terça-feira, 9 de julho de 2013

CARIBÉ NA POUSADA

JORNAL A TARDE, SALVADOR, SÁBADO, 10 DE JULHO DE 1976

Pela segunda vez os baianos terão oportunidade de conhecer de perto os 20 trabalhos de autoria de Caribé agora expostos na Galeria da Pousada do Carmo. É a coleção de desenhos que foram utilizados na edição do livro Sete Portas da Bahia.
Caribé chegou a Salvador em 1950, para aqui plantar raízes através de um trabalho sério e cuidadoso. Um homem de sensibilidade que recolhia nas feiras livres, nos terreiros de candomblé e em outras manifestações populares os tipos e as cenas que compõem esta coleção.
Com poucos e definidos traços lá vai este artista argentino colhendo a essência do povo baiano. Chegou naquele ano e foi encarregado pelo Governo do Estado, na época Otávio Mangabeira e também pelo saudoso Anísio Teixeira, então Secretário da Educação e Saúde para elaborar ou documentar o folclore, festas populares e costumes na Bahia.
TRAÇO INTERNACIONAL
Daí foi um só um passo. O argentino fincou raízes e aqui está a pintar a gente e as coisas da Velha Bahia como ninguém. Um argentino baiano, ou melhor um baiano nascido na Argentina. Passados 26 anos, eis que os trabalhos feitos por Caribé são agora expostos numa mostra intitulada Coleção Festas da Bahia.
São 20 trabalhos onde o Pelourinho, Feira de Água de Meninos, Festa do Bonfim, Conceição da Praia, Festa de Iemanjá, rampa do Mercado temas de Candomblé e Orixás são apresentados com maestria.
A coleção completa adquirida pelo Governo do Estado é composta de 273 desenhos.
Já foi antes exposta e é considerada a mais importante dentre as realizações do artista por abranger temas folclóricos e as principais festas da Bahia.
O próprio artista assim fala  que "a importância desses desenhos é muito grande pois eles retratam coisas que não existem mais, como é o caso da Feira de Água de Meninos, a Rampa do Mercado e a própria capoeira hoje, muito modificada. A capoeira, atualmente, é  muito mais uma exibição de contorcionismo e ginástica.Antes era defesa pessoal quem jogava era carroceiro e estivador.Hoje, nós sabemos que a capoeira é ensinada nos clubes sociais granfinos e os filhos de ricaços e de gente de classe média são exímios capoeiristas. Uma descaracterização que trouxe o progresso e a própria aceitação da capoeira como luta e ginástica."
Voltando aos desenhos agora expostos eles foram feitos a nanquim e, em 1955, foram publicados na Coleção Recôncavo com textos de autor, de Odorico Tavares Wilson Rocha, Verger, entre outros. Foram também expostos em 1951.
A BAHIA
Declara Caribé que desde 1938 já vinha alimentando um desejo de morar em Salvador. Porém, a falta de um entrosamento e de um relacionamento não permitia que seu desejo fosse concretizado. "Quando o dinheiro acabava, eu ia embora. Ia e voltava. É o magnetismo da Bahia que chama o visitante e o convida a banquetear". É a Velha Salvador que termina por conquistar os corações de viajantes e aventureiros. Como Caribe existem dezenas de outros estrangeiros que aqui vieram e hoje não querem mais sair. Mas oi o convite do Governo do Estado para fazer a documentação que permitiu a Caribé sua fixação na Bahia. Nessa época adianta o artista, "José Valadares era Diretor do Museu do Estado e estava muito desconfiado, porque já havia sido chamado um francês que passou um ano inteiro fazendo o documentário sem filme na máquina.Um outro artista, ao invés de trazer os quadros e desenhos esperados, apresentou uma série de reproduções."
Porém, ele mostrou que viera para ficar. Entregou o seu trabalho quando todos nem esperavam que tivesse pela metade. Assim ganhou a confiança de José Valadares e realizou sua primeira exposição em Salvador na Galeria do Bar Anjo Azul, naquela época ponto de encontro da boemia e intelectuais baianos. Eram quadros que trouxera prontos do sul do país. Veio a segunda exposição no saguão da  Secretária de Educação, onde apresentou 300 trabalhos, quadros de pintura a óleo, em sua maioria feitos em Salvador. A partir dessa exposição ganhou crédito como artista e já tinha um grande relacionamento que lhes permitiam ficar.
Poucas foram as exposições feitas por Caribé na Bahia , ele explica, dizendo que "em galeria de arte baiana, não adianta fazer exposição". Não obstante, seus trabalhos estão espalhados por quase toda a cidade, destacando-se o painel dos Orixás do Banco da Bahia, vários painéis em madeira e concreto em repartições do Centro Administrativo e um painel em concreto à entrada da Rua Chile.
Hector Bernabé é o seu nome de batismo. Nasceu em Lanus, província de Buenos Aires, em 1911. Os primeiros oito anos de idade passou em Roma, vindo em 1919 ao Brasil, para o Rio de Janeiro, onde a partir de 1927 cursou a Escola Nacional de Belas Artes. Expôs pela primeira m 1940, no Museu Municipal de Belas Artes de Buenos Aires, contribuindo com uma série de desenhos e aquarelas sobre motivos do Brasil.

