sábado, 20 de julho de 2013

TRANQUILIDADE PERMEIA A OBRA DE GUEL

JORNAL A TARDE,SALVADOR,  SÁBADO, 27 DE MAIO DE 1978

Barcos  à beira mar num dia de calmaria
Disse um político mineiro que o homem não tem culpa de três coisas na vida: a cor da pele, o sobrenome que carrega, nem o lugar onde nasceu. Esta frase é suficiente para entendermos o papel de Guel, filho de um pintor famoso. Um jovem artista que carrega consigo um peso por ser filho de Jenner Augusto. Muitos não entendem a ponto de questionarem a sua presença nas galerias com quadros a óleo que aos poucos estão sendo procurados por colecionadores. Mas ele está chegando e veio para ficar com seus barcos tranquilos que estão ancorados em praias alvas banhadas por um véu de águas  e céu azuis. Não importa de onde vieram os barcos. Se vieram de Sergipe, do Rio Vermelho ou de qualquer outro lugar deste país imenso. O que na realidade interessa é que eles chegaram calmos e aqui encontraram lugar adequado para se desenvolverem. Sim através das pinceladas cuidadosas de Guel. Aqui os barcos encontram as casinhas paradas e quase escondidas em meio à vegetação e o areal.
E, ninguém pode negar que o trabalho de Guel vem melhorando. Um desenvolvimento de habilidade consciente em busca de uma realização íntima focada em sua sensibilidade de artista. Venho acompanhado há alguns anos a sua obstinada vontade de vencer. Começou com umas gravuras, que seu pai me mostrou certo dia. Eram tímidas, como ele é. De repente apareceram os trabalhos em spray. Sempre em cores tênues e explorando a calmaria. Agora pela segunda vez nos mostra os barcos, que aos poucos vão singrando os mares em busca de uma maturidade pictórica. Ele vai longe porque é disciplinado e o artista precisa de disciplina e método para ter uma produção regular e um trabalho amadurecido. É um dos jovem artista baiano que tem futuro certo. Não por ter um pai famoso, por que muitas vezes isto funciona como um estigma e as pessoas sempre exigem mais de um filho de um profissional reconhecido, inclusive é uma coisa muito difícil de romper.
Lembro aos que o censuram que muitos estão no mercado fazendo um trabalho de qualidade igual ou inferior aos de Guel, e ninguém fala coisa alguma. Mas, quando ele espõe vêm os comentários, falsos, que certamente serão dissipados  o decorrer dos anos.

                 NOVA GALERIA EM SALVADOR

Está residindo em Salvador Riitta Kohanevic que tinha em São Paulo a Galeria Proarte. Ela está reformando uma casa defronte a Pousada do Carmo para instalar sua nova galeria.
Porém ,como não pode parar a Riitta está expondo cerca de 40 trabalhos de seu acervo na Galeria Pousada do Carmo. São trabalhos considerados de nível dos seguintes artistas:
ANDRÉ DENIS- Nascido em Paris, frequentou a Escola de Belas Artes em Paris. Escultor, pintor e gravador com várias exposições. Ele participa nesta mostra com monotopias.
 BRAZ DIAS- Paulista. Gravador e pintor. Estudou na Itália com bolsa concedida pelo governo italiano. Atualmente trabalha em São Paulo. Participou muitas exposições fora e dentro do Brasil e obteve vários prêmios.
 CIRSO TEIXEIRA- Fundador do movimento artístico no Embu - cidade hoje visitada pelas turistas a 25 km de São Paulo. Autodidata e pesquisador viajou pela Europa e fez várias exposições individuais obtendo crítica favorável. Atualmente trabalha em São Paulo.

