quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A ESTAMPARIA INDUSTRIAL COMO SUPORTE PARA A ARTE - 25 DE ABRIL DE 1983.

JORNAL A TARDE ,SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 25 DE ABRIL DE 1983

A ESTAMPARIA INDUSTRIAL COMO SUPORTE PARA A ARTE


“Talvez por falta de informação, há ou havia no Brasil um preconceito muito grande em encarar o artista plástico exclusivamente como um pintor ou escultor, quando ele pode também ser um designer.
Colcha de Retalhos, a obra que Cláudio Tozzi fez foi concebida num projeto específico para ser reproduzido em tecido.
Tem programação de inversões no desenho de forma que os pontos sempre coincidem como elementos modulares permutáveis. O original de Tozzi combina vermelho, vinho e preto, e as variantes compõe-se de azul, cinza e bege.

"Sou um artista satisfeito de não ter que seguir nenhuma linha de trabalho forçado. Tenho exercitado a minha liberdade criadora ao máximo de minhas possibilidades"Antônio Peticov, em Milão. Festa é o nome da obra que Peticov criou para a Arte e Estampa, imaginando-a como uma " boa festa, onde aflora toda a forma de energia". Seu desenho supõe uma explosão de luz, em tons fortes com as sete cores do arco-iris sempre presente em sua obra:vermelho,laranja,amarelo,verde,azul,anil e lilás. Ele manteve as sete côres, todas elas em tons pastéis:lilás,amarelo,rosa,cereja,verde, verde-água e azul-hortênsia.



Um tratamento diferenciado vem à pauta para o lançamento da nova coleção ao público em geral e à crítica especializada: uma real exposição de arte e de estamparia foi inteiramente montada para representar todas as etapas do projeto, que vem sendo desenvolvido há quase um ano, num contínuo intercâmbio entre e os cinco artistas participantes.


                     UMA INDÚSTRIA TÊXTIL

“Arte e Estampa” foi lançada em São Paulo, no último dia 12, onde permanece até o último dia do mês. Durante a mostra, as obras originais estão sendo vistas ao lado dos tecidos já estampados com desenhos especialmente criados pelos artistas.
Estarão expostos móveis revestidos com os novos lançamentos, cujas cores respeitam integralmente o original de cada autor, além de uma variante sugerida pela experiência dos fabricantes.
O ineditismo vai ainda além, com o recurso da vídeo-arte que se faz presente e permite a apresentação de “Bustos eletrônicos” de Gerchman, Gregório, Paulo Garcez, Peticov e Cláudio Tozzi. Como podemos ver é a arte acompanhando passo a passo a tecnologia. Realmente a indústria necessita de dosar a fabricação massificante com dose de criatividade e ninguém melhor para isto que o artista plástico.

                           O PROGRAMA COMPLETO

“Arte e Estampa” tem caráter itinerante, obedecendo a um roteiro de programações sucessivas ao evento paulista que se estende de 12 a 30 de abril na Alameda . Santos 2219. A exposição segue, então, para o Rio de Janeiro, permanecendo de 10 a 21 de maio em Ipanema, à Rua. Joana Angélica ,169.
Do Rio prossegue para Curitiba com vernissage marcado para 31 de maio à Rua Carlos de Carvalho ,963, onde a exposição continua até 11 de junho. O ciclo se encerra em Porto Alegre, no show-room de Moinhos de Vento, à Rua. Dr. Timóteo 577, com início em 21 de junho e permanência até 2 de julho.
A partir desses centros, e através dos mais de 400 representantes da empresa, os tecidos assinados serão levados a todo o país. É pena, que não teremos aqui exposta esta experiência que merece todo apoio e atenção.
Antônio Peticov, Cláudio Tozzi, Gregório Correa, Paulo Garcez e Rubens Gerchman são os convidados à experiência de mudar o suporte da obra de arte, agora assentada em tecido de puro algodão, prestando-se a múltiplas e variáveis utilizações podem cobrir paredes, revestir estofamentos, colchas, cortinas e tantas outras. Essa criação no marketing de tecidos tem a tônica das grandes idéias. Tecidos de decoração assinados por nomes famosos e acompanhados por certificados de autenticidade, sem dúvida, trazem a marca da fama desde o início.
"Estou tentando aprofundar cada vez mais, ser feliz,ser tranquilo,encontrar um equilíbrio na vida. Profissionalmente, quero ir mais fundo nesta busca.
Mobílias, como   para da série Coletivos, é o nome da obra  que Paulo Garcez criou.No original,o autor usou nove cores,onde predominam os tons de rosa, azul e amarelo.    

