sexta-feira, 26 de julho de 2013

OS NOVOS DA ESCOLA DE BELAS ARTES

JORNAL A TARDE , SALVADOR, SÁBADO, 08 DE JULHO DE 1978


Seis mulheres e dois homens. Alunos da Escola de Belas Artes. Demonstrando o necessário entrosamento entre colegas resolveram fazer esta coletiva na Galeria Cañizares onde mostraram trabalhos de certa qualidade. São jovens e novatos que mostram o que estão fazendo na Escola. Aquela necessidade de sair do didático e mostrar um pouco do que são capazes de criar. Uma iniciativa válida que merece aplausos de todos nós que estamos no metier das artes visuais.
Nesta hora só poderiam contar com o apoio deste colunista, porque compreendo a importância de um trabalho extraclasse e acho que todos os estudantes universitários precisam sair das quatro paredes das respectivas unidades. Assim temos Terezinha Lima, Ione Passos, Waldelice Pinkus, Socorro Del Rey, Elsie Coutinho, Clara Souza, Bel Borba e Ernani Gusmão. Um grupo de artistas, onde alguns mostram pela primeira vez aquilo que criam.


TEREZINHA LIMA- com suas gravuras onde aparecem as formas geométricas superpostas em cores que demonstram a sua capacidade de criação e união. Um trabalho que ainda vai ser burilado no decorrer dos anos, mas que revela uma artista preocupada em encontrar toda a força criativa através de uma expressão geometrizante. Vejo que ela deixa que a própria madeira, com sua simetria marque o branco papel.
Demonstram ainda suas gravuras uma vida vegetariana, pelo colorido e composição.


BEL BORBA - já fez até exposição individual. Vem desenvolvendo há alguns anos em Salvador a técnica do spray. Agora está mais apurado, domina melhor a pistola e consegue estabelecer no suporte traço finos lembrando um pincel. Um controle que vem sendo desenvolvido no decorrer de uns três anos para cá. Suas figuras mostram uma mistura do masculino com o feminino um processo de transição onde Bel apresenta uma ambientação própria da mutação. Ele está em sua melhor fase criativa, inspirado neste mundo em transição, onde o que é certo passa a ser errado de uma hora para outra, onde o metrô já vai ficando superado e o helicóptero vai substituindo o automóvel.



IONE PASSOS - apresenta gravuras resultado de um trabalho didático iniciado com colagens de fotografias, misturou gesso e agora destaca detalhes da arquitetura.
Quase ao centro do papel surgem as figuras, dezenas, em silhuetas. O papel parece incapaz de suportar a força das pessoas que exigem passagem. Uma gravura forte e expressiva onde existe uma conotação social muito grande quando visualizamos uma metrópole.


ERNANI GUSMÃO - tem a preocupação com o ser humano. Suas gravuras estão inspiradas no feto. A iniciação de tudo que existe por aí. A razão de ser da paz e da confusão: o homem. Em outras gravuras Ernani revela a sua procura. Linhas sinuosas que preenchem todos os espaços do papel em cores fortes. É verdade que tem criatividade e força o Ernani, mas certamente terá que continuar trabalhando a fim de conseguir maior expressividade ou seja aquela coisa que toca a gente ao examinar um trabalho de arte.


WALDELICE PINKUS - para esta artista devo dizer que é um bom começo. Um trabalho a óleo forte onde surge o problema da moradia como temática. São figuras que assustadas e gigantes procuram agarrar-se às suas casas. Lembramos das invasões destruídas pelas policiais nas metrópoles. Evidente que a moradia é a primeira necessidade do homem, que precisa de um abrigo para procurar seu alimento.


SOCORRO DEL REY - é aquela jovem apaixonada pela paisagem. Uma profusão de verde. A figura humana não aparece. O verde domina tudo.







ELSIE COUTINHO - parece espreitar o mundo. Uma revelação do seu inconsciente onde surgem num de seus quadros figuras de todos os lados, assustadas e apreensivas. Parecem preocupadas com alguma coisa ruim que já vai acontecer. Noutro ela quase abstraiu uma figura humana. Mostra sua sensibilidade e inquietação diante da vida. Uma técnica ainda não muito apurada, mas que certamente tem futuro.



CLARA SOUZA - com suas cidades espaciais, onde surgem as formas que nos dão ideia de prédios. Ora nos lembram grandes manchas que vão crescendo em sentido horizontal, ora em sentido vertical. Um trabalho que Será ainda desenvolvido e reestudado. Atualmente Clara é uma das boas restauradoras de obras de arte da nossa Bahia.


Finalizando quero parabenizar a todos vocês que integram esta coletiva pela coragem e disposição, mas principalmente pelo que nos apresentam. São trabalhos de estudantes que iniciam os ásperos caminhos do profissionalismo.
A critica não pode ser elogiada porque assim estaria mentindo e lhes prejudicando. Digo apenas que devem trabalhar com afinco, com dedicação para que possamos na frente beber a taça do sucesso.