domingo, 14 de julho de 2013

CONVERSA COM BURLE MAX

JORNAL A TARDE, SALVADOR,  SÁBADO, 21 DE DEZEMBRO DE 1974

Foto onde vemos Burle Marx bem descontraído

Encontrei o mestre Burle Marx na residência de Sônia Gantóis, para uma conversa sobre o seu trabalho. Preferi que o artista falasse livremente e o resultado aqui está : "A gente não pode separar as duas pessoas Burle Marx o paisagista e Burle Marx o pintor ou tapeceiro. O que difere é a maneira de a gente se expressar. Na minha vida de artista comecei como pintor e passei para o jardim. Algumas pessoas acham que no jardim podia fazer algumas concessões para o meu público ou clientes.Mas sou de opinião de que toda concessão é uma prostituição e como tal não aceito. Faço o projeto da maneira que sei."
Em sua humildade disse Marx, "quando comecei a pintar pensava que iria ser  um grande artista. Seis meses depois tinha uma consciência maior e mudei totalmente o meu pensamento.Hoje o que importa é me expressar dentro de minha compreensão, o que não implica fazer arte da última moda e sim fazer arte dentro do caminho que tracei. Acho também importante que cada um se encontre. Tem certos artistas que eu não gostaria de fazer o que eles fazem, porque não se descobriram."
Disse ainda Bule Marx que  "quando trabalhamos nós repetimos muito a nossa forma de ser. Não é através de palavras que a gente explica arte. Uns a utilizam como meio de combate, outros de contar história. Eu não condeno essas pessoas que assim procedem, apenas acho que cada um deve fazer o que sente. Se pudesse explicar a minha arte por meio de palavras eu seria um poeta ou um escritor." E pergunta: "Como explicar a cor azul junto do vermelho. Não temos uma simbologia para determinar ou definir a cor principalmente ao lado da outra cor. Para mim estes são os problemas inerentes ao imponderável. Se pudesse explicar a gente seria um matemático ou coisa parecida. Daí acreditar que o artista que faz gravura em madeira não deve fazer água forte."
O artista Burle Marx discorda das críticas a seu respeito que  afirmam que ao pintar ele faz jardins. Porque assegurou  que "cada manifestação artística pede soluções próprias. Quando um arquiteto faz uma casa ele não devia fazer uma escultura, e sim uma casa."
A arte para Burle Marx é uma transposição. A figura humana é apenas um pretexto. A natureza é um ponto de partida para a realização de meus trabalhos. Quanto à crítica no Brasil, ele acha que " é feita de maneira limitada mesmos nos grandes centros. A crítica deve ser feita para explicar. Deve ensinar a ver e ler esta linguagem que é a arte.É verdade que nem todo dia a gente tem um crítico que entenda ou veja a arte como um fenômeno."

Disse ainda que " não podemos apenas falar da pintura como única manifestação artística porque as cerâmicas e outros trabalhos que são feitos por camadas populares baixas são também importantes. É certo que a pintura é voltada para uma classe mais alta devido ao problema do poder aquisitivo, no entanto, considero e vejo aí a grande importância do cinema que vai direto ao povo e tem um grande alcance." E finalizando disse Burle Marx " o que realmente importa é que a arte ou o trabalho artístico reflita o ambiente que está ao seu redor."
Com o processo de urbanização da antiga Chácara Tangará se deu origem o Parque Burle Marx. A área de aproximadamente 438 mil m²,que fica junto à Marginal do rio Pinheiros, era propriedade, na década de 1940, do empresário Baby Pignatari. Ele resolveu, então, construir uma casa para viver junto com a sua futura esposa, a princesa austríaca Ira Von Fustemberg e contratou, para isso, o arquiteto Roberto Burle Marx para projetar os jardins de sua residência, que havia sido idealizada por Oscar Niemeyer. Mas como o casal se separou, a casa permaneceu inacabada durante anos.(Foto)