quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

MANOEL BOMFIM O EMISSÁRIO DOS ORIXÁS

Manoel Bomfim na sua exposição na galeria da
Federação do Comércio
Quero registrar mais uma vez a obra de um dos

mais tradicionais artistas de origem popular de nossa Bahia. Trata-se de Manoel Bomfim que faleceu no dia 19 de março do ano passado , e está enterrado no Cemitério Bosque da Paz, no bairro de Nova Brasília, e poucas pessoas tiveram conhecimento do seu passamento.
Bomfim era um negro típico da Bahia, ligado ao candomblé, morador antigo do bairro do Rio Vermelho e depois mudou-se para um prédio na Boca do Rio.
 Tinha a conversa fácil e agradável , além de sua risada inconfundível, dando uma  aparência que era feliz eternamente. Gostava de falar de seus trabalhos plásticos sempre ligados a coisas do candomblé, principalmente os Orixás. Pintou,fez tapeçaria  e esculpiu centenas de Orixás que hoje estão espalhados em coleções daqui e de fora do país. Era ogã confirmado da Casa Branca,tinha portanto conhecimento e envolvimento com o mundo dos Orixás.
Esta escultura em forma de
uma telha retrata um Orixá.
Me foi presenteada pelo
saudoso Manoel Bomfim.
Trabalhou como servente na Escola de Belas Artes e foi através desta convivência com a arte e os professores e alunos  que descambou para iniciar seus primeiros passos na escultura dos Orixás. Terminou sendo professor auxiliar de Modelagem. Lembro que em novembro de 2002 ele comemorou 50 anos de arte. Estava visivelmente alegre com as exposições que iria realizar mostrando pinturas e esculturas. Era uma realização e reconhecimento de todos estes anos de muito trabalho e dificuldades. Na realidade o trabalho não veio lhe proporcionar uma vida mais confortável ou seja não lhe deu grandes vantagens financeiras.
 Sempre teve uma vida humilde com seus filhos e sua esposa Maria Augusta Gomes do Bonfim que era muito conhecida por preparar um gostosíssimo bacalhau de martelo e uma batida de limão inesquecíveis nos encontros com os colegas artistas. Numa conversa recente que tive com seu filho, e também artista João Augusto Bonfim  se queixou que não deram  a devida atenção à memória de seus pais, ambos falecidos,que eram  pessoas especias. Hoje,  João Augusto e o Manoel, filhos do mestre dos Orixás.estão formados pela Escola de Belas Artes da Ufba e trabalhando com arte.
O patriarca Manoel Bomfim - ele gostava de assinar com m, embora fosse batizado com n de Bonfim, uma homenagem ao Senhor do Bonfim - fez sua primeira exposição em 1963 na então Galeria Bazarte, de José de Almeida Castro,que ajudou muitos artistas que hoje estão ai como os líderes de mercado, sendo que muitos inclusive já faleceram.
Manoel Bomfim nasceu em 25 de maio de 1928,portanto, faleceu perto de completar 88 anos em 19 de março de 2016.Deixou um legado artístico que precisa ser estudado por algum aluno da Escola de Belas Artes através de uma tese de mestrado ou coisa que o valha mostrando esta sua trajetória de servente até professor auxiliar de Modelagem , sem esquecer que era  tapeceiro, pintor e escultor.
Lembro que em janeiro de 2003 ele estava expondo na Galeria da Casa do Comércio e fui encontrá-lo. Estava contentíssimo com a exposição  e na época reproduzi este pequeno texto de Jorge Amado que diz : "Manoel do Bonfim é um filho do povo da Bahia, cuja arte ingênua, porém verdadeira, nasce diretamente das fontes da cultura popular,e se mantém fiel às suas origens despida de artificialismos, modismos integrada nas tradições e na vida.
O caminho do artista Bonfim foi traçado por ele próprio, com seus próprios meios, com sua obstinação.Aprendeu com o povo, nas rodas de samba,nos candomblés,nas escolas de capoeira,nos carurus de Cosme e Damião, na rampa do Mercado , ao lado dos pescadores,dos barraqueiros, da gente pobre,aprendeu com os Orixás".
O festejado e saudoso escritor Jorge Amado sabia dizer em poucas linhas a essência da obra de um artista, principalmente quando se tratava de um artista que viesse do seio da cultura popular, fonte onde bebeu incansavelmente para escrever seus belos e grandiosos romances.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

