sábado, 27 de julho de 2013

CLIMA SURREALISTA NA CIDADE DE UTRECHT

JORNAL A TARDE , SALVADOR,  SÁBADO, 21 DE JANEIRO DE 1978

O Museu Central, fazendo jus ao seu nome, fica
no centro da cidade de Utrecht.
 Possui uma coleção diversificada de obras de arte,
 que atraem a atenção de pessoas de
 todas as idades e de diferentes culturas. 
O Surrealismo e corrente afins, tais como o realismo mágico dos anos trinta nos Países Baixos, de algum tempo a esta parte desfrutam de renovado interesse. Os artistas holandeses das últimas gerações, os da geração atual e o público neles interessado, manifestam preferência por uma forma de linguagem plástica que de novo recorre a uma fantasia extraída de representação visual, e neste sentido realista, para expressar realidades físicas da existência pessoal. A considerável influência exercida atualmente pelo pintor amsterdamês Melle, que já trabalhava antes da Segunda Guerra Mundial, mas que o grande público somente agora descobriu, é sintomática. Aliás, é curioso que, até agora, nenhum fenômeno deste gênero se tenha manifestado em nenhum outro país.

É preciso igualmente situar neste contexto o renovado interesse pelos realistas mágicos, tal como começavam a se expressar por volta de 1930, bem como por vários surrealistas apenas conhecidos anteriormente, Carel Willinkn Raoul Hynckes, Willem Schuhmacher e Pyke Koch fazem parte da primeira categoria. Ao segundo grupo pertence Willem Van Leusden.
Diversas razões existem para consagrar este artigo a Utrecht particularmente, negligenciado um pouco os aspectos gerais deste surrealismo. Existem com efeito um fio que nos leva de Willem Van Leusden, nascido em 1886, à geração de Pyke Koch, e em seguida à atividade artística subseqüente à Segunda Guerra Mundial e aos jovens artistas da geração atual. Este Liame nos permite conferir à cidade de Utrecht um lugar de destaque na topografia artística dos Países-Baixos na qualidade de centro dinâmico do surrealismo no sentido mais  lato do termo.
Pode-se pensar talvez em anacronismo vendo que, em um País onde os centros artísticos distam apenas alguns quilômetros um dos outros e numa época na qual os meios de divulgação conduzem a uma crescente internacionalização, uma cidade pode conservar um clima artístico próprio sem por isso excluir artistas de orientação bem diversa. Nos Países-Baixos, este fenômeno ainda foi possível durante três ou quatro decênios de nosso século, por motivos idênticos aos que determinaram  o papel de Lys para os pintores expressionistas flamengos na Bélgica; ou nos Países-Baixos, o da aldeia de artistas, Bergen, e os pontos mais isolados como Groning no norte da Frísia, como Maastricht capital do Limburgo holandês, três centros onde formas bem distintas de uma arte essencialmente expressionista se desenvolveram.
É preciso buscar outros argumentos para explicar o fenômeno de Utrcht, pólo de comércio, e tráfego, situado literalmente no coração dos Países-Baixos. Tomemos como ponto de partida provisório a importante monografia sobre Pyke Koch publicada pelo jovem historiador de arte de Utrecht, o eminente e dinâmico Carel Blotkamp. A presença de uma universidade e mais especialmente a existência de uma vida literária bastante independente, são ali são ali citadas como aspectos primordiais determinantes da evolução pessoal e artística da Pyke Koch.
La Belle Époque II, de Pyke Koch
Os laços entre escritores e artistas caracterizam igualmente o surrealismo parisiense dos anos vinte. Pode-se indagar a posteriori em que medida este surrealismo, com protagonistas tais como Aragon, Eluard, Breton, Artaud e outros mais importantes sobre a literatura moderna que sobre as artes plásticas propriamente ditas. De qualquer forma, é inegável que o surrealismo se distingue de todas as demais correntes artísticas pela indissolúvel unidade de arte de escrever e da arte plástica, para Rahn, deve ter influenciado a arte pictórica de Pyke Koch. Além disso, escreve ele, existe parentesco na escolha dos temas. Nas primeiras obras, retratos fictícios de mulheres públicas, quadros de quermesse e cenas se desenrolando nos bairros populares, Pyke Koch põe em evidência a margem da sociedade bem organizada, como o faziam diversas cineastas nos melhores filmes alemães dos anos vinte.
Ele indica a propósito o valor simbólico do local onde se situa a ação, desejando acentuar a expressão da forma como fator sugestivo da atmosfera e do local onde a ação decorre. A rua, o local de trabalho das mulheres públicas, é o local onde o fatum reina sobre os homens; os desejos deles se refletem nas vidraças; a quermesse representa o microorganismo onde vivem.
Sonâmbula Repousando,de Pyke Koch, Museu Boymans
A estreita relação com o mundo da palavra é evidente nos realistas mágicos dos anos trinta. Em Pyke Koch ela está claramente ligada à situação particular existente em Utrecht, já assinalada. Ela persiste nos jovens artistas após a Segunda Guerra Mundial, mesmo naqueles que pouco tem de comum com a personalidade solitária de Pyke Koch. Existe ainda um outro elemento: Utrecht é uma cidade nostálgica, envolvida por ferrovias, de cujos prédios emana uma tristeza do século dezenove.
Por outro lado, conservou toda a beleza dos antigos canais, velhas ruas, becos e casas, plenos de lembranças evocadoras.
Horas Tarde, do pintor Johannes Moesman
Até nossos dias, esta cidade sempre teve escritores, tanto homens como mulheres, descrevendo este aspecto nostálgico e evocando as restrições de antanho e o caráter burguês, dissimulado mais persistente, por três das velhas paredes. Ela pode igualmente orgulhar-se de um grande número de pintores de desenhistas. É uma cidade que encontramos como presença viva em Pyke Koch, mas igualmente nos jovens artistas contemporâneos reunidos sobretudo na Grafisch Gezelshap de Luís Associação gráfica O Piolho e na obra de Moesman, o único surrealista holandês mais conhecido entre os surrealistas franceses antes da Segunda Guerra que em seu próprio país.

