quarta-feira, 10 de julho de 2013

A IDENTIDADE DE ÂNGELO DE AQUINO O PENSAMENTO ABSTRATO

JORNAL A TARDE, SALVADOR ,SÁBADO, 16 DE OUTUBRO DE 1976

Ângelo de Aquino trabalhando em seu atelier

"Reivindico a minha fatia no bolo. Quero vender o que faço e não apenas ser visto". Estas palavras de Ângelo de Aquino demonstram a preocupação de um artista em busca de uma comunicação com seu público. Uma saída que é paradoxal em relação aos artistas intimistas que amam sua arte mais não gostam de divulgá-la. Ao contrário, Aquino deseja que sua arte seja consumida e aceita. É dentro deste pensamento que se desenvolve sua trajetória pictórica porque o artista argumenta que a pintura tem vários significados que necessitam ser entendidos.
"Acho que encerrei um ciclo que estava ficando redundante. Não estou rompendo nada. Estou propondo a mim mesmo alternativas. Abrindo caminhos.Esta minha pintura atual mantém a mesma atmosfera conceitual dos trabalhos anteriores, realizados em outros suportes. Eu diria mesmo que é uma espécie de ironia sobre a pintura abstrata.. É que em certos contextos  é considerada como algo superado, que nada mais tem  a dizer.É um erro. Hoje pinto como um gesto intimista. Pinto pelo prazer da pintura e da cor. Por uma necessidade existencial. Nesse momento, pintar é tão vital quanto o ato sexual. Começou como uma coceira, agora é um gesto arrebatado visceral," declarou recentemente no sul do país Ângelo de Aquino, quando da inauguração de sua 13ª individual, desta vez na Galeria Luís Buarque de Holanda & Paulo Bittencourt.
As composições de Aquino portanto são livres em todo o sentido que encerra esta palavra. Não apenas no sentido e no significado que normalmente encontramos no dicionário, mas livre com toda a conotação afetiva e social que encerra esta palavra. Ele está preocupado e não cair na repetição em sair do túnel escuro. "Antes poucos participavam efetivamente do conteúdo. Éramos solitários, herméticos. Este hermetismo estava nos transformando em solidários e marginais. Vivíamos fechados numa espécie de clube de corações solitários."
Ângelo de Aquino é mineiro de Belo Horizonte, onde nasceu em 1945. Mora no Rio há alguns anos e é autodidata. Seu trabalho foi iniciado por volta de 1965 quando começou a aparecer em exposições coletivas de vanguarda : Opinião, no Rio de Janeiro, Propostas, em São Paulo e Vanguarda Brasileira, em Belo Horizonte. Daí realizou várias exposições individuais. Em 1971 transfere-se para Milão, na Itália o que contribuiu para uma mudança em seu processo criador. Passou a dar maior ênfase à chamada poesia visiva, à arte pelo correio, à arte conceitual. É de 1972 a publicação de três livretos denominados Ilusion. No primeiro, o substituto divagando/anotando gesticulando, coloca o leitor de imediato no clima de suas especulações estético-existenciais. No segundo, repete o auto-retrato, agora com mulher e cachorros.
Foi este tipo de criação envolvendo palavras, frases gráficas e até mapas que enviava pelo correio para seus amigos e colegas que em 1973 criou Ângelo de Aquino Airlines.
Como podemos observar a multiplicação de suportes e mídias aparentemente não o ajudou a encontrar sua identidade. Hoje ele assumiu a identidade de pintor e busca sua estabilidade interior através o processo de criação contínua. "O tema de minha arte sou eu mesmo, meu cerne. Por isso meu trabalho - livros, desenhos e pinturas - sempre teve limites de fronteiras. A forma do mapa sempre esteve presente. No desenho ou na pintura há sempre linhas retas delimitando áreas.Dentro dela estou eu, tentando pular fora. É essa luta em ter o limite e a liberdade entre o limite e a liberdade que impede a loucura."
Nesta sua última mostra além da pintura, Ângelo apresenta desenhos e estes estão mais próximos de sua produção anterior. No desenho, a palavra é lançada como gesto. As composições e os traços são palavras de um dicionário do ser de Ângelo de Aquino.

