sexta-feira, 10 de agosto de 2012

VISUAIS - SONS DE CADA DIA - 25 DE JUNHO DE 2002

JORNAL A TARDE SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 25 DE JUNHO DE 2002


                        
SONS DE CADA DIA
Uma exposição para ser ouvida. Esta é a síntese da mostra Ressonâncias do Brasil (Ressonâncias de Brasil), que acontece, até 20 de setembro, na Fundação Santillana del Mar, Espanha. Fazendo um percurso pela essência brasileira através de imagens, ritmos e harmonias locais, a mostra visa contar a vida dos brasileiros através da expressão artística de maior visibilidade do país - a música.
Segundo Marcello Dantas, artista plástico e curador da exposição organizada pelo Instituto Arte Viva, a intenção de Ressonâncias... e dar acesso ao público, de forma interativa, aos fatos mais marcantes da História do País, por intermédio da música, sintetizada em seis planos de expressão - a Fé, a Celebração, a Liberdade, a Fome, o Ócio e o Sonho.
“Desde os tempos coloniais, o caráter musical foi o ponto de encontro entre escravos e negros, colonizadores brancos e caboclos”, diz Marcello. “Com esta exposição, esperamos oferecer uma visão geral do País, heterogêneo e que deve ser percebido em todos os sentidos”, explica o curador.
Assim, entre um ambiente e outro da Torre Don Borja, um castelo medieval do século XV que abriga a fundação Santillana - mítico e que dá o toque de  cumplicidade do projeto com o público espanhol -, desenrolam-se os elementos de uma cultura viva, seguindo uma rota que permite o contato com a originalidade étnica, responsável pelo desenvolvimento de manifestações ricas e em constante transformação.
Foto  de Guilherme Rodrigues ( Divulgação) . Caminhada entre velas no espaço da Fé.
                                                             OