quarta-feira, 17 de julho de 2013

UFBA ABANDONOU SETORES DE BELAS ARTES, TEATRO E MÚSICA

JORNAL A TARDE,SALVADOR,  SÁBADO, 11 DE FEVEREIRO DE 1978

Inconformado com o imobilismo dos responsáveis pela conservação e melhoria das unidades da Universidade Federal da Bahia volto a carga para denunciar que o abandono não tomou conta apenas da Escola de Belas Artes. Sua irmã e vizinha a Escola de Teatro e o próprio Teatro Santo Antônio estão também abandonados com suas dependências sujas e mal cuidadas.
Talvez seja a identificação dessas unidades, que pertencem ao setor de artes. Soube também, que a Escola de Música está vivendo momentos de dificuldade. Espero que as autoridades universitárias baianas tomem a decisão de salvar o patrimônio que não lhes pertence e, sim ,a comunidade porque é um bem público. Os funcionários do Governo, quer sejam de escalões superiores ou secundários, são pagos para isto. A omissão é um triste preço que essas pessoas vão pagar, tão logo sejam afastadas do cargo. Muitos reitores que passaram pela UFBA são até hoje lembrados pelo imobilismo, que saiu do âmbito dos campus universitários e ganhou terreno por aí.
O prédio da Escola de Belas Artes, a exemplo de quase todas as unidades de ensino da UFBa., se encontra num estado lastimável, com as paredes externas enegrecidas, com o reboco caindo e o mato proliferando em toda sua parte externa.O diretor da Escola, professor Ivo Vellame, afirma que desde o ano passado envia ofícios à Prefeitura do Campus Universitário, pedindo providências urgentes e nenhuma resposta recebeu. Nivaldo Temi, prefeito do campus, se defende dizendo que "não há verbas para a execução das reformas", e assim não se sabe quando as mesmas serão efetuadas.
Mostrando cópia de um ofício enviado à Prefeitura, datado de 16 de janeiro de 1978 e de outro enviado à Reitoria, com quem pretende voltar a falar do assunto, o professor Ivo Vellame diz que "não é por omissão da diretoria que a situação chegou ao ponto atual," e considera "um absurdo que a Escola que deveria ser o cartão de visitas da UFBa, devido à sua importância artística e cultural e ao acervo existente em suas dependências, esteja num estado tão desesperador de abandono." Com o mato crescendo livremente ao redor das salas de aula, os alunos tem receio até de que apareçam cobras circulando pela área, o que só viria acrescentar mais um transtorno à vida escolar daquela unidade de ensino.

NOVO PRÉDIO É APENAS UM SONHO

O atual prédio de Belas Artes, está com a pintura externa soltando deixando aparecer o reboco, e quando chove, afirma o diretor, "aparecem enormes goteiras no teto principalmente no Salão Nobre. Dois barracões, usados para as aulas, destruídos num incêndio no ano passado, até hoje não foram restaurados, as paredes laterais do prédio principal, apresentam em alguns pontos, rachaduras que denotam a precariedade atual das estruturas do edifício.
O barracão queimado no ano passado continua neste estado
O professor Ivo Vellame, disse que tem usado de todos os meios para que as reformas sejam executadas e que no ano passado enviou vários ofícios à Prefeitura mostrando a situação da Escola e pedindo uma solução para a mesma.
Disse que nunca recebeu resposta e por isso uma audiência que terá com o Reitor da UFBa., ainda hoje, pretende falar a execução dos serviços de restauração. Como para 1980 está prevista a construção de um novo prédio para a Escola de Belas Artes, em Ondina, no Campus Universitário, considera que a Prefeitura talvez não esteja querendo investir nas atuais instalações. O diretor porém, acha que se realmente for este o motivo, é mais um absurdo a acrescentar, pois nas condições em que se encontra o prédio, as atividades didáticas são prejudicadas e os professores e alunos se verão obrigados a interromper suas práticas, se não houver providências urgentes.

                                                                 NÃO HÁ VERBAS ESPECÍFICAS

Segundo o prefeito do Campus, Nivaldo Temi, "não há nenhum programa de restauração para os prédios da UFBa., como chegou a se anunciar há algum tempo atrás, previsto no orçamento do Órgão para 78. Quanto à situação específica de Belas Artes, ele considera que realmente a Escola precisa das reformas, porém, para a sua execução há a necessidade de que o Reitor peça ao MEC verbas específicas para a restauração, porque não há nada previsto para os próximos meses, que inclua algum serviço na Escola.
Explicou Nivaldo que os barracões só poderão ser restaurados, depois que houver a decisão jurídica, resolvendo se a companhia de seguros vai ou não pagar a restauração. Conforme disse, há uma possibilidade de que se possa fazer alguma coisa pela Escola de Belas Artes, se o orçamento de 78, puder suportar o dispêndio de verbas necessárias aos serviços.

