terça-feira, 18 de setembro de 2012

A OBRA DE MARIA ADAIR É UM RIO QUE TRANSBORDA EMOÇÕES - 28 DE FEVEREIRO DE 1983.


JORNAL A TARDE ,SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 28 DE FEVEREIRO DE 1983

A OBRA DE MARIA ADAIR É UM RIO QUE TRANSBORDA EMOÇÕES



Acaba de retornar dos Estados Unidos a artista Maria Adair onde permaneceu quase dois anos graças a uma bolsa de estudos da Fulbright /Laspau e Universidade Federal da Bahia fazendo um Curso de Mestrado em Arte.
Sua grande meta sempre foi conhecer outros povos e culturas visando a concepção de uma linguagem plástica facilmente compreendida em locais fora de nossas fronteiras geográficas.
Adair tem uma profunda inquietação. E isto pode ser detectado quando ela diz: “Queria saber como eles se formam, se desenvolvem, atuam, expressam e se comunicam”.
Ler somente não lhe bastava. E, assim viu seu desejo concretizar-se através desta viagem onde pôde constatar in loco e, principalmente, vivenciar aquilo que lhe provocava tanta inquietação. Confessa a artista:
“Que era como se eu estivesse querendo quebrar a minha casa e renascer de uma maneira mais consciente e experimentada”.
Agora de volta ela constata que valeu apena a sua ida aos Estados Unidos porque acredita ter alcançado todos os objetivos a que se propôs. Paralelamente ao desenvolvimento de seu trabalho, observou e estudou a arte contemporânea americana, pesquisando e visitando museus e centros de produção artística.
Esteve ainda no Canadá e em alguns países da Europa para também sentir e ver o que está acontecendo, e entender melhor a influência do Velho Mundo nos Estados Unidos e no Brasil. Fez uma exaustiva pesquisa inclusive fotografando tudo no Soho, que é a maior e talvez a mais importante comunidade artística da atualidade, que fica em New York.

SEU TRABALHO
Quanto ao seu trabalho, posso afiançar que está mais consciente, tanto tecnicamente como do ponto de vista da temática.Acredito que embora tenha sofrido uma influência marcante, no início de sua obra, do professor Juarez Paraíso, Maria Adair já está distanciada desta influência percorrendo seu próprio rumo, concebendo formas espontâneas e orgânicas.

Como ela mesmo diz: “Minha arte é um simples transbordar de meu ser em formas visuais. Eu acho que as coisas estão tão prontas, contidas e amadurecidas já em algum cantinho dentro de mim que elas afloram através de uma explosão natural, sem dor, comunicando meu encantamento pela vida”.
Maria Adair tem sido uma constante espectadora da logicidade da natureza e da evolução do mundo. Simples formas da natureza têm o poder de provocar grandes e bonitas emoções.
Eu olho para uma semente como uma forma latente que tem dentro de si uma futura planta, uma vida. Casulos e ovos são também para ela formas dormentes de vida. Flores antes de mais nada são uma forma de integração macho-fêmea para produzir uma nova vida. Estrelas são formas-emoção que dão ordem ao universo e mantém a vida.
Portanto o centro de seu trabalho é a própria vida. O milagre da vida em toda sua multiplicidade de aspectos e funções.
Ela mostra em suas obras a estrutura básica do macro e micro universo através de linhas, formas e cores que possibilitam verdadeiras tramas, para o espectador desvincilhar.
Tudo criado de acordo com os princípios básicos, como todos os seres vivos são partículas que se combinam durante o crescimento, sua obra segue as mesmas leia básicas tanto para dos animais, minerais ou vegetais. Por isto nos seus trabalhos lá está exposta a anatomia ou a estrutura básica do universo.
Assim desperta àqueles que deixam essas coisas passarem despercebidas. É como um despertar de consciências.

SEUS TRABALHOS

Entre os trabalhos realizados recentemente pela artista posso destacar alguns.
Vejamos: 1) uma série de trabalhos onde Maria Adair pode se expressar no suporte não tradicional que é a gamela. Abandonando a tela e molduras a artista apropriou-se das gamelas vendidas nas feiras livres do interior da Bahia e criou verdadeiras constelação, combinando os elementos e colocando-os suspensões por cordões de nylon transparentes.
Considerou a mostra como uma homenagem à linha curva e à espiral. “A linha curva é um prazer e uma viagem para os olhos. Ela está presente em tudo. O vento e a água se movem em linhas curvas. As plantas e os animais são estruturados em bonitas e harmoniosas curvas. Elétrons, planetas e estrelas descrevem curvas no espaço”.
“A espiral vive em galáxias, nos furações, nas grandes correntes marítimas, em caracóis, em conchas marinhas, em nossos ouvidos, na disposição das sementes de muitas flores como o girassol”.
SEGUNDO

O segundo trabalho talvez o mais excitante para aqueles que tiveram oportunidade de assistir ao vivo aconteceu no ano passado quando Eliana silva, uma professora da Escola de Dança da Ufba., que também está fazendo mestrado nos Estados Unidos, criou uma coreografia inspirada em seu trabalho intitulado “lowa, a terra fértil”. A coreografia interpretou cada símbolo que Maria Adair criou em sua pintura. Houve assim uma verdadeira integração artística entre pintura-dança-fotografia (slides) e isto aconteceu no Museu de Arte de Iowa City. Enquanto os dançarinos interpretavam, Maria Adair projetava slides possibilitando o surgimento de novas formas plásticas, que estão registradas num vídeo-tape. Portanto, a artista usa aí um novo suporte para sua pintura, ou seja, o próprio corpo humano.
Finalmente como resultado deste segundo trabalho, Maria Adair ficou tão impressionada que começou a desenhar e pintar febrilmente. E, na última fase da sua obra nos Estados Unidos notou que a forma exterior do corpo humano tornara-se visível como principal foco de sua temática. Estes corpos mostraram também todas as suas características como verdadeiros espelhos da própria vida. Aí ela fez uma série composta de oito elementos que intitulou “Macho-Fêmea”. E, a seguir outra série de grandes telas (3.65m cada) que chamou de “Meu Rio de emoções”. Três delas estarão expostas a partir do próximo dia 4 na Galeria Mab, que fica na Rua Guanabara, 187, na Pituba. Elas integrarão uma exposição coletiva com trabalhos de Calasans Neto, Leonel Bryner, Luís Brito, Madalena Rocha, Bel Borba, Sante Scaldaferri, Yêda Maria, dentre outros.
Posso assegurar que a própria Maria Adair é uma pessoa de grande sensibilidade, e sua obra é como um rio caudaloso que transborda desde a cabeceira, e em toda a sua extensão, um volume muito grande de emoções.