REGISTROS DE PASSAGENS DE SÉRGIO RABINOVITZ

Sérgio autografando meu exemplar de
Registros de Passagens.
Revi pessoalmente o pintor Sérgio Rabinovitz depois de alguns anos. Foi no lançamento de seu livro de Registros de Passagens , no último dia 13, na Galeria Paulo Darzé. A sala principal da galeria estava cheia de conhecidos frequentadores de vernissagens e deste tipo de evento cultural . A alegria era geral, enquanto Claudius Portugal  organizador do livro, e Sérgio autografavam os exemplares que foram distribuídos gratuitamente entre os presentes.
Tenho acompanhado a obra de Sérgio Rabinovitz desde a década de 70 quando ele retornou de uma bolsa de estudos nos Estados Unidos,onde chegou influenciado pelos grafites que via diariamente nas ruas de New York. Assim seus trabalhos iniciais tinham uma forte marca do gestual, de um grafismo vigoroso e moderno. O artista é de certa forma metódico naquilo que pretende realizar, e assim vai construindo uma obra coerente através dos anos.
Claudius e Sérgio na noite de autógrafos.
Ao folhear o livro encontramos cerca de 80 trabalhos em preto e branco onde ele capta a essência de momentos do que acontece nas praias, nas ruas,becos ,praças e mesmo nas casas de Salvador.São cenas do cotidiano desta cidade mágica como a puxada de rede, o vendedor de passarinho, as festas populares. Cada obra é uma crônica visual. As obras nos levam a imaginar a movimentação das pessoas, a alegria estampada em rostos negros marcados pelo sol e o salitre deste mar que banha a nossa costa.
Filho de músicos, inclusive seu pai Salomão Rabinovitz era solista da Orquestra Sinfônica da Universidade Federal da Bahia e por diversas vezes esteve comigo para divulgar seus concertos no jornal A Tarde, onde trabalhava. Porém, não sabia que Sérgio andou tocando flauta doce e até viajou pelo Brasil afora em suas apresentações musicais.
Frequentou os ateliês do saudoso Calazans Neto. e também de Mário Cravo. Diz Sérgio no depoimento a Claudius Portugal que no atelier de Calá "tive a pedra de toque para minha escolha colocando em minhas mãos alguns instrumentos de corte, de xilogravura, uma goiva, formões, mostrando como se cortava a madeira e me mandando para casa trabalhar e trazer o resultado". Já com Mário Cravo ele tem contato com a gravura em metal, a escultura em ferro, e ele "me ensina a ser capaz de minha arte".
O tradicional baba na praia
Em 1979 gradua-se bacharel em Artes Plásticas pela Cooper Union for the Advancement of Science and Arte, em New York. Foi exatamente no seu retorno que tivemos o primeiro contato quando ele me mostrou trabalhos que tinha feito sob a influência dos grafites que cobriam as paredes e muros da grande metrópole americana..
A puxada de rede na orla
de Salvador
Portanto, ao olhar estas obras integrantes do livro tive a impressão que Sérgio acabara de desembarcar num sonho onírico em nossa cidade, como aconteceu em Nova Iorque há vários anos.Sérgio  se delicia com as cenas urbanas desta magia miscigenada que encantam os olhos de todas as pessoas que têm alguma sensibilidade. Os traços são firmes, econômicos. Sim, porque com poucos traços e gestos ele compõe as paisagens que nos deixam reflexivos tentando preenche-las ou não  com  elementos presentes e ausentes.
Hora do passeio na Barra

