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domingo, 7 de julho de 2013

A CRIANÇA COMO TEMÁTICA

JORNAL A TARDE, SALVADOR,  SEGUNDA-FEIRA, 20 DE MARÇO DE 1989


A Imagem da Criança na Pintura Brasileira, uma obra de autoria de Vera Pacheco Jordão foi reeditada e distribuída como brinde pela Bahema e Empreend, tendo como coordenadora Elisa Amoroso Lima, da Agenda, Organização de Eventos e Projetos Culturais. Tive também uma participação na reedição do livro com quatro textos que escrevi sobre Calasans Neto, que inicia o livro, Presciliano Silva, Floriano Teixeira e Mendonça Filho.
A obra de Vera Jordão foi publicada inicialmente em 1979 no Rio de Janeiro. É uma pesquisa sem pretensão de esgotar o assunto, mas apenas de focalizar o destaque da criança como tema na obra de nossos artistas. Como agora foi republicada sob o patrocínio de empresas baianas, nada mais salutar do que introduzir alguns artistas. Daí a nossa participação a convite de Elisa Amoroso Lima sobre quatro artistas.
O livro traz ainda uma apresentação do Cardeal Dom Lucas Moreira Neves que enaltece a figura da criança.

            UMA SIMPLES COINCIDÊNCIA?

Tenho observado uma prática na atividade publicitária que merece uma reflexão por parte de seus produtores e mesmo por Conselho Nacional de Auto-Regulamentação, é que muitas publicidades são quase cópias, semelhantes demais para desaguarem no campo da coincidência. Acho que é uma falta de respeito para com o verdadeiro autor ou autores e com o público que recebe uma imagem quase cópia, impondo uma falsa ideia de que é normal.
Sei que alguns chamam de chupada como se quisessem dizer que ali estão apenas alguns elementos de uma peça publicitária que foi refeita, melhorada. Na maioria das vezes é bem inferior à original. Por trás dessa atitude esconde-se a falta de criatvidade e de respeito para com o autor verdadeiro.
Agora estamos diante de uma dessas semelhanças que deixa a gente com muitas interrogações. Trata-se do cartaz da 20ª Bienal Internacional de São Paulo escolhido por um júri internacional de autoria do diretor de arte Rodolfo Vanni. O cartaz é por demais semelhante a um pôster do artista plástico alemão Holger Matthies, 49 anos, um especialista em cartazes. Ele fez o cartaz para a peça O Preceptor, de Bertolt Brecht e Jacobi Lenz.
O jornal A Folha de São Paulo publicou uma reprodução dos dois trabalhos. O cartaz do alemão está impresso também na edição especial da revista bimensal japonesa Idea, no número dedicado a dez artistas internacionais especialistas em posters, de 1982.
Entre os trabalhos publicados estão os de Ikko Tanaka, 59, que foi jurado do concurso da Bienal.A banana amarrada por um cordel do pôster de Holger foi substituída por outra grampeada. Existe algumas pequenas diferenças. Na parte de cima está o nome da peça no pôster alemão e mais abaixo o nome dos autores etc., sendo as letras todas pretas. No cartaz da Bienal as letras são vermelhas e também sobre um fundo amarelo.

                      O MERCADO DE ARTE BAIANO É BOM

Carybé tem boa presença no mercado de arte
É falsa a afirmação de que o mercado de arte baiano é ruim.Esta é a conclusão que cheguei ao entrevistar várias pessoas ligadas ao movimento de arte baiano, especialmente galeristas e artistas que vivem exclusivamente da produção e venda de produtos de arte. O mercado baiano nunca para, porque nos meses de dezembro a março, quando muita gente sai da cidade em viagens ao exterior ou mesmo para outros estados brasileiros, essa ausência é compensada pela verdadeira e benéfica invasão dos turistas, que terminam por comprar obras de arte, especialmente nas galerias próximas aos hotéis.
Mas, nem tudo são flores neste mercado de arte e existem algumas distorções que merecem ser analisadas, inclusive discutidas por artistas e galeristas para melhorar ainda mais o relacionamento entre eles em benefício do próprio mercado.
Existem algumas desconfianças e alguns descompassos. Vejamos: os artistas iniciantes ou com poucos anos na profissão enfrentam muitas dificuldades para sua permanência no mercado de arte. Para realizarem exposições, os custos são verdadeiras barreiras, muitas vezes intransponíveis. Eles tem que arranjar patrocinador para catálogos, coquetéis, gastos com Correio, cuidar, quase sozinhos, da divulgação etc. As galerias não investem porque não tem retorno imediato, argumentam. Aí está um dos nós. O galerista não investe e não trabalha o artista porque eles também não confiam na sua ação. Não existe o contrato de exclusividade, porque o artista prefere colocar suas obras em todas as galerias. Eles argumentam que assim tornam-se mais conhecidos. Não sei. Talvez se houvesse um trabalho sério, continuado, respeitoso e profissional de uma boa galeria com o artista, este sairia lucrando.

