domingo, 28 de julho de 2013

FICOU POR DESCOBRIR NOVOS VALORES BAIANOS

JORNAL A TARDE,SALVADOR, SÁBADO 09 DE SETEMBRO DE 1978

Obra de Renato da Silveira

Merece aplausos a presença de empresas privadas no setor das artes plásticas, especialmente quando promovem e divulgam exposições e novos valores. Mas não poderei deixar de registrar aqui a falha na escolha de novos valores que representam a Bahia. Não entendo como esta mostra Arte / Bahia / Hoje que foi aberta na última sexta-feira na Capela do Solar do Unhão apresente um pintor primitivo o Babalu como representante da arte feita na Bahia de hoje, quando temos aqui excelentes artistas capazes de representar melhor a Bahia, com trabalhos que tem contemporaneidade. Acredito mesmo que os responsáveis pela seleção sofreram influências sentimentais e estranhas para cometerem tal disparate.
 Não entendo também a presença de Antenor Lago e mesmo alguns trabalhos de Sônia Rangel, embora se conheça o seu talento.E por isto que não concordo que houve descoberta. Acho que houve o acobertamento de um Mário Cravo Neto e muitos outros que prefiro não citar.
Faço estes comentários não apenas por fazê-los; mas para firmar uma posição, porque inclusive no sul do País a exposição sofreu severas críticas, sob a alegação que não a apresentava nada de novo e que não estava bem representada a Bahia.
O que tenho que elogiar é o trabalho sério de Renato da Silveira e algumas telas do J. Cunha que realmente demonstraram cera coerência e inclusive qualidade pictórica no tratamento da temática, das formas e das tintas.
É verdade que esta mostra deixou, muita gente desapontada porque o critério foi falho, muito mais falho de que outros critérios seletivos que tenho presenciado.
Na apresentação que fez o professor Cid Teixeira revela que "Agora é, já outra geração que chega.
Com todas as mesmas e eternas angústias. A mesma e eterna orfandade social, o mesmo e eterno desejo de se afirmar. Com todo respeito ao professor e amigo Cid Teixeira devo dizer que alguns dos participantes ainda não chegaram. Estão por chegar. Começam a tatear."
Volto ao Babalu tão festejado por uns poucos para dizer que gosto do seu trabalho como primitivo, mas que já demonstra através uma tela onde apresenta frases escritas erradamente de propósito como sendo uma novidade. O artista que dispõe daquelas informações de ordem política não é mais um primitivo. Perdeu a sua pureza de artista intuitivo porque já está impregnado dos chavões da sociedade de consumo. O que deve fazer à esta altura é começar a aprender a desenhar para melhor utilizar, com sutilezas, os chavões que já manipula.
Quanto ao Antenor Lago os desenhos são simplificados demais ao ponto de lembrar desenhos de lápis de cor de jardim de infância. Foi também infeliz na escolha de suporte que nada acrescentou.
Já a Sônia Rangel com aqueles bonecos de panos mutilados, me confundiu com os trabalhos de Eckenberger, que aliás são muito melhores. Esta linha de ação escolhida pela Sônia é realmente já batida e já identificada com outros artistas.
O desenhista Edson Calmon também não me convenceu com alguns de seus trabalhos, embora tenha pessoalmente admiração por sua dedicação e pelo total de sua obra.
Tem ainda o Murilo que apresenta trabalhos já conhecidos e de qualidade.
Não me demoro falando sobre sua participação porque já externei por diversas vezes minha opinião e reconhecimento por sua obra. E um dos jovens baianos que pode representar a Bahia, e o que precisa, é esquecer os elogios e trabalhar sério e com humildade.

ROSA CABRAL JÁ VEM

Depois de um longo período de silêncio recebo uma carta de Rosa Cabral, comunicando sua chegada para o próximo dia 29. Certamente uma notícia que me alegra e a muitos que acompanham de perto o seu trabalho fotográfico e esforço pessoal em melhorar a qualidade de sua obra. Ela está na Alemanha há mais de um ano e recentemente apresentou um trabalho fundamentado na lei do contraste. Pois, esta é a condição indispensável em sua opinião para percepção do mundo que nos rodeia, com a qual nos torna possível interpretar o mundo de forma. Os elementos cabeça como intelecto e mãos como sensibilidade são os principais já que são integrantes naturais do ser humano na escala evolutiva. As mãos utilizadas ao invés das palavras, no sentido de se conseguir uma comunicação mais íntima, ao invés de fria e distante a nível intelectual.
Com sua atitude pessoal, Rosa Cabral não quer sugerir nenhuma resposta, ou seja, a sua própria verdade e sim, funcionar como estímulo para que cada um passe a encontrar a sua própria resposta, a sua própria verdade.
 A Ação aconteceu numa noite no jardim com a participação direta do público e foi documentada em vídeo-tape, por fotografias preto e branco e slides a cores pela Academia de Arte de Dusseldof, onde ela está atualmente. Numa sala contígua projetou os slides sobre um fundo negro, acompanhado do som harmonioso de berimbaus baianos.