Menina com Boneca,de Edir
EDIR ESCARIÃO- Autodidata. Pinta figuras tristes com cores vivas. Participou em várias exposições coletivas. Os óleos desta mostra são resultado de uma viagem de inspiração para Bahia no ano passado.
 FERRACIOLI- Autodidata. Várias exposições coletivas e 3 individuais. Escreveu o critico Olney Kruse sobre exposição de Ferracioli na Galeria Proarte - "Nessa série ainda nova o artista atinge com plenitude a sua individualidade e mostra, com vigor, assunto novo com técnica própria. Ferracioli veio para fazer pensar, isso é raro."
 HELENOS- Pernambucano radicado em São Paulo. Realizou várias exposições individuais sempre em torno de uma temática nova. É um dos mais criativos artistas atualmente em São Paulo.
 JORGE VIDGILI- Carioca radicado em São Paulo há 4 anos. Vem trabalhando ultimamente numa linha surrealista muito pessoal num misto de sonho e irrealidade. Nas suas várias exposições individuais sempre obteve uma critica favorável incentivadora.
LIZAR- Paulista, autodidata, pesquisador incansável do ritmo e movimento. Participou em várias exposições e 2 últimos Bienais de São Paulo.( Foto ao lado)
MARINA REIF- Autodidata. Polonesa de nascimento e Paulista por opção. "Ela não polemiza mas apenas interpreta com uma sensibilidade comovente todo este mundo-humano-industrial "escreveu  Theon Spannudis, critico da arte. Ela obteve vários prêmios e medalhas em concursos e Salões e fez 3 exposições em São Paulo e participou em várias coletivas fora do Estado.

