quarta-feira, 10 de julho de 2013

RÉSCALA: NÃO SOU ACADÊMICO

JORNAL A TARDE, SALVADOR ,SÁBADO, 09 DE OUTUBRO DE 1976


Tipos populares no pincel do mestre
 Antes de você classificar o mestre Réscala de Acadêmico é preciso conhecer de perto toda sua trajetória pictórica.Pouca gente sabe que o carioca Rescala foi um dos fundadores da Arte Moderna no Brasil, quando ainda estudante participava nos porões da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro das reuniões do grupo intitulado de Núcleo Bernadelli, juntamente, com Edson Mota, Djanira, Da Costa, Jordan Oliveira, Manoel Santiago. O tão badalado Pancetti também pertenceu a este núcleo e tinha Réscala como seu orientador. Por outro lado, é preciso também separar o trabalho do restaurador Réscala de sua pintura que tem uma personalidade própria.
Réscala nasceu em 8 de janeiro de 1910 no Rio de Janeiro e está em Salvador há vinte e cinco anos, de onde não mais pretende sair.
Ele declara que desde moço nunca pensou em ser professor. "Sou professor por acaso. Embora em alguns momentos de minha vida tenha recebido em minha casa ou mesmo no porão da Escola de Belas Artes algumas pessoas que desejavam aprender a pintar. No Núcleo Barnadelli, onde conheci Pancetti, que era então sargento da Marinha, nós exercitávamos pintar com modelos ao vivo e fazíamos muitos croquis para assim podermos dominar o desenho.Não acredito que alguém seja um grande pintor se não sabe desenhar. O desenho é a base necessária para a pessoa seguir um caminho pictórico."
Ele gosta de relembrar os momentos históricos do Núcleo Bernadelli onde participavam, desde o operário até o diplomata. "Ali tínhamos realmente liberdade de criar e não havia qualquer discriminação. Éramos unidos só pensávamos em criar. A toda hora apareciam novos sócios e o calouro escolhia um antigo para lhe orientar.Foi assim que Pancetti me escolheu. Fomos grandes amigos. Isto aconteceu por volta de 1933, se não me falha a memória."
Réscala aconselha os jovens afirmando que não devem limitar-se aos trabalhos de escola. É preciso treinar, pintar e desenhar sem parar para dominar as formas e cores.Quanto ao prestígio de Portinari como artista expoente do Modernismo, Réscala tem uma explicação que me pareceu lógica."Quando iniciávamos o nosso Núcleo recebemos muito apoio de vários setores renovadores no Rio de Janeiro. O Movimento Modernista ganhava corpo também em São Paulo. Nesta época Portinari estava na Europa e quando voltou já havia acontecido a Revolução de 30 e os vitoriosos deram-lhe todo apoio. Com isto não estou negando o talento de Portinari, pelo contrário, ele tinha um grande talento e uma prova disto é a sua obra monumental. Porém, acredito que outros artistas também talentosos da época mereciam uma maior atenção dos governantes de 30."
 Continua Réscla  " Assim o país teria lucrado ainda mais. Cito apenas dois nomes como Henrique Cavaleiro e Eugênio Sigauld.
Quando perguntamos ao mestre Réscala se ele considerava sua pintura acadêmica a resposta foi negativa e argumentou: "Eu não sou acadêmico. Esta estória de acadêmico é maldade que fazem comigo. Eu já passei por várias fases e hoje faço uma arte que tem uma personalidade própria. Uma pessoa que entende de arte é capaz de identificar um quadro de minha autoria.Isto é importante para o artista. A personalidade de sua obra. Eu nunca poderia ser um acadêmico. Fui fundador de um grupo modernista, Núcleo Bernadelli e também um dos fundadores do Salão de Arte Moderna, que funcionava junto com o Salão Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Ganhei vários prêmios nestes salões e deixei de participar porque estava pornográfico."
Disse o mestre que " estão confundindo arte moderna com pornografia, Esta tal de arte erótica eu considero algo sem sentido. Uma fotografia de uma revistinha dinamarquesa funciona muito melhor se o problema é o erotismo. Acho esta tal de arte erótica uma imoralidade e muitos talentos estão sendo desviados. Aqui na Bahia temos exemplo que são de conhecimento de todos.Mesmo assim, ainda participei do Salão Geral de Belas Artes, que não é acadêmico, pois os modernos têm livre trânsito". Foi aí onde o mestre foi contemplado com vários prêmios.
Réscala gosta de pintar os costumes do povo 
O grande ideal de Réscala não é o magistério ou a restauração e sim a sua pintura. "Jamais deixei e não deixarei de pintar", sentencia o mestre. Sou professor da Escola de Belas Artes da UFBa, e restaurador do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, mas a pintura para mim está em primeiro lugar. Volto a dizer que sou professor por acaso." E começa a contar: Certa vez quando ganhei o prêmio de viagem pelo Brasil tive a felicidade de conhecer o professor Mendonça Filho. Um contato de uns 15 minutos.Foi em 1938. estava impressionado pela Bahia, porque eu sempre fui um pintor de costumes e aqui havia material demais, além do casario e a integração do povo baiano com o ambiente. Depois passei a namorar a Bahia e vim aqui várias vezes para pintar. Em 1952 a Congregação da Escola de Belas Artes criou a cadeira de Teoria, Conservação e Restauração da Pintura e não sei por que razão Mendonça Filho foi me buscar no Rio de Janeiro. Mas hesitei um pouco porque ali estava bem de vida, com casa própria e era restaurador do Patrimônio e desenhista do Museu de História Natural, além do meu público de pintura. Faço questão de afirmar isto porque muita gente pensa que vim aqui como aventureiro."
Diz Réscala que "sou um artista disciplinado e minha carreira profissional sempre me proporcionou uma disciplina de trabalho e técnica. Basta dizer que no Museu de História Natural eu tinha que desenhar os insetos e animais maiores com toda a perfeição para serem  examinados por naturalistas. É por esta razão que dou muita importância ao desenho."
Mas Rescala tenta explicar a sua arte: "Aqui confundem arte mais objetiva com o academicismo. O que sou na realidade é um pintor de costumes, um realista lírico. O realismo se faz de várias formas,isto não desmerece ninguém. Agora, quando faço retrato quero ser acadêmico porque o retrato é uma documentação que faço e tem que ser parecido com as pessoas."
"Quanto ao meu conceito de liberdade de expressão é abrangente. O artista pode ser moderno ou acadêmico ou clássico porque ele escolheu esta opção. É um problema individual, de sentimento. Se não faz o que gosta é um falso. É dentro deste pensamento que realizo o meu trabalho. Meus quadros são concebidos nesta linha de pensamento e ação."