Talvez , estivesse em momentos
contemplativos observando o vaivém das marés, o andar de lá pra cá das pessoas, enquanto a brisa refrescava o seu corpo.
Quero registrar que este livro foi editado com o patrocínio da Assembleia Legislativa, que vem fazendo um trabalho cultural digno de elogios com lançamentos de livros que enriquecem a cultura baiana.

domingo, 27 de novembro de 2016

OBRA DE TATTI MORENO REGISTRADA EM LIVRO

Ai está o Tatti com seu carro escultura que causou frenesi
na época quando trafegava pelas ruas de Salvador.
Ao folhear o livro A Arte de Tatti Moreno me transportei aos anos de 1960, quando tive o primeiro contato com ele ao ser designado pela Chefia de Reportagem do jornal A Tarde para fazer uma entrevista com um jovem artista que morava no bairro da Graça e teria feito uma escultura num carro. A pauta não dava maiores detalhes sobre o feito do artista, e tão pouco do seu autor.
Quando lá cheguei, encontrei um jovem  nu da cintura para cima , cabelos encaracolados, envolvido na garagem de sua casa com suas ferramentas de trabalho e ansioso em mostrar sua última criação. Foi aí que me surge um Fusca  transformado em escultura com cara de monstro e dentes afiados, nariz projetado e olhos grandes.
Tatti foi logo falando de sua expectativa de no domingo seguinte dar uma volta triunfal na Fonte Nova, na partida entre o Bahia e Vitória, garantia de casa cheia . Lembro que a volta foi rápida e que muitos torcedores nem perceberam do que se tratava, já que o foco era a partida entre  os maiores rivais do futebol baiano.E assim, aconteceu a apoteose do seu trabalho escultórico, que  atraía a curiosidade das pessoas quando saia pelas ruas de Salvador .
O artista teve algumas dificuldades para conseguir um documento da polícia de trânsito, que relutava em dar autorização para que aquele estranho carro circulasse pelas ruas da cidade.
Os comentários variavam. Uns diziam tratar-se de  extravagância de um playboy, outros apenas que era uma coisa estranha que andava. Evidente, que naquela época não se tinha à disposição o volume de informações que temos hoje , inclusive sobre uma obra de arte, e estava no auge as extravagâncias de alguns milionários como o Baby Pignatary, Jorginho Guinle, inclusive de alguns endinheirados baianos.
No meu acervo estão dois orixás
esculpidos por Tatti. Tenho preferência
por este Oxóssi de 60 cm.



Na parte traseira  de seu carro-escultura ele instalou uma fonte luminosa que jorrava água em até 2 metros de altura; na lataria fez algumas  máscaras, parte do capô se movia mostrando os  dentes dourados, e no lugar dos faróis os olhos se movimentavam. Tinha a cor preto e  dourado .
Era na verdade uma obra de arte, onde o artista fazia seu protesto contra a massificação do consumo através do automóvel. Imagine que a insipiente indústria automobilística estava apenas começando no Brasil e já assustava o Tatti, devido ao apego que as pessoas demonstravam, já naquela época, ao automóvel. Esta escultura depois foi participar de uma exposição do Rio de Janeiro e nunca mais soube do seu paradeiro.