A ESCOLA DE TEATRO

Apesar do esforço desenvolvido pelo corpo docente da Escola de Teatro da Universidade da Bahia, no sentido de superar as dificuldades que encontra para o desempenho profissional, a fim de oferecer as mínimas condições de aprendizagem para os estudantes, a Reitoria da UFBa, deixou também aquela Escola em completo abandono.
As dificuldades que começa com a falta de equipamentos se estende até as precárias condições físicas do prédio onde está instalada a Escola.
Sujeira de toda espécie, móveis quebrados, falta de material didático e por fim, o mato tomou conta de todo o prédio.
Este é o quadro atual da Escola de Teatro da Ufba., além das queixas dos alunos com relação à qualidade dos cursos, que não atendem as necessidades profissionais para competição, depois que o aluno consegue o diploma.

                                             ESFORÇO DOS PROFESSORES 
Está assim a Escola de Teatro. Tudo
quebrado e sujo

Os professores do Departamento de Artes Cênicas da UFBa, estão fazendo uma oficina-corpo, onde desenvolvem técnicas de dança tipicamente brasileira, voltando para o tipo de constituição física e características que diferenciam o latino-americano do europeu. A linha de pesquisa se baseia no mesmo tipo de trabalho que vem sendo desenvolvido pelos professores Klaus Viana e Angel Viana, no Rio. A oficina começou a funcionar a partir da segunda quinzena de janeiro e durará o tempo que for necessário.
Participam do trabalhos os professores do Departamento, sob a orientação da professora Marli Sarmento, que informou: !"A oficina surgiu depois do II Seminário de Professores do Departamento de Artes Cênicas, no início de 77, quando se tentou dinamizá-lo. Também no mês de janeiro, no dia 30, foi iniciado um curso de extensão de Técnica de Ballet Clássico, com duração até o dia 27 de fevereiro, com aulas três vezes na semana, às segundas, quartas, e quintas-feiras, das 14 às 16 horas, no prédio de dança, na rua Padre Feijó, 57."

INSCRIÇÕES
Do curso de extensão podem participar estudantes de dança e profissionais, pagando uma taxa de inscrição de 300 cruzeiros, no próprio prédio do Seminário de Música, no Vale do Canela. O trabalho será dirigido pela professora Nelma Seixas, que pretende romper um pouco a rigidez da técnica de ballet, através de um trabalho preparatório de desenvolvimento consciente do corpo."O que se pretende com o trabalho é uma conscientização do corpo, empregando técnicas do ballet clássico", explicou a professora.

MUITAS QUEIXAS
Alguns dos motivos alegados pelos estudantes na série de queixas formuladas contra os cursos de Teatro são os de que as condições da Escola não atendem às necessidades, e que muitos que lá ingressam sem levar nada a sério, determinando o mau funcionamento dos referidos cursos. Gilberto Jacinto, por exemplo, que já é dançarino profissional, trabalhando em numerosas peças, como Os Saltimbancos, A Marca do Zorro e Juiz de Paz na Roça, explica que "se inscreveu no curso porque teatro não é coisa de se aprender uma vez e parar."
Disse ele que " frequenta a Escola de Teatro porque pretende desenvolver mais sua cultura", mas se queixa de que tudo lá prima pelo abandono. Esclareceu que a falta de verba na Escola de Teatro impede que bons espetáculos sejam montados aqui. Disse Gilberto Jacinto que a vida de ator, na Bahia, em termos financeiros, é uma negação, e que a televisão tem grande culpa porque aproveita a beleza e não o talento dos atores.

MÚSICA
As inscrições para o curso de formação de ator estarão abertas até o dia 17 do corrente, na Escola de Música e Artes Cênicas da UFBa., devendo o teste de aptidão ser realizado nos dias 22 e 23, das 8 às 18 horas no Teatro Santo Antônio. As vagas que o curso oferece são apenas 20, já havendo, a essa altura, um bom número de candidatos inscritos, apesar das queixas formuladas pelos que estão freqüentando a escola e, mesmo, pelos que já concluíram o curso.
Na pré-seleção, o teste constará de uma encenação, com duração mínima de cinco minutos, podendo o candidato contar com a participação de outros candidatos ou de coadjuvantes. Deverá o candidato escolher o personagem que vai representar, entre os seguintes textos: Antígona, Sofocles; Pedro Mico, de Antônio Callado; Auto da Compadecida, de Adriano Suassuna; Macbeth, de Shakspeare; e O Noviço, de Martins Pena.