quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A VOLTA E O INÍCIO DE 1982 - 8 DE FEVEREIRO DE 1982.

JORNAL A TARDE SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 08 DE FEVEREIRO DE 1982.

                                A VOLTA E O INÍCIO DE 1982

 
Depois de um mês de férias estamos de volta. Eu com esta coluna e os vários artistas que colaboram enviando sugestões e material para que possamos divulgar o movimento de arte brasileiro, especialmente o baiano. Voltamos com a disposição de quem arregaça as mangas para iniciar o trabalho neste ano de 1982. Alguns ficaram curiosos em saber por que a coluna deixou de ser publicada durante quatro semanas. É a primeira vez que isto acontece e assim procedi propositadamente para também dar um “descanso” aos leitores. Por outro lado, para aguçar a curiosidade daquelas pessoas que não concordam com pontos de vista e opiniões aqui publicadas. Agora de volta trago as mensagens ou as “Pré-visões Visuais para 82” do cartunista, publicitário e desenhista animador Serra. Dentro do espírito das previsões que enchem as páginas de jornais e revistas no início de todos os anos aqui está seu trabalho arriscando alguns palpites para este ano que já foi iniciado. As ilustrações estão numeradas e cada legenda corresponde ao número ali gravado. Fiquem com Serra.
1)      Miséria : 82 será um ano de muita seca e principalmente de muita fome no Nordeste devido ao desvio de rios e de recursos.

2)      Pena : Em 82 além da fome o povo continuará de trouxa nas costas sem ter onde habitar.

3)      Novidade: Em 82 nosso Ministro do Planejamento continuará a acreditar na estabilidade econômica do país, inclusive, saldando definitivamente a nossa dividazinha externa.

4)      Perigo: 82 ano eleitoral corre um sério risco de ser raptado por forças ocultas.

5)      Horror: Em 82 o consumidor brasileiro corre o perigo de sumir de dor dos altos impostos do governo e da selvageria das multinacionais.

6)      Catástrofe: Em 82 o mundo se dividirá, daí correrá um sério risco de um ataque nuclear, caso não parem desenfreada corrida armamentista. A você um Feliz 82.

   UM RETATO DO MOMENTO DO ARTISTA LUÍS EDUARDO

O artista plástico Luís Eduardo está expondo, na Galeria do Hotel  Méridien, 25 quadros, sendo 22 em óleo sobre tela e 3 utilizando tinta vinil.
Seus trabalhos são um retrato do momento confuso da realidade contemporânea, como ele mesmo intitula e de “grande e trágica beleza” como define o professor Carlos Eduardo da Rocha.
Sua obra é uma espécie de trajetória da humanidade, começando com o surgimento do homem, passando por suas transformações e chegando afinal ao mundo contemporâneo, com suas intricadas e perigosas máquinas e arriscando especulações sobre um futuro “que só o tempo dirá”.
Vemos acima, lado direito, duas obras de Luís Eduardo.
Pintar, para mim, é narrar uma verdade, é sentir, raciocinar, dizer, transmitir um conhecimento. E, o que é fundamental: procurar sempre uma visão nova, autêntica e nunca estagnar, diz Luiz Eduardo e acrescenta, inclusive, que sua fase atual em matéria de arte não está incluída em nenhuma categoria estilística preestabelecida.
                BAGAGEM E OPINIÃO

Embora jovem, o pintor Luiz Eduardo tem bagagem face às exposições que tem realizado, individualmente ou em mostras coletivas. Em exposições individuais já se apresentou e, 1975 no Salão da Prefeitura de Jequié, em 76 em Ilhéus, mostra que repetiu em 1980.
Neste mesmo ano realizou a Expo em Itapuã e, no ano passado, mostrou seus trabalhos na Galeria Tessa..
Coletivamente, Luiz Eduardo mostrou seus trabalhos em 1973 no II Salão de Novos da Panorama, em 1974, III Salão de Novos da mesma galeria, 1979, II Festival de Arte de Itapuã, em 80, no Festival de Arte da Bahia /80, no V Salão Nacional Universitário de Artes Plásticas e, ainda, no Salão Rio Grandense, esta no Rio Grande do Sul. Em 1981, expôs no IV Salão Nacional de Artes Plásticas Pré-Seleção dos Artistas Nordestinos, em Salvador e ainda, na Galeria Geraldo Rocha, em Vitória da Conquista.

                           AS AQUARELAS DE ANNA VASCO

Anna da Cunha Vasco era filha do casal Anna e José Maria da Cunha Vasco. Tiveram quatro filhos: Maria, Anna, José e Adélia, todos cariocas. Anna era conhecida por seus familiares e amigos como Aninha e assim algumas vezes  assinou suas aquarelas. As duas moças tiveram decididos pendores artísticos: tanto Maria quanto Anna estudaram pintura com seriedade e Anna chegou a ser também uma boa pianista.

