sábado, 25 de agosto de 2012

TERUZ COMPLETA 80 ANOS E TEM EXPOSIÇÃO NA BAHIA

JORNAL A TARDE SALVADOR, TERÇA-FEIRA 23 DE AGOSTO DE 1982

TERUZ COMPLETA 80 ANOS E TEM EXPOSIÇÃO NA BAHIA

Fotos Google e Divulgação

Aos oitenta anos de idade, completados no último dia 18, o carioca Orlando Teruz é uma das marcas registradas da arte brasileira. Sua arte, que brotou de uma visita que fez juntamente com seu pai ao Museu do Cairo, é cheia de vitalidade e riqueza de nossas tradições populares. Uma temática rica e de belas formas e clima da gente brasileira.
Obra Cavalos, óleo sobre tela de Orlando Teruz.
Tem uma produção invejável em torno de 11 mil quadros já pintados, embora faça questão de afirmar que “nunca fiz uma estatística, mas levantando a minha produção, ano por ano, cheguei à conclusão de que estou atingindo aquela marca”. São telas espalhadas por todo este Brasil e muitas no exterior. Agora, ele expõe a partir do dia 25 no Bahia Othon Palace Hotel, graças ao trabalho do marchand Luís Caetano S. Queiroz que deseja prestar-lhe uma homenagem, e para nós baianos é gratificante esta exposição do mestre Teruz. O que ele não gosta é de retrospectiva “porque ainda estou vivo e pintando muito”.
Acha que somente quando morrer é que esta palavra terá sentido quando se referir a sua arte.
Realmente este artista tem razão, porque aos 80 anos de idade continua pintando todos os dias, sem folgas aos sábados e domingos, como tem qualquer trabalhador deste país. “Começo a pintar pela manhã, interrompo para o almoço e continuo pintando até o sol desaparecer no horizonte”. Um exemplo para os jovens pintores que realmente necessitam trabalhar com muito mais afinco para vencer as dificuldades técnicas e aprimorar sua arte.
O que se observa quando estudamos a obra de Teruz é que conserva uma unidade, permanecendo firme em sua linha criativa, vacinado contra influências e modismos momentâneos, que desviaram tantos talentos. Mesmo sendo da geração dos intelectuais que levantaram a bandeira do Modernismo neste país, o artista Orlando Teruz seguiu o seu caminho impregnado de figurativo. Longe dos grupos que naquela época sacudiam as academias e provocavam reboliços nas galerias e museus, este carioca, nascido no bairro do Encantado, continuava criando suas figuras roliças em movimento constante.

Mesmo quando surgem de frente ou de lado, em verdadeiros closes, não ficam imóveis, parecem que estão espreitando o que está passando ao redor. E estas figuras populares: as crianças que jogam bola, peteca, que empunham uma roda ou aro, que pulam corda, aparecem em suas telas num colorido original e num clima de grande ternura e leveza.
Certamente nunca alguém poderia afirmar que Teruz não aceitava o modernismo, pelo contrário, sabemos que juntamente com Lúcio Costa e o próprio Cândido Portinari batalhou pela criação da Divisão Moderna no então acadêmico Salão Nacional de Artes Plásticas.
Mas sem dúvida que sua arte está centrada entre o antigo e o novo, coisa que podemos constatar até hoje quando está criando na tranqüilidade de sua Casa-ateliê junto aos pássaros e pequenos animais que ainda sobrevivem na Floresta da Tijuca.
Reprodução da obra Jogando Peteca, outra tela do grande Truz.


                                         SUA VIDA

Orlando (Rabelo) Teruz nasceu no Rio de Janeiro, a 18 de agosto de 1902 e em suas veias corre sangue árabe. A vocação pictórica cedo despontou, ao percorrer, ainda menino, na companhia paterna, os tesouros do Museu do Cairo.
Desde então, nunca mais se apartaria do seu ideal artístico e aos 18 anos já se matriculava na Escola Nacional de Belas-Artes no Rio de Janeiro, onde teve por mestres principais Rodolfo Chambelland e Batista da Costa. A partir de 1924 participou do Salão Nacional de Belas Artes, nele conquistando sucessivamente menção honrosa (1924), medalha de bronze (1925), medalha de prata (1926), o prêmio de viagem ao estrangeiro (1937) e o de viagem pelo Brasil (1942). Em 1931, junto com vários outros importantes artistas modernos brasileiros, tomou parte do célebre Salão Revolucionário, organizado por Lúcio Costa (então diretor da Escola Nacional de Belas-Artes), e assim denominado por que nele, pela primeira vez, os artistas de orientação não-conservadora ou acadêmica lograram exibir seus trabalhos. Foi também dos primeiros a optar por expor seus quadros na Divisão Moderna do Velho Salão Nacional de Belas Artes, ao ser criada em 1941.
Tendo participado de muitas das mais importantes e abrangentes mostras de arte brasileira realizadas no exterior- pintores modernos brasileiros em Londres, 1944; pintores brasileiros em Buenos Aires e Montevidéu, 1945; mostra internacional de arte sacra no vaticano, 1958, etc. – Teruz realizou igualmente numerosas individuais, em cidades como Rio de Janeiro e Paris, Belo Horizonte e São Paulo, Recife e Fortaleza. Autor de abundante produção, o que se explica tanto por sua operosidade como pela extensão de sua gloriosa carreira de mais de 60 anos, possui obras em algumas das mais notáveis coleções públicas de arte contemporânea, como o Museu do Ermitage, em Moscou e da International Business Machine, em Nova York, o Museu Calsberg, de Copenhaque e o Museu de Arte de São Paulo, Assis Chateaubriand, o Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro e o Museu do Vaticano, o Museu de La Plata, na Argentina, e o Palácio de Buckingham, de Londres.
Sua mais recente exposição individual teve lugar ainda há poucos meses no Museu nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, constituindo-se numa homenagem do principal museu oficial de arte brasileira aos sessenta anos de sua carreira de pintor. Há longuíssimos anos Teruz não expunha em São Paulo, daí a oportunidade da recente mostra e a expectativa de que se tem
 Revestido, tanto mais que, nela, Teruz esteve expondo, pela primeira vez, uma importante série de seus desenhos, junto a uma vintena de óleos.
Orlando Teruz reside no Rio de Janeiro, em sua imensa residência-ateliê museu da Muda da Tijuca.

