sexta-feira, 28 de setembro de 2012

RUBENS GERCHMAN EXPÕE NO MAMB VOYER AMOROSO - 01 DE AGOSTO DE 1983.

JORNAL A TARDE SALVADOR TERÇA-FEIRA, 01 DE AGOSTO DE 1983.

RUBENS GERCHMAN EXPÕE NO MAMB VOYER AMOROSO


“Voyer Amoroso” foi à expressão que encontrou o artista Rubens Gerchman para designar o espectador do amor. Ou seja, aquela pessoa sensível capaz de perceber a pura amizade entre duas pessoas.Assim, podemos entender estas 20 litografias e serigrafias que o artista está expondo no Museu de Arte Moderna da Bahia, de 1° a 8 de agosto. Certa vez Rubens Gerchman disse “o que melhor caracteriza o homem é a multidão”. Dentro dessa visão durante a década de 60 trabalhou obrigando o espectador a pensar através dos detalhes, dos pedaços do cotidiano, levando-o muitas vezes até ajoelhar para mirar melhor uma                obra de sua autoria. Na foto Rubens Gerchman que expõe 20 litografias e serigrafias.
Na década 70 Gerchman se apodera de novos símbolos, até chegar ao “Voyer Amoroso”, cuja série começou a elaborar em 1975 com “Boa Noite”, sempre abordando temas amorosos e o que se chama de lado afetivo, sem qualquer agressividade. Os beijos demorados, e o apalpar das coxas surgem em suas litografias e serigrafias dentro de uma linguagem natural e não chocam, nem mesmo uma pessoa mais reacionária ou que tenha muitos preconceitos. A abordagem tem uma conotação lírica da efetividade, da abordagem natural e parece que Gerchman se colocou, como um verdadeiro voyer escondido atrás de sua criatividade para captar aqueles momentos vividos a sós com toda intensidade.
Inquieto, por temperamento, Rubens Gerchman com mais de 20 anos de experiência, tem não apenas captado o cotidiano deste Brasil. É bom lembrar, das misses e dos índios que realmente alcançaram como imagem e mensagem plástica todo este país. É um profissional que acompanha de perto o seu trabalho, mesmo quando necessita utilizar de métodos mecânicos. Como é o caso da reprodução em série. Revelou a este colunista que na série das litografias e serigrafias “Voyer Amoroso” fez todas as matrizes conseguindo uma variação de cores espetacular. São dez cores que estão devidamente definidas. “E, este resultado sintetiza o meu trabalho”.

ATENTO E METICULOSO

Voyeurs somos todos nós, espectadores do que está acontecendo a nosso redor. Somos os que deitam o olhar demoradamente sobre o que nos cerca, os objetos e as ações de outras pessoas e mesmo dos animais. Percebendo e ficando muitas vezes surpresos com o que acontece e que nos preocupamos em olhar e registrar.
Enquanto falava Rubens Gerchman mostrava muito carinho com sua filhinha que brincava correndo de um lado para outro.Estava na posição de um pai amoroso, não mais do espectador, de voyer, mas de um participante do jogo amoroso tão comum entre as pessoas que se amam
É verdade que Gerchman é um pintor figurativo e atento ao que acontece dentro de seu ambiente. Tem os pés no chão, tem a cabeça dentro da realidade, a qual observa como espectador e sabe recriar como artista que e, sempre trazendo inovações ou chamando a atenção das pessoas para estas ocorrências.
Na série das misses, nas dos índios e agora no jogo amoroso, Rubens Gerchman é quase um artista que transpõe para tela ou papel, as coisas que estão acontecendo, as quais preocupam alguns, interessam a poucos e passam despercebidas por muitos.
Sua pintura de certa forma é autobiográfica, são retalhos de sua existência que ele transpõe, como que tivesse fotografando para a posterioridade. Só que este “álbum” ele não guarda como um egoísta para admirar sozinho. E, esta série “Voyer Amoroso” é exatamente o reflexo da felicidade que Gerchman traduz em sua linguagem plástica e vem compartilhar conosco.
      Aqui uma manifestação de amor retratada por Gerchaman

                                             OPINIÃO

Reunidos na sexta-feira passada no primeiro andar do casarão principal do Solar do Unhão com Améris Paolino, Grijó, o artista Rubenas Gerchman revelou que foi uma grata surpresa a exposição de fotografias de Améris. Ele não conhecia nada de fotógrafa paulista, e realmente ficou gratificado com o seu trabalho. Quanto a Grijó já o conhecia, e foi responsável pelo primeiro emprego do artista português, que deu um curso na Escolinha do Parque Lage. O elemento novo, segundo Rubens, é a cor.
Lembra que Grijó trabalhava com objetos quase fetichistas, mágicos. “Ele trabalhava materiais pobres e conseguia dar-lhes nobreza e dignidade. Agora vejo uma arte construída, cuidadosa, recortando a tela, deixando que os espaços brancos penetrem”. E, finalmente, disse que “a cor e as formas são elementos de ligação entre os dois artistas que ora expõem do Unhão”.
Portanto, quem leu o que escrevi há duas semanas notará a semelhança das observações que fiz com a de Rubens Gerchman. E, quem ainda não visitou a exposição de Améris e Grijó ainda há tempo. Mas não deixem de ver até o dia 8 de agosto as serigrafias e litografias de Gerchman.