       A NATUREZA NAS TELAS DE EDITH NEVES

 A Galeria Cañizares está apresentando trinta e cinco trabalhos de autoria da artista Edith Neves. Estive conversando com a artista juntamente com o professor Ivo Vellame responsável pela mostra. A primeira vista pareceu-me que Edith está preocupada com a destruição desregrada que estamos assistindo impassivos da natureza. A serra, o machado, o fogo e a poluição das águas do ar e do solo estão levando o que de mais belo existe em nome do progresso. Sua pintura reflete exatamente esta preocupação em trazer para um apartamento, para uma parede nua de uma casa um pedacinho da natureza, através de suas cores vibrantes. É uma artista intimamente ligada com as coisas tropicais. O curioso é que Edith mora em São Paulo, uma cidade por demais conhecida por seu progresso e por sua desumanização.Ela está cursando o último ano na Faculdade de Belas Artes de São Paulo.
Porém a sua obra não tem nada a ver com o academicismo de sua escola. Lá desenvolveu sua técnica e conservou sua criação livre.'Eu já pintava anteriormente e não deixei que houvesse envolvimento pela Escola. O meu trabalho é fruto de minhas observações e sentimentos. Sinto muito a falta da natureza e esta falta é colhida e retratada em meus trabalhos. Trago a natureza para perto de mim."

              MEC VAI FINANCIAR ESTUDANTE DE ARTE

Três milhões e 600 mil cruzeiros serão destinados pelo Ministério da Educação e Cultura para a primeira etapa de um programa pioneiro de bolsas de estudo, destinado a universitários carentes que se interessem por melhorar sua formação e conhecimentos  de teatro, cinema, artes plásticas, música, dança, letras, atividades artesanais e folclóricas.
Através dos Departamentos de Assuntos Culturais e de Assistência ao Estudante, o MEC distribuirá 500 bolsas de CR$600 mensais, mediante convênio com 18 universidades oficiais.
Nessa primeira fase, as universidades das regiões Norte e Nordeste do País, terão prioridade. Embora sejam as mais carentes, elas apresentam um intenso movimento cultural.
Segundo o diretor do Departamento de Assuntos Culturais do MEC, professor Manuel Diegues Júnior, além desse projeto ser pioneiro, ele é de suma importância, pois trata-se da primeira vez que o estudante, na área das artes, recebe apoio financeiro diretamente do Ministério.
A seleção será feita pelas próprias universidades, que darão preferência aos que já tenha, desenvolvido alguma atividade artística.
Com essa bolsa, o universitário carente não só terá o mínimo para sua subsistência, como poderá dedicar-se à atividade artística de sua preferência.
É claro que não poderemos atingir a todos os estudantes interessados em arte, declarou o professor Manuel Diegues Júnior. Mas, como esta primeira fase ainda é experimental, a partir dos seus resultados poderemos reformular ou ampliar o projeto para o próximo ano, e assim o atendimento será maior.
Explicou também o diretor do DAC que o projeto prevê três modalidades de bolsas: anual, semestral e móvel. Esta última será dada para que o estudante realize determinado trabalho num prazo de dois a três meses, o que segundo o professor Diegues, multiplicará o número de bolsas, que apesar de serem apenas 500, poderão ser divididas para um número maior de estudantes.


RECUPERANDO O MASTRO

Existe em Alagoinhas um mastro intitulado Totem dos Pracinhas todo esculpido num grosso tronco de um velho eucaliptos. É um lindo mastro todo colorido com as armas da cidade, da república, figuras de presidentes. Com mais de cinco metros de altura ele se bifurca na extremidade em três partes. Não sei o autor da escultura. Registro apenas para o baiano tomar conhecimento de sua existência e como uma homenagem ao seu autor, que teve idéia de esculpir o velho eucaliptos que não aguentou as tintas
e as feridas causadas em seu tronco vindo a morrer.Agora ele está sendo restaurado porque as chuvas e o sol inclemente em contribuindo para descolorar as figuras e provocar rachaduras e desgastes no tronco onde estão esculpidos os feitos e seus responsáveis.


                 CHARLES ALBERT NA GALERIA PANORAMA


A Galeria Panorama está apresentando uma exposição de tapeçaria do artista Charles Albert. Argentino de nascimento o Charles radicou-se em Feira de Santana para onde veio acompanhado de uma orquestra . Os trabalhos versam sobre motivos regionais de Feira de Santana, flores e também alguns óleos. Charles Albert é um cantor que pinta e seus quadros são verdadeiros poemas de cores e vibrações.