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sábado, 10 de janeiro de 2026

TÁRCIOV E O REFINAMENTO DO GRAFITTI URBANO

O artista TárcioV ultimando uma obra de um 
cangaceiro em seu ateliê.
O artista TárcioV é conhecido como um dos grafiteiros da cena urbana de Salvador, e suas incursões estão espalhadas em vários pontos da cidade. As imagens chamam a atenção dos que passam, e se dispõem a perder alguns segundos olhando e refletindo sobre suas mensagens. O desenho é de qualidade e a gestualidade surge como um elemento determinante da liberdade de criação. Vemos na sua arte a presença da figura humana, animais e elementos da cultura popular, principalmente das religiões afro-brasileiras. Quando falamos em grafitti nos reportamos às grandes metrópoles como Nova Iorque, São Paulo, Berlim e Londres que têm suas paredes, especialmente muros e prédios abandonados utilizados como suportes para esta arte urbana que trás no seu conteúdo o protesto de jovens que muitas vezes estiveram à margem desta sociedade consumista. Atualmente o grafitti está nas grandes e médias galerias em todo o mundo e alguns deles são consagrados como grandes artistas a exemplo de Jean-Michel Basquiat, que foi um grafiteiro e artista plástico neoexpressionista americano icônico, famoso por seu pseudônimo Samo, que iniciou sua fama nas ruas de Nova York nos anos 70. No Brasil temos o Kobra e Os Gêmeos - Gustavo e Otávio Pandolfo - , que são os mais famosos com obras em várias partes do Planeta. Aqui na Bahia destaco o TárcioV, a Rebeca, que tem um traço que lembra Os Gêmeos, Samuca, Denissena, Afro, dentre outros. Cada um com sua expertise e características que deixam marcados nos locais mais visíveis possíveis para que sua arte seja apreciada democraticamente por todos que transitem pelas ruas.
O mural de  mil metros quadrados ocupa três 
laterais de prédios na Rua da Misericórdia
.

A grande maioria dos grafiteiros provém das periferias das grandes cidades e muitos deles começam pichando prédios abandonados e muros esquecidos, e eles se diferenciam dos pichadores  e têm códigos de conduta distintos.  O grafitti é uma arte visual mais bem elaborada e muitas vezes seus autores são autorizados a fazer os grafitis e até mesmo remunerados por seu trabalho. Cito o TárcioV que tem um belo grafitti mostrando baianas e pescadores  da nossa terra e foi pintado para o evento Casas Conceito 2025 que ocupou  quatro prédios, sendo que  três são  tombados pelo IPHAN– totalizando 5.300m², com a participação de 30 escritórios de arquitetura e mais de 40 profissionais  das áreas de design, paisagismo, iluminação e arte, localizados  no Centro Histórico de Salvador. 
Foi exatamente este grafitti que me chamou a atenção e tomei a iniciativa de procurar o artista para esta nossa conversa. Lembrou que durante a pandemia fez um grande mural no edifício Carlos Chiacchio, no Comércio, onde  pintou um pescador em pé olhando para a Baía de Todos os Santos. Ele considera um marco importante na sua trajetória e deu o nome “Um Pescador da Cidade Velha”, e fica próximo ao Mercado Modelo. Pintou em 2022 e tem trinta e dois metros. É a representação de seu orixá Logum Edé, e como no contrato está especificado que não podia fazer alusão a qualquer símbolo ligado a religiosidade ele criou este personagem do pescador.
O mural O Pescador na lateral de 
prédio no Comércio, Salvador.
Já a pichação é focada na escrita com letras e símbolos, muitas vezes difíceis de serem decifrados pelo cidadão comum e funciona como se fosse um alfabeto próprio que é usado entre os pichadores. Esses pichadores não são autorizados a pichar, e sua atividade é considerada ilegal como um ato de vandalismo e sem valor artístico. Este movimento não vem apenas da periferia e está presente nos viadutos e em prédios abandonados, em nossas universidades principalmente as estatais, tanto nas estaduais como nas federais que estão completamente pichadas não só suas fachadas como também as paredes internas. Aqui em Salvador por exemplo tem o pichador Panthro , cujo nome é inspirado num personagem das histórias em quadrinhos. O Panthro era um general no reino de Thundera e grande amigo do Rei Claudus. O pichador baiano   tem por característica pichar em locais altos, usando rapel para alcançar cada vez mais altura. 

                                                  QUEM É

Intervenção numa barraca de amigo na
ilha de Maré
.
O artista TárcioV é natural de Salvador onde nasceu em treze de abril de 1987 no Hospital da Sagrada Família e foi batizado como Tárcio Renan Vasconcelos Moreira, filho de José Domingues Moreira e d. Virginia Maria Vasconcelos Moreira. Cresceu no bairro de Castelo Branco e como a maioria das crianças da sua geração teve uma infância repleta de atividades brincantes jogando peladas, trepando em árvores em busca de frutos, tomando banho na chuva e na Bica, que era uma pequena queda d’água que existia no bairro antes do riacho se transformar num esgoto a céu aberto, graças a inoperância da empresa responsável pelo fornecimento de água e do esgotamento sanitário dos governos que se sucederam desde àquela época. Lembrou que sempre que chovia aparecia um animal silvestre como teiú, cobra e até preguiça. Fez o primário na Escola Bosque Encantando, o ginásio da Escola Adventista do Sétimo Dia, e o colegial no Colégio Santa Clara do Desterro, no bairro de Nazaré. Desde jovem que passou a grafitar nas ruas de Salvador, juntamente com vários amigos. Resolveu fazer o vestibular para Licenciatura em Desenho para Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia, e tinha vontade de ensinar. Porém, não frequentou 
Mural num paredão no bairro de Baixa de
Quintas, Salvador.
normalmente as aulas entre os anos de 2006 a 2011, até que não mais apareceu para concluir o curso. 
Quando indaguei a razão de ter desistido de continuar estudando na EBA foi enigmático e respondeu que “não me formei, mas me informei. A minha escola vem do grafitti e paralelamente sempre gostei de ilustrar. Sou muito grato a meus pais que me deram uma boa educação e lá em casa tinha uma estante com alguns livros que ficava no quarto do meu irmão mais velho. Eu sempre pegava para ler e ver as ilustrações. Desde 2003 que comecei a participar do movimento de grafitagem e fiz meu primeiro grafitti em 2004, no bairro de Castelo Branco. Eu mostrei para a turma de grafiteiros que existia em Castelo Branco entre eles o Lee 27, Verme, Tiau e eles gostaram e disseram “Isto cabe na rua”, foi aí que decidiu grafitar. Esses caras andavam de skates, usavam roupas bem largas, eram tatuados e os jovens do bairro ficavam admirados da vida que eles levavam." Neste interim seus  pais sempre lhes orientaram para buscar uma atividade que lhe
O TárcioV pintou este Mural na fachada da
Casa de Yemanjá, no Rio Vermelho, 2025. 
garantisse uma sobrevivência digna. Foi aí que o TárcioV foi fazer o curso de Design Gráfico, na Real Dados, que funcionava na Avenida Joana Angélica, onde aprendeu a usar os programas CorelDraw e Photoshop.  Um colega do bairro que trabalhava numa confecção que fazia serigrafia disse que os seus desenhos davam para fazer camisetas e outras peças de vestuário. Foi assim que  conheceu o empresário que tinha uma confecção chamada Vents Camiseta, localizada na Avenida Vasco da Gama. Ele viu os desenhos e concordou que ele passasse a fazer as ilustrações para serem utilizadas nas camisetas e materiais do surf que ele fabricava. Foi trabalhar de início como estagiário do colega que lhe indicou na confecção que fazia basicamente moda praia, e depois o TárcioV passou a desenhar e criar estampas diariamente. A confecção tinha um banco de dados de pranchas, camisetas, pontos turísticos, animais marinhos e muitos outros objetos de moda praia e ele trabalhava com essas imagens integrando com as ilustrações que  criava.

Capa do livro ilustrado 
pelo artista TárcioV.
Disse o artista que certo dia chegou uma demanda da rede Globo que estava gravando a série Canto da Sereia, com a atriz Isis Valverde, em Salvador.  Como não era um serviço  remunerado alguns colegas ilustradores da confecção não quiseram fazer foi então que o TárcioV resolveu criar duas ilustrações usando uma caneta Bic para escanear no dia seguinte. Pensou que não seriam aceitas, mas ao  retornar para trabalhar o dono da confecção gostou, mandou escanear e entregou as camisetas aos produtores da série Canto da Sereia. O pessoal também aprovou e assim as imagens do ator vestido na camiseta “bombou muito nas redes sociais”, disse TárcioV. A série  estreou em janeiro de 2013, e a arte criada por por ele  apareceu no último episódio . O personagem do ator João Miguel usou uma camiseta com a estampa de Yemanjá. Era a primeira vez que seu nome ganhou algum destaque. Foi aí que os cantores Carlinhos Brown e Saulo também vestiram as camisetas com a estampa, e Bel Marques , do Chiclete com Banana , gravou parte de um dvd usando também uma dessas camisetas com suas ilustrações de Yemanjá. 
Foi então que várias marcas de confecção de Salvador passaram a lhe procurar para fazer estampas para suas peças. Fez muitas ilustrações de Orixás, “e na época eu não era ligado ao candomblé. Atualmente TárcioV  é Ogan de Oxum e seu santo é Logun Edé que é o orixá da riqueza, fartura, beleza e transformação, filho de Oxum e Oxóssi, que habita os rios e as matas.
 Diante desta divulgação um empresário da marca Armadillo, chamado Ricardo Gonzalez, lhe convidou dizendo que ele precisava expandir seus horizontes e foi para o Rio de Janeiro no ano 2012 onde  passou a ser assistente do empresário. Lá conheceu muitos artistas, grafiteiros que era fã, frequentou o Parque Lage e desenhou com modelo ao vivo. Depois de um ano decidiu voltar porque precisava fazer uma cirurgia no joelho.
Mural na ala de desembarque do aeroporto  
de Salvador.
Já recuperado recebeu o convite de sua amiga Rose Andrade para participar de um estúdio de ilustração para publicidade que ela estava montando em São Paulo. Trabalhou durante um anona  e depois pediu para sair, e foi viver de sua arte grafitando e ilustrando permanecendo  um ano na capital paulista. Fez um grafitti na famosa Rua 23 de Março. Ficou sem grana e retornou “para a casa de mamãe  no bairro do Castelo Branco”. Conheceu a atual esposa casou e hoje é pai de um casal de crianças. Tinha muitos clientes free lancer e trabalhou muito criando ilustrações de tartarugas e baleias jubartes para o Projeto Tamar e assim vem tocando a vida. Atualmente está focado em desenvolver o seu trabalho autoral, com narrativas próprias e expressar coisas que deseja falar e mostrar. Disse que está engatinhando porque sabe que é difícil vender seu próprio peixe. "Estou me familiarizando com os contatos de galerias, estudando esta pegada de contrato, selo de certificação e outros elementos do atual mercado de arte." Não tem ainda uma galeria que lhe represente, e segundo ele alguns contratos são restritivos. Mas, está estudando e deve escolher alguma para lhe representar.