O ambiente familiar era propício para a arte, pois José Maria Cunha Vasco era um próspero homem de negócios , chegando à presidente da Companhia Confiança Industrial, que possuía grande fábrica de tecidos no início do século.

No entanto, ele era mais conhecido por Vasco apenas , nos meios artísticos e intelectuais do Rio de então. Possuía uma biblioteca considerável, com numerosos livros em vários idiomas, a qual infelizmente se dispersou após a morte de sua esposa, em 1936. O velho Cunha Vasco era alto e careca, de esmerada educação e amigo de vários artistas ilustres, daqui e d’além-mar. Os irmãos Bernadelli, Bordalo Pinheiro, Malhoa, Helius lhe dedicaram obras, também dispersas. Um notável retrato de Cunha Vasco, em estilo “caravaggiesco”, foi vendido inexplicavelmente pelo genro em 1939, após a morte de Ana Vasco.

O lar dos Cunha Vasco em Botafogo e sua casa de veraneio nas Palmeiras eram freqüentados com assiduidade por artistas e o industrial agia como verdadeiro mecenas. O mobiliário da residência de Ana Vasco, na Rua General Dionísio, número 24, em Botafogo abrangia peças de alto valor, também vendida após a sua morte. Destarte, os filhos da família Cunha Vasco cresceram em ambiente luxuoso e cercados de obras de arte, fato que certamente estimulou aos jovens Maria e Anna a iniciarem seus estudos artísticos. Seu mestre de pintura foi Benno Treidler , o bem conhecido pintor alemão radicado no Brasil, que deixou obra , inclusive no acervo do Banerj.
Aquarela foi o meio de expressão artística que mais as atraiu, possivelmente por sugestão médica ou do próprio professor.
Com os antecedentes de Adélia, devia ser evitada a convivência com a tinta a óleo. São conhecidas obras de Anna Vasco apenas de pequena faixa de tempo, ou seja, de pouco mais de 10 anos: 1897 a 1908. Nascida a 25 de março de 1881, Anna já demonstrava razoável mestria da aquarela aos 16 anos de idade, e aos 20 anos , é indiscutível seu domínio do estilo ao lado de precoce maturidade.
Os Anais da Escola Nacional de Belas Artes testemunham a concessão de três prêmios quase sucessivos: 1905,1907 e 1908, duas Medalhas de Prata e uma de Bronze. Supõe-se que por volta de 1909 interrompeu sua atividade, pois teve que dar assistência constante a sua irmã caçula Adélia , gravemente doente.
Em 1911 seguia para a Suíça com a enferma, e também Maria instalando-se em sanatório em Leysin, perto de Lausanne. Em 1914 lá faleceu Adélia. Sua irmã Maria casara-se com um médico que atendia a enferma : Dr. Joseph Mamie.
No início da Grande Guerra regressaram todos ao Brasil, inclusive o médico suíço.
Este triste intermédio parece haver esfriado o interesse de Anna Vasco pela pintura, embora se conheça algumas aquarelas com paisagens de neve , datada de Leyzin.
Pouco depois o velho Cunha Vasco caiu seriamente doente e veio falecer a 21 de junho de 1918. Dois anos depois Anna casou-se com Joaquim José Domingues Mariz, português amigo de seu pai, tendo dele um único filho, Vasco Mariz.
Infelizmente, seu marido não tinha pendores artísticos e portanto não deve te-la estimulado a pintar. Conservou porém, até o fim da vida o gosto pela música e pelo piano, que soube incutir em seu filho. Vasco Mariz, diplomata de carreira, foi cantor de Câmara e é autor de numerosos livros sobre música brasileira.Essa mesma tradição artística da família Cunha Vasco ficou também registrada em um dos filhos de sua irmão Maria, que aliás passou o resto dos dias na Suiça. O único de seus filhos nascido no Rio de Janeiro, Paul Mamie , é um bom pintor e gravador, Membro da Escola de Paris, onde habita há meio século.
Foi aluno de Léger e André Lhote e vive normalmente de sua arte, óleo e gravuras. Em 1978 fez uma exposição individual em Tel Aviv a convite do primo Vasco, atual embaixador do Brasil em Israel. Resta acrescentar que uma das netas de Anna Vasco, também chamada de Anna – Thereza Mariz Gudiño , é restauradora de arte, especializada no período Colonial, havendo feito cursos em Quito, Equador, onde seu pai representou o Brasil, e faz parte da equipe de restauração do Museu Histórico Nacional.