                  RESULTADO DO VI SALÃO JOVEM DE SANTOS 

Saiu o resultado do concurso do VI Salão Jovem do Centro Cultural Brasil-Estados Unidos, de Santos, São Paulo. Nenhum baiano foi premiado. Inscreveram-se no Salão 197 pintores de 10 estados do Brasil, somando um total de 591 trabalhos. Foram aceitos 57 artistas e 161 trabalhos sendo recusados 140 artistas e um total de 430 obras. Vários artistas baianos enviaram trabalhos e foram eliminados com exceção de Luiz Fernando Pedrosa, de 29 anos. Da cidade de Santos foram aceitos 9 artistas, sendo dois premiados e a maior participação foi de São Paulo (capital). Os artistas receberão seus respectivos prêmios no dia 5 de junho, às 20 horas, na Galeria de Arte do Centro Cultural Brasil-Estados-Unidos, em Santos. Eis a relação dos artistas participantes e os premiados.
Ângelo Tokutake - 28 anos São Paulo-SP; Carlos Augusto de Carvalho- 27 anos- Santos-SP; Carlos César da Cruz- 21 anos- Goiânia- GO; Carlos Manuel Souza Batista- 29 anos- Santos-S.P; Carlos Wolney Soares- 29 anos-B. Horizonte-MG; César Caetano Mattos- 26 anos- S. Paulo; Charbel Hanna El Outra- 27 anos-S. Paulo. S.P. PRÊMIO CCBEU - Cr$20.000; Daniel Firmino da Silva- 29 anos S. Paulo-S.P- PRÊMIO PAIVA E CIA - CR$8.000; Deborah de Almeida Ribeiro-23 anos- Campinas S.P; Décio Lima Beck- 29 anos S.Paulo-SP; Dionísio Jacob- 27 anos- S. Paulo- S.P; Eduardo Costa Lima- 24 anos- S. Paulo-S.P; Elvio Pereira Braga- 18 anos- Goiânia-GO; Fernando Penteado Millan- 26 anos- S. Paulo-S.P; Flávio Ferraz Lima- 28 anos- Rio de Janeiro-RJ, PRÊMIO BANCO LAR BRASIL. CR$8.000- São Paulo- S.P.; Francisco Gonzalez- 2 anos- S. Paulo- S.P; Guinter Parschalk- 24 anos- S. Paulo; Hélio Gardinalli- 19 anos- Santos. S.P;Hironobú-Kai- 23 anos- S. Paulo; Inácio Zatz- 22 anos- S. Paulo- S.P; João Carlos Gonçalves- Santos- PRÊMIO PREMEM. José Wenceslau Ventura- CR$ 8.000; José Carlos da Silva- 26 anos- S. Paulo- S. P; José Hélio Silveira Leite- 29 anos- Campinas- S.P; Lúcia Helena Reily- 26 anos- São Paulo-S.P; Lúcio Maria Morra- 26 anos- Santos-S.P. PRÊMIO SECTUR- CR$ 8.000; Luiz Eduardo Pontual Marx- 25 anos- S. Paulo- S.P; Luiz Fernando Pedrosa- 29 anos- Salvador-Ba; Luiz Ferrari de Ulhoa Cintra- 23 anos S.Paulo-S.P; Luiz Roberto Mendes Gonçalves- 27 anos- S. Paulo- S.P; Luiza Regina Fernandes Ferreira da  Costa- 28 anos- S. Paulo-S.P; Márcio Geraldo da Silva- 20 anos- Santos-S.P; Marco Antônio Rossi- 26 anos- Santos. S.P,- MENÇÃO HONROSA; Marcos da Silva Prado- 28 anos- S. Paulo- S.P; Maria Irene da Silva Ribeiro- 29 anos- S. Paulo- S.P, Maurício Antônio Nacif- 24 anos- S.Paulo-S.P; Newton Mesquita- 29 anos- S.Paulo-S.P; Newton de Oliveira- 4 anos- S. Paulo- S.P; Osmar de Castro- 20 anos- S. Paulo- S.P; Osmar Buono- 21 anos- S. Paulo- S.P- PRÊMIO ITAIPU- imp. Export. S/A.-CR$8.000; Paulo Penna- 21 anos- S. Paulo S.P;Paulo Vinicius Pinheiro Peoro- 18 anos- S. Paulo- S.P; Pedro Alberto de Souza- 24 anos- S. Paulo- S.P. PRÊMIO EWALDO BOLIVAR DE SOUSA PINTO- Cr$8.000; Pedro Sanches- 25 anos- S. Paulo-S.P;Renato Di Ranzo- 25 anos- Santos- S.P; Ricardo Aprígio Fonseca Ferreira- 24 anos- S. Paulo- S.P. MENÇÃO HONROSA; Roberto Sandoval- 24 anos- S. Paulo- S.P. PRÊMIO JORNAL A TRIBUNA DE SANTOS, CR$8.000; Romão Bertoncel- 28 anos- S.Paulo- S.P; Selma Daffré- 27 anos- São Paulo-S.P; Sérgio Dantas Miranda- 23 anos- Santos- S.P; Sérgio Niculithcheff- 18 anos- S. Paulo-S.P;Takashi Fukushima- 28 anos S.Paulo. S.P; PRÊMIO ERMÍNIO BOZO- CR$8.000,00; Tito Luiz Fadel Camargo- 24 anos- S. Paulo; Vera Rodrigues- 24 anos- S. Paulo-S.P; Waldery de Almeida- 29 anos- Vicente de Carvalho- S. Paulo e Walter Luís Lopes de Miranda- 24 anos- São Paulo-S.P.

