segunda-feira, 8 de julho de 2013

JOSELITO DUQUE E A LIBERDADE

JORNAL A TARDE, SALVADOR, SÁBADO, 19 DE JUNHO DE 1976


Mulata, de Joselito Duque
Recolhido na Sapolândia uma comunidade que habita uma estreita área entre a estação Bolandeira e o Clube dos Médicos o pintor Joselito Duque está trabalhando dia e noite na execução de alguns trabalhos que vai expor na Galeria Rag, na Boca do Rio. Sua pintura é forte e original e a tela é preparada com antecedência através de misturas de tintas e outros materiais o que permite uma textura em alto relevo. Sua exposição será aberta no próximo dia 10 de julho e a temática é o país tropical, com sua fauna e flora exuberantes. As mulatas se apresentam em suas telas grandiosas e enroladas em lenços coloridos com os selos expostos à luz do sol. Noutras, as mulatas com seus vestidos curtos e grossas coxas estão lavando roupas em lagoas azuis rodeadas de areia branca, lembrando a Lagoa do Abaeté. A vegetação verde, amarela e vermelha contrasta com a alva areia. Um festival de mulatas seminuas, que  lembram de  as de Di Cavalvanti.
O seu desenho é apurado e Joselito tem consciência do seu trabalho e preocupação com as formas. Uma pintura forte e cheia de alegria mesclada com o calor tropical. O colorido é sem dúvida um dos mais bonitos e suas telas falam por si.
Joselito Duque é antes de tudo um boêmio, um homem voltado à contemplação da natureza em toda sua  grandiosidade. É difícil uma intimidade tão grande entre o artista e a temática. Mas ela existe no trabalho de Joselito que está sempre em contato com esta gente.
Quanto à natureza ela invade a sua casa humilde, desde os fundos, à frente e as laterais. Tudo é verde. Os pássaros gorjeiam e os sapos coaxam. É neste ambiente de trabalho que Joselito está instalado. Na solidão das noites ele tem sua companhia os gritos e gemidos de pássaros misteriosos que singram os céus da República Livre de Itapuã, como afirma o gravador Calasans Neto.
É difícil falar de toda a beleza e da grandeza das telas de Joselito Duque. É preciso vê-las para senti-las e apalpá-las. Além de encher os olhos do espectador, suas telas, são juntas um canto de alegria. Alegria de viver, de falar através das tintas e do pincel. As mulheres seminuas pululam os espaços entremeados de verde, azul e outras cores que são tão bem usadas pelo artista. Simples e criativo o Joselito Duque é a expressão da própria liberdade.

             DOIS CARIOCAS NO NEPAL

Uma xilo de anônimo nepalês
"Carioca, arquiteto, fiz uma viagem que muito me influenciou em minha vida profissional. Passei com minha esposa Sônia, um ano viajando pela Índia, Nepal até a Indonésia, onde fiquei algum tempo na incrível Ilha de Bali. Particularmente no Nepal, apreciei de perto a arquitetura, o traçado das cidades e a  consciência do povo em relação à preservação do ambiente, pois suas aldeias são construídas e reconstruídas.Mudam com as estações mantendo assim um relacionamento essencial com o terreno."
Atualmente vivo em Salvador, para onde vim à procura de um esquema de vida mais calmo, e aqui pretendo fazer um trabalho arquitetônico aliado à natureza que não precisa ser destruída para que se construa.
O que pretendo é conseguir uma integração perfeita entre as duas coisas, o que sempre é possível. Por isto o Horto Florestal foi o local escolhido para ser o primeiro projeto que será ambientado por jardins de Sônia Aguiar.
Os xilos foram trazidos de Nepal e de lá para Salvador e para a redação de A Tarde onde ele chegou numa manhã com dois trabalhos debaixo do braço. Tivemos um rápido contato e depois o Cláudio desapareceu. Estive ausente de Salvador e quando retornei encontrei essas declarações do arquiteto guardadas em minha gaveta. Agora a exposição que Cláudio anunciara já está acontecendo na Galeria Sereia no Pelourinho.
O Nepal fica ao norte da Índia e seu centro cultural é o vale de Kathmandu a 1.400 metros de atitude, onde ficam cerca de quatro quintos dos monumentos históricos do país. Unificando como reino há duzentos anos o Nepal é um mosaico geográfico, étnico e cultural.Os costumes e os trajes variam de região para região.
Os seus habitantes falam três línguas e uma dúzia de dialetos, praticam duas religiões: o hinduísmo e o budismo. O curioso é que os templos são erguidos lado a lado havendo mistura de ritos. A religião para os habitantes do Nepal é mais que uma crença. É um estilo de vida integrada em todas as atitudes. É exatamente desta gente mística e religiosa que Cláudio e Sônia trouxeram alguns trabalhos de autores anônimos que dão uma ideia aproximada desta arte que está acima de tudo calcada em cenas da vida cotidiana. Desde o século XVII que o dia a dia é a preocupação maior da arte de Nepal. Na Galeria Sereia estão sendo apresentadas xilogravuras em papel arroz de antigas matrizes de madeira impressas, segundo métodos tradicionais e transmitidos através gerações.Nelas podemos, sentir a influências dos chineses e indianos.