terça-feira, 2 de julho de 2013

ÂNGELO ROBERTO: BOÊMIO, FILÓSOFO E ARTISTA

JORNAL A TARDE , SALVADOR, SÁBADO, 14 DE FEVEREIRO DE 1976

Painel de Ângelo Roberto, na sede do Instituto
Nacional de Pesos e Medidas da Bahia, no
Centro Industrial de Aratu
 O que dizer de um garoto que de uma hora para outra resolve trocar uma pequena cidadezinha do interior baiano, pela vida agitada e barulhenta da cidade do Salvador? Bem, entre as várias opções, ele poderia ser transformado num médico, num advogado, num diplomata, num boêmio, num filósofo, num escritor ou até mesmo em uma artista que entre as várias experiências no setor, procurasse se firmar cada vez mais no estilo que mais lhe agradasse.
Com Ângelo Roberto, na realidade, aconteceu quase tudo isto: advogado por defender e executar um bom trabalho, boêmio por freqüentar as noitadas baianas e por gostar de um bate-papo acompanhado pela cerveja ou batida; filósofo por natureza, escritor por usar os pincéis e por fim, artista, que por um motivo ou por outro pode partir para uma nova técnica, após criar, trabalhar ou até mesmo renovar sua técnica anterior.
Natural da cidade de Ibicaraí, Ângelo Roberto costuma dizer que fez de tudo, mas desde cedo descobriu que o único meio de fazer com que " pudesse sentir a minha maior manifestação era através da arte, e por isto não hesitei; parti de corpo e alma tendo sempre a intenção de realizar um trabalho que tivesse consciência de mim mesmo, sem nunca pensar nas conseqüências com o mercado de trabalho.
Cheguei em Salvador, por volta de 1943.Estudei e consegui, depois de um certo tempo, ingressar na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, mas tive que abandonar o curso, pois tinha uma mulher pra cuidar e precisava ganhar dinheiro. Não desanimei. Dei duro. Parti para o desenho publicitário o que na realidade é muito rendoso e hoje prático o grafismo de figuras humanas usando a técnica bico de pena."
Apesar de já ter uma larga experiência com o Desenho Publicitário foi na Escola de Belas Artes da UFBa., que Ângelo percebeu sua habilidade em executar certos tipos de trabalhos com a arte. Nesta Escola ele passou a fazer gravura e xilogravura influenciado pelos artistas Zé Maria e Juarez Paraíso. Daí partiu para a escultura quando foi aluno do então professor passando logo em seguida a trabalhar com o óleo sobre tela. Mas não ficou só nisto, Sua curiosidade se estendeu para outros campos como a montagem, a caricatura, a charge e a ilustração de livros, mas acredito que a qualquer hora possa voltar a executar algum trabalho publicitário, desde quando sinta que o mesmo poderá ser compensador.
Mas, foi na gravura, que Ângelo Roberto sentiu toda a sua inquietação de artista e através dela, motivado pelo preto no branco foi que ele partiu para os trabalhos em bico de pena, " o que posso considerar como uma conseqüência de tudo aquilo que fiz anteriormente não significando no entanto, que isto se trate de um estilo definitivo, pois a qualquer momento posso voltar a fazer o que fiz anteriormente, ou o que me der na cabeça."
Ângelo Roberto,por ocasião de sua última exposição
na Galeria Cañizares, da Escola de Belas Artes,
da Universidade Federal da Bahia no ano de 1975.
E continua afirmando "as cores me atraem profundamente, mas prefiro ficar com o preto e o branco. A técnica que uso nos meus trabalhos em bico de pena é simples. Faço uma média de 50 trabalhos durante o ano todo o que na realidade dar para eu viver essencialmente. Na prancheta procuro estudar e analisar aquilo que estou querendo. Começo com o traço da linha para a execução do desenho propriamente dito, o que na realidade é mais trabalhoso, mais demorado do que o próprio esboço para a construção de minhas figuras."
Nas suas figuras estilizadas, retratando sempre as musculaturas e os movimentos de seus personagens bem ligados à terra, Ângelo Roberto fotografa uma infância não muito distante do seu estado de espírito, mas que o tempo ensinou-lhe a documentar de uma maneira muito própria, toda a vida de uma criança interiorana que saboreia as frutas, usa badogue, sobe me árvores, brinca de gude e monta a cavalo.
Na realidade meus trabalhos tem muito a ver com minha infância.
Meninos, animais e a natureza. É aquela mania de menino de querer fazer o tudo com o nada, de transformar os sonhos em realidade, de inventar e modificar as coisas que estão ao seu redor.
Na tranqüilidade de sua residência, brincando ou brigando com um dos seus cinco filhos, Ângelo Roberto fala de sua próxima exposição que será realizada meses em São Paulo em companhia de Juarez Paraíso, Edsoleda Santos e outros, e dos desenhos que está elaborando para a ilustração da capa do livro Cavalarias, de Carlos Sampaio. Este trabalho aliás, sempre me motivou. Fiz ilustração para o jornalista e escritor Jeová de Carvalho,em Passo na Noite; Edgard Fonseca , Tempo em Tempo e vários outros.