      EXPOSIÇÃO DE ANTÔNIO MAIA EM BANGKOK

As cabeças não ouvem mas continuam nos olhando com seus olhos brancos de pupilas escuras. O que passarão essas cabeças sem pelos nem ouvidos, esses rostos caiados ou cor de madeira, isentos de sobrancelhas ou barbas? As cabeças que foram ex-votos, hoje mais se assemelham-se às dos monges budistas, envoltos em sua túnicas amarelas, que a gente vê de longe e sente que estão nos vendo. Isto porque o pintor Antônio Maia está em Bangkok visitando seu amigo e pintor Juca.
As cabeças de agora foram pintadas aqui, neste antigo Reino do Sião, hoje Tailândia.
As cores de Antônio Maia continuam límpidas. Apareceu um verde novo , mais luminoso, pulando entre os outros. O verde dos arrozais que cobre este país úmido.As cabeças também se movimentaram. Algumas estão dependuradas como enfeites de papel que o vento da Ásia balança.
Há as que se montaram umas sobre as outras, como as colunas dos passados esplendores. Ou então elas se ajuntam num buquê, numa disposição que lembra torreões de pagode. Apareceu surpreendentemente um elemento novo: a flor de Lótus . Há as que estão abertas, as que recebem sol. Mas à noite a flor de Lótus volta a intimidade do botão. Sua forma introvertida lembra também os torreões e aqueles arranjos de pétalas secas que se oferece aos Budas.
As cobras najas que nos telhados verdes arrematam os beirais abanando caudas para o céu, talvez formando cabides para os anjos pendurarem suas asas, de vez em quando se infiltram entre as cabeças. São faixas ou tiras morenas no tom da flor redonda do Lótus.
A exposição de Antônio Maria em Bangkok, patrocinada por Sua Alteza Real a Princesa Shumbhot de Nagor Svarga, foi a primeira mostra da Arte Brasileira naquele país. Sucesso total de prestígio e venda.
O artista foi convidado depois para falar e mostrar slides aos alunos da Escola de Belas Artes da Universidade de Bangkok.
Esta exposição feita pela Embaixada do Brasil, foi uma vitória , no sentido de maior aproximação entre os dois países. Nada poderia melhor cativar o tailandês, povo fanático do belo, que as cores limpas e alegres de Antônio maias, sua arte tranqüila, de estecismo profundo e harmonioso, de comunicação certa, amena e bonita.( Zora  Seljan).Nota: Antônio Maia faleceu em 2008 pouco antes de completar 80 anos.

 PINTURA DE TOMIE OHTAKE DESTAQUE DA PINACOTECA

O Destaque do Mês, da Pinacoteca de São Paulo é uma pintura de Tomie Ohtake, nascida no Japão em 1913. O quadro em foco é um óleo sobre tela de 1,35 x 1,35 cm. Pintura, de Tomie Ohtake de forma densa e sintética através de uma linguagem essencialmente pictórica a emoção de um momento interior. Como na poesia Hai-Kai, de origem japonesa,que se expressa em 17 sílabas, a pintora utiliza o menor número de elementos possível sobre a tela projetando sua visão profunda e reflexiva do mundo. Da monumentalidade  das duas grandes formas amarelas, que parece ultrapassar os limites da tela como fragmentos de um espaço maior, cósmico da sugestão de deslocamento e rompimento destas formas e do surgimento do espaço que se constitui central e circular, decorre o impacto visual do quadro.
Pela observação de pintura é possível apreciar o seu processo de trabalho: sobre a tela pintada de branco o carvão esboça duas grandes formas nas quais a cor vai sendo introduzida, ampla, em camadas que servem de apoio às seguintes. Ao marrom se sobrepondo o amarelo, na sucessão de branco espatulados sobre cinzas, a artista ora valoriza os contornos do desenho anterior, ora o reinterpreta, constituindo matéria densa .Contrariamente à sua pintura mais recente, permanece nesta obra, embora sem prevalecer sobre os demais aspectos, o vestígio do pincel em movimento,a sua expressiva trajetória, o que nos transporta às primeiras fases do trabalho da artista.
Tomie Ohtake chegou ao Brasil em 1937 e em 1951 iniciou seu trabalho como pintora. Após um curto período figurativo inicia-se na abstração informal. Mas preocupada com a movimentação do pincel e já trabalhando sobre o fundo liso, monocromático, a artista se vale de cores puras, aplicadas sobre a tela da forma gestual. Vale lembrar que no final dos anos 50 tomando contato com as obras de artistas estrangeiros no decorrer das Bienais de São Paulo, os artistas brasileiros aderindo em grande número ao Abstracionismo estiveram bastante envolvidos com a inscrição do gesto na sua pintura.
Após breve período em que o Geometrismo dominou seus trabalhos e de passagem por experiência em litografia e serigrafia, começam a surgir na sua pintura formas recortadas monumentais. Plenas de magia interior e permeadas da presença da memória fator inconsciente, pela não referência das imagens. Essas composições constituem a obra de Tomie Ohtake em nossos dias. E nesses trabalhos de hoje, mais de que nunca o elementos preponderante é a cor, elaborada perfeccionista e lentamente.