terça-feira, 4 de setembro de 2012

NOVE PROJETOS ESCOLHIDOS REFLETIRÃO A ARTE BAIANA - 24 DE MAIO DE 1982.


JORNAL A TARDE SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 24 DE MAIO DE 1982.

NOVE PROJETOS ESCOLHIDOS REFLETIRÃO A ARTE BAIANA

Estas fotos 3x4 do próprio Rino dão uma ideia do seu projeto. Ao lado maquete do trabalho de Juraci Dórea vai montar no sertão.
Nove artistas foram escolhidos no concurso público de projetos em artes plásticas promovido pela Fundação Cultural do Estado da Bahia, através o Museu de Arte Moderna. Pela segunda vez, integrei o júri que selecionou os candidatos e posso dar meu testemunho da importância desta promoção que visa colocar o artista à vontade dentro do processo criativo, sem a preocupação de produzir para vender. O artista é financiado pelo MAMB para exercer a sua criação com total liberdade. É preciso, portanto, que aqueles agora escolhidos atentem para o fato de que estão trabalhando com dinheiro do povo e por isto não podem cometer as falhas que ocorreram no concurso passado. Já se vão dois anos e até agora dois artistas não cumpriram o estabelecido, cabendo até uma ação judicial por parte da Fundação.
Tenho informações de que pretendem apresentar os projetos dentro em breve e por esta razão estou aguardando, na esperança de que realmente entendam a responsabilidade deste colunista, que além de tudo foi membro do júri que os escolheu. Porém, neste momento o que interessa é o sucesso deste novo concurso e acredito que os nove escolhidos vão cumprir com todo empenho o que se propuser. Como já é de conhecimento público, foram selecionados: Zito, com o projeto “Personagens”; Almandrade, com “Escolas de Carpetes”; Nildão, com o projeto “Popularização do Desenho de Humor”; Eckenberger, com “Moro Num País Tropical Acolchoado por Deus”; Márcia Magno, com “Arraias”; Juarez Paraíso, com “Foto Design”; Juraci Dórea, com “Terra”; Rino e Marconi, com  “Tresporquatro” e Vauluizio Bezerra, com um projeto sem título.
Os projetos foram selecionados depois de duas reuniões da comissão julgadora composta de dois representantes dos artistas plásticos participantes do referido evento: Gisélia Passos e Humberto Rocha e de Rubem Valentin, representante da Associação dos Artistas Plásticos da Bahia; de Frederico de Morais, Reynivaldo Brito e Matilde Matos, representantes da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Existem CR$ 2.400.000,00 que foram distribuídos entre os vencedores obedecendo a critérios de criatividade, originalidade e custos operacionais, e assim nove artistas estão em condições de executarem projetos significativos, que realmente reflitam o estágio de nossa arte. Como disse Chico Liberato, diretor do MAMB, “é hora dos artistas se colocarem livremente diante da manifestação criadora. É uma grande oportunidade para os artistas experimentais que normalmente têm um custo que o público comprador não se interessa, mas que tem a perspectiva de renovação dos conceitos de arte, codificados e academizados pelas sociedades que interromperam esse processo dialético de renovação de valores”.

                              OS PROJETOS

1-     Juraci Dórea, com seu projeto “Terra” (canção n.º7), quer levar a arte para locais antes desprovidos de qualquer evento, pois a arte sempre foi predominante urbana. Sua proposta é fazer uma arte sem referências urbanas e tentar vincular ao próprio ambiente que a inspirou. Sua proposta atinge o sertão baiano e espera encontrar respostas para uma série de indicações utilizando materiais como couro cru e curtido, caibros e outros elementos presentes na paisagem. 
Da esquerda para direita: Chico Liberato, Ruben Valentin, Matilde Matos, Frederico de Moraes, Reynivaldo Brito, Gisélia  Passos e, em pé, Humberto e Maria Liberato, a secretária.

