quarta-feira, 17 de julho de 2013

JOSÉ ARTUR, UMA OBRA EM CONSTRUÇÃO

JORNAL A TARDE,SALVADOR,  SÁBADO, 11 DE MARÇO DE 1978

O primeiro trabalho que vi do artista José Artur faz algum tempo. Naquela época ele trabalhava no Centro Industrial de Aratu e uma tela de sua autoria figurou na capa da revista editada pelo órgão. De lá para cá, venho acompanhando com algum interesse a sua obra pictórica. Sem dúvida que é um dos mais fecundos artistas baianos. Um técnico que trocou o maquinismo pelo pincel e foi morar numa comunidade de artistas, na praia de Jauá, terminando por mudar-se por razões que prefiro não mencioná-las. O que importa, é que José Artur vive em busca de novas expressões procurando acima de tudo dar uma ideia de grandezas em termos de linguagem visual às suas telas. É também um dos poucos artistas organizados e tem uma relação das obras vendidas, slides de suas telas e assim por diante. Isto é um dado importante, porque quase sempre o artista precisa de fornecer informações e não tem como fornecê-las, porque simplesmente não é organizado. Mas, voltando à sua arte podemos afirmar que seu trabalho era calcado num processo monocromático com predominância de uma ou outra cor. Em determinada fase predominava o vermelho, noutra o azul e assim por diante. A figura humana era jogada dentro desta composição em formas as mais divergentes possíveis. Sempre belas telas, e a mulher revela-se uma presença constante. Presença renovada a cada pincelada forte e expressiva deste jovem pintor. Até quando faz o casario, podemos mostrar grandiosidade de sua obra, porque ele não retrata simplesmente os velhos casarões da Bahia colonial. Recria-os e faz um lançamento num espaço cheio de misticismo e beleza. Uma recriação capaz de elevar os casarões sujos e abandonados
das zonas marginalizadas pela especulação imobiliária.
Já participou de várias exposições individuais e coletivas e em todas elas José Artur mostrou renovação, quer na temática ou mesmo na forma de expressão.
Nascido em Salvador, frequentou desde cedo estúdios de velhos artistas e mestres da pintura em nossa terra, além dos cursos livre da Escola de Belas Artes. Já fez desenhos e algumas experiências com esculturas, mas José Artur é essencialmente um pintor. Mesmo a fase que fez tapetes revelou-se  pintor. Sinceramente não gosto dos tapetes feitos por J. Artur, inclusive já escrevi dando esta opinião. Prefiro seus trabalhos a óleo que são mais fortes e revelam mais intimidade com sua própria personalidade. As abstrações dos motivos que conseguia nos tapetes não me agradavam. Porém,é um pintor de múltiplos recursos que domina o pincel com certa capacidade. Não vive atrelado aos modismos e assim caminha sem pressa, construindo uma obra que certamente figurará entre aquelas mais importantes já surgidas na Bahia, terra de muitos artistas, porém de poucos e verdadeiramente possuidores de valor e qualidade.

  
          MÁRIO CRAVO NETO E STEPHANIE BURK

Foto de Mário Cravo Neto , de uma das
máquinas queimadas pelo ladrão

Dois fotógrafos talentosos estão expondo no Museu de Arte Moderna da Bahia, no Solar do Unhão: Mário Cravo Neto ( Mariozinho) e a americana Stephanie Burk. O tema de Mário cravo Neto demonstra a sua capacidade de recriar do nada. Como todos sabem, recentemente um ladrão roubou todo o sofisticado e caro equipamento fotográfico de Mário. Acuado pela polícia o ladrão resolveu botar fogo em tudo. Resultado: mais de 300 mil cruzeiros viraram cinzas. Porém,o artista não desistiu. Da sucata fez um trabalho com a ajuda de uma velha e remendada lona de caminhão, que serve de fundo, onde estão expostas as lentes, máquinas e outros instrumentos de seu trabalho. Mas isto não é novidade na obra de Mário Cravo Neto. Quando foi acidentado e teve que ficar algum tempo preso a uma cama de hospital, o artista trabalhava sem parar. Chegou a filmar um super-8 seu dia-a-dia e os frascos de soro, gesso e outros materiais serviram para uma exposição que realizou. Isto demonstra que da sua própria experiência cotidiana ou acidental ele está preocupado em se expressar.
Projeta assim a sua imagem de criador nas coisas mais chocantes e que perturbariam a cuca de qualquer um. É um fascínio criativo que Mário carrega e isto parece dominar a todos que estão ao seu redor. Basta dizer que um passarinho frequentador de seu quintal usou fios de poliéster para fazer um ninho, Mário não perdeu tempo e passou a utilizar o ninho em sua linha de trabalho.
Foto de Stephanie mostra  sensualidade da mulher
Stephanie Burk, natural de Mineola, Long Island tem boa experiência fotográfica tendo iniciado seus trabalhos em 1972. É formada em Belas Artes com especialização em fotografia. Já participou de sete exposições coletivas e três individuais e em 1977 foi um dos fotógrafos que colaboraram com a Contemorary Photography organizada pelo Fogg Art Museum of Harvard Museum. Ela apresenta 37 fotos em preto e branco, nos tamanhos 7x7 poleg. E 9x5 poleg. Não gosta de trabalhar com fotos coloridas e nesta mostra apresenta três temas a serem desenvolvidos. O que mais impressiona são as paisagens, pela nitidez das imagens conseguidas, dando uma ideia, de um realismo fantástico além das formas de movimento com deformações de imagem. Me parece que o efeito conseguido com o nu não é o ideal. Mas, novamente passando olhos em sua mostra somos surpreendidos com os belos retratos que consegue, especialmente de sua irmã.
Quem faz a apresentação de Stephanie é Mário Cravo Neto onde  diz  que "ela encontra na fotografia seu mundo interior, realiza suas fantasias, estabelece seu diálogo com a vida e as criaturas."

