quarta-feira, 22 de agosto de 2012

POEMA UNE ARTE DE RENINA KATZ E CECÍLIA MEIRELLES - 13 DE SETEMBRO DE 1982.


JORNAL A TARDE, TERÇA-FEIRA, 13 DE SETEMBRO DE 1982.

POEMA UNE ARTE DE RENINA KATZ E CECÍLIA MEIRELLES
A poesia e o desenho unidos na obra Romanceiro da Inconfidência representam não apenas a presença de Cecília Meirelles e da artista Renina Katz, mas acima de tudo um momento histórico reservado para a literatura e as artes plásticas brasileiras. Revela ainda a força dessas duas mulheres e que a partir do próximo dia 17 até o dia 30 do corrente mês estará em exposição no Solar do Unhão.
Os desenhos de Renina Katz foram criados na década de 50 com o objetivo de ilustrar o poema de Cecília. A espontaneidade do traço nos transporta àqueles momentos grandiosos em busca da independência de nosso país e Renina lançou-se de corpo e alma como que embebida pelos ideais dos revoltosos. É, na realidade, uma série que apaixona todas àqueles que tiveram oportunidade de examinar, a exemplo do seu proprietário José Mindlin  ao relatar que os viu pela primeira vez num programa da TV Cultura de São Paulo, o qual era uma homenagem à Cecília Meirelles: “Convenci Renina que eu saberia guardá-los melhor do que ela – artista exigente, mas natureza excessivamente desprendida – e consegui persuadi-la a me ceder a coleção, de que me propus a ser, muito mais do que um feliz proprietário, um fiel depositário”. Já Fernando da Rocha Peres considera “ uma revisão gráfica da Inconfidência”.
Filha de poloneses, natural de Niterói, Renina Katz estou na Escola de Belas-Artes onde chegou a concluir seu curso universitário. Entrou em 1946 e integra a geração pós-guerra. Teve uma militância política, sendo secretária de Cultura da UNE, que naquela época patrocinava muitas exposições, projeções de filmes de arte e outras manifestações artísticas. Viveu toda a aproximação com o Expressionismo alemão e também algumas coisas mexicanas que chegaram até o Brasil, como a Posada, o Leopoldo Mendez – que tinha fundado o Taller de Artes Graficas, dentro daquela tradição expressionista latino-americana. Sua geração portanto é formada pelos antifascistas e defendia o0 processo de ascensão democrática. Segundo suas palavras , “este assunto, era o assunto... quer dizer, a miséria, a pobreza, a má distribuição da riqueza, enfim, os temas que o Expressionismo alemão muitos antes já tinha tratado, ecoaram aqui em nós com muito vigor. Tudo isso me influenciou e essa temática vigorou durante muito tempo no meu trabalho”.
Esta afirmação lúcida da artista pode ser comprovada com os “ Favelados”, os “Retirantes” e mesmo com a própria série que ilustra o poema de Cecília Meirelles. Parte considerável da sua obra traz assim algo de social, a preocupação com a própria liberdade tão essencial para todos aqueles que criam.
Quando em 1989 ela fez uma exposição de aquarelas , reagiu contra a expressão . Para ela a obra não tem um fim, é todo um percurso, um caminho. Cada trabalho indica caminhos próprios que vão dar em outros. Dependendo da maneira como ele se organiza no espaço, um sinal pode se impregnar de outros sentidos”. “Por isto digo que, na aquarela, cada pincelada indica um caminho”. Assim , dentro desta visão da própria artista, podemos ver esta série como um caminho já percorrido e que sempre é bom retornar a percorrê-lo , além de acompanhar sua trajetória presente e futura, que será , também, tão cheia de grandiosidade. A presença de Renina Katz através de seus desenhos da série Romanceiro da Inconfidência não pode deixar de ser vista e analisada pela sua importância histórica e plástica. Um instante de grande criação, um instante onde a literatura saiu ganhando com a presença de seu traço espontâneo e revelador.

MÁRIO CRAVO NETO MOSTRA ESCULTURAS NUM DEPÓSITO

Procurando um suporte de undo para iniciar uma série de fotografias, o artista Mário Cravo neto descobriu nas velhas lonas que vestem e protegem as cargas de caminhões um mundo de tons e texturas elaboradas lentamente pela ação do Sol, da chuva, dos ventos e mesmo pelo manusear dos ajudantes e motoristas. Sua sensibilidade aguçada deu origem ao que denominou de Fundo Neutro e Meus personagens.