Tenho conhecimento de que algumas importantes, galerias do sul do país mantém contratos de exclusividade e trabalham o artista diariamente. Sempre estão á procura de colecionadores, estudiosos de arte, críticos etc., para mostrar a obra do artista. Um trabalho profissional de informação e convencimento.
Ao contrário, se o artista iniciante espalha os quadros em várias galerias sua presença será notada como mais uma entre muitas que estão ali.
Por outro lado, são poucas as galerias que trabalham dentro de uma visão profissionalizante. A maioria prefere receber as obras por consignação e as expõem ou não. Se aparecer um cidadão qualquer e comprá-las, ótimo.Caso contrário, depois de certo tempo devolvem ao artista. Um comportamento que ao meu ver merece reparo.
O artista Justino vê problemas
Quando fazem uma exposição, todos os gastos e  riscos são por conta do pobre do artista, que investe em catálogos, coquetel, molduras, correspondências etc, e muitas vezes tem que sair pelas redações dos jornais e estúdios de televisão atrás de espaços para divulgar o evento. A galeria apenas cede ou abre as portas.
Lembra o artista Justino Marinho que o mercado de arte baiano sempre esteve ativo. A venda de obras de Pancetti, Presciliano Silva, Scliar, Carybé, Aldemir Martins e muitos outros artistas consagrados, vivos ou mortos, são os preferidos pelos colecionadores, turistas e mesmo pelos novos-ricos. Mas, também, existe um mercado para artistas de outras gerações, como a nossa, composta por Murilo, Zivé, Bel Borba, Fred Schaeppi, Vauluizo, César Romero etc., cujas obras custam, a depender do tamanho, de NCz$300,00 a NCz$1.000,00, em média, e, que são adquiridas por profissionais liberais e executivos do Pólo Petroquímico, que estão iniciando suas coleções. Esses sabem que dentro de poucos anos estaremos com nossas obras bem mais valorizadas. A questão é escolher obras de qualidade.
Diz ainda Justino que "os que estão numa faixa depois da nossa geração acham que a gente está criando panelinhas, que a gente domina os espaços. Não é verdade. Estamos também lutando e enfrentando muitas dificuldades."
Para o galerista Paulo Darzé, do Escritório de Arte da Bahia, "o mercado baiano tem crescido muito. Ele lembra que o colecionador é também de certa forma instável. As vezes ele vem comprando com muita freqüência e dá umas paradas. Muitas vezes é a família que reclama que já tem muitas obras, outras vezes alega falta de espaço etc. mas ele sempre volta, porque seu amor pela arte lhe impulsiona a voltas ás galerias em busca de obras de qualidade."
Para Paulo Darzé, " o custo para manutenção de uma galeria de arte é muito alto, e por isto, não pode realizar com freqüência exposições com artistas que estão iniciando no mercado. Faço cerca de cinco exposições por ano e sempre coloco um ou dois artistas jovens. Mas isto implica num risco, que assumo, porque é preciso renovar. Basta dizer, se faço uma exposição de um grande nome, vou vender com facilidade os trabalhos e geralmente, os preços nos mercados são altos.
Quando exponho um que está iniciando, os preços são relativamente baixos. Tenho que vender todos os quadros e mais alguma coisa, e muita vezes não dá para cobrir as minhas despesas. Explica Darzé que todos os quadros que entram em sua galeria lhes pertencem. Não tenho obras consignadas. Tudo que está aqui Fo adquirido. Vou fazer uma exposição do Siron Franco e já estou com várias obras da mostra. Todos me pertencem."Mas Paulo Darzé é um dos poucos exemplos de marchand que trabalham dessa maneira.
Outro fato curioso é que muitos artistas baianos de nome não têm qualquer cotação no mercado de arte fora da Bahia. Carybé é talvez a única exceção. Não cito nomes e preços de obras arrematadas a baixo do custo para não tumultuar o mercado e os artistas. Sabendo disto, alguns marchands baianos são freqüentadores assíduos de leilões no Rio e São Paulo, onde tem arrematado a preços bem mais baixos que os praticados aqui. São obras até de artistas já falecidos, de grande conceito na Bahia, mas que lá fora passam despercebidos.Essas obras arrematadas são vendidas aqui a preços bem mais altos.
Outro aspecto curioso que contribui para criar problemas e entraves entre galeristas e artistas é a venda nos ateliers. Explico: o artista vende um quadro a um galerista por um preço x ou deixa a obra consignada, e, quando um colecionador o visita em seu atelier ele vende mais barato.Com isto alimenta a desconfiança.
É uma sangria ao mercado, prejudicando a ação do galerista.
Esta venda em atelier tem que acabar. O artista precisa conscientizar-se que esta oscilação de preço da sua obra também lhe prejudica. É falsa a ideia de que se livrando da comissão da galeria está lucrando. O ponto de referência deve ser a galeria com a qual trabalha, e não a intimidade do seu atelier. As visitas devem ou podem ocorrer, mas as vendas devem ser sempre através do seu agente, que é o galerista. Vamos estabelecer uma confiança mais firme entre as duas partes interessadas para que o mercado baiano, que está crescendo, seja cada vez mais competitivo e mais profissional, o que servirá para impulsioná-lo e possibilitar a melhoria da qualidade e desenvolver o movimento artístico.





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