, monstros ou dragões brasonados, o pescoço se alongando mais e mais, querendo devorar o infinito com “guias cósmicas”.
Eu que sou do sertão, acrescentaria que este mundão fantástico é uma dualidade da fartura e da escassez. Fartura quando os arbustos estão verdes e florados e as aguadas cheias. O homem com sua religiosidade renascida das entranhas da terra rachada, agora úmida e cheirosa, vai sobrevivendo com seus cavalos alados que cavalgam espaços imaginários. E, é desta terra seca e úmida que Miguel dos Santos retira a matéria-prima de sua arte. Os bichos estranhos (para alguns) convivem com o nordestino que sentado em frente a sua choupana num tosco banco de madeira é capaz de habitar a sua mente de lobisomens e dezenas de outras criaturas imaginárias. É a visão do sofrimento. E, certamente, estas imagens que cria, são frutos de sua sensibilidade aguçada de um criador nordestino. Para o mestre Clarival Prado Valadares a sua escultura “é a depuração de sua pintura, realizada com um mínimo de elementos para a composição formal”
Entendo que Miguel é um intérprete desta complexidade sertaneja e sua obra é uma síntese disto tudo.
Nascido em Caruaru, a 3 de novembro de 1944, mas, que desde a década de 60, reside em João Pessoa, onde inclusive fez toda sua formação artística, Miguel já realizou dezenas de exposições no Sul do país e no exterior e participou em 1977 com pinturas e cerâmicas no II Festival Mundial de Arte Negra, em Lagos na Nigéria.

CARLO BARBOSA MOSTRA SEUS DEZ ANOS DE PINTURA 
NO MAMB

Dia 18 de maio, às 21 horas, o Museu de Arte Moderna da Bahia estará mostrando os trabalhos do artista  feirense Carlo Barbosa.
Sobre a exposição, é o próprio artista quem define o seu objetivo de “documentar 10 anos de pintura, a partir de um trabalho ininterrupto desenvolvido em 1971 a 1981 na Cidade do Rio de Janeiro”.
Carlo Barbosa, artista baiano, nascido na Cidade de Feira de Santana, afastado da Bahia por 10 anos, além do apoio do Museu de Arte Moderna, conta com a colaboração de outros órgãos ligados ao Movimento Cultural da Bahia. Sobre o seu trabalho têm comentado vários críticos. De Walmir Ayala: “Tudo está vivo na pintura de Carlo Barbosa, uma pintura que não abre mão do clima de beleza, de idealizações ou uma tipologia rústica e pouco vista. É uma visão particular, pujante, em pleno processo de amadurecimento, que coloca este artista entre os mais sérios de sua linhagem”.
De Eduardo Portela: “Em Feira de Santana convivem a dimensão mística na Bahia e uma certa intuição precisa e severa das coisas. A pintura de Raimundo Oliveira expressa esta verdade, e esta lição múltipla desponta agora nos quadros de Carlo Barbosa. Figurativo capaz de elaborar o retrato para além da fotografia, religioso fiel a um Cristo “hippie” inevitavelmente incompreendido, tropicalista paradoxalmente introvertido e aberto, tudo isso configura e instala o mundo em processo de Carlo Barbosa”.
Segundo o artista “esta exposição tem o objetivo de documentar dez anos de pintura, a partir de um trabalho ininterrupto, desenvolvido de 1971 a 1981, na Cidade do Rio de Janeiro.Numa fase mais recente eu me proponho a documentar, através da pintura e do desenho, aspectos da paisagem e da vida urbana: o sistema, o poder econômico que impulsiona o progresso, a arquitetura mal programada apagando a paisagem, a destruição de beleza natural, o problema do espaço físico, o trabalho, o lazer, a religiosidade do povo. O Cristo Redentor surge como um símbolo inevitável no contexto da obra. Sem os detalhes de sua hierática presença, poderia estar falando de qualquer outro lugar. A ideia deste encontro entre forma e expressão é abrangente quanto aos problemas e coisas da cidade onde resido.
Reflete o meu envolvimento com a terra. Sobre a pesquisa, não tenho nenhuma preocupação de influência ou definição técnica, nem de escola ou tendência. É um problema íntimo de expressão. No momento, o meu compromisso como artista é da busca de novas experiências e conclusões no aprendizado do dia-a-dia profissional, testando a minha capacidade, procurando a solução para cada elemento enfocado. O importante é pintar, jogar com as cores e formas, dizer numa linguagem pessoal tanto quanto possível, pesquisar sem me prender a conceitos críticos preestabelecidos. Como tema fui envolvido pelo trabalho do metrô, a participação árdua e heróica do homem nordestino, que outrora foi vaqueiro, batuqueiro nos festejos populares, e que hoje é retratado como os bóias-frias que constroem a metrópole. Os temas foram mudando e exigindo linguagem específica: permaneceu intacto o conceito da liberdade, pois a criação é um ato livre, do contrário não valeria à pena.

