domingo, 28 de julho de 2013

A EXPO DO CLUBE DE ENGENHARIA

JORNAL A TARDE , SALVADOR, SÁBADO, 12 DE AGOSTO DE 1978

Márcia Magno, Maria Adair e Juarez Paraíso integram o grupo que está expondo no Clube de Engenharia. Uma mostra que reúne importantes artistas baianos, que apresentam as mais variadas técnicas e formas plásticas.

Tela da artista Maria Adair
Maria Adair é professora de Iniciação Artística, domina várias técnicas plásticas, mas seu forte é o desenho com bico de pena de significante valor artístico e formal. A correção dos traços, as composições sinuosas e trabalhadas nos dão uma ideia de toda força criativa que emana do seu frágil corpo. Calada, ela transborda muitas coisas que teria vontade de dizer. Uma manifestação que é externada quase que visceralmente e seu trabalho está calcado exatamente nas formas humanas, de órgãos e tecidos. Daí a necessidade de termos uma visão global do seu trabalho para entendê-lo em toda sua magnitude. Cada tela tem como que uma linha de ligação com outra e assim por diante. Quando coloca cor em suas telas tem grande força expressiva e plástica. Maria Adair como que penetra no fabuloso mundo interno do corpo humano e dos vegetais em busca de meandros, de sinuosidade, de força e de vida. Às vezes traz consigo uma carga fluída de erotismo, que não é gratuito, e não choca quem examina e compreende os seus trabalhos, todos de boa qualidade.
Márcia com uma de suas obras
Márcia Magno foi recentemente premiada no Salão Baiano Universitário com suas gravuras que foram apresentadas usando as flechas das pipas como suporte. Uma coragem de inovar, de dar grandiosidade a gravura mostrando que ela é capaz de vencer e ganhar os espaços. Para ela a gravura é uma das mais fascinantes técnicas das artes. Seu envolvimento artesanal o fascina e sente a necessidade de dominar totalmente os materiais e instrumentos que manipula. Explora a própria madeira e suas reentrâncias conseguindo belos efeitos texturais. Na forma e na cor ela dá expressão às estruturas geométricas que povoam seus trabalhos. Uma verdadeira busca de articulações que permite soluções plásticas equilibradas. Utiliza também a transparência que possibilita não apenas uma intensificação plástica mas também formal.
São novas relações de figuras e o espaço torna-se mais complexo, a cor fica definida com unidade e a abstração geométrica encontra a complementariedade.
Márcia estudou na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro e é monitora de Modelagem e Desenho Artístico da Escola de Belas Artes, da UFba.

Uma foto do professor Juarez Paraiso
Juarez Paraíso é o responsável pelo aprimoramento técnico de muitos jovens artistas, que inclusive carregam toda uma influência marcante de sua obra, professor da Escola de Belas Artes e um dos expoentes das artes plásticas na Bahia, pois tem o domínio de várias técnicas desde o desenho à fotografia.
Falando de seu trabalho Jorge Amado diz que "Juarez é solidário com a vida, com a luta do homem, com o tempo e o chão presentes, com as vocações violentadas, com os jovens, armado em guerra contra a injustiça, a miséria, as limitações, contra tudo quanto lhe parece feio e mau."
Acrescentaria que Juarez é um Quixote latino-americano de barbas longas e pele mestiça. Um homem capaz de ficar enfurecido com uma injustiça e também de se apaixonar por uma tela. Homem de emoções que são transportadas para suas telas, para seus desenhos e suas fotografias. Carrega uma força que às vezes parece agressiva quando foca com seu pincel ou tele objetiva um órgão genital ou mesmo uma cena cruel. Não posso pensar na arte de Juarez sem falar neste envolvimento, neste vivencial que lhe permite perceber as coisas e não concordar.Portanto, sua arte tem a ver com a realidade, com o espaço vital, com as violações, embora às vezes as denúncias surjam com certa sutileza, quando não são fortes. Gravador, desenhista, escultor, pintor e excelente fotógrafo.Diferencia-se o Quixote porque não é um solitário.Tem atrás de si uma gama de alunos e admiradores que ele faz questão de reconhecê-los.Não aquela ajuda paternalista, mas que as pessoas sejam levadas a compreender e a valorizar este ou aquele trabalho de um artista de valor.

