domingo, 7 de julho de 2013

CRISPIM E ZELITA PINTARAM A EXPLOSÃO DE CORES DO CARNAVAL

JORNAL A TARDE, SALVADOR, SEGUNDA-FEIRA , 06 DE MARÇO DE 1989

Zelita,Crispim e Belchote, o organizador da mostra
É sempre bom a gente encontrar pessoas que despertam para a arte, mesmo que tenha passado boa parte de sua existência envolvidas em outros afazeres completamente distantes. É o caso de Zelita que passou anos trabalhando como funcionária pública, cuidando dos afazeres domésticos e agora está totalmente voltada para sua arte.
Seu trabalho destaca-se em relação a outros primitivos porque suas figuras além daquele colorido forte têm um excepcional movimento, e o mais curioso é que o seu pincel é quase o próprio tubo de onde sai a tinta. De maneira que suas telas ficam pastosas, porém com as figuras de contornos bem definidos.
Pouco sabe falar do seu trabalho. Aliás, não é preciso. Basta expô-los e deixar que as pessoas descubram as nuances, os detalhes, as expressões estampadas nas caras de suas figuras. É verdade que seu trabalho lembra um pouco o da folclórica Ema Valle.
Só que o trabalho de Ema é envolvido por linhas e contornos de curvas dando  impressão de um emaranhado de situações. O de Zelita nos apresenta espaços bem definidos, com cada figura em seu lugar. Com isto não estou afirmando que o seu trabalho seja melhor do que o de Ema. Ao contrário, o de Ema é mais bem elaborado, é a própria representação da grande figura humana que é a Ema. São dois estilos diferentes.
Já o Crispim tem toda uma carga de aprendizagem e de conhecimento que adquiriu na academia ou seja na Escola de Belas Artes.O desenho é de qualidade superior, o movimento bem mais envolvido num clima descontraído e mais próximo da realidade. Ambos estarão participando a partir do dia 11 de uma exposição na Galeria do Sesc/Senac, no Pelourinho organizada pelo também artista plástico Belchote.
O Crispim é mineiro de Montes Claros, mas está radicado em Salvador desde 1976  e tem sua formação acadêmica, além de ter recebido orientação de Leonardo Alencar, Odete Valente e Roberval Marinho. Enquanto Zelita Rodrigues é baiana e ambos vão mostrar o lado alegre e colorido do maior espetáculo da terra que é o Carnaval.

MINEIRA EXPÕE SUAS TELAS NUMA PRAÇA DO IGUATEMI

Mineira de João Monlevade, mas radicada há mais de 10 anos na Bahia, Terê vai mostrar, a partir de hoje, na Praça Jorge Amado, do Shopping Iguatemi, uma exposição de seus mais recentes trabalhos, todos em óleo sobre tela.
Premiada em salões, consagrada e elogiada em 40 exposições entre individuais e coletivas realizadas em várias cidades brasileiras, essa mineira, quase baiana, resume sua vocação pela arte com uma simples frase Nasci pintando.
OPINIÕES
O critico de arte e professor da Universidade Federal da Bahia, Carlos Pedreira Alves, ao escrever sobre o seu trabalho enumerou alguns questionamentos: "Que dizer das figuras humanas retratadas em cores permanentemente frias, mas cheias de sentimentos, onde o olhar inquisitivo dos seus personagens extrapola os quatro cantos da tela para nos interrogar? Falar dos seus casarios arquitetonicamente pesados, conforme a realidade urbanística de Salvador, em seu colorido verde-azul-amarelado, mostrando as asperezas do tempo sobre argamassas seculares? O que dizer dos seus interiores de igrejas e conventos onde o mosaico marmóreo faz contraponto visual com pesados volumes e vergas abobadadas cheios de místicas elucubrações?
Parecem-me desnecessárias quaisquer considerações estéticas ante a pujante mensagem colorística que a artista nos apresenta. É ver e sentir."
Embora diplomada em Letras, Terê fez cursos livres de Pintura em Minas Gerais, na Escola de Belas-Artes da UFba e na Panorama Galeria de Arte.A tudo isso, soma-se a orientação recebida de Graça Ramos, uma artista e uma mestra de arte de mãos cheias.
O critico Romano Galeffi analisou três dos seus trabalhos: uma perspectiva do característico urbanístico da antiga Rua do Paço; o claustro da Ordem Terceira do Carmo; e uma cena com três feirantes sentados no chão, perto de cocos secos.
Ao final, escreveu: "As demarcações do jogo alternado de cheios e vazios, mediante um ritmo acelerado graças ao afastamento dos planos devido à perspectiva, assumem, no grande quadro da Terê o nível de uma recriação, capaz de encher de admiração todo fruidor esteticamente distanciado, independentemente de toda comparação possível com a realidade do objeto retratado. Será, então, apenas uma questão de gostos o fato de prevalecer os espaços opacos toques de terra e de neutros sobre tons cromáticos transparentes e luminosos ao molde dos pintores impressionistas do século passado e seus imitadores de todos os tempos. Com efeito o tratamento espatulado das fachadas dos vetustos casarões aos dois lados da rua e no pavimento da mesma a cabeça-de-nego com o alcance de uma textura de vitalizante vibratilidade é mais que suficiente a provar as virtualidades recriadoras da artista, m que pese ao tom dominante do céu que estaria a demandar ao azul-anil típico da Bahia, mas em obediência é bem mais importante exigência da harmonia do conjunto.
Semelhantes qualidades no tratamento matérico-expressional encontramos no quadro dos feirantes, em virtude de sua controlada combinação de terras e de variadas tensões dinâmicas por contrastes claro-escuras."
Mais da beleza e da qualidade das peças de Terê somente indo in loco conhecê-las, admirá-las e ver de perto um trabalho plástico da mais alta qualidade. Muito se poderia dizer do trabalho de Terê, porém Carlos Pedreira Alves definiu-o muito bem. É ver e sentir.