                         CALASANS NETO  EM WASHINGTON

Gravura inspirada nos músicos
de Nova Orleans
Foi um sucesso a inauguração da exposição do gravador baiano Calasans Neto no Instituto Cultural Brasileiro-Americano, em Washington. Segundo palavras de Stuart Gorin, e, do amigo Calá, que enviou-me um cartão postal informando que ficaram surpresos com tanta gente na vernissagem.
Ele está apresentando uma coleção de trabalhos intitulada Itapuã Sky, que tem apresentação em inglês de Guido Guerra, e também cinco gravuras a ponta-seca On Jazz, que retratam famosas personalidades e lugares tradicionais do jazz norte-americano.
Calasans começou suas gravuras sobre Itapuã em 1974, com um álbum de 7 gravuras referentes a temas marinhos- Itapuã Mar. Este ano concluiu um álbum de 10 gravuras sobre o céu e agora trabalha na fase final do álbum que espera terminar no próximo ano, constando de 10 gravuras sobre a terra - Itapuã Terra.
Esta é a segunda visita aos Estados Unidos, onde esteve em 1974 como convidado do Departamento de Estado dos EUA. Foi nesta viagem que visitou Nova Orleans e ficou profundamente impressionado pelo local onde nasceu o jazz e dai veio um álbum. Segundo declarou em Washington pretende criar outro álbum baseado em nessa  viagem aos Estados Unidos, mas diz que o projeto ainda se encontra em fase de concepção.
A sua atual mostra faz parte do programa que o Instituto Brasileiro-Americano desenvolve continuamente em Washington. O Instituto funciona há 14 anos e dedica-se a promover a arte e a cultura brasileiras nos Estados Unidos.
Tem o apoio do Ministério das Relações Exteriores do Brasil e de sócios particulares norte-americanos cujo número se eleva a 400. Realiza exposições mensais, patrocina concertos de música brasileira popular e clássica e mantém uma biblioteca e uma coleção de fitas gravadas de estudos brasileiros.
Mas, voltando ao Calá ele fez mais de 1 mil  gravuras em seus 16 anos de profissionalismo e seu próximo projeto é a Ilustração do livro Tieta do Agreste, de Jorge Amado.

                          PAINEL

FERNANDO P- O artista Fernando P está apresentando uma individual na Galeria Signo. São 25 telas recentes com predomínio de cenas típicas maranhenses, paisagens urbanas cariocas e chorões das serenatas do Rio de Janeiro.
Fernando P nasceu em São Luís do Maranhão, e, chegou ao Rio na década de 30. A partir de 1943 participa de salões e em 1953 conquistou o Prêmio Viagem ao Exterior no Salão Nacional de Arte Moderna. Na Europa estudou em Paris com André Lhote e fez um curso livre de gravura na Academia Julien e estudou mosaico na Academia Gino Saverini. A Galeria Signo fica na rua Visconde de Pirajá em Ipanema. Foto de uma obra do artista.

 FAÇAMOS JUSTIÇA- As Artes Visuais no Brasil contam agora com a Fundação Nacional de Arte, órgão vinculado ao Departamento de Assuntos Culturais do MEC que embora recentemente criado para abranger as várias manifestações artísticas brasileiras, já a esta altura demonstra o que pretende realizar.
Além de promover uma série de exposições, concursos, etc., sua diretoria volta-se agora para reestudar os critérios de premiação e também da manutenção do artista premiado no estrangeiro        condições de sobreviver com a ajuda governamental que é pequena e irreal.
Por outro lado,outro problema que atinge em cheio o setor é a importação do material para o trabalho. Vários desses materiais já receberam isenção do Ministério da Fazenda e uma lista já foi elaborada e se encontra em mãos das autoridades alfandegárias para tentá-los no momento oportuno.
Se não bastasse tais medidas anunciadas e algumas já executadas, os dirigentes da Funarte estão agora levando à frente a restauração do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro visando transformá-lo num grande museu brasileiro do gênero. Primeiro, está sendo executada a reforma do prédio que se encontrava em estado precário e a seguir será divulgado o seu acervo e feita uma análise crítica de suas obras. Inúmeras obras de arte, notadamente as esculturas estão sendo recuperadas. Serão abertas algumas galerias de arte que possibilitarão ao artista jovem expor seus trabalhos.
A primeira será a Galeria Macunaíma.A intenção dos dirigentes da Funarte é abrir galerias em vários estados brasileiros em convênios com as universidades locais. Também serão editadas monografias sobre artes plásticas, bastando  seja de boa qualidade.
Diante do exposto concluímos que o setor poderá sofrer dentro em breve um grande desenvolvimento em benefício da cultura nacional. Estas medidas que estão sendo postas em prática pela Funarte devem servir de exemplo para os dirigentes locais de entidades culturais. É preciso dar um maior apoio aos jovens artistas. Tenho conhecimento, por exemplo, que a falta de apoio é a regra geral. Se um artista jovem vai expor conta apenas com um catálogo de qualidade duvidosa e o local para colocar seus quadros. As molduras e outras despesas, quase sempre grandes, ficam sob sua responsabilidade. Por que tem um trabalho de boa qualidade não consegue expor por falta de dinheiro. Os critérios também deixam muito a desejar. O pistolão infelizmente ainda funciona. Vamos observar o trabalho da Funarte pois só temos a nos beneficiar.

TERCEIRA INDIVIDUAL- Acabo de receber um convite da terceira individual da artista Ana Carolina. Ela está expondo suas gravuras no Museu Guido Viaro, em Curitiba. Assim os curitibanos terão oportunidade de ver e comprar as boas gravuras desta jovem artista.

CATÁLOGO DA FUNDAÇÃO- Continua sendo distribuído o horrível cátálogo das realizações mensais da Fundação Cultural do Estado.

ARNALDO BRITO- A Mini Galeria da Associação Cultural  Brasil-Estados Unidos está apresentando a exposição do artista Arnaldo Brito, baiano, que já realizou mostras em várias capitais do país, tendo conquistado entre outros, 1º. Prêmio de Pintura do Salão Pernambucano de Arte. São 21 quadros produzidos durante três anos. Uma pintura meditada e sofrida como afirma o mestre Réscala.