quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A FOTOGRAFIA NA ARTE DE JOSÉ OITICICA E HUMBERTO - 23 DE MAIO DE 1983.

JORNAL A TARDE SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 23 DE MAIO DE 1983.

 A FOTOGRAFIA NA ARTE DE JOSÉ OITICICA E HUMBERTO
 

“Libertem-se um pouco da máquina fotográfica, procurando dominá-la com o cérebro. Olhem, vejam, compareçam e procurem fazer algo diferente quanto à concepção, quanto à apresentação do assunto. Não se prendam ao não pode”

Quem disse isso ousou a revolucionar a arte fotográfica, gerando uma rica discussão em nosso meio cultural. E para quem perdeu as exposições realizadas pela Funarte, a obra de José Oiticica Filho (1906-1964), estará agora presente em A Ruptura da Fotografia nos anos 50. Com textos de Paulo Herkenhoff e dos filhos de Oiticica, César e Hélio Oiticica, que acompanham mais de 70 fotografias, da passagem do fotoclubismo ao Projeto Construtivo, o livro desse importante artista plástico, fruto de uma pesquisa do Projeto Exposições do Núcleo de Fotografia da Funarte, foi lançado dia 3 de maio.

           INTERPRETAR A REALIDADE
 
 
Para o etnólogo, pesquisador, matemático e fotógrafo que inovou, teorizando e definindo questões plásticas, demarcando uma linguagem fotográfica para sua arte, o artista Paulo Herkenhoff escreveu: “A opção construtiva de José Oiticica Filho estabeleceu um embate em dois níveis: Imagem e processo. A primeira questão, a crítica da fotografia figurativa, se aprofundaria. Oiticica, que sempre lhe atribuíra uma função mimética, mesmo se o fotógrafo buscasse a câmara para interpretar a realidade, apresentava agora um argumento estético: as possibilidades de composição (realismo-figurativismo) dentro do retângulo já foram praticamente esgotadas”.

Filho de um conhecido escritor anarquista e pai de Hélio Oiticica, nome representativo na arte brasileira, ligado ao movimento neoconcretista e a tropicália, José Oiticica Filho é um elo cultural entre essas duas gerações que afirmava em 1955, quando perdia o apoio dos fotoclubes e entrava na sua fase abstrata: “É pesquisando, portanto que a arte evolui. Vejam bem, conscientemente. Liberdade consciente significa conhecer bem o assunto, tê-lo aprendido. Significa desviar-se do aprendido, conhecendo bem o antigo caminho e procurando o novo caminho com conhecimento de causa. Significa libertar-se de líderes, principalmente em se tratando de Arte, com A maiúsculo”.

 
               A VISÃO FOTÓGRAFO DE LUÍS HUMBERTO

 
Para os que começam ele diz, “quando estiverem com prestígio e forem procurados pelos novos, mantenham-se recatados, mas receptivos e lembrem-se que cada um de nós é apenas um elo na cadeia do conhecimento”.
Talvez a frase sintetize o momento de mais alta reflexão do fotógrafo Luís Humberto, 21 anos de profissão, sendo 15 dos quais dedicados à produção teórica e que agora surge em seu livro Fotografia, Universos e Arrabaldes, cujo lançamento foi dia 18, segunda-feira, às 18 horas, na Galeria de Fotografia n Funarte (Rua Araújo Porto Alegre, 80, Centro).
                                                                                      Foto de Luís Humberto no Palácio do Planalto.

A obra desse fotógrafo inicia a Coleção Luz e Reflexão, do Núcleo de Fotografia da Funarte que pretende sistematizar a consciência sobre a fotografia no Brasil, evitando os aspectos técnicos, para definir e analisar a especificidade da linguagem fotográfica e seu papel no contexto geral das artes plásticas. Para dar vida a essa teoria, Luís Humberto, no dia do lançamento do livro, fez uma palestra acompanhada de slides, e falou da sua vida profissional dedicada à câmara e ao pensamento teórico.

