sexta-feira, 17 de agosto de 2012

ARTES VISUAIS - ACOMPANHE A RESTAURAÇÃO DO ACERVO DE UM MUSEU - 6 DE DEZEMBRO DE - 1982

JORNAL A TARDE 6 DE DEZEMBRO DE 1982.

ACOMPANHE A RESTAURAÇÃO DO ACERVO DE UM MUSEU
O Museu de Arte da Bahia está dando um passo importante visando a educação e conscientização sobre a necessidade da conservação e restauração das obras de arte. Os que possuem em suas residências obras de inestimável valor artístico e não tomam qualquer providência visando uma conservação adequada devem visitar e refletir sobre esta mostra  didática. Assim esta exposição programada por Emanoel Araújo, que estará aberta ao público até o próximo dia 13, além do caráter informativo propriamente dito, é uma tentativa de “plantar” nas cabeças das pessoas a importância da conservação e restauração. A exposição também propiciará ao visitante a oportunidade de conhecer todas as fases do processo de restauração que o museu vem desenvolvendo para recuperar o seu acervo, que estava com muitas de suas peças em situação deprimente.
O próprio diretor do Museu de Arte da Bahia acredita que esta exposição vai despertar as consciências das pessoas, no sentido até mais amplo de responsabilidade em conservar, não só os bens públicos,  mas toda a continuidade da produção artística de cada tempo ou de seu tempo..
Assim o museu também atende alguns de seus objetivos que são educar, incentivar e despertar para a arte.
Sempre tenho dito nesta coluna que museu não é apenas um depósito de obras de  arte de valor significativo, mas que deve educar e orientar as pessoas que integram a comunidade e mesmo de fora.
                                                             PERPETUAR A MEMÓRIA
Para Emanoel Araújo, “ ao museu, cabe a preservação de nossa memória e da produção de nossos artistas, já que esta instituição lhes consagra um real espaço a perpetuar esta memória”. Com esta promoção, Assegura o diretor , o Museu de Arte da Bahia quer mostrar, em toda a sua extensão, mais didática, “ os meandros de uma arte anônima, necessária e urgente”. Ele aproveitou a oportunidade para agradecer ao Governo que apoiou os programas do MAB bem como a todo setor cultural da Bahia,  abrindo espaços e ocupando áreas por instituições “ cuja importância sua consciência e sensibilidade estão voltadas”
A equipe que está trabalhando na restauração das peças expostas no  andar térreo do museu é composta por 10 restauradores baianos que há dois anos são responsáveis pela recuperação de valiosas obras de arte que integram o acervo do museu de Arte da Bahia.
Alguns deles falando sobre o minucioso trabalho que desenvolvem, ressaltaram a importância dessa atividade, sobretudo porque é através dela que se pode reconstituir e restabelecer uma obra de arte que, muitas vezes , se encontra esquecida e desprestigiada.
Estão expostas no Museu de Arte da Bahia, até o próximo dia 14, inúmeras peças do acervo danificado da instituição, as quais serão recuperadas por uma equipe de restauradores, sob a coordenação de Selma Dannemann, responsável pelo setor de restauração do museu. O acervo a ser restaurado é composto por obras de pintura, esculturas, porcelanas e peças de mobiliários antigos, cujos trabalhos estão sendo desenvolvidos pelos seguintes restauradores: porcelana, J. Mendes e Edvaldo Ribeiro Lima; pintura e escultura, Maria Lúcia Silveira Lyrio, Kátia Berbert, Patrícia Caldas e Lucília Pereira da Silva, e as peças de mobiliárío ,por Derivaldo de Melo Santana , Domingos Cardoso Santos e Nélson Garcês.
O diretor do MAB, Emanoel Araújo, informou, ainda que a partir do próximo dia 10 até 14 de dezembro, haverá um seminário, com uma programação visando debater a história e a técnica da restauração. As aulas do seminário serão ministradas às 18 horas dos dias 10 a 14, pela professora Ana Maria da Silva, da Escola de Belas da Ufba , José Dirson Argolo, do Museu de Arte Sacra e Adriana Reis, do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural do Estado.