Este mural está no Beco de Ana Bundão ,
no bairro do Santo Antônio
.
 Outro mural que tem especial atenção é um que fez na fachada na Casa de Yemanjá no bairro do Rio Vermelho. Embora não seja um mural grande é um dos seus preferidos. O último foi o que fez para o evento  Casas Conceito na Rua da Misericórdia, no Centro Histórico de Salvador, que tem mil metros e ocupa a fachada lateral de três prédios e foi concebido durante dezessete dias. Falou das críticas que vem sofrendo por parte de pessoas. 
Também sente orgulho do mural que pintou no Beco de Ana Bundão , no bairro do Santo Antônio Além do Carmo, no Centro Histórico de Salvador . Ele fez este  mural acima com a imagem de Santo Antônio que também é muito apreciado pelas pessoas que já tiveram a oportunidade de conhecer.

 EXPOSIÇÕES E MURAIS

Em 2004 - Inicia seus primeiros grafittis e murais nas ruas de Salvador. 2005 - Frequenta as oficinas do Mam-Bahia tomando aulas no curso Serigrafia em papel. 2006 - Ingressa no curso de Desenho e Plástica Escola de Belas Artes pela Universidade Federal da Bahia. 2008 - Exposição Coletiva Graffiti Salvador na Caixa cultural Salvador- BA. 2009 - Exposição Coletiva Bienal da Une Salvador- Ba. 2011 - Exposição coletiva Sinais Urbanos no Centro Cultural dos

Correios, Salvador- BA. 2012 - Desenvolve ilustrações para Jornal A Tarde e Marcas do segmento de moda Salvador, Rio de janeiro e São Paulo. 2013 - Muda-se para o Rio de Janeiro onde trabalha como Designer de estampas para marca de moda masculina Armadillo-Rio. 2014 - Muda-se para São Paulo; Artista convidado, Pimp My Carroça, Virada Cultural São Paulo; Exposição de Artistas Brasileiros, México 70, Cidade do México; Participa do mural coletivo Grande Area em Salvador, projeto contemplado através da Funarte Minc. Curadoria Xico Chaves. 2015 - Participa e promove feiras de arte e exposições coletivas em locais não convencionais em Salvador- BA; Projeto fachada loja El Cabriton São Paulo. 2016 - Desenvolve murais Coletivos e graffitis em Salvador-BA. 2017- Exposição Individual Avamunha, Bar e Galeria Oliveiras; Ministra aulas de Graffiti Paisagem Sonora, Santo Amaro-BA; 2018 - Oficina de Graffiti Uneb, Euclides da Cunha- BA; Campanha o Bem Inspira, Tv Bahia. 2019
TárcioV pintando mural na cidade de Feira 
de Santana, Bahia.
- Ilustração para capa de Livro Colonização e Quilombos; Participa do projeto Fabrica de Grafitti, edição Feira de Santana-BA; Customizações de Objetos Cênicos para o Programa Caldeirão do Hulk. Rede Globo. Rio de Janeiro.
2020 - Vive e trabalha de modo recluso e remoto em virtude do período pandêmico. 2021 - Mural em fachada de Edifício, Carlos Kiaph, Virada Sustentável Salvador. Trevo Produções. 2021- Ilustrações para vídeo Clipe Oloxá a Cura, Luedji Luna e Ministério Público; Ilustrações de capa e miolo para livro Xirê Epistemológico. Curadoria Cristiano Santana Rio de Janeiro-RJ. 2022 - Pintura Mural para Casa Mar, crow work de arte, Salvador-BA; Pintura Mural para fachada Casa da Mãe, Salvador-BA; Painel Interno Mural Tv Aratu, Salvador-BA; Artista selecionado para executar pintura Mural CCR Metrô Bahia. 2023 - Exposição Individual Navegantes, curadoria Yellow Frog Galery, Salvador- BA; mural interno para Restaurante Amalá, Salvador-Ba; Ilustrações de capa e miolo para Livro Escrevivências Poéticas. Secretaria de Educação. 2025 – Pinta o mural com uns mil metros quadrados ocupando as laterais de quatro prédios na Rua da Misericórdia, integrando o evento Casas Conceito.

 

 

 


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