 POR QUE LUÍS HUMBERTO
 Seu nome surgiu por unanimidade no I Encontro de Fotógrafos Brasileiros, realizado, em agosto de 1982, pelo Núcleo de Fotografia e no qual apareceu a vontade de se criar uma coleção destinada ao debate nessa área. No encontro, os fotógrafos tiveram a iniciativa de apontar Luís Humberto que sempre foi um dos que lutaram pelo reconhecimento profissional do fotógrafo brasileiro e a valorização de sua arte como um meio de expressão. Para o fotógrafo Pedro Vasquez que prefaciou o Livro, “Humberto é um verdadeiro agitador cultural, quer como fotógrafo, quer como professor, ensaísta ou conferencista na origem de inúmeras manifestações fotográficas, desde que abandonou a arquitetura par decompor e reconstruir a realidade com a força de sua visão”.
Acontecerá, certamente, num clima de muita emoção o lançamento de Fotografia, Universo e Arrabaldes, pois o autor reconhece a importância de suas palavras sobre uma platéia repleta de fotógrafos. Para os iniciantes, Humberto dará conselhos que estão no último capítulo do livro. Em Aos que Começam, o fotógrafo saberá que deve “estar preparado para conviver com situações penosas e extremamente sofridas, atentar para a renovação, mesmo que isso destrone os donos da verdade da véspera, saber usar o prestígio em favor de causas justas e nunca desprezar as coisas simples e aparentemente banais”. E para mais tarde quando vier o sucesso e os mais novos lhe procurarem, Humberto recomenda “manter-se recatado, mas receptivo e lembrar-se que cada um de nós é apenas um elo na cadeia do conhecimento e que o trabalho de cada um deve ter um sentido maior, além de suprir unicamente nosso próprio egoísmo”. Os livros podem ser adquiridos na loja Funarte (Rua México, 101, Centro, Rio de Janeiro, CEP 20.030) ou pelo reembolso postal:

 DOIS ARTISTAS E DOIS ESTILOS DE VER O
MUNDO CONTEMPORÂNEO


 O desenhista Luis Ernesto fez sua primeira exposição individual no Rio de Janeiro. Seus desenhos são todos executados a lápis grafite de diversas numerações, com os quais consegue uma definição de tons e rica textura. Os temas de Luiz Ernesto englobam objetos e elementos das grandes cidades e de interiores domésticos, que ele transforma em animais, numa fantasia onde predomina, sobretudo a forma.
Luiz Ernesto nasceu no Rio de janeiro em 1955. Estudou, quando criança, com Misabel Pedrosa e, posteriormente, na Escola de Artes Visuais, com Rubens Gerchman, Roberto Magalhães e Antônio Grosso. Formado em Engenharia Mecânica pela Pontifícia Universidade Católica de Petrópolis, em 1978, não chegou, todavia a exercer a profissão, optando pelo desenho.
Na foto Filtro, do artista Liís Ernesto.
A partir de 1978, começou a mostrar seus trabalhos de litografia no I Salão Nacional de Artes Plásticas, em outras mostras coletivas no Rio de Janeiro e em diversas cidades brasileiras, bem como no exterior- Buenos Aires, New York e Maryland. Em 1980, conquistou o I Prêmio de Desenho no IV Salão Carioca de Arte, promovido pela prefeitura da cidade do Rio de Janeiro e, no mesmo ano, o Prêmio Acervo da “Casa de Gravura” na III Mostra Anual de Gravura de Curitiba.
Desenhista que alia fértil imaginação a uma temática irreprensível, vê o mundo ao seu redor com olhos de prestidigitados, transformando certos elementos usuais da paisagem urbana ou da vida doméstica, caixa de correio, orelhões, telefone público, liquidificador, ferro elétrico, panelas, etc..., em animais de variadas espécies, não pelo seu lado agressivo, que não é a sua proposta, mas justamente pela poética de cada situação exposta”, diz dele Geraldo Edson de Andrade.