A PARTICIPAÇÃO DOS ARTISTAS

Para Eduardo Strumpf, diretor da Formatex, “Arte e Estampa” representa a busca de novos caminhos para a estamparia, oferecendo mais opções de qualidade ao consumidor e, ao mesmo tempo em que procura valorizar a participação do artista nacional em projetos empresariais, evita a habitual cópia dos padrões estrangeiros, como normalmente acontece neste mercado.
O crítico de Arte Carlos Von Schmidt refere-se à “Arte e Estampa” como um “oportuno projeto”, onde parecem ter germinado as “sementes da Bauhaus” e cuja “importância da iniciativa é visível a olho nu”. Absolutamente entusiasmado tanto com a idéia quanto com a sua realização, o crítico é enfático ao afirmar que o empreendimento “não pode parar aí”.
Os cinco artistas selecionados entre os mais representativos nomes da arte brasileira tiveram em relação à “Arte e Estampa” o que pode ser chamado de uma participação completa. Envolvidos de tal forma no projeto, cada um se sente um pouco pai, irmão, ou amigo da idéia. Antes da ação em si, foram questionados, questionaram também, sugeriram, participaram enfim da incorporação da idéia. Em seguida, cada um projetou, sofreu, viveu cada momento do processo de criação e da sua integração com o fim proposto, até que o caminho fosse encontrado. Continuaram participando no acompanhamento do produto final, opinando sobre as variantes sugeridas pela Formatex e, ainda, foram chamados mais uma vez para refletir sobre o significado desta participação.
Como traço comum, são cinco artistas jovens que tiveram o seu talento reconhecido em vida e num espaço de tempo não muito longo o que é por si surpreendente no panorama artístico nacional. Em decorrência, todos eles têm ainda um caminho bastante longo a percorrer e, no meio dele, “Arte e Estampa” teve para cada um o seu especial significado.
Do confronto de experiências, avaliações ou sensações surgem pontos em comum entre eles, como no tocante à divulgação do autor, considerável por todos de notável feição, seja por percorrer outras capitais, por revelar um público talvez novo ou a própria característica da mudança de suporte a ser encarada como incentivo para outros empreendimentos no gênero.
Como pré-requisitos para a realização, foi pautado apenas que os desenhos não fossem superiores a um metro, pelas especificações do tecido de decoração e que não superassem a doze cores.
Paulo Garcez foi o que mais se aproximou do limite das cores e Gregório usou o espaço máximo, os demais não atingiram os extremos permitidos à reprodução em chintz, com 1.30m de largura.
Quanto à criação artística que não seja para “viver exclusivamente como objeto de arte” houve, por parte dos cinco designers, uma aceitação com naturalidade e sem surpresas.
Garcez vibrou com toda a perspectiva do projeto, na medida em que não havia feito nada parecido até este momento. Já Peticov sentiu-se bastante à vontade pelo costume de atuar no meio que transcende galerias e museus exclusivamente mas apreciou considerar as possibilidades e limites da gráfica têxtil, esta, sim, revelando-se como uma novidade para ele.
Gregório confessou que teve muita dificuldade em fazer o original da estampa, mas acabou tirando muito proveito do desafio. Aliás, desafio foi a expressão quase unânime para definir “Arte e Estampa” pelos cinco participantes.
Tozzi acredita que é o tipo de iniciativa que poderá ajudar a destruir o preconceito que se tem contra os artistas, quanto a serem aceitos como pintores ou escultores mais não como designers. Ressalta que a mudança de suporte é a característica básica da arte deste século, e que está mais do que na hora dela se impor no nosso país. Gerchman acha muito importante o exercício numa nova linguagem e gostaria, de que outras iniciativas similares fossem levadas adiante, como forma de estímulo.
Mas o grande consenso entre os artistas se expressa na utilização da arte no processo industrial, desde que cada um tenha a sua medida para resguardar os limites da própria escala de produção.
Finalmente, quanto ao fato de iniciativas como esta virem incentivar a arte e o artista brasileiros, os participantes colocam este incentivo num outro nível. Rubens Gerchman diz que o “problema não é do artista, mas trata-se da mentalidade de quem está financiando, de quem está promovendo ações deste tipo”. Concordando plenamente., Claudio Tozzi resume:”Iniciativas como “Arte e Estampa”, muito mais do que o artista, incentivam a indústria de forma a mostrar que há caminhos bem mais saudáveis do que a simples cópia. Ela deveria ser encarada como um exemplo de fazer da indústria têxtil brasileira um veículo da nossa arte”.
“O artista está preocupado em conquistar o mundo. Eu estou concentrado na minha cidade, no meu meio, no meu próprio meio. Gregório Correa fez um desenho gráfico. São vários prédios concentrados, produzido em caneta sobre papel. O artista confessa ter tido muita dificuldade nesta realização, para a qual sofreu, demorou... depois gostou e queria fazer mais.
O original do autor apresenta dois tons de preto sobre fundo branco e a variante sugerida pela Formatex apresenta dois tons de cinza também sobre fundo branco.




“A iniciativa é exatamente o reflexo do pensamento novo, do artista de hoje, que chamo de pluri e participante. É uma questão de jogo de cintura que rebate um determinado “purismo” fora de época. É uma oportunidade absolutamente saudável, sempre que feita com critério e qualidade”.
A obra que Rubens Gerchman criou segue uma linha natural e representa uma paisagem com a qual ele convive no dia-a-dia.
O artista idealizou bananeiras sobre fundo azul e a variante em tons de bege, musgo e azul.