  OITENTA E CINCO ANOS DE RAYMUNDO AGUIAR 

Os 85 anos de idade do pintor Raymundo Aguiar e os seus 51 anos da vida artística são comemorados através de uma exposição do artista inaugurada desde o dia 8, no Gabinete Português de Leitura. Nascido em Lisboa, Portugal, Raymundo Aguiar já pintava desde menino, apesar de ter enfrentado as adversidades dos pais que achavam a pintura uma profissão de vagabundos. Queriam o filho arquiteto ou engenheiro, já que percebiam nele a inclinação para o desenho. Os problemas com a família originou a sua vinda para a Bahia, em 1913, a bordo do Araguaia e hoje é um artista consagrado, tendo realizado muitas exposições individuais e coletivas e recebido inúmeros prêmios.
Raymundo Aguiar e um de seus interiores
Acontecimentos simples e pitorescos marcam a via de Raymundo Aguiar e ele lembra a todos, pois tem a rara felicidade de possuir uma boa memória.Assim como lembra entusiasmado, dos nomes dos seus professores e disciplina que ensinaram também de fatos como a apreensão de uma edição do jornal A Hora, causada por uma charge sua, criticando o então governador baiano Antônio Muniz. A sua charge mostrava o governador cobrindo as nádegas de uma estátua pois Cara de Nádegas de Anjos era o apelido de Antônio Muniz.
O INÍCIO
Raymundo Aguiar mora hoje no bairro do Tororó, com esposa, filhos e netos.Apesar dos 85 anos de idade, é homem lúcido, gesticula muito, os olhos brilhantes e o falar calmo, com o sotaque carregado de Portugal. Considera-se pintor desde menino, mesmo antes de frequentar a escola primária no Luso Africano, em Lisboa. Fez o curso secundário na Escola Preparatória Rodrigo Sampaio, passando mais tarde para o Instituto Industrial, onde deu início concreto à carreira. Mas os estudos a quem era submetidos não lhe agradavam e com isso, revoltava-se cada vez mais.
Faltava às aulas e chegava em casa  altas horas da  noite, tudo para contrariar a família, já que ela não permitia, de maneira alguma, que o filho fosse pintor, por ser uma profissão difícil. Os pais, indignados, viam nele uma pessoa de más companhias até que chegou um dia e lhes disseram: “Raymundo, ou você vai para a África ou para o Brasil, aqui você não fica!
A oportunidade de sair de Lisboa surgiu, graças a uma irmã, Alda Chaves de Aguiar Vasconcelos, casada com um pirata. Com eles, Raymundo fez uma viagem a qual conheceu o filho de Guilherme Carvalho Júnior, o Lelé, um dos principais donos de empórios de miudezas na Bahia. Este lhe prometeu tudo na Bahia e Raymundo, então com 19 anos, resolveu vir para cá.
O ano era 1913 e o navio que trazia era o Araguaia. Chegando, foi recebido pelo gerente da firma comercial, o gerente Pinheiro, à bordo e logo lhe ofereceu a um patrício, Gérson Oliveira.
Com Gérson, Raymundo foi morar em uma pensão de portugueses, próximo ao Colégio Nossa Senhora Auxiliadora. A sua surpresa maior foi encontrar o quarto já alugado e mobiliado para ele. Isso foi um dia de sábado e na segunda-feira já estava trabalhando com Guilherme Carvalho, onde se tornou embalador de miudezas. Em 1914, um dos sócios, Augusto Carvalho, desligou-se da firma e fundou a Casa Augusto Carvalho e Cia. que convidou Raymundo. O Pinheiro disse que ele não iria sair de sua empresa e caso Raymundo fosse, iria escrever uma carta para seu cunhado fazendo queixa.
Mas como fazia o que tinha vontade, Raymundo foi trabalhar com Augusto, mas na hora do acerto das contas com Pinheiro aconteceu um problema: Não tinha saldo nenhum, pois ainda não tinha pago a mobília do quarto.