                                O OUTRO É LUÍZ NELSON

 

Após longo período no exterior, quando freqüentou, em Paris, os cursos de Pintura e Desenho, da Escola Nacional de Belas Artes; de Desenho e Técnica de Pintura, da Academia Julian; e da História da Arte, do Museu do Louvre, voltou ao Brasil e assumiu a cadeira de Desenho e Pintura do Instituto de Belas Artes, atual Escola de Artes Visuais do Parque Laje, indicado pelo Prof. Manoel Santiago para substituí-lo, está de volta o artista Luiz Nelson Ganem. Participou do Salão Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, obtendo Menção Honrosa (1965), Medalha de Bronze (1966), Medalha de Prata (1967) e medalha de ouro (1969). Integrou coletivas aqui e no estrangeiro: Instituto Brasil –Estados Unidos, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Salão Paulista de Arte Moderna, Escola Nacional de Belas Artes e Salão de Outono, as duas últimas em Paris.
Obteve Menção Honrosa no concurso para o mural do novo edifício da Caixa Econômica Federal do Rio de Janeiro.
 
Na reprodução a obra São Jorge e o Dragão, do artista Luiz Nelson.
A respeito dele, Paschoal Carlos Magno, em 1968, escreveu: “Visitando o último Salão nacional de Belas Artes, encontrei a presença de um excelente pintor, de arte luminosamente incisiva, sem hesitação na escolha de temas  e no manejo das cores, com densidade emocional, alargando a imaginação dos que lhe admiravam os quadros, com sua desabusada imaginação criadora.

Tratava-se do brasileiro Luiz Nelson Ganem, recém-chegado de longas e demoradas andanças por este mundão de Deus, cujo aprendizado artístico se fizera em Paris, Roma, sob a vigilância de sua própria sensibilidade e cultura, não querendo de maneira alguma perder o melhor de si mesmo, em virar papel carbono dos mestres, cujos cursos freqüentara. Encontrei-o mais tarde como um dos professores do Instituto de belas Artes, cercado de alunos de todas as idades, orientando-os sem deformá-los, não os perturbando na sua espontaneidade, como fazem tantos professores, mais interessados em satisfazer seu narcisismo na repetição de seus processos técnicos e na aceitação de seus princípios estéticos.

 GUIGA ESTÁ ORGANIZANDO UMA EXPOSIÇÃO PARA
SÃO PAULO

 O cearense Álvaro Guimarães Pinheiro, mais conhecido por Guiga, está empenhado em reunir um número significativo de artistas naifs para uma exposição na Galeria Maison Arts. O título da expo será Norte/Nordeste em Cores, a qual deverá ser inaugurada em junho próximo. O artista está entusiasmado com a idéia e vem trabalhando intensamente, reunindo trabalhos de seus colegas dentro desta linha pictórica. Segundo Guiga esta mostra coletiva será um acontecimento marcante para os artistas destas duas regiões, “pois mostraremos trabalhos de qualidade concebidos dentro de toda a pureza do primitivo.
“É a maneira simples da gente, ver as coisas e agente através de tintas fortes, tão fortes como essa gente que habita locais quase inacessíveis”.
Guiga que também é poeta escreveu alguns versos que considero interessantes: “Quantas matas desmatadas- Quantas aves em revoadas/ em busca de suas pousadas/Que se exterminam, enfim/Homem, animal destruidor...”/Portanto, mostra que embora tenha deixado sua terra Quixadá, e emigrando para a Bahia, continua preso as suas raízes, preocupado com a devastação da flora e da fauna, já pobres, no Norte e Nordeste. O problema de falta d’água, nas terras ressequidas, tem uma resposta paliativa quando observa as águas salgadas nas lindas praias de Fortaleza ou na Bahia. E, o mar é também uma presença em sua obra. A luz, através das cores fortes que derrama em suas telas, é uma demonstração da própria luminosidade desta terra tropical com suas praias de águas ainda límpidas e coqueiros a balançar preguiçosamente suas palhas, dando água boa e sombra aos que passam.Ele já fez dezenas de exposições individuais e coletivas e seus quadros figuram em coleções de alguns países.