quinta-feira, 4 de julho de 2013

PERSPECTIVAS PARA 1976

JORNAL A TARDE SÁBADO, 27 DE DEZEMBRO DE 1975


Pela primeira vez não registro nesta coluna uma exposição realizada na Bahia.Isto porque tudo é festa. Ninguém quis arriscar expor seus trabalhos, pois o velho de barba branca domina todos os espíritos. Porém, registro algumas notícias de grande interesse para as Artes Plásticas, a saber: 1) O funcionamento da Funarte, ainda no primeiro semestre de 1976, que trará grandes benefícios não somente para o desenvolvimento das artes plásticas, como também da dança, da música e do teatro. 2) registro também uma exposição de 56 trabalhos inéditos de Debret, aquele francês que pintou os costumes brasileiros no Brasil Colônia. 3) A decisão do Presidente da República em isentar do imposto de importação as obras que participarem da Bienal Internacional de São Paulo visando a sua comercialização e o enriquecimento do nosso acervo artístico; 4) Solução para as dotações do MAM-Rio, que era uma preocupação geral no meio das artes plásticas. No próximo ano, esta  instituição não enfrentará os problemas e as necessidades do ano que finda; 5) Finalmente, a realização do Primeiro Encontro Nacional de Pintores, com quatro obras cada um, que terá lugar na cidade de Bagé, a 400 quilômetros de Porto Alegre.
Essas notícias que registro são necessárias para mostrar que o setor vem sofrendo com o passar do tempo grandes transformações que por certo determinarão maiores possibilidades de criatividade e expressão.

PROTEÇÃO DE OBRAS


Um método engenhoso para ludibriar vândalos ou ladrões que danificam ou se apossam de valiosos quadros em galerias foi demonstrado recentemente em Londres. Trata-se de uma técnica fotográfica que reproduz a textura de qualquer pintura em uma cópia que, segundo o inventor, o público será capaz de distinguir do original.
Um plano para fornecer essas reproduções ao custo de até 1.500 libras esterlinas por peças para exibição em base rotativa foi submetido a algumas galerias internacionais, inclusive o Rijksmuseum, em Amsterdã, onde a obra-prima de Rembrandt, A Ronda Noturna, foi há pouco seriamente danificada. Esta obra -em neerlandêsDe Nachtwacht - é o nome pelo qual se conhece comumente a uma das mais famosas do mestre e  pintor holandês Rembrandt, pintada entre 1640 e 1642. Esta é uma das jóias da exposição permanente do Rijksmuseum, de Amsterdã, pinacoteca especializada na Pintura neerlandesa.(Foto, ao lado)

 A ARTE ESQUIMÓ


Pela primeira vez um museu europeu expôs arte de esquimós canadenses. A exposição de 97 pequenas esculturas, a maior parte delas de esteatite ou ossos de animais, bem como de 35 estampas multicores de 1950 . A mostra foi preparada na República Federal da Alemanha, pelo embaixador canadense, durante 18 meses.
Esta exposição possibilitou uma visão na arte de um povo descoberto para a civilização, só em 1950, com as informações de caráter etnológico. Foram mostrados utensílios de uso diário e peças do vestuário. Sessões de filmes complementares elucidavam sobre a história de 4.000 anos dos habitantes do Ártico, para quem a Terra, a água, animais mitológicos, e cenas de caça continuam a ser ainda hoje o tema preferido dos seus objetos de arte

DEBRET VAI A MINAS


A partir de fevereiro os mineiros terão oportunidade de ver obras inéditas de Debret, no Museu do Padre Toledo, mantido pela Fundação Rodrigo Melo Franco e Andrade na cidade de Tiradentes. Serão mostrados 56 desenhos de Debret, o pintor francês que no século passado retratou as paisagens, usos e costumes de várias regiões brasileiras.
A Fundação possui ainda, em Tiradentes, um Centro de Estudos com mais de 250 mil microfilmes de documentos antigos provenientes do Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa e do Qual d’ Orsay, francês, relativo a atos da política exterior brasileira, documentos consulares sobre a invasão francesa e sobre a revolução pernambucana, abrangendo o período de 1650 a 1826. Criada em 1967, a Fundação que mantém convênio com o 3º Distrito Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e com o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas, tem por finalidade a recuperação e a preservação artística, cultural e arquitetônica da cidade de Tiradentes.
Já o Museu do Padre Toledo, instalado na Casa do Inconfidente, possui poucas peças em seu acervo, mas constantemente expõe peças emprestadas por outros museus, como o da Inconfidência, de Ouro Preto, e o de São João Del Rei.