Quaisquer que sejam os laços que o liguem à vida e à arte de sua época, Pyke Koch foi uma figura bastante isolada, como que surgia do nada. O mesmo não ocorre com Willem van Leusden, segunda figura em importância na pré-história do surrealismo contemporâneo de Utrecht. Pyke Koch jamais teve epigonos, menos ainda formou uma escola. Como professor e exemplo vivo entretanto, Willem van Leusden contribuiu para a preparação de uma característica particular da arte moderna contemporânea, AL como se desenvolveu em Utrecht, e que se encarna hoje sobretudo na associação De Luís e saber o grande respeito pelo aspecto técnico e artesanal, especialmente no que concerne a gravura.
Nascido em Utrecht em 1886, Willem van Leusden recebeu sua formação acadêmica em Haia, aprendeu depois gravura na academia estatal de Amsterdam de 1902 1910, antes de instalar-se em Maarsen, próximo à sua cidade natal, em 1913. No decurso dos anos seguintes, graças a subsídios reais teve ele ocasião de efetuar diversas e demoradas viagens de estudos.
Aproveitou sobretudo para estudar catedrais francesas. As paisagens urbanas e as catedrais constituem a temática deste primeiro período.

Van Leusden manifesta romântica preferência por tudo que é medieval bem  como por galhos de formas caprichosas e sobretudo aspectos bizarros da natureza, o que já prefigura sua obra ulterior.
Entretanto em 1915, um período inteiramente novo se anuncia. Um grupo de trabalho de jovens historiadores de arte, um Utrecht, ainda sob a direção do mesmo Carel Blotkamp, recentemente organizou uma exposição mostrando pela primeira vez uma imagem do nascimento da arte abstrata nos Países-Baixos.
As ramificações deste artesão bem mais importantes que aquilo, exclusivamente conhecido até hoje, mesmo em nível internacional, como o grupo De Stiji, de Mondrian, van Doesburg e outros.
Juntamente com outras figuras que apenas suscitam leve interesse, Willem van Leusden que deveria posteriormente orientar-se em direção ao surrealismo, foi um dos primeiros a se integrar nesta nova imagem. Após ter sido um dos primeiros nos Países-Baixos a aplicar sistematicamente o cubismo, ele sofreu a influência do pintor francês Le Lauconnier que refugiou-se nos Países-Baixos durante a Primeira Guerra Mundial, influenciado muitos pintores tais como François Gos, franco-suíço que se hospedou em sua casa e sobre o qual o cubismo parisiense ainda exercia influência tanto quanto sobre Frans Marc e Macke, ambos do grupo Blaué Reiter (Cavaleiro Azul)
Momento Música, de Wilen Van Leusden
Próximo ao final da Primeira Guerra Mundial, o arquiteto Gerrit Rietveld, originário de Utrecht e membro do De Stil fez Van Leusden conhecer as ideias do grupo. Disto resultou uma série de projetos arquitetônicos, não destinas a execução, mas considerados sobretudo como experiências no campo do espaço e das cores. Em 1923 Van Leusden participou da primeira exposição do grupo De Stiji em  Paris. Depois, sob a influência sobretudo de El Lisstzky, orientou-se ainda mais em direção ao construtivismo russo na segunda metade da década de vinte. Assim chegou ele a um ponto final. Atingiu a um limite que não podia mais ultrapassar.

