quarta-feira, 29 de agosto de 2012

SONHO E A REALIDADE DA COR INEXISTENTE

JORNAL A TARDE - SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 19 DE JULHO DE 1982.
                  SONHO E A REALIDADE DA COR INEXISTENTE
A exposição de Israel Pedrosa é composta de quarenta e dois trabalhos, sendo 13 serigrafias e 29 originais e fica aberta ao público no Museu de Arte Moderna até o próximo dia oito de agosto.
Lá você tem uma idéia perfeita da importância dos estudos teóricos deste artista que vive mergulhado nas variações da cor. Pude ver de perto, de lado e guardando uma distância significativa o que ele chama de A cor inexistente e que para alguns pode parecer apenas uma ilusão ótica.
Sobre a exposição, confesso que fiquei entusiasmado por ver ali representada a tese porque tanto se bate Israel Pedrosa.
Sua pintura é complexa porque traz em seu significado um fenômeno físico que precisa ser entendido através das tramas. Tive oportunidade de perceber os volumes, as fitas em movimento, tudo fruto de combinações, de figuras geométricas que seguem linhas retas, embora pareçam composições semicirculares. Israel Pedrosa brinca com a cor inexistente no seu mundo de sonhos e nos brinda com imagens multicoloridas através de suas figuras geométricas que dançam em nossos olhos como figuras cheias de vida. São mutações, vibrações e refrações numa combinação de luz e cor que enchem a visão de qualquer espectador. Noutros, as linhas retas multicoloridas parecem emitir harmoniosamente sons musicais que deleitam nossos ouvidos.
O artista vive assim mergulhado num universo de sons, luzes e cores que estão combinados numa linguagem perfeita. E, o poeta baiano Telmo Padilha quando em seu poema “Três motivos de Israel Pedrosa”, diz “porque o tom hesita / entre o negro e o verde / não é uma árvore que vejo”. Sim, não é uma árvore de verdade, daquelas que você pode descansar em sua sombra. Mas é uma árvore que dança e que tem vida. É exatamente nesta hesitação dos tons que Israel Pedrosa vive o seu sonho e concebe.
Com uma cor, por exemplo, o vermelho, Israel é capaz de criar um quadro com várias tonalidades de vermelho.
Basta olhar de vários ângulos e distâncias. Você é capaz de ficar horas a fio andando de um lado para outro, se aproximando e se afastando em busca de novas sensações. E neste exercício e neste sonho você fica feliz quando acorda e encontra a cor inexistente, que é a razão maior do trabalho de Israel Pedrosa.

                                      ATRAÇÃO PELA COR


O homem sempre sentiu uma grande atração pela cor. Nos momentos mais importantes de sua vida a cor está presente. Coloriu o corpo nu e quando resolveu protegê-lo também coloriu as vestes. Nas horas de alegria, euforia ou tristeza e cor tem excepcional distinção.
As festas e as danças sempre foram momentos para a presença das cores fortes.
Quando vai caçar ou guerrear e até mesmo a uma cerimônia fúnebre escolhe as cores de acordo com a ocasião. O branco que significa paz e o preto luto.
São elementos da linguagem simbólica universal. E, esta linguagem colorida está impregnada em tudo que o homem faz.

Se duvidar, destas afirmações lembre, dos sinais luminosos do trânsito, dos multicoloridos carros que correm pelas avenidas e das vitrines das lojas. E, neste festival de cores o homem sempre tem uma preferida. Uns gostam e se identificam com o vermelho, outros com o verde e existe até “quem goste do amarelo”. O processo de colorir se desenvolveu de tal sorte que existem milhares de cores. Foi por essa razão que as cores passaram a ser identificadas pelo cumprimento de suas ondas. Para falar de cor esteve em Salvador um estudioso do assunto que é o professor e pintor Israel Pedrosa. Ele realizou um curso e tem uma exposição no Museu de Arte Moderna da Bahia sobre “A cor inexistente”. Segundo ele, a cor inexistente é uma janela aberta para o sonho.
Ora, como vivemos num mundo que necessita cada vez mais de sonhos convido-os a sonhar.

                                A TEORIA E A PRÁTICA

 Encontrei o mestre Israel Pedrosa em nossa residência juntamente com a museóloga. Landa. Conversamos muito sobre suas realizações no campo da pintura, principalmente no domínio da teoria referente às variações da cor, com repercussões no cenário internacional.
Fiquei sabendo que Israel Pedrosa pinta desde os 10 anos e que seu contato com Cândido Portinari foi definitivo para que se apaixonasse pelo estudo da cor.
Esteve na França estudando e pintou muitos quadros históricos. Até 1963 foi figurativo e sempre saía para os subúrbios do Rio de Janeiro em busca de paisagens simples para retratá-las. Um caminho inclusive seguido por muitos pintores famosos e semelhante até ao caso do velho e sempre criativo Volpi, apaixonado pelos arredores de São Paulo.
Foi numa dessas andanças pelo subúrbio do Rio que num certo momento percebeu que uma lavadeira ao estender seus lençóis brancos na relva resultava num fenômeno que não era uma ilusão ótica. Os tons brancos, terras e amarelos queimados, que surgiram lhe impressionaram.
Foi o acaso que gerou o início de seu trabalho que já consumiu quase duas dezenas de sua existência. Um caminho que teve início com a simples observação espontânea e que depois, transformou-se em científica com um trabalho cuidadoso de laboratório com toda uma sustentação teórica. Para ele isto é um fenômeno físico que conseguiu reproduzi-lo em 1966 com a variação de muitas cores.