               O SERGIPANO ANÍSIO DANTAS NA BAHIA

A experiência vivida entre as máquinas e os gabinetes sofisticados dos laboratórios das indústrias onde trabalhou e trabalha, determinaram, sem sombras de dúvidas, uma criação calcada na dualidade entre o homem x máquina.
O protagonista na realidade é este mesmo senhor calmo e de fala mansa que pega o pincel e extravasa todo aquele sentimento reprimido pelos cálculos e pela constante análise que é obrigado a fazer dos materiais. Anísio Dantas chegou à Bahia depois de visitar a Europa, especialmente a  Suíça onde fez uma exposição.
Continua preocupado com a situação do homem no seu meio ambiente e assim o vê geometrizado, preso, tentando agarrar-se em coisas que por fim determinam os eu desaparecimento.São situações e quadros da vida diária que ele vai captando e transformando em tela.
Ou seja , vai pegando estes momentos esparsos e eternizando em suas telas. Os muros são presença constante em sua obra e a figura humana quase que está esmagada e é insignificante. Ele mostra a pequenez do homem moderno que pode ser esmagado como uma formiga.
Não tem sua obra qualquer sentimento de romantismo. É realista e a própria paisagem solitária onde está instalado o homem, em sua pintura demonstra exatamente isto. Esta obra ao lado foi resultado de uma viagem que ele fez pelo Nordeste e ficou impressionado com a vegetação seca principalmente a que margeava as estradas.
Embora ele tenha afirmado o contrário, quando estive em seu atelier , dizendo que a paisagem está servindo somente para firmar a presença do homem. Vejo em sua obra a paisagem como determinante e o homem é que figura em segundo plano. Diz Anísio Dantas que “ trabalho em torno da figura humana, procurando uma definição da figura para mim.Fiz algumas exposições e tenho tido sorte e uma certa aceitação do público. Talvez seja um diálogo que venho mantendo ou tentando manter desde o momento que parto para denunciar a solidão do homem moderno. É um simples protesto ou mesmo uma inquietação que sinto dentro de mim mesmo e tenho que extravasar através das telas que pinto”.
Assim vai falando o calmo Anísio Dantas e até mesmo os espaço planos e os tons baixos demonstram uma certa tranqüilidade .Ele utiliza também alguns contornos e tem ciência da mistura e combinação de cores, por ser um químico profissional. A cor se espalha nas suas telas obedecendo a critérios determinados daí a regularidade até mesmo quando há um encontro de cores diferentes


Dantas, Anísio (1933 - 1990)  
Biografia
Anísio Dantas Filho (Aracaju SE 1933 - Salvador BA 1990). Pintor. Em 1953 transfere-se para o Rio de Janeiro RJ, onde cursa desenho de propaganda na Fundação Getúlio Vargas (FGV). Em 1964, forma-se em pintura pelo Instituto de Belas Artes do Rio de Janeiro. Participa de diversos salões de arte, entre eles, em 1988, o 1º Salão de Artes Plásticas de Salvador BA. Realiza, em 1989, exposição individual, na Galeria Prova do Artista, em Salvador. Participa em 1990 da Art Brasil Berlin, em Berlim (Alemanha).


                           PAINEL.

COLETIVA – A Galeria Grossman está expondo trabalhos de Cícero Dias, Rebolo, Milton da Costa, Di Cavalcanti, Carybé, Jenner Augusto, Bonadei, Humberto da Costa, Mário Cravo Junior e Adilson Santos, dentre outros. A mostra ficará aberta até 25 do corrente.

FECHA GALERIA – O fraco movimento do mercado de arte da Bahia determinou o fechamento de mais uma galeria  : A Galeria Rag, na Boca do Rio. As portas foram cerradas no último dia 2 depois de três anos de funcionamento. Assim todo seu acervo foi transferido para a Galeria Beto.
Durante os três anos de vida o marchand Roberto Araújo, propietário da galeria realizou algumas exposições individuais e coletivas e também incentivou muitos artistas jovens.

GERMANO BLUM – Sob o título Integração: Teatro,/Cinema o artista plástico, cenógrafo Geraldo Blum está expondo no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Uma produção em torno da cultura de massa e que está diretamente ligado às expressões teatrais, cinematográficas, de histórias em quadrinhos e Kitsch.
Blum  é pernambucano mas reside há vários anos no Rio de Janeiro.

CENSURA NA RÚSSIA – A censura não tem pátria. Está por toda parte. Em alguns países mais atuantes que em outros. Na Rússia os organizadores de uma exposição de quadros rejeitaram 20 trabalhos de nove pintores alegando que as obras eram religiosas, surrealistas, pornográficas ou patológicas. Diante do impasse a abertura da exposição foi adiada e vários artistas protestaram publicamente. O movimento foi liderado pela Comissão de Artistas Gráficos de Moscou e os não conformistas convidados a participar do Departamento de Pintores Novos.O pintor Vitaly Linitskly , de 45 anos, conhecido por seus quadros expressionistas sobre temas religiosos disse que a Comissão se “tornou mais rígidas e intolerante”.

WILSON DE SOUZA – Gravador, desenhista, escultor e pintor está expondo na Galeria Le Dome desde ontem. Pelo que pude captar parece que sua arte é calcada nas coisas de gente do Nordeste, os cangaceiros, integrantes de blocos e figuras de rua.Uma série de temas ligados ao Nordeste.