              NEM COMEÇOU E JÁ ESTÃO MUDANDO

Finalmente foi criado um órgão que pretende concentrar todos os departamentos e divisões do setor cultural. Acontece que alguns deles ficaram de fora do plano inicial, da Funarte -  Fundação Nacional de Arte. Além disso, este órgão vai executar a política cultural do governo nas áreas do teatro, música, folclore e artes plásticas.
O decreto que a institui já foi sancionado pelo Presidente e terá a flexibilidade necessária, a exemplo, das fundações, e com oportunidades de obtenção de recursos.
A Funarte deverá funcionar ainda no primeiro semestre do próximo ano.

             ISENTAS DE IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO

Foi também assinado um decreto-lei pelo Presidente Geisel, baseado numa exposição de motivos do Ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen concedendo isenção do imposto de importação às obras de arte provenientes do estrangeiro que participarem das bienais internacionais de São Paulo, promovidas pela Fundação Bienal de São Paulo. O decreto presidencial determina que a isenção abrangerá, exclusivamente, as obras de arte vendidas no recinto da exposição, observado o limite de valor fixado pelo Ministro da Fazenda. Este limite poderá ser fixado em caráter global, compreendendo vendas de todas as representações participantes da Bienal Internacional de Artes Plásticas ou parcial, por representação estrangeira.
Na exposição de motivos que acompanha o decreto, o Ministro Mário Henrique Simonsen argumenta que, tradicionalmente, a importância de obras de arte não tem sido objeto de tributação no Brasil, tendo em vista os benefícios culturais decorrentes de sua incorporação ao acervo artístico nacional, seja público ou particular.
Observa o Ministro, que cm adoção de medidas visando conter as importações de bens não essenciais ao desenvolvimento econômico, as obras de arte foram inseridas no contexto de uma elevação geral de alíquotas do Imposto de importação, de até 100 por cento, destinada a entrar em vigor até 31 de dezembro do próximo ano.
O Ministro da Fazenda diz ainda que, embora justificada pela necessidade de poupar divisas, sendo inegável sua validade com  referência às importações efetuadas por galerias de arte particulares ou pessoas físicas, essa majoração do alíquotas carece flexibilidade, de modo a excluir de seu âmbito de aplicação, mesmo que parcialmente, as obras destinadas às bienais internacionais de artes plásticas.
Caso contrário, prossegue a correr-se o risco de impossibilitar a venda dessas obras em nosso país, com prováveis reflexos negativos sobre o nível de participação dos artistas estrangeiros nas próximas bienais de São Paulo.
Finalmente, ressaltou que os participantes estrangeiros representam oficialmente seus países, convidados que são pelo ministério das Relações Exteriores do Brasil. Além do mais, é preciso levar em conta as despesas suportadas por essas representações, tais como transporte, hospedagem, impressão de catálogos, montagens de stands, etc. Por isso, acredito, que esta medida fortalecerá significativamente a Bienal Internacional de São Paulo, cuja importância para a imagem cultural de nosso país no exterior è dispensável justificar.

                     DINHEIRO PARA O MAM-RIO

Os frequentadores e artistas estão contentes com a notícia: é que o Diretor finaceiro do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Leônidas Bório resolveu o problema das dotações para este órgão cultural. De agora em diante você poderá fazer doações àquela instituição e tem direito a desconto no Imposto de Renda. Com isto acabou o problema da retração de algumas pessoas físicas e jurídicas que poderão fazer doações. Assim, as dificuldades enfrentadas pelo MAM-Rio durante o ano que finda, não se repetirão em 1976.

           ENCONTRO DOS PINTORES

Carlos Scliar,um artista grandioso
Artistas plásticos brasileiros estão sendo convidados para participar, com quatro obras cada um, do Primeiro Encontro Nacional de Pintores, que será realizado entre 4 e 25 de janeiro próximo, na cidade gaúcha de Bagé, a 400 quilômetros de Porto Alegre. Entre os nomes já confirmados estão Antônio Maia, Ninita Moutinho, Maria Luiza Leão, José de Lima, Carlos Scliar, Glauco Rodrigues e Glênio Biancheti.A promoção é do Museu Dom Diogo de Souza, em colaboração com a Secretaria Estadual de Turismo. A localização do Encontro em Bagé deve-se ao fato de que quatro grandes nomes das artes brasileiras nasceram lá: Biancheti, Danúbio, Glauco e Scliar.Fizeram ali suas primeiras pesquisas e juntos fundaram o Clube de Gravura, em 1950, possibilitando o surgimento de uma infinidade de gravadores no sul do país.Os artistas participantes ficarão hospedados em fazendas da região e pintarão novos quadros com temas gaúchos. Paralelamente ao encontro serão promovidas palestras e grupos de debates.