GILSON RODRIGUES VOLTA COM RETALHOS DE 
UM PEDAÇO
Depois de sete anos quase totalmente dedicados ao teatro onde produziu belos figurinos e cenografias, eis que retorna às galerias o artista Gilson Rodrigues. Ele foi o responsável pelos figurinos e cenografias das peças “Língua de Fogo”. “Mulheres de Tróia” e “Decameron”, dentre várias outras peças que fizeram sucesso em Salvador. Portanto, Gilson não perdeu durante este período o contato com o desenho.
Este retorno é cheio de curiosidade e felicidade. A mostra chama-se “Retalhos de um Pedaço”. E será apresentada no Hotel Merídien, a partir de 13 de agosto até o dia 30. Será, portanto numa sexta-feira, dia 13, só que a Lua é crescente e não, minguante o que garante uma boa dose de otimismo para que Gilson alcance sucesso de público.
Afastado das galerias, Gilson Rodrigues como que estava sentado num platô observando o bater das ondas do mar, os peixes, as pinturas, e quando anoitecia lá para casa observar os objetos ao seu redor. Assim aparecem os pilões, os pesos de ferro, tão comuns das feiras livres do Interior deste país. E, é claro, que a flora e a fauna não poderiam estar fora desta colcha de retalhos, que é a sua exposição. São realmente pedaços, que juntos, representam momentos que estão gravados no inconsciente de Gilson Rodrigues. O desenho é perfeito e entremeado de pinceladas gestuais que vão compondo os volumes como notas de uma partitura musical. São closes de coisas comuns, que estão no nosso dia-a-dia, que servem como objetos de decoração, utilitário, e mesmo apropria subsistência do homem.
Diria que Gilson Rodrigues deu um mergulho no tempo, enquanto construía suas cenografias e desenhava seus figurinos.Umas das telas mostra um pássaro com olhar altivo, envolvido por uma cobra, que mais parece que veio para dar cor à sua plumagem.
Como que convivem harmoniosamente. Quando iniciamos a olhar surge à mensagem que a cobra está matando-o.Gilson retorna com individual depois de 7 anos de ausência.
Mas, ao contrário quando examinamos mais detalhadamente notamos que se completam. Talvez a dualidade do bem e do mal.Uma imagem de Gilson Rodrigues, que é uma pessoa sensível e frágil. Encontrei o artista em sua casa na Boca do Rio debruçado sobre o mar envolvido pelo coqueiral. Os peixes e os moluscos são integrantes da sua própria paisagem. Esta exposição não poderia ter um nome mais sugestivo, porque na realidade são pedaços ou retalhos que estão harmoniosamente unidos pela cor e pela abordagem plástica de Gilson Rodrigues. Acredito que o artista quis revelar momentos de seu próprio viver, e que agora nos revela.
As figuras têm formas definidas e os volumes são salientados por pequenas pinceladas gestuais, possibilitando a leitura do que Gilson deseja transparecer. Quando lhe pedi que pronunciasse algumas palavras sobre seus novos trabalhos ele apenas adiantou:
“São pedaços”. Sim, são pedaços, que juntando podemos ter uma idéia do que existe dentro do seu inconsciente e que aos poucos ele vai revelando. Acho que esta nova mostra de Gilson é um grande passo em sua carreira, já pontilhada de boas realizações.

                  MARIA HELENA ESTÁ AQUI

A artista Maria Helena de Moura Dória expõe a partir de 3 de agosto na Teresa Galeria de Arte, no Rio Vermelho. Desde os 14 anos de idade que ela pinta. Tem vários cursos realizados em institutos e ateliers de artistas, além de várias exposições individuais e coletivas. Sua mostra reflete a própria vocação para a paisagem lírica, onde a artista parece estar debruçada numa janela como uma boa observadora que capta todos os elementos para o surgimento de uma composição. Os volumes mostram harmonia plástica e as cores como que traduzem tardes bucólicas. O trabalho impresso no catálogo e que reproduzo ao lado, mostra que sua pintura não tende ao primitivismo, como salienta uma das apresentações. Conheço pouco o trabalho de Maria Helena, mas pelo que pude apreciar acho que tem futuro promissor, se continuar insistindo na melhoria da técnica e na busca de um a linguagem própria. O simples retratar paisagens bucólicas está a exigir um vôo mais alto para que sua criatividade pulse livremente. O que importa é o seu sentimento e sua vontade de pintar, de passar para a tela a visão do que lhe cerca. É preciso que continue assim buscando soltar o traço e imagens outras que lhe possibilitem a encontrar outros horizontes plásticos.