 A INQUIETA LIANE KATSUKI TEM AGENDA MOVIMENTADA

 Artista Liane Katsuki está com uma vida profissional agitadíssima na Europa. Em dezembro ela deixou a Holanda onde estava estabelecida, logo após realizar uma exposição em Borger. De lá seguiu para a Espanha onde prepara uma exposição de esculturas em bronze para maio, em Madri.
Neste período voltou à Holanda onde participou do Festival de Haia. A embaixada brasileira e a Fundação Cultural Art Holandesa programaram um grande evento intitulado Carnaval Rio, e lá estava a Liane representando o nosso país.
De volta à Espanha, aconteceu a grande Feira Internacional de Arte Contemporânea Arco, em Madri. Seguiu para Lisboa onde, a chamado de uma galeria portuguesa está preparando algumas peças para o concurso de jóias em Córdoba. "Estou encantada com o movimento e a vida artística em Madri: ao nível e bom mercado", registra a incansável Liane que tem demonstrado muito pique para enfrentar a concorrência leal e competente dos europeus.

    OFICINAS DE EXPRESSÃO  TERÃO SEIS CURSOS

Finalmente, as Oficinas de Expressão Plástica devem voltar a funcionar neste semestre. Depois de seis meses fechado, o prédio anexo ao Solar do Unhão foi restaurado pela Fundação Cultural do Estado da Bahia para continuar a abrigar os aprendizes de arte. O diretor das oficinas, a artista plástico Florival Oliveira, informa que a restauração incluiu desde a pintura até a revisão das instalações elétricas e hidráulicas e a construção de uma nova bancada pata trabalho.
E o trabalho propriamente dito já começa agora no mês de março. Serão oferecidos seis cursos: xilogravura, gravura em metal, litogravura, design e estamparia, desenho e escultura em madeira. As inscrições estão abertas até o dia 15 deste. Os interessados podem fazer suas matriculas diariamente, em horário comercial, com Diná, no Museu de Arte Moderna da Bahia, Solar do Unhão. Quem se inscreveu no semestre passado, a Fundação Cultural garante a vaga, desde que o inscrito confirme a sua participação também até esta data.
As oficinas são gratuitas e qualquer pessoa pode participar, não exigindo nenhuma iniciação artística ou experiência anterior. O espaço é aberto também para os artistas trabalharem, especialmente para a produção de gravuras. Com duração de um semestre, as oficinas funcionam quase como um curso intensivo, com três horas de aula, às segundas, terças e quintas-feiras pela manhã.
As Oficinas de Expressão Plástica surgiram em 1980, tendo à frente o artista plástico Juarez Paraíso. Durante esses oito anos , foram determinantes para formação e especialização de muitos artistas, dentre os quais o atual diretor Florival Oliveira,se inclui. Para ele, além da formação de novos artistas, as oficinas tiveram e tem um importante papel de despertar o valor da gravura enquanto objeto de arte, dentro do processo de crescimento intelectual e artístico da Bahia.