domingo, 7 de julho de 2013

O SERTÃO ILUMINADO DE J. CUNHA NO UNHÃO

JORNAL A TARDE, SALVADOR, SÁBADO, 29 DE MAIO DE 1976

 O Nordeste exerce uma influência marcante nas obras dos artistas que de certa forma estão ligados com esta região inóspita e ao mesmo tempo fascinante. Tanto na Literatura, como nas Artes de um modo geral, o ambiente do Nordeste é sempre razão para manifestações fortes e cheias de humanismo. As denúncias feitas através da escrita ou da imagem, a utilização de temas do cotidiano do Nordeste sempre são presenças no meio artístico.
Já o J. Cunha, podemos afirmar que o seu trabalho segue esta linha de entendimento com as coisas e a gente do Nordeste. Como ele mesmo explica Sertão e Luz é um trabalho desenvolvido dentro de uma base humana popular da região nordestina transformando em símbolos de expressão artística todo o meio ambiente social, estórias, fatos místicos, líricos e vivências.
Esta sua mostra, que foi inaugurada no último dia 28, encerra 3 partes distintas: a Dança representada com os folguedos, a Música contando estórias de personagens conhecidos como Padre Cícero, Lampião, e outros e finalmente suas Pinturas e Desenhos com apresentação de composições de elementos simbólicos do ambiente nordestino
J. Cunha é um artista que tem uma força de criação muito grande e profunda, embora você, à primeira vista pense ser o J. uma pessoa quase parada. Sua figura assemelha-se a um vaqueiro nordestino, magro mais forte e capaz de retirar das brenhas uma novilha e levá-la para lugar, seguro. Assim é o J. Cunha: um vaqueiro da arte que retira da inospitalidade do Nordeste as coisas que lá acontecem e joga na tela, chamando a atenção de todos nós que estamos na Cidade, a muitas vezes deixamos passar, despreocupados, os problemas que essa gente enfrenta diariamente.
Sua pintura, não podemos dizer que é um protesto, mas um pouco de retrato deste Nordeste sofrido, gemido a acima de tudo humano.

              A IMPORTÂNCIA DO DESIGN

Recentemente foi realizado em São Paulo um Simpósio sobre desenho industrial organizado por alguns profissionais e tupiniquins com o objetivo de discutir a invasão do design estrangeiro. Os técnicos estavam ainda preocupados com a confusão generalizada que se estabeleceu no país capaz de confundir a engenharia do produto com o design. Aí viu-se a necessidade de disciplinar o que seja design e definir o seu papel na indústria.
O industrial Luís Villares anunciou a criação em 1977 de um Centro de Desenho Industrial onde deverão ser empregados 400 mil cruzeiros no projeto. No entanto, a ideia não teve uma aceitação pacífica porque o engenheiro Sérgio Kel, presidente da Associação Brasileira de Desenho Industrial é de opinião de que a sua criação é controvertida. Em outros países tentaram criar e nada resolveu, porque em vez de centro eles foram transformados em verdadeiros museus. Acha o profissional que será preciso que esse centro funcione como centro de pesquisa e informação, além de prestar serviços ao consumidor.
Na realidade, o que realmente está no centro das discussões é a necessidade de definir um desenho industrial com características nacionais. Como sabemos o design é informação e comunicação social, portanto, ligado à cultura. A sua importação implica na transplantação da cultura de outro povo. Já é tempo de deixarmos de lado o transplante, como fez a tempo o Zerbini, com suas operações de coração. É hora de partimos para formação de um núcleo onde as características da nossa cultura e costumes passem a influenciar o design que no final vai ser consumido por brasileiros e não por americanos ou europeus.
Não existe no momento no Brasil um desenho industrial tipicamente nacional, a exemplo da Alemanha, porque a mentalidade dos industriais e designers é de que ainda não há condição para isto. Se não há, vamos criar condições. Se não há para o desenho industrial nacional, muito menos para o estrangeiro.
Existe uma tentativa em homogeneizar o desenho industrial. E os técnicos citam o exemplo da Rússia, onde o carro Fiat lá produzido é quase o mesmo da Itália.
Mas, certamente, as soluções devem ser buscadas para preservação de aspectos regionais como também a preocupação em estimular os gostos para o consumo dos produtos. O desenho industrial resulta de uma atitude política que não pode e não deve ser alienígena e a engenharia nacional deve caminhar de braços dados com o desenhista industrial, para que o produto atenda ao mercado, e, em última instância, ao seu destinatário, o consumidor.

