segunda-feira, 8 de julho de 2013

O ÁLCOOL E O TABAGISMO ESTÃO DESTRUINDO A VIDA DO TALENTOSO AURELINO DOS SANTOS


Fiquei surpreso com uma reportagem publicada recentemente num jornal local  sobre o artista Aurelino Santos. Conheci-o nas décadas de 70 e  80  quando ele perambulava pelas galerias da cidade vendendo seus quadros, recebendo dos galeristas atenção e material para continuar pintando. Era difícil estabelecer uma conversa com ele  porque as frases que pronunciava eram quase sempre desconexas .Não adiantava  querer ser compreensivo e tentar entendê-lo porque, de repente, ele saía falando sozinho e desaparecia por vários dias e até meses. Começou a pintar cedo, mas foi na década de 1960 , influenciado pelo escultor Agnaldo Santos (1926-1962) e pela arquiteta Lina Bo Bardi, responsável pelo projeto do Museu de Arte Moderna da Bahia , no Solar do Unhão, que  Aurelino iniciou sua carreira artística.
Quando você menos esperava lá estava ele de volta, trazendo alguns quadros debaixo do braço. Geralmente a compra tinha que ser feita, porque ficava irritado quando isto não acontecia. Desta forma alguns galeristas acumulavam vários trabalhos, os quais não tinham mercado ou seja,  não podiam ser comercializados. Os galeristas foram trabalhando a sua obra, falando do seu jeito de ser, da dificuldade do diálogo,  do seu talento inato, que brota límpido como a água de uma nascente na montanha. Foi assim, que hoje seu talento é reconhecido e obras de sua autoria já foram expostas em Valencia e Paris através da Fundação Cartier e, também, em São Paulo no Museu Afro Brasil, graças a sensibilidade de Emanoel Araújo.
Aurelino continua reticente e sua doença não é tratada, porque  hoje é  ainda mais difícil internar ou levar alguém contra a vontade para um médico ou uma casa de saúde. É preciso que haja uma vontade e decisão do próprio doente. Assim, o ex-cobrador de ônibus e ex-pedreiro vai amargando o seu problema mental, como já aconteceu com vários artistas entre eles escritores, pintores, escultores etc. Basta lembrar o caso do grande  Van Gogh que contou com a ajuda do seu irmão Theo, mas que terminou se suicidando.
Na realidade olhando a pintura de Aurelino dos Santos vemos  que existe algo de relevância e criatividade e, a presença de muitos elementos em suas obras , colocados em posições as mais diversas nos leva a crer que é fruto da sua desorganização mental. Só que esta desorganização não consegue empanar o seu talento, e uma prova disto é que suas obras começam a ser reconhecidas  pela qualidade.
Possuo este quadro acima, de Aurelino dos Santos, datado de 1965 ,onde podemos ver a sua composição  com vários elementos preenchendo os espaços numa desorganização organizada. Esta aparente contradição reflete a sua própria confusão mental, mas que tem um equilíbrio e beleza plástica. O espectador fica diante de uma obra deste artista diferenciado procurando identificar cada elemento ou mesmo separando-o mentalmente como num jogo de armar.
Sabemos que além do álcool Aurelino Santos é um fumante inveterado. Hoje, aos 70 anos de idade e seu corpo franzino requer um tratamento urgente.Vivendo em condições precárias num barraco sem reboco de pouco mais de 30 metros quadrados numa favela próxima ao bairro de Ondina, este é o retrato de Aurelino, resultado do seu problema mental. Se algo não for feito fatalmente seu organismo  vai resistir por pouco tempo.
Certamente, não podemos   afirmar que Aurelino seja um gênio, mas sem dúvida  é um artista talentoso e, que merece todo o apoio e incentivo para que posa se tratar e se afastar desses vícios podendo assim continuar produzindo e usufruindo do fruto do seu trabalho com dignidade.