                                                       FALANTE

 Tal como pinta, Israel Pedrosa fala com muita fluência ao explicar suas pesquisas e descobertas. Nos últimos anos as formas geométricas surgiram em seu trabalho de pintor como uma explosão natural já que nessas formas é mais fácil provar a existência de “seu sonho” que é A cor inexistente. E tudo isto é feito dentro de uma harmonia cromática que para ele é tão presente com a harmonia musical.
Pedrosa observa que muitos pintores têm intuitivamente uma harmonia cromática muito grande e que isto ajuda muito na hora da criação. Mas ressalva que mesmo a pessoa que tem um conhecimento técnico da harmonia cromática não quer dizer que forçosamente seja um pintor de categoria.
Lembra a seguir que os nossos índios demonstram em suas indumentárias um conhecimento intuitivo muito profundo da harmonia cromática, e que pessoalmente, visitando um museu no exterior encontrou uma harmonia significativa em cocares feitos na cor amarela, em várias tonalidades, de uma tribo do Amazonas.

                                                    PRÁTICA

 
Quando indaguei sobre as aplicações práticas de seus estudos sobre A Cor Inexistente Israel Pedrosa revelou que seu estudos serviram até para corrigir e selecionar imagens em busca de um padrão. Disse ter trabalhado com o pessoal da Globo num projeto visando melhorar o padrão da imagem da televisão evitando as misturas de cores que sempre resultavam em imagens distorcidas. “Hoje a Globo tem uma pureza cromática muito boa e até já faz parte do seu padrão que conhecemos por padrão global”. Também como pintor tenho usado esses efeitos que vão surgindo em sua preocupação cromática. E, para enriquecer seus conhecimentos sobre a cor sempre teve a ajuda e colaboração efetiva de seus colegas artistas e amigos. “Tudo que eles observavam me transmitiam e eu ia anotando e refletindo”.
Seus estudos tem muita aplicação na feitura de logotipos, módulos e num certo ano até na decoração do carnaval carioca. Mas, seus estudos ganharam tal presença em vários segmentos das artes, que hoje quase muita gente não percebe que é fruto do trabalho de Israel Pedrosa. Passou para o domínio público, que em sua opinião é exatamente este reconhecimento que mais enaltece o trabalho de qualquer pessoa. Tenho refletido sobre as coisas que passam para o domínio público, e a gente não sabe quem descobriu. Basta dizer que o liquidificador, às vezes até usado por pintores abstratos para misturar superficialmente as cores e depois lançá-las por sobre o suporte e que tem múltiplas utilidades ninguém sabe quem o descobriu. Sabemos que Santos Dumont inventou o avião. E a máquina de lavar? O fogão com raio laser? O computador? Enfim vivemos num mundo de descobertas tecnológicas em grande escala. A maioria desenvolvida em laboratórios das multinacionais por equipes, muitas vezes até separadas geograficamente embora desenvolvendo o mesmo projeto.

                                                   A CROMOTERAPIA

Outra aplicação importante da cor está sendo desenvolvida atualmente em vários centros de pesquisa no tratamento de doenças psicológicas. Consiste na utilização das cores em intensidade que variam de acordo com a situação psicológica de cada indivíduo.
Os banhos de infra e ultra vermelhos ou violetas usados agora mais intensamente em tratamentos de pacientes portadores de distorções psicológicas.
A Cromoterapia é utilizada acompanhada de ruídos especiais de acordo com a destinação. Por exemplo, ruídos quase imperceptíveis combinados com banhos de luz em azuis tênues levam o paciente a um estado de descanso e  posteriormente de sono. Focos de luz fortes com muitos ruídos a um estado de excitação.
Também na indústria as cores têm uma utilização importante. Os locais onde estão as máquinas que oferecem perigo aos operários são pintados de vermelho ou laranja, assim condiciona os reflexos de cuidado, de perigo. No resto do maquinário surgem as cores azuis e ou verde musgo. Quando pensamos num hospital lembramos-nos do branco dos lençóis, dos trajes do pessoal médico e paramédico. Além dos choques elétricos tão utilizados no passado para tratamento psiquiátrico e hoje, os tão comuns banhos de luz. Não custa salientar que luz é cor.