Ele construirá escultura desmontáveis que pretende instalar em feiras livres, festas de largo, e assim por diante, nos municípios de feira de Santana, Monte santo, Uauá, Euclides da Cunha e Bendengó.
Todos votaram neste projeto
2-     Almandrade vai trabalhar com o carpete, plástico madeira, pedra, corda, corrente, dentre outros materiais. Ele pretende um trabalho lúdico que possibilite a busca de um estado de emoção.
“Pequenos fantasmas (psicanálise) que escapam do mundo da razão”. Assim, o carpete deixa o chão e pelas mãos de Almandrade vai para a parede, um lugar privilegiado. Ele também mostrará o contraste da presença do carpete num país subdesenvolvido e tentará estabelecer discussão acerca deste material.
Como muitos vanguardistas, Alamndrade tem muitas idéias, vamos agora aguardar a execução que tem sido o ponto fraco de muitos deles.
3-     Zito e seus “Personagens”. Segundo o autor, são personagens criados que podem ser utilizados em livro, desenho animado e outras utilidades. São seis personagens: Léo, o pirata, Val, o estudante; Sônia, a professora; Marte, o ator; Lena, a telefonista e Rui, o intelectual.
4-     Nildão- Seu projeto visa popularizar o humor junto à comunidade, e, para conseguir este objetivo, vai se utilizar dos outdoors, ou sejam, aqueles grandes cartazes de rua. Assim, um número significativo de pessoas vai assimilar suas idéias e a Central de Outdoor já prometeu dar uma força na veiculação dos desenhos de Nildão que estarão nas ruas possivelmente no mês de janeiro de 1983.
5- Rino Marconi – Com o Projeto “Tresporquatro” dará continuidade à pesquisa que vem desenvolvendo sobre a linguagem fotográfica. No concurso passado, ele trabalhou com fotos feitas por crianças e adolescentes que nunca tinham usado uma câmara fotográfica.
Agora vai trabalhar com fotos 3x4, tiradas pelos lambe-lambes para uso em carteiras de identidades, títulos de eleitor e assim por diante. Desprezadas e ridicularizadas inclusive pelo próprio fotografado, “estão na base da ideologia do estado, que é a apropriação, pela máquina burocrática, de um ícone que representa um indivíduo, significando a sua submissão à autoridade. A foto 3x4, normalmente pouco nítida, de duração limitada pela técnica utilizada, pretende representar e substituir o indivíduo, se tornando a marca registrada de cada cidadão”.
Outra coisa importante é que você tira um foto 3x4 exatamente em momentos importantes de mudança em sua vida. Assim, Rino vai trabalhar em cima das fotos perdidas nas repartições, jornais e etc., fotografando, montando, mudando, interferindo e utilizando meios que ressaltem o momento importante que levou aquela pessoa a se fazer fotografar. Todos os membros do júri aprovaram seu projeto.
6-Eckenberger- fará seu projeto “Morro num país acolchoado por Deus” com um grande boneco costurado em panos e enchimentos diversos. Será basicamente um colchão, de 4x4 metros, povoado de bonecos a serem movimentados pelo público por um sistema de fios. Aprovado por todos.
7- Juarez Paraíso - O projeto “Foto Design” implicará na utilização da fotografia, dos recursos fotográficos, para estruturação da forma. “Na verdade- explica Juarez-, o que pretendo é a concentração da imagem e da composição, abrangendo as deformações expressivas da imagem, a valorização do detalhe, a apropriação dos recursos de endurecimento dos contrastes pelos filmes gráficos, etc., apenas com recursos da fotografia no sentido mais amplo da utilização da máquina fotográfica e das técnicas de laboratório”.
8-Márcia Magno- “Projeto Arraias”. O seu projeto visa à valorização das arraias como uma forma de expressão popular. É um projeto que ela vem desenvolvendo há algum tempo e pela descrição do projeto não vi nada de novidade. Pretende realizar uma exposição com 30 arraias pesquisando sua estrutura física. Portanto, um projeto já conhecido e que talvez necessite de novos elementos para continuar o seu desenvolvimento. Tanto o de Juarez, quanto da Márcia não obtiveram unanimidade, pelo contrário, foram muito discutidos e questionados.
9-Vauluizio- O trabalho consiste na articulação de objetos e apropriação da História da Arte no sentido de demonstrar a fragilidade do meio de arte local, seus vícios e anacronismos ante a produção contemporânea exterior. São situações construídas ironicamente, articulações que incorporam o espaço ocupado (museus, galerias, etc.), às leis de sua materialidade. Um conjunto de três discursos, ou melhor, metáforas que abordam o produto arte, problematizando sua função, sua leitura, seu meio.
O projeto de Vauluizio Bezerra  certamente será um dos mais significativos e contemporâneos.