terça-feira, 25 de setembro de 2012

UMA COMUNICAÇÃO QUE DEVE SERA COM LUCIDEZ -6 DE MAIO DE 1983.

JORNAL A TARDE SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 06 DE MAIO DE 1983.

UMA COMUNICAÇÃO QUE DEVE SER REFLETIDA 
COM LUCIDEZ


O crítico potiguar Franklin Jorge enviou uma comunicação para o 3º. Encontro Nacional de Críticos de Arte, realizado em abril passado, em São Paulo, onde tece considerações lúcidas sobre as artes plásticas nas regiões Norte e Nordeste do país. Uma comunicação que reflete os reclamos, não só dos críticos, como também dos artistas dessas regiões, acostumados a buscar notoriedade através de críticas e exposições feitas no Sul do país, onde estão concentrados o grande mercado de arte e a divulgação a nível nacional. Para isto concorrem também o provincianismo de muitos artistas da região, acostumados que estão com sistemas autoritários e colonialistas, os quais têm perfeito reflexo nas obras que criam. A luta de críticos e jornalistas que escrevem sobre artes nessas regiões é uma luta quase que titânica, devido à falta de conscientização dos dirigentes da maioria dos órgãos de comunicação de massas, donos de galerias, dirigentes de museus e outros elementos direta ou indiretamente ligados à problemática das artes plásticas.
Basta dizer que a reação contra o surgimento de pessoas interessadas em arte é um fato Incontestável. Porém, deixo e endosso as palavras do Franklin, para uma reflexão sobre todo o universo das artes plásticas.

COMUNICAÇÃO

“1- A distribuição anual dos prêmios da Associação Brasileira de críticos de Arte nos leva a creditar que os mesmos foram criados tão somente para privilegiar um pequeno grupo de críticos e artistas do eixo Rio/São Paulo e que os seus critérios estão pautados por interesses extraculturais.
A Associação Brasileira de Críticos de Arte tem ignorado sistematicamente o trabalho obstinado daqueles críticos que, vivendo longe das facilidades metropolitanas, dão o melhor de suas energias e do seu entusiasmo para o engrandecimento da vida artística das cidades mais distantes.
Os críticos em atividade no Norte/Nordeste do Brasil lutam por manter um espaço que se reduz cada vez mais, engolido pelo noticiário restrito às áreas da política, do futebol e da criminalidade. Enfrentam não apenas as dificuldades de acesso ás informações (livros, revistas especializadas etc.), além da indiferença dos editores que se escudam na afirmativa de que ‘cultura e arte não vendem jornal’.
Durante aproximadamente dez anos, o jornalista Roberto Júlio Pinto, falecido em setembro do ano passado, manteve uma coluna sobre o movimento artístico de Fortaleza, que era publicada todos os domingos no jornal o Povo. Nesses anos todos realizou um admirável trabalho de animação cultural. No Recife, Paulo Azevedo Chaves assina coluna especializada no Diário de Pernambuco, que somente continua circulando duas vezes por semana, graças a um movimento empreendido por um grupo de artistas e intelectuais pernambucanos que reconhecem a necessidade de um espaço dessa natureza, importante como veículo de divulgação e instrumento de questionamento da produção artística
Salientaria, ainda, a atividade de críticos como Wilson Rocha, Matilde Matos, Reynivaldo Brito (Bahia), Odosvaldo Portugal Neiva, Eliezer Rodrigues (Ceará), Gilbert Chaudanne (Piauí) Alcyone Abrahão, Iaperi Araújo (Rio Grande do Norte), Sebastião Godinho (Pará), Solange Berard Lages e Gláucia Lemos (Alagoas).
Muitos desses críticos não pertencem ao quadro da Associação Brasileira de Críticos de arte. Mas que isto não venha servir de desculpas para a omissão. A Associação Brasileira de Críticos de Arte poderia, sem qualquer prejuízo como instituição, legitimar esse trabalho, que dessa forma ganharia maior relevo dentro da comunidade que representa.
É muito fácil manter uma coluna quando o próprio jornal tem interesse na sua conservação. Mas mantê-la contra a má vontade de grupos voltados unicamente para a obtenção de lucros é tarefa que exige, mais do que trabalho, humildade, paciência e um dispêndio muito grande de energias.
Que se reflita sobre esta questão.
E que a Associação Brasileira de Críticos de Arte estenda o seu interesse ao trabalho desses críticos para que dessa forma, consolidem sua posição dentro do jornal e da comunidade.
Nós, críticos das regiões Norte e Nordeste do país, não desejamos tratamento diferenciado. Isto são coisas da SUDENE e do governo federal.
Queremos unicamente a igualdade que o direito nos concede.

2- Gostaria de registrar aqui o meu repúdio à atitude desrespeitosa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte para com os artistas Eugênio Mariano e Ítalo Trindade, que, atendendo convite do reitor Diógenes da Cunha Lima, executaram trabalho de escultura para o monumento recentemente inaugurado nos jardins do Campus. Recusando-se a pagar aos artistas, apesar da existência, de um contrato legal de trabalho, o reitor, que é músico e poeta, mandou destruir a obra original, para que não restasse nenhuma prova, substituindo-a por um conjunto de escultura de artista popular de Tracunhaém, que agora pode ser visto, emoldurado em concreto por umas formas estilizadas que vêm sendo identificadas como as letras iniciais do nome do arbitrário reitor.