UMA PINTORA PREOCUPADA COM A ECOLOGIA MUNDIAL


A pintora Kriemhild Flake natural de Hamburgo, está expondo alguns trabalhos na Galeria do Icba, na Vitória. Ela já expôs em vário países entre os quais a Itália, França, Grécia, Estados Unidos e Argentina e agora chega ao Brasil com esta mostra. Veio de Hamburgo especialmente para a sua vernissage, trazendo a  preocupação com a ecologia. Ela era conhecida, por ser um artista ligada às criações estéticas, onde dominava a delicadeza dos traços, colorido dourado e o ambiente dos contos de fadas. Hoje Kriemhild está preocupada com a figura humana que está destruindo a natureza. Uma pintura agressiva e de denúncia onde as figuras que inicialmente parecem grosseiras, tem razão de ser.
Ela quer jogar todo o relacionamento e envolvimento do homem versus natureza. Mas sua pintura é perfeita e consciente. Os problemas das metrópoles abarrotadas de cimento armado, descargas de automóveis e chaminés de fábricas, a agressão e derrubada indiscriminada das matas e a atual busca ás origens à volta ao campo, estão presentes em seus trabalhos. A sua linguagem é universal e as mensagens inseridas em suas telas são perfeitamente entendidas e consumidas por todos aqueles que tiveram oportunidade de visitar a exposição.

A criação porte do nível interior para o exterior. Um pensamento, uma ideia nua se forma e ganha corpo, através do pincel e daí passa ao nível dos símbolos que necessitam ser descodificados. E isto acontece no trabalho pictórico de Kriemhild, que fala uma linguagem universal e que também está preocupando intelectuais e pessoas mais esclarecidas de todas as comunidades.