A partir de 1930, sob a influência da obra de Salvador Dali, Willem van Leusden alterou sua ótica, tornando-se um dos poucos artistas holandeses, verdadeiramente convictos, porém tão poucos, que aderiram ao surrealismo. Na Bélgica, Magritte o havia procedido porém Paul Delvaux só  o iria acompanhar a partir de 1934-1935.
Willen van Leusden gozava então de renome bastante regional, com suas representações surrealistas onde desempenhavam papel considerável as paisagens fantásticas, as formas caprichosas e bizarras da natureza ou seu definhamento mortal; ele observava os fenômenos no velho jardim da sua própria residência campestre, datando do século dezessete, onde figura humana e outras, fossem um velho cepo apodrecido pela água ou telhas gastas pelas intempéries, se apunham a viver.
Nele, o jogo das ambivalência se esconde menos nos equivocos óticos da ordem espacial, como é o caso de Magritta que no relato da composição. Seus auto-retratos de auto-retratos, por vezes mais que duplos, servem de eloqüentes exemplos. Dentre seus temas prediletos estão a morte e a fragilidade, e a maior parte de suas paisagens se banha em uma atmosfera despojada de sombra.
Que não seja entretanto subestimado o elemento humorístico que se esconde na obra. Ao longo dos anos concentram-se alguns destes elementos prenhes de grande valor simbólico: crânios, um leão no deserto, uma marionete, alguns putti barrocos, um navio assombrado em um mar encapelado uma cabeça de medusa em gesso. Mas cada quadro lentamente concebido até que realmente surja em seu conjunto no espírito do artista guarda uma grande independência.

A Farmhouse Near Laren,Obra de Wim Schumacher

Já era bastante difícil situar exatamente o pintor Willen van Leusden que jamais fez realmente parte dos surrealistas e dava á pintura a mais simples das expressões; entretanto o gravador Van Leusden já gozava anteriormente de uma reputação nacional. Com efeito, fora ele o primeiro a descobrir a técnica de gravura utilizada por Hércules Seghers, gravador e pintor do século dezessete, técnica esta que permanecera perfeitamente enigmática desde então. Willem van Leusden trabalhou por longos anos nesta pesquisa de imenso alcance para a história da arte, divulgando-a em Detsen van Hércules Seghers grafisch-technisch verklaard 1960. As gravuras de Hércules Segheres, Explicada a técnica da gravura.
Os grandes especialistas nada mais fizeram que formular algumas questões de detalhe e respeito deste assunto.
Do ponto de vista da história da arte, e interessante ver o método experimental de Van Leusden. Ele forneceu provas imitando algumas das gravuras de Seghers. Do ponto de vista artístico, é preciso notar que aplicou a técnica em questão nas mais importantes de suas gravuras das quais, frequentemente, existe apenas alguns exemplares executados em cores diversas. Há três séculos de distância, o grande alquimista da gravura, Seghers, caminha ombro a ombro com o alquimista moderno Van Leusden. É certamente uma das coisas que explica imensa influência exercida por Van Leusden sobre os jovens artistas contemporâneos.
A associação De Luís serve de exemplo.Pela primeira vez a arte moderna, tal como se expressa em Utrecht, dispõe de um grupo reunindo tendências divergentes, fundado entretanto sobre aspectos bem definidos: o amor sistemático à profissão de gravador, e ao desenho, e um enfoque surrealista, ou apresentado ao surrealismo, da realidade.

QUEM É
 Este artigo foi publicado inicialmente na revista Soptentrion, e depois da Crônica da Holanda e devido a sua qualidade resolvi transcrevê-lo. Seu autor Hans Redeker.
Nasceu em 1918, em Oudenryn, perto de Utrecht, Hans Redeker, estudou Direito, voltou-se para a Sociologia, a Psicologia e a História da Arte, para terminar na Filosofia 1936-1949, excluídos os anos de guerra. Neste intervalo foi pianista de café, garçon e acompanhador de ballet. Escreveu duas coletâneas de poemas, De Verwoeste Stad, 1944 - (A Cidade Destruída) e De Tyd in on Hairt, 1945- (O Tempo em Nosso Coração) ambos publicados clandestinamente. Ensaios Existencialisme, 1949, De Cirasis van het Kunstenaarschap, 1951- (A Crise da Profissão de Artistas), Helmuth Plessner, de Belichaande) ,( Encarnação da Filosofia) , Monografias de Erasmo, Rembrandt, Guerrit Henner, Jan Wlegers, Taoul Hynckes e Bram Bogart. Redigiu com Harry Kumel, os documentários televisionados Erasmo e Waterloo para a BRT (TV Belga de idioma holandês )e escreveu numerosos artigos para revistas enciclopédias e documentários para a televisão.