                 ANTUNES EXPÕE NA KATTYA A
                 EXUBERÂNCIA DAS BEGÔNIAS

Está de volta à Bahia o pintor Antunes, que expões desde a sexta-feira na Kattya Galeria de Arte. O paulista Antunes tem especial ligação com a nossa cidade, que sempre de uma forma ou de outra serve de temática para seus trabalhos. Com sua formação de arquiteto ele consegue trabalhar bem o desenho, mesmo quando busca fugir do figurativo, tentando dar um cunho de sua individualidade. Neste momento o artista nos apresenta uma mostra onde sobressaem as begônias e as paisagens vistas da janela de sua casa, nos arredores de são Paulo. A luminosidade e o emprego de cores neutras nos dão a alegre sensação de um verdadeiro jardim, onde as plantas respiram e exalam o perfume de suas flores. Antunes soube trabalhar bem com a vegetação exuberante, o que a meu ver não aconteceu com os quadros onde surgem trabalhadores urbanos e rurais. As soluções encontradas ainda não satisfazem do ponto de vista da técnica e também da composição. Obra Vaso Branco, tela que ilustra o catálogo da mostra de Antunes.
Parece que as figuras estão soltas em espaços mal definidos. Também um quadro, que por sinal estava localizado no final da segunda sala da galeria, apresenta uma solução plástica não muito feliz onde predomina o amarelo.
Porém, tudo isto é superado com a qualidade das telas da atual fase de Antunes, que nos brinda com seus vegetais apresentados em belas composições, com equilíbrio de formas e cores. Antunes é um paciente artesão que trabalha sua arte com muito rigor e com a preocupação em criar coisas que agradem e acima de tudo traduzam a sua sensibilidade.
Nascido em bebedouro, em São Paulo, Antônio Augusto Antunes Netto começou a desenhar no Paraná. Retornando a São Paulo, em 1954, estudou Arquitetura onde, diplomou-se em 1961.
Em seguida assumiu o cargo de professor assistente da cadeira de Paisagismo, onde ficou até 1973. Já fez várias exposições em capitais brasileiras e até mesmo no exterior. Já expôs algumas vezes em salvador e sempre retorna com novidades em busca de uma linguagem plástica cada vez mais criativa.

                        IDMACH RETORNA COM EXPOSIÇÃO 
                       DE SUA ARTE NO HOTEL MÉRIDIEN

A frase de Oscar Niemeyer “Nesses tempos em que as artes plásticas se tornam tão contraditórias e os caminhos mais fáceis se insinuam para os eternos dilemas, o meu amigo deve se sentir à vontade, lembrando sua passagem indispensável pelas escolas de arte e pelos mestres da pintura” está inserida no catálogo do baiano Idmach que está expondo suas telas no Hotel Méridien. Nascido no bairro da Federação, ainda menino acompanhava o movimento do Terreiro do Gantois e ouvia atento o bater dos atabaques. Também, era atraído pela plasticidade do casario colonial. Viajou para o Rio e depois de trinta anos, poderia estar imune ou mesmo ter esquecido a sua terra. Mas ao contrário, suas paisagens, o casario é mesmo os personagens de suas telas trazem mais ou menos acentuada a marca registrada do nosso clima e do nosso misticismo.
A figura de um velho que retratou, baseado em informações de uma filha contribui para este clima místico às suas exposições. Idmach sabe trabalhar com a luz e a sombra e suas telas, embora tratando de uma temática muito utilizada, têm a marca de sua individualidade.
Visitei a sua exposição e fiquei sabendo de sua indignação com a falta de cooperação de que foi vítima, porque as pessoas encarregadas de divulgá-la não fizeram como deveria. Mas, quem puder ir ao Hotel Méridien será gratificado com a beleza e a plasticidade das telas de Idmach, que retratam a nossa Salvador, os nossos terreiros e nossa gente.