quarta-feira, 3 de julho de 2013

ARTISTAS NORDESTINOS LUTAM POR MAIS ESPAÇO

JORNAL A TARDE ,SALVADOR, SÁBADO 31 DE AGOSTO DE 1981


Aspecto da abertura da exposição dos projetos aprovados pelo MAMBa
Depois de três dias reunidos no Museu de Arte Moderna da Bahia, os artistas plásticos nordestinos,  participantes do I Encontro de Artes Plásticas do Nordeste, lançam um documento de representatividade artística nacional: querem regulamentação da profissão, maior circulação da obra de arte nordestina e atuação do ensino das artes plásticas nas universidades.
Presentes ao encontro: Ruben Valentin; Raul Córdula, da Paraíba; o pernambucano Humberto Magno, Romélio Aquino, e muitos outros. À frente, o diretor do MAMB, Chico Liberato. Aqui alguns deles falam sobre o resultado do encontro.

A ARTE TEM QUE CHEGAR AO MURO

Para Raul Córdula- Coordenador do Núcleo de Arte Contemporânea da Paraíba "a questão da circulação compreende todas as formas de veiculação da obra de arte. No caso das artes visuais é de fundamental importância o espaço expositivo, mas todo espaço de circulação, como deslocar uma obra de arte da Paraíba para a Bahia, para o Brasil."
"Além do espaço de circulação da obra, tem o espaço da informação: imprensa que liga a instalação da obra ao público- continua- A importação de uma obra não está no fato de ser vendida. A arte é um signo de conhecimento e não objeto de troca, mas o circuito da arte termina para os artistas que vivem de vender seus trabalhos a grande maioria - na comercialização. A partir disso, Raul Córdola afirma que os artistas plásticos do Nordeste sabem que existem espaços para as artes visuais e que não são bem utilizados. Esses espaços não são apenas privilégios do poder, mas da população: os muros, estacionamentos, praças, ruas, a casa do povo."

REGULAMENTAÇÃO

Já o artista Humberto Magno, de Pernambuco, falando sobre a organização da classe, resumiu em três pontos básicos: ' a mobilização dos artistas, a obrigatoriedade de concursos públicos para colocação de obras de arte em  edifícios e espaços públicos e o repúdio à existência de um dispositivo legal que dá direito à aquisição de obras de arte.
Sobre a mobilização da classe, informou que as propostas sugerem que seja feita através dos núcleos ou associações existentes, ou que deverão ser articuladas a partir do momento, em cada estado, visando à regulamentação do exercício da profissão.
Os participantes do 1º Encontro de Artistas Plásticos do Nordeste: repudiam o dispositivo de licitação da aquisição de obras de arte ou objetos históricos, ao mesmo tempo em que propõem a revogação da alínea e do Decreto/Lei 200/67, que estabelece a dispensa de licitação por parte do poder estadual.
A viabilização dessas propostas será feita em cada estado através dos seus órgãos de classe.

A QUESTÃO DO ENSINO

Existem fatores significativos que impedem o melhor desenvolvimento do ensino das artes plásticas dentro da universidade, afirmou Chico Liberato, diretor do Museu de Arte Moderna da Bahia depois de discutir com os artistas nordestinos a questão da regulamentação do ensino das artes na região.Para ele  o "mais importante é centralizar este mesmo ensino dentro da universidade, com interesses voltados para a comunidade e origens culturais, foi conclusão dos estudos."
Os artistas abordaram, também, o papel da universidade no ensino das artes plásticas, o ensino de artes versus comunidade, o aproveitamento do artesão dentro do ensino universitário, colocando a universidade como fonte irradiadora de cultura e que o artista precisa realmente dela.