             QUADRINHOS BAIANOS

O Centro de Pesquisa de Comunicação de Massa antigo Clube da Editora Juvenil há alguns anos luta pela difusão das histórias em quadrinhos como veículo de cultura. A exposição será realizada de 1º a 12 de junho intitulada Quadrinhos na Bahia, e terá lugar no Instituto Goethe, Icba, na Vitória.
A exposição reunirá os melhores trabalhos produzidos no Estado, nos últimos anos, apresentando várias tendências de desenho gráfico e o seu processo evolutivo, tendo como objetivo maior a divulgação das tendências e estilos do quadrinho baiano, além de mostrar, incentivar e promover valores para que sejam conhecidos em outros estados. A Bahia poderá transforma-se num dos centros das histórias em quadrinhos, atividade que este ano está comemorando os seus oitenta anos de criação Yelow Kid, 1896-1976.
Serão expostos trabalhos de 10 artistas, alguns já conhecidos e englobará três estilos: de historietas a experimental propostas pelos desenhistas Jorge Silva, Ferraz Calafange e Aps; a clássica dos desenhos Cedraz e Romilson e o quadrinho cartum de Lage, Nildão, Setúbal e Lessa.
Esta é a quarta exposição promovida pelo Centro de Pesquisa de Comunicação de Massa. A primeira abordou o tema: A Importância do Quadrinho, em 1970, no ICEIA; a segunda, reuniu trabalhos de várias procedências Os quadrinhos no Mundo, na Biblioteca Central, e finalmente a terceira intitulada: Quadrinhos do Brasil, também na Biblioteca  Central. Agora é a vez dos quadrinhos baianos.
Os quadrinhos eram inicialmente considerados como subliteratura e combatidos.Hoje todos são unânimes em reconhecer o seu papel cultural, a sua importância dentro da Comunicação de Massa. Para termos uma ideia, basta citar que vários livros didáticos, principalmente aqueles voltados para os primeiros anos da formação da criança são apresentados em forma de quadrinhos, a própria publicidade, tambem já utiliza o quadrinho como forma válida e eficiente de comunicar. O que é preciso é que os quadrinhos tenham realmente um objetivo em seu desenvolvimento e que o artista se conscientize do papel que pode desempenhar na formação da criança, na divulgação de acontecimentos e mesmo na formação da opinião pública. As formas e os estilos podem variar, mas esses objetivos devem estar sempre presentes.

O MISTÉRIO DE MARTINOLLI

"Minha procura é o mistério minhas sugestões são mágicas, os meus devaneios românticos sempre estritamente ligados a poesia e a um cosmo de beleza remota." Assim fala Sérgio Martinolli que retira da paisagem que dança em seus olhos a magia escondida. "É a recriação partindo do cotidiano, embora nego o cotidiano que assassina as coisas tão rapidamente." Sua missão é sem dúvida nobre. A  recriação com magia uma magia semelhante aos contos de fadas onde bruxas e princesas pontilham uma tela. Agora ele nos mostra a fase surrealista de sua carreira artística e de longe você lembra aqueles personagens da Renascença em plena era da recriação.
Como que voltarem à Terra, iluminados e mágicos, porém cristalizados.Tenho diante de mim uma reprodução a cores de alguns trabalhos destes trabalhos deste italiano de Trieste. Um deles me chamou a atenção. São três figuras de jovens com seus trajes renascentistas.Semblantes mágicos e envolvidas em cores que lhe dão ambientação mística. Três jovens que olham fixamente o espectador. Sérgio nasceu em Trieste e viveu sua infância em Veneza. Formou-se na Academia Naval. A vocação artística foi mais forte e o mar foi abandonado em busca da tela. Há alguns anos ele está radicado no Brasil, e já conhecendo seu trabalho posso afirmar que vem passando por um sério e importante processo de desenvolvimento.