Reprodução de foto da escultura da série O Fundo Neutro, Um Espaço Vicencial, de  Cravo Neto.
"O convívio íntimo com estes panos impregnados de vida estimularam em mim a necessidade de revitalização do meu trabalho de escultor através da redescoberta da apropriação e manipulação destes elementos de fundo que, redimensionados numa colocação plástica, se aliam a outros objetos de minha escolha, nascendo estas esculturas que permaneceram até agora no meu estúdio", revela Mário Cravo Neto, com toda àquela inquietude própria do artista que vivencia sua própria realidade.
A procura de um espaço apropriado para estabelecer uma relação maior com o espectador foi o segundo passo seguido por ele. Desejava encontrar um espaço que realmente traduzisse e expressasse a sua sensibilidade criadora. Finalmente, depois de andar pelas ruas da Cidade, encontrou um antigo depósito , quase abandonado de uma firma comercial, na rua visconde do Rosário, no Comércio, esquina com a Rua Santos Dummont onde monta sua exposição que será aberta no dia 20 e permanecerá até o dia 30 de setembro . uma proposta ousada, porque vai ocupar um espaço antes usado para guardar mercadorias e que está situado numa zona - Comércio - que não tem tradição de realizações deste nível. Logo a ousadia de Mário Cravo neto é, como reafirmei anteriormente , própria de sua inquietação, e como artista inovador, abre clareiras neste cipoal que envolve a própria atividade artística. Assim, sua obra sai das galerias, ou mesmo da praça, e vai a um, de~´osito, não para ser guardada, como acontece com nosso museus, que deixam as obras de arte se arruinarem, mas sim, para se integrar àquele ambiente que vem complementar o trabalho de seus sonhos.
Diria que esta mostra é como uma extensão daquela realizada em 1980, onde ele, através do elemento fundo, apresentou duas propostas de expressão inerentes às suas preocupações com a escultura e a fotografia.

                ARQUITETO ALEMÃO CRITICA OS DESVIOS

O alemão Heinz Birg utiliza sua profissão de arquiteto como objeto da sua livre e crítica atividade artística. Assim, com os conhecimentos técnicos que adquiriu nos bancos da universidade ele realiza uma crítica da própria realidade arquitetônica e urbanística dos grandes aglomerados urbanos. Transpõe sua visão muitas vezes ao plano do absurdo com o objetivo de chamar a atenção daquelas pessoas responsáveis pela política urbana e pelos destinos das cidades.
É de opinião que a arte atravessa um momento de confusão em seu país, convivendo com várias tendências e não acontecendo nada de relevo. Revelou que existem muitas iniciativas de jovens, em realizar trabalhos grupais,mas não conseguem apresentar novidades em termos de mensagens, predominando a repetição do já conhecido. Esta afirmação do arquiteto alemão Heinz Birg vem fortalecer o argumento de vários estudiosos que acreditam num renascer e revigoramento das artes plásticas n o Novo Mundo ou seja nos países latino-americanos.
Henz Birg divide seu tempo entre a profissão de arquiteto e de artista. Desde cedo, que ficou interessado nas cadeiras austríacas com as quais criou variações partindo das idéias incríveis dos primeiros inventores daquele móvel doméstico: combinando o prático com o fantasioso, surgem dos seus desenhos com bastante humor, o andaime do caçador, o confessionário, que também poderiam fazer parte de um catálogo históricos de cadeiras.
Humor - seus trabalhos ironizam e satirizam os desvios da arquitetura contemporânea e de planejamento urbano, estendendo-se à proteção institucionalizada de monumentos. Profitópolis, Construir em Zona Histórica,e a oficial Ate na construção, da República Federal da Alemanha, são os alvos.
Sua cidade natal, Munique - da qual metade do centro histórico foi destruído pela guerra, oferece abundante oportunidade para estudos. Ali, onde quarteirões medievais inteiros estão sendo destruídos por completo, um renascente permanece de pé, como relíquia intocável: a catedral. Birg a expõe em todo o seu aspecto grotesco, como um abandoado dinossauro pré-histórico, "como símbolo da desproporcionalidade de uma vizinhança, de resto permutável, composta ao gosto de todo o mundo e para a auto-satisfação>"
Esta exposição que o Museu de Arte Moderna da Bahia apresenta no Solar do Unhão, é a primeira de Heins Birg no Brasil. A mostra foi apresentada no Museu da Cidade de Munique e o exotismo dos trabalhos sugeriu apresentá-los na Bahia.