LULA QUEIROZ E SEU VÔO NOS ARREDORES DA CIDADE

Com todo o peso do seu corpo e uma cabeça arejada Lula Queiroz subiu na laje do Elevador Lacerda e deu um vôo imaginário por sobre esta Cidade, que ainda dormia. Um vôo livre como costuma ser os vôos realizados pelos homens que desfiam a natureza voando com suas asas deltas coloridas e leves. Do alto ele teve uma visão cromática e formal ( inédita) do barroco baiano e explodiu em cores fortes, quentes.
O sol já começava a despontar, pelo lado de Itaparica e refletia forte por cima das torres das seculares igrejas baianas e assim o robusto Lula continuou voando e criando o seu mundo fantástico, com lentes que lhe permitiram algumas distorções propositais.
Flores redondas e quadradas já demonstram que o artista rompe com concepções formais, com figurativos e parte para dar vazão a sua sensibilidade criadora. " O artista alegra-se em ver que  estas suas contradições de estilo de repetem, coincidem com as mais recentes tendências que estão rolando a partir da última Documenta de  Kassel, que decreta, que a década de 80, será a volta da arte de vanguarda, da liberdade de expressão onde as conjunções estilísticas  aparecem como fato criador, uma espécie de revisão, recriação e conjunção dos estilos que predominaram nas últimas décadas. Espaço onde os artistas contemporâneos mais ativos estãomovimentando".Estas palavras escitas por Lula estão inseridas no seu catálogo da exposição que realiza na Kattya Galeria de Arte.
O artista tem, aliás, um ambiente familiar propício à criação. Seu irmão Valtinho é um compositor de renome, a Bethância ( também irmã) uma bailarina de estilo e sua mãe  uma pessoa incrível, uma artista do bom viver.Portanto, este vôo imaginário que o Lula Queiroz deu sobre a velha Salvador nos deixa perplexos e alegres com a sua descoberta.
Quando paramos e examinamos com cuidado uma das telas expostas na Kattya temos a idéia de que Lula retirou um véu de mistério que envolvia aqueles casarões seculares, os quais derramam suas paredes, nem sempre retas, por entre a vegetação em terrenos ou espaços enladeirados. Também reflete uma certa desarrumação daquele traçado espontâneo de outros tempos, quando as ruas e praças não obedeciam tão rigidamente aos anteprojetos ou projetos saídos das pranchetas dos arquitetos.
Mas, os tempos são outros e o que nos parece à primeira vista caótico, pode ser refletido e pensado juntamente com as facilidade e espontaneidade de uma época, que nos legou toda esta riqueza arquitetônica.
Espero que o Lula continue dando vôos e também mergulhos nesta Cidade ainda cheia de mistérios a serem " descobertos", bastando para tanto que a imaginação seja transformada em realidade plástica.
E, respondendo uma frase quase ingênua escrita pelo artista quando diz : "Espero que vocês gostem", respondo: Gostei!
                                       MARIA ALAIR TERMINA MOSTRA NA PANORAMA
 Baiana de Vitória da Conquista e residindo atualmente em São Paulo a artista Maria Alair encerra hoje sua exposição na Panorama Galeria de Arte, no Jardim Brasil, na Barra. Sua atividade maior é o magistério, onde ensina Educação Artística em escolas do estado da capital paulista.
- " Através de uma visão poética procuro colocar as figuras em movimento e através delas  tento mostrar-lhes o momento e o carinho que elas trazem do real," diz a artista numa frase inserida no catálogo.
Uma declaração curta, mas que por si só nos deixa à vontade para alcançar uma maior percepção das figuras , quase que ingênuas que povoam as suas telas. Embora vivendo num grande centro urbano ela traz na alma a marca da gente do interior e aquela pureza que vem sendo aos poucos destruída pelo progresso desenfreado.
Suas figuras lembram nordestinos e o próprio cromatismo que envolve àquela gente sofrida, mas que ainda encontra tempo para brincar, dançar e pensar em coisas sérias.
Visitando sua exposição pude sentir ainda a ingenuidade e a pureza com que Maria Alair capta momentos, que passam quase despercebidos , imperceptíveis ou que não nos chamam a atenção. Não há uma preocupação formal com o desenho, pois Alair tenta sair da cópia autêntica para captar a atmosfera e a expressividade de suas criaturas.
Me chamou a atenção a tela que mostra um casamento na zona rural. Juntos e sozinhos , marido e mulher em trajes nupciais adentram por um caminho ladeado de uma vegetação rala. O marido como que anda com a cabeça baixa e  a mulher para frente, com altivez. uma mensagem que mostra a necessidade de andar para a frnte, junto, em busca de um novo horizonte. Transpôe assim a própria cena do casamento e nos leva a pensar na necessidade de vencer estes caminhos que nos apresentam e alcançam o que desejamos.
E num bate-papo com Maria Alair podemos sentir a sua força de vontade, o seu desejo ardente em prosseguir nesta jornada. Certamente que ela ainda tem muito a nos oferecer e que cada vez mais a qualidade de seu trabalho vai melhorar, porque está empenhada em refletir sobre sua obra, seu traço e seu destino.