Nos anos seguintes, passei a me interessar mais por arte e acompanhei a trajetória de Tatti, que a cada ano ganhava prestígio, e suas esculturas passaram a ser adquiridas por colecionadores daqui e de fora do Brasil. Hoje, um escultor consagrado, o Tatti continua com seu jeitão descontraído , sempre disposto a realizar novos trabalhos, fiel à sua temática calcada na arte afro-brasileira.Já esculpiu insetos, máscaras e totens. Porém, o seu forte são os Orixás.
A propósito para sua cidade criou àquelas belas e grandes esculturas representando os Orixás que estão no Dique do Tororó, local dedicado ao culto de Oxum, a Rainha das Águas Doces . Suas esculturas são referência, e mesmo uma atração turística a mais para os que nos visitam ,e até mesmo para os baianos que passam pelo local. Todos querem fazer uma foto, que fica bonita de qualquer ângulo que você focar.
As  esculturas de Tatti Moreno ressaltaram
mais ainda a beleza natural do Dique do Tororó.
São doze Orixás , sendo que oito ficam no espelho d'água -Oxalá,Oxum,Xangô,Yemanjá,Yansã,Ogum,
Logun- Edé e Nanã, e outras quatro , na terra que são Exu, Oxumaré,Ogun-Edé e Ossanha. São esculturas com sete metros de altura , em estrutura de ferro, revestida de fibra de vidro, polietileno, para evitar ferrugem. Estão dispostas em círculo, numa formação das cerimônias do candomblé.
Ele já tem muitas esculturas em áreas públicas e privadas em várias cidades e capitais brasileiras. Recentemente, fez aquela escultura de Jorge e Zélia Amado que está no bairro do Rio Vermelho.
Faço este registro com muita satisfação em ver o Tatti Moreno cada vez mais criativo, cada vez mais sua trajetória sendo festejada e, agora, eternizada neste belo trabalho de Claudius Portugal.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

OBRAS DE AMÍLCAR DE CASTRO EM SALVADOR

Obra de Amílcar de Castro onde ressai  forte gestual
A partir de 2 de dezembro os baianos poderão apreciar obras do escultor mineiro Amílcar de Castro , as quais permanecerão aqui até o dia 1º de outubro na Galeria Paulo Darzé, no Corredor da Vitória.
São 20 esculturas em madeira, ferro e aço corten além de 31 pinturas , sendo seis em papel e 25 sobre tela com a curadoria de Rodrigo Castro, que também assina o livro/catálogo quando diz que " Hoje ou em qualquer tempo, Amílcar de Castro sempre irá surpreender e preencher nosso olhar, nossa alma, com o inusitado, o novo, a arte pura de um mestre que, com sabedoria, empurrou o fim para um depois, mais e muito além do tempo. Possível apenas quando a vida e a arte, mutuamente atraídas, realizam o incomum, o raro e impensável”. 
Esta mostra é uma síntese de alguns períodos de criação do artista com a utilização de materiais diversos como suporte de sua arte forte e vibrante.Integrante do movimento neoconcreto Amílcar de Castro marcou presença no panorama das artes brasileiras . Teve um papel destacado quando da reforma do Jornal do Brasil elaborando a visualização gráfica, que na época chamava-se de diagramador.
Amílcar foi escultor,gravador,desenhista,diagramador, cenógrafo e professor de composição, escultura, desenho e teoria da forma na Faculdade de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais.
                                                                                                              

                                                                                       O ARTISTA
Amílcar de Castro com uma de suas esculturas


Nasceu em Paraisópolis, Minas Gerais, em 8 e junho de 1920, e veio a falecer em 22 de novembro de 2002, vítima de insuficiência cardíaca, após complicações decorrentes de uma angioplastia coronária.
Formado em Direito exerceu a advocacia , mas a arte exercia um fascínio que o levou a inscrever-se na Escola de Arquitetura e Belas Artes, onde frequentou o Curso Livre de Desenho de Pintura ministrado por Guignard e Escultura Figurativa com Franz Weissmam. Em 1952 muda-se para o Rio de Janeiro indo trabalhar como diagramador no Jornal do Brasil, que na época era um dos mais importantes jornais do país. Trabalhou também nas revistas Cigarra e Manchete,vindo a realizar o projeto gráfico do Jornal do Brasil, que revolucionou o visual dos periódicos brasileiros.
Sua primeira escultura foi apresentada na II Bienal de São Paulo, e em 1955  recebe o Prêmio de Escultura do Salão de Arte Moderna da Bahia.Participa das exposições do grupo concretista de São Paulo e Rio de Janeiro , Ganha vários prêmios .
Em Salvador participou em 1951 do III Salão Baiano de Belas Artes, e em 1955 recebeu o Prêmio de Escultura do Salão Nacional de Arte Moderna da Bahia, além de expor em coletivas e individuais .