3- Que se registre também o meu protesto contra a atuação do diretor de Promoções Culturais da Fundação José Augusto, folclorista Deífilo Gurgel, que acaba de ser reconduzido ao cargo por mais de quatro anos, que, a pretexto de realizar exposições no interior do estado, vem dilapidando sistematicamente o acervo daquela instituição, responsável pela política cultural do estado.
Vale esclarecer que as obras são enviadas em carrocerias de caminhões, sem qualquer tipo de acondicionamento, e expostas em qualquer lugar, num ato que avilta a dignidade do artista e contribui para o empobrecimento progressivo do patrimônio cultural e artístico do Rio Grande do Norte.

4- Que a Associação Brasileira de Críticos de Arte firme uma posição contra o erro que tantas vezes repetido, vem se tornando institucional: a presença de simples curiosos, em geral dondocas de sociedade, em júris e comissões de salões de artes visuais.
Que se apóie efetivamente o artista, denunciando essas inversões que comprometem a seriedade dos salões, que são, afinal, o único veículo de que o artista jovem dispõe para a divulgação do seu trabalho.
O ano passado, em Natal, o diretor de Promoções da Fundação José Augusto chegou ao requinte de introduzir no regulamento do Prêmio Governador do Estado um dispositivo vedando a presença no júri de críticos de arte, porque criam muitos problemas.

                                                             MURAL

CHRISTO ATACA- Conhecido por suas extravagâncias no campo da arte, o escultor Christo volta a atacar. Desta vez pretende, com grandes lâminas de plástico cor-de-rosa, cercar as duas ilhas existentes na Baía de Biacayne, em Miami. Porém, na primeira tentativa as condições atmosféricas dificultaram a execução do seu estranho projeto. Os ecologistas também estão reclamando do Christo.

AGRÁRIO POR PRESCILIANO -Retrato de Agrário de Menezes feito, há 40 anos, por Presciliano Silva, a pedido de Carlos Chiachio, para o “Jornal de Ala”, acaba de ser adquirido, na Galeria Panorama, onde fora parar, por Jayme de Sá Menezes, parente e biógrafo do escritor e poeta baiano, e autor do livro “Agrário de Menezes - Um Liberal do Império”.

A LUTA DAS MULHERES- o Centro de Informação das Nações Unidas está convidando os artistas em geral e, especialmente, as artistas mulheres, a participarem do concurso de desenhos para a escolha de emblema que simbolize a resistência das mulheres da África do Sul e Namíbia, e a solidariedade internacional a essa luta. O emblema escolhido será utilizado pelas Nações Unidas, além de outras organizações e em conferências sobre o tema, em material de divulgação. A realização deste concurso foi decidida pela Conferência Internacional sobre Mulheres e Apartheid, realizada em Bruxelas entre 17 e 19 de maio de 1982. O vencedor receberá um prêmio simbólico de mil dólares.
Os trabalhos dos artistas brasileiros deverão ser enviados para o Centro de Informação das Nações Unidas até o dia 5 de julho, no seguinte endereço: Rua Cruz Lima, 19, grupo 201- Rio de Janeiro, RJ-CEP 22.230.
Todo material que chegar até esta data será enviado para a sede das Nações Unidas e participará do concurso internacional para escolha do símbolo oficial de uma exposição no dia 9 de agosto, Dia de Solidariedade com a Luta das Mulheres da África do Sul e Namíbia. O júri que vai escolher o trabalho vencedor é composto do presidente do Comitê Especial contra o Apartheid, do presidente do Conselho para Namíbia, do secretário geral assistente para o Centro contra o Apartheid e de representantes dos movimentos de liberação nacional da Namíbia e África do Sul.

OBRA FALSA- O colecionador de pintura Marcello Tello expôs no Museu de Arte Moderna de Bogotá uma obra falsificada do famoso pintor espanhol, Salvador Dali, segundo informou o jornal “El Tiempo”. A informação diz que a obra “Elefante Surrealista”, que esteve um mês em exposição como sendo obra original de Dali, é falsificada e seu autor é supostamente o espanhol Manuel Pujo.
A obra foi retirada porque não havia se apresentado nenhum comprador e as autoridades não sabem para onde foi levado o quadro falsificado de Dali.O dono da litografia “Elefante Surrealista” não consegue ser localizado em nenhum lugar, apesar dos esforços das autoridades interessadas em esclarecer as versões da imprensa disso o jornal.

GLORIA PECEGO - Que recentemente participou, em São Paulo, da mostra “Cem Anos de Escultura no Brasil”, no Museu de arte de São Paulo, nasceu no Rio de Janeiro em 1954. Licenciada em Artes Plásticas pela Faculdade Bennett, a artista logo em seguida partiu para a Europa, aperfeiçoando-se em Escultura na Áustria, Holanda e Paris.
A partir de 1970, começou a participar de salões de arte no Rio de janeiro, entre os quais o Salão Nacional de Belas Artes Plásticas da Polícia Militar do Rio de Janeiro (1979), nesse último conquistando o Prêmio Funarte, em 1976, fez sua primeira mostra individual, também no Rio, na extinta Galeria Maison des Arts, tendo exposto ainda em Rotferdã, Holanda; Vlaardingen, Holanda, e em São Paulo, na Galeria Seta, em 1981. Para Pietro Maria Bardi, Gloria Pecego “é artista que, depois de um período de severa expressão verista, andou optando pelas estruturas sintéticas, plasmando singulares formas em pedra-sabão, bronze e poliéster”.