                        PAINEL

URSO BONACHÃO- No estúdio do pintor Victor Chizhikov, autor do símbolo-mascote da olimpíada de 1980, por toda parte estão livros infantis ilustrados por ele, inclusive o famoso doutor Aymeduele, de Tornei Chukosvski.
Porém, desenhar para crianças, não é mais do que uma das muitas tarefas do artista. Nesse campo conheceu muitos êxitos e suas criações venceram muitos concursos, como em Polônia, Lausane, Bratislava e Berlim.
Seus desenhos foram exibidos também nas exposições organizadas em Londres, Budapest e Berlim Oeste.
Nas edições para crianças diz Victor figuram muitos animais, inclusive aqueles que não existem na realidade, como o antílope bicéfalo, da obra Doutor Aymeduele e o ursinho Miguelito, que me manteve trabalhando mais de meio ano.
Tive que desenhar o ursinho mais de cem vezes, com chapéu, sem chapéu.
Afinal tinha que fazer dele o símbolo olímpico.Até que veio a ideia do cinturão com os cinco aros e as cores das olimpíadas, era o que procurava.E o mascote foi aprovado. Um ursinho bonachão, travesso, hospitaleiro que já está percorrendo todos os continentes, conquistando os corações de milhões de pessoas que impacientes esperam a inauguração dos jogos em 1980, em Moscou.

EMÍDIO MAGALHÃES- Está expondo na Galeria Cañizares. Foi premiado com a medalha de ouro da Escola de Belas Artes da Bahia, em 1931, ganhou uma viagem à Europa e medalha de bronze do Salão Nacional de Belas Artes. EM 1963 concorreu novamente ao Salão Nacional quando foi agraciado com a medalha de ouro, fato ocorrido também com o seu mestre Presciliano Silva.

TURISTAS E ARTISTAS- nesta terra de muito s artistas, os guias também sabem manejar o pincel.
Aproveitando o I Encontro de Guias de Turismo da Bahia alguns artistas e guias montaram uma mostra no salão de convenções do Salvador Praia Hotel. Entre eles Bel Borba, Christina Silva, Eckenberger, Neto, Figueiredo, Paulo Dantas, Sérgio Veloso e Sílvio Rabelo.

CANTOR E ARTISTA- O cantor Francisco Carlos abre sua exposição na Galeria Panorama. Ele conhecia profundamente a beleza, costuma surpreender-se com a sua majestade; para ele cada dia era o despertar de um mundo novo.  " Assim  é o artista, assim é a arte. Vejo tudo isto pela simplicidade de um casario banhado de sol com seu velho paredão florido. Um rosto desenhado nas suas proporções. Uma ovelha no campo amamentando o seu filhote. O olhar lançado ao mar pela hora redonda, a geometria das folhas. O crespúsculo em que toda a natureza se ajoelha; e todos cedemos.Cedi a todos esses encantamentos, e descansei um pouco meu violão seresteiro. Essas palavras românticas do Francisco Carlos traduzem o ambiente de sua pintura calma, expressiva, cuidadosa." Foto.

FEIRA NO COLÉGIO- Será realizada este mês a I Semana de Arte, do Colégio Estadual João Florêncio Gomes, quando serão mostradas as atividades dos alunos nos mais variados setores artísticos. A programação abrange apresentações de grupos teatrais, dança, música e uma feira de arte. O coordenador é Francisco Barreto.

LIVROS DE ARTE- Dentro de dois meses o Instituto Nacional de Artes Plásticas lançará os primeiros dois livros da série de dez, mostrando os acervos dos principais museus de artes plásticas do Brasil. As primeiras publicações da coleção serão sobre o Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro e o Museu de Arte de São Paulo.
A publicação destes livros faz parte do Projeto Museu Imaginação, uma iniciação da Funarte que objetiva documentar e tornar acessível a um público maior ás obras de artes que estão guardadas entre as paredes de nossos museus. Todos os livros da série serão impressos em papel couchê, com 200 páginas, a cores, no formato de um quadrado com 24 centímetros de lado.
Os livros serão diagramados por programadores visuais da Escola Superior de Desenho Industrial e terão textos acompanhando cada uma das obras abordadas, com os dados técnicos e apreciações estéticas sobre o trabalho focalizado. As principais obras de cada museu serão selecionadas segundo critérios do próprio museu, que também ficará encarregado através de sua Direção Técnica da elaboração dos textos explicativos.
Os dois primeiros livros da coleção sobre o Museu Nacional de Belas Artes e Museu de Arte de São Paulo – já estão em fase de revisão de provas. Os fotolitos estão feitos dos textos com fotos.
Eles deverão estar prontos em dois meses, quando então parte da tiragem de 5 mil exemplares será enviada para as Universidades, Museus e Instituições Culturais e Educacionais. O restante será colocado à venda nos dois Museus. No momento já foi iniciado o trabalho de documentação fotográfica de 80 obras escolhidas do Museu de Arte Sacra da Bahia, e também está sendo feito o levantamento etnográfico do acervo do Museu Goeldi , de Belém do Pará. Este levantamento visa a obtenção de dados sobre as peças das culturas mais significativas da região, principalmente as das tribos da ilha de Marajó.
Além disto já estão sendo escolhidas as peças do acervo do Museu da Imagem do Inconsciente, que farão parte de mais uma publicação da série. Estes três livros deverão ficar prontos até o fim do ano.
Os planos do Projeto Modelo Imaginário da Funarte vão mais londe e prevêem ainda a edição de mais livros sobre o Museu de Arte Moderna de Belo Horizonte, Pinacoteca de São Paulo, Museu de Arte Moderna de São Paulo e Museu da Inconfidência.
Além do livro, o Projeto prever ainda criação de coleções, de slides com acervo deste museu.