          

               



terça-feira, 23 de agosto de 2016

DIRETOR DO MAM-BA ENTREGA CARGO

Zivé fez muito bem em
entregar o cargo de diretor
A prepotência mais uma vez sai vitoriosa. Já venho falando há algum tempo que a cultura na Bahia é relevada a um plano secundário . Agora, a vítima foi o Museu de Arte Moderna da Bahia - MAM-BA que será palco de uma gravação de um programa de segunda linha da TV Globo chamado de Esquenta, que tem como apresentadora a Regina Casé. 
Todo museu ou outra instituição cultural qualquer  tem normas, que são traçadas visando a sua integridade, e principalmente, a funcionalidade. O MAM-BA tem um regulamento que determina que gravações , fotografias  e outras atividades semelhantes são sempre liberadas para às segundas-feiras, quando o museu está fechado à visitação pública . 
Acontece que a produção deste programa insistia que queria gravar na terça-feira , quando o museu está em funcionamento, o que não concordou o então diretor Zivé Giudice. Inconformados com a negativa os funcionários da estação de televisão foram até  o IPAC, e conseguiram uma "autorização" do diretor , o arquiteto João Carlos de Oliveira,  para realizar a filmagem na terça-feira. Inconformado Zivé entregou o cargo.
Este fato lamentável foi imediatamente repercutido no meio artístico baiano como um claro desrespeito não somente ao diretor do MAM-BA  mas, a todo segmento artístico da Bahia, que tem este museu como um ícone da nossa cultura.  
Zivé mesmo sem apoio e recursos vinha realizando um trabalho exemplar à frente do museu devido a seu tirocínio e ajuda de vários artistas, principalmente, os de sua geração.
O Secretário de Cultura , Jorge Portugal apoiou a decisão do diretor do IPAC, João Carlos atendendo à solicitação da produção do programa da TV Gobo que vai gravar nas instalações do Solar do Unhão. 
Tive conhecimento que recentemente um grupo de artistas se dirigiu à Secretaria da Cultura com o objetivo de entregar um documento reivindicando algumas ações com vistas a realização de salões de fotografias, artes plásticas , etc. Os artistas foram recebidos no balcão de informações por uma assessora e saíram de lá decepcionados.
Não consigo entender porquê os museus estão subordinados ao Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural  - IPAC, que foi criado para cuidar dos monumentos históricos da Bahia, e não para traçar políticas ou supervisionar museus . Enquanto isto, dezenas e dezenas de casarões e prédios históricos estão em ruínas ou degradados.


CARENTES

Os museus e outras instituições culturais baianas estão carentes de recursos porque o Governo do Estado não mostra sensibilidade para com a nossa cultura. Isto vem acontecendo há alguns anos , e agora piorou. A preocupação do momento são as eleições municipais, com vistas a apoiar novos candidatos  e reeleições de prefeitos, visando num futuro próximo apoio pra reeleição do atual governador.
Esta é a verdade pura e simples. O que assistimos são mutirões  de exames de motoristas  , assinaturas de contratos para novas obras,  e assim por diante, tudo visando as eleições. É como se diz no popular, não tem almoço grátis. 
Os nossos museus e outras instituições culturais não dispõem de qualquer recurso para funcionar. É quase um estado de mendicância, enquanto isto, a propaganda martelando de que tudo vai bem obrigado, ressoa nos quatro cantos da Bahia, em todas as estações de rádio e televisão. É quase um massacre publicitário a custos astronômicos.
Cultura não dá voto,infelizmente.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