                             ISAÍAS VAI PARTIR

Ele deixou a tranqüilidade de sua aldeia no longínquo Maranhão e veio para Salvador onde está desde 1977 trabalhando com arte. Suas pinturas revelam o ambiente de sua gente, sobressaindo as figuras humanas num contexto de uma flora a fauna exuberantes. É o índio Isaías, de gestos simples e maneira pura de viver e enfrentar a vida. Saiu pensando que era fácil vencer no mundo dos brancos. Com instrumentos naturais que dispõe, enfrentou situações com desembaraço. Fez teatro, escreveu algumas emoções principalmente pintou. Porém, a sobrevivência está ficando cada vez mais difícil e Isaías não está agüentando mais. Porém, ainda não quer voltar para sua tribo. Antes fará uma tentativa no Ceará, exatamente em Fortaleza, onde já esteve e tem alguns amigos e colecionadores interessados em sua arte primitiva. No semblante carregado, triste mesmo, notamos que Isaías não está contente com o desfecho de seu sonho que era de permanecer por alguns anos em Salvador. Vai ter que partir por falta de condições que garantam a sua sobrevivência. Sem dúvida que sua permanência aqui foi mais uma página do seu aprendizado sobre as dificuldades existentes na tribo dos brancos.

                        FUTEBOL, UM TEMA EM PAUTA

Quarenta trabalhos de pintura, desenho, gravura de vinte e dois artistas brasileiros, compõem a exposição “Futebol Interpretações”, que a Galeria de Arte Banerj inaugura dia 20, às 21 horas, como uma homenagem à próxima Copa do Mundo.
Os 22 artistas que participam da exposição interpretam o futebol de maneira pessoal, muitas vezes deixando-se arrebatar pela grandeza popular do assunto, sem dúvida de rica e paradoxal perplexidade; outras vezes, detendo-se nos próprios mitos pelo futebol criados, heróis absolutos de uma torcida apaixonada, vibrante, que por eles torce, briga, explode numa alegria incontida, extrapolando suas emoções nos estádios e estendendo-a às ruas quando da vitória do seu time, de sua seleção.
É assim, na maioria das vezes, que o artista brasileiro vê o futebol: com a visão de um torcedor. Não é a toa que, nos seus trabalhos, o Flamengo seja o time mais enfocado, assim como Pelé e Garrincha, duas glórias nacionais, os jogadores que lhes disputam a preferência.
“Futebol / Interpretações” reúne trabalhos de diversas épocas, recrutados de coleções oficiais e particulares, dos seguintes artistas: Aldemir Martins, Aloysio Zaluar, Álvaro Apocalipse, Cláudio Tozzi, Clécio Penedo, Elza O. S., Flory Menezes, Gerchman, José César Castro, José Lima, José Paulo Moreira da Fonseca, José Sabóia, Júlio Martins da Silva, Luiz Alphonsus, Luiz Jasmim, Marcier, Newton Cavalcanti, Newton Mesquita, Rosina Becker do Valle, Vicente do Rego Monteiro, Volpi e Zé Caboclo, de 20 de maio a 11 de junho de 1982. Na foto ao alto, óleo/madeira, um trabalho de Aloysio Zaluar.