OS DESENHOS
Nesse período, o seu projeto era desenhar, pintar aquarelas, copiando as gravuras de As Pupilas do Senhor Reitor, do escritor português Júlio Diniz. Paralelamente aos desenhos, começou fazer caricaturas de vultos da Bahia, até que, procurado por um colega de pensão, foi sugerido a fazer caricatura de um outro colega e o retrato, feito a nanquim, saiu perfeito. Ficou sendo conhecido e foi procurado depois por algumas normalistas que lhe pediram para ser aluno de Oséas dos Santos, professor da Escola de Belas Artes e na Escola Normal da Bahia.
As suas aquarelas e caricaturas foram elogiadas e encaminhadas ao ex-secretário de A Tarde, Henrique Câncio, que as publicou.Logo depois, Arthur Ferreira fundou o jornal A Hora, e convidou Raymundo Aguiar para fazer as charges do diário que combatia do então governador Antônio Muniz e o Intendente Propício de Fontana. Uma das primeiras caricaturas foi mostrando o governador, cobrindo as nádegas de uma estátua e o Zé Povinho perguntando: O que é isso governador, cobrindo estátuas?, e Antônio Muniz respondendo: Não quero confusão. A charge causou a empastelamento do jornal, apreendido do dia 24 de maio de 1918. A Tarde publicaria mais tarde com o título de Transformações, e hoje encontra-se no museu da Associação Bahiana de Imprensa.
Trabalho não faltou para Aguiar, principalmente em jornais: O Tempo, A Renascença, O Imparcial, a revista A Fita, todos mostravam trabalhos do artista. Em 1923, Raymundo fez uma exposição no Edifício da Linha Circular, denominada Flagrantes Baianos. Aliás, uma das características mais notáveis de todo o trabalho desenvolvido por Aguiar, é justamente a maneira ironizante de retratar pessoas, tanto famosas como anônimas. Vieira de Campos, vendo a exposição, lhe dedicou uma crônica no Diário de Notícias, em 26 de novembro de 1927. A crônica me deixou maluco exclama Raymundo. Casado, com 4 filhos, a sua preocupação girava em torno da sobrevivência: Se deixasse o comércio para estudar pintura, como iria sustentá-los? Mas como tinha uma renda razoável, decidiu largar o comércio e ir estudar.
OUTRA VEZ
Decidido deixar o comércio para estudar. Mas ele não deu importância aos comentários e fez uma espécie de vestibular e nesta quando fala dessa época, ele lembra do nome de todos os professores e das disciplinas que ensinavam. O número delad é interminável. Mas em 1933, terminava o curso e no ano seguinte prestava concurso para o antigo Prêmio de Viagem Legado. Submetido ao concurso, ganhou o primeiro lugar e em 1935, foi convidado para a Escola de Belas Artes, como assistente do professor José Nivaldo Acioli. Ensinou Geometria Descritiva, Perspectiva, Sombras e outras, até 1963, quando se aposentou, ao completar 70 anos de vida. Convidado pelo professor Afrânio Carvalho, fez uma série de gráficos aquarelados, para uma exposição em Goiânia, promovida pela filha deste, professora da Faculdade de Arquitetura.Com isso, ficou trabalhando no Departamento de Estatística, mas deixou.
Daí em diante a sua vida tem sido pintar todos os dias. Anualmente faz uma exposição, além de ter trabalhos publicados pela UFBA, como A Perspectiva nos Tetos do Período Colonial da Bahia, por exemplo. Mas o seu maior prazer é a pintura de paisagens e interiores. Nos interiores, predomina a arte acadêmica e nas figuras, o humorismo. Atualmente, Raymundo Aguiar pinta os interiores do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora e prepara uma exposição para novembro, na Galeria Lê Dome. (Antenor Barreto).