É PRECISO SALVAGUARDAR O ARTISTA WASHINGTON SALES

Não conheço pessoalmente o pintor Irineu Salvador, mas tenho informações de que gosta de pintar casarios e figuras populares. Não é um grande artista e seu nome passa a ser conhecido com as manchetes publicadas pelos jornais locais onde o mesmo é acusado de autor de falsificações de algumas telas envolvendo o pintor Washington Sales, que é um dos bons artistas desta terra. O Washington que conheço de perto, está alucinado com a inclusão de seu nome no noticiário. É um artista que vive trancado em seu atelier pintando sem buscar badalações e outras formas de envolvimento.
Prefere o trabalho e tem reputação no mercado. Sua imagem não pode ser prejudicada, pois o seu talento deve ser preservado pelo muito que Washington Sales pode realizar. Não sou policial para acusar o Irineu, pois não tenho em mãos( tampouco a Polícia) , provas irrefutáveis que ele falsificou.
Sabe-se até agora que  negociou obras falsas de Carybé. Agora aparece o publicitário Carlos Sales que não é parente de Washington Sales como outra vítima do Irineu. Cabe à Polícia averiguar e provar tudo. Mas tenho confiança de que o nosso Washington sairá vitorioso e ileso desta confusão que envolveu o seu nome. O próprio Carybé já declarou que mete minha mão no fogo como Washington não tem nada com isto, e posição idêntica tomou o publicitário Carlos Sales.
É preciso salvaguardar a imagem deste jovem artista que não tem estrutura suficiente para aguentar um envolvimento tão prejudicial.Ele tem recebido o apoio e a força de seus amigos, embora não tenha culpa, foi envolvido contra a sua vontade, e tem sofrido muito com tudo isto. Vamos deixar Washington em paz para que ele produza as boas obras, iguais a muitas outras que enriquecem as coleções de arte da Bahia e de outros estados.

NA GALERIA ÉPOCA TRÊS ARTISTAS EXPÕEM DIFERENÇAS

Obras dos artistas Vauluizo,Bel Borba e Zivé Giudice.


"O espaço da arte contemporânea da Bahia é algo confuso, um sistema cheio de contradições, defasagens e indisposições que geram a impossibilidade de mudanças necessárias conforme a emergência do tempo. A mínima atuação a serviço de estratégias que permitam uma proximidade com fatores contemporâneos na arte, é vista com a estranheza de quem possui a verdade no bolso. Entendemos que a verdade como a arte não é possuída por ninguém.
Acreditamos na arte e na verdade como entidades eternas, enquanto fator abstrato, imprescindível ao espírito humano. Mas não as cremos como estandartes de valores fixos, atemporais. No momento só nos interessa dirigir nossas preocupações individuais acerca da arte, com intuito de estar fora de um circuito estereotipado, não buscamos uma sintaxe comum, mas trabalhar nossas diferenças a serviço de uma nova ordem."
Estas palavras contidas no catálogo da exposição de Zivé Giudice, Bel Borba e Vauluizo que está na Galeria Época, no Rio Vermelho, soam como um manifesto e uma tomada de posição de três dos mais importantes artistas da nova geração.
Mas estas palavras não podem ser tomadas como verdade absoluta. Primeiro, começo a discordar o que é salutar, sobre a confusão, que na opinião dos jovens artistas impede as mudanças. Pelo contrário, toda mudança é fruto de revoluções pacíficas ou não, acompanhadas de confusão. O que precisa ser entendido é que a confusão que eles falam certamente são as dificuldades que enfrentam no mercado de arte baiano. Isto é um processo natural e eles começam a deslanchar e a terem reconhecidos os seus talentos. O que existe refletido nas palavras inseridas no catálogo é uma inquietação natural e positiva do trio de artistas, inquietação que vem contribuir para fortalecer a criatividade individual e que eles tem contribuído em muito, fugindo dos estereótipos.
Todos acreditam na arte e na verdade, só que a arte e a verdade têm caminhos e conotações diferentes. Isto devido à manipulação de informações e valores idênticos ou divergentes. Eles buscam segundo afirmam trabalhar nossas diferenças, portanto ,a existência de diferenças em apenas três artistas, que juntos expõem, É uma pequena amostragem da confusão.
Ora, desta conclusão "que não buscamos uma sintaxe",  é que brotam as boas manifestações individuais.