ARTE DA CANTARIA SERÁ DEBATIDA EM SANTA LUZ-BA

O belo chafariz  representa a arte da cantaria
Uma exposição será aberta no próximo dia 2 de setembro na cidade de Santa Luz em homenagem a uma família de canteiros ( oficiais que trabalham com cantaria) . É a família Boaventura de Abreu que tem trabalhos espalhados por todo o nosso país. 
Lembro da minha infância quando chegaram os primeiros paralelepípedos vindos de Santa Luz para serem utilizados no calçamento das ruas de Ribeira do Pombal. Foi uma festa naquela época.
A arte da cantaria pode ser apreciada em nossas igrejas e casarões centenários que embelezam Salvador, e outras cidades históricas do país. Foram os portugueses que trouxeram  para cá, e graças a esta arte muitas construções centenárias mantem-se de pé, apesar dos maus tratos, e a falta de manutenção por parte de seus proprietários e do próprio governo, em todos os níveis : federal, estadual e municipal. 
Acabo de vir de Portugal e fiquei maravilhado com a conservação dos prédios na Lisboa antiga, a qual já foi vítima de um terrível terremoto em 1755, e foi reconstruída sob a liderança do Marquês de Pombal. Quase não se vê vestígio de destruição ou de casarões abandonados . 
Aqui se você desce pelas ladeiras da Montanha, Gameleira,Misericórdia  e Conceição parece que a cidade foi bombardeada. São dezenas e dezenas de casarões centenários em ruínas. 
Quando você chega na zona do Comércio e olha para o Elevador Lacerda vê vários desses casarões destruídos,no seu entorno, inclusive na rua onde está este monumento.
DIFICULDADE
Imagino a dificuldade dos escravos e operários  cortando  àqueles imensos blocos de pedra com instrumentos rudimentares, e depois transportando-os ladeira acima para colocar no local das paredes e muralhas. Os castelos e igrejas, muitas vezes estão localizados no alto dos morros.Isto dificultava mais ainda o trabalho. As carroças eram de rodas de madeira puxadas por animais, que sofriam  muito na realização deste trabalho.
Portanto, projetos como este realizado em Santa Luz são de fundamental importância para o resgate e melhor conhecimento desta arte pelas gerações atuais e futuras. É preciso valorizar esta arte que tanto contribuiu para que tenhamos em todos os cantos do mundo monumentos maravilhosos que até hoje são apreciados pelos visitantes, principalmente pelos mais sensíveis e  informados.
Para isto, temos que sensibilizar autoridades e educadores da região para que mostrem aos seus alunos esta arte milenar. Assim, surgirão novos canteiros, a exemplo dos membros da família Boaventura de Abreu, garantindo a perpetuação deste importante ofício .
Portanto, parabéns ao município de Santa Luz , especialmente a Manoelito Carneiro das Neves e Maria Amélia Silva Nascimento.
                                                               x-x-x-x-x-x

CANTEIRO ou CANTEL é o oficial que corta, desbasta e aparelha as pedras para a construção que irão constituir a cantaria. O termo tem origem no latim canthus. O vocábulo "canto", com o significado à época pré-romana de "pedra grande", consiste na pedra aparelhada para formar o ângulo de uma construção. Daí sua ampla utilização nos cunhais ou esquinas das edificações, arrematando o encontro de dois panos de paredes. ( Wikipédia)


sábado, 20 de agosto de 2016

MAM-BA MOSTRA SEU RICO ACERVO

                                                                         Foto Google
O baiano Rubem Valentim na 16ª Bienal de São Paulo, com
uma das peças do conjunto Templo de Oxalá,que está exposto

na Capela do Solar do Unhão.
Defendo que os dirigentes de instituições culturais da Bahia devem arregaçar as mangas e buscar através de ações junto à comunidade ou aos segmentos  diretamente interessados formas de realizar e melhorar suas gestões. Quero aqui parabenizar o artista plástico Zivé Gíudice  , que voltou a dirigir o Museu de Arte Moderna da Bahia -Mam-Ba , que funciona no belo casarão do Solar do Unhão. Ele vem montando algumas exposições do próprio acervo do museu, e também, chamando os artistas a colaborar com as Oficinas de Múltiplos , que sempre foram um ponto forte do museu.
Os museus e outras instituições culturais baianas estão carentes de recursos porque o Governo do Estado não mostra sensibilidade para com a nossa cultura. Isto vem acontecendo há alguns anos , e agora piorou. A preocupação do momento são as eleições municipais. 
Estive no Museu de Ciência e Tecnologia, e só na entrada, já dá para sentir a situação do museu com o mato tomando da cerca,  um velho outdoor enferrujado na entrada principal, ondulações na pista cheias de  poças d'água, e assim por diante. (Leia reportagem sobre a situação deste museu - Museus Abandonados em nosso país, 17 de maio deste ano ,neste blog).
Recentemente, visitei o Museu Calouste Kulbenkian, em Lisboa, e pude sentir a grandiosidade daquela instituição , que estava com um público grande em seus jardins e nas salas de exposição. Vi muitos turistas, e todos são obrigados a contribuir, como acontece com monumentos e museus que a gente visita fora do país. Aqui é gratuito e mesmo assim muitos baianos não visitam e não conhecem os  museus. 
Obra de Reinaldo Eckenberger

Portanto, você que mora em Salvador precisa visitar nossos museus. Passei uma tarde agradável e  renovadora no Mam-Ba onde pude visitar  exposições, que podem ser levadas para  qualquer museu do mundo, especialmente a chamada "40 Anos de Linguagem Contemporânea no Mam",  que ocupa o belo salão principal do Solar do Unhão, e a da Capela,que abriga o conjunto de obras "Templo de Oxalá", de Rubem Valentim.

Este salão do Solar do Unhão foi redesenhado pela saudosa arquiteta  Lina Bo Bardi, e ganhou  sua portentosa escada. Ali estão expostas obras do acervo do museu de autoria dos artistas : 
Gravura de J. Cunha na mostra PA
Chico Liberato,Juarez Paraíso,Edson da Luz,Juraci Dórea,Reinaldo Eckenberger, Sérgio Rabinovitz,Mário Cravo Neto,Vauluízio Bezerra ,Almandrade,Márcia Magno,Luis Tourinho,César Romero,Ramiro Bernabó, Bel Borba, Guache Marques, Zivé Giudice, Florival Oliveira, Justino Marinho,J.Cunha,Dicinho,Celeste Almeida,Murilo Ribeiro, Leonel Mattos,Caetano Dias, Ayrson Heráclito, Paulo Pereira, Márcio Lima, Pico Garcez, Pedro Arcanjo e Yuri Sarmento. 


A terceira mostra chamada de Prova do Artista - PA apresenta trabalhos que foram produzidos pelos artistas colaboradores e alunos nas Oficinas de Múltiplos. O Mam-Ba organizou uma exposição, utilizando inclusive materiais que estavam disponíveis por lá, e assim, o visitante pode apreciar e comprar a preços convidativos trabalhos em litogravura e xilogravura de autoria de Sérgio Rabinovitz,GuacheMarques,Almandrade,J.Cunha,Ceceu, Eliezer Bezerra,Caetano Dias,Gabriel Arcanjo, Antônio Tarsis, Zivé e Bel Borba .

                                       PALAVRA DO DIRETOR

Veja o que escreveu o diretor do Mam-Ba, Zivé Giudice sobre esta iniciativa :

O diretor do Mam-Ba Zivé Giudice
"Dando continuidade à programação de exposições do acervo, a mostra 40 Anos de Linguagem Contemporânea no MAM celebra quatro décadas de diálogos do museu, com a produção atual das artes visuais.
A ressignificação dos museus de arte iniciada na década de 60 apontava para a compreensão do museu como uma casa de reflexões, onde a arte experimental poderia ser compreendida e não mais o lugar de guarda do objeto consagrado, frequentado pelos especialistas.
Na metade dos anos 70, o Mam organizou um extenso calendário com simpósios, debates e exposições, com a presença de artistas e críticos renomados, com o propósito de repensarem o museu e adequá-lo a esse novo conceito do museu de arte do século XXI.
Exposições como a Cadastro, Agora Mostra Sete, Agora Mostra Quatro, Exposição Proposta e a criação das Oficinas de Múltiplos, objetivamente iniciam o flerte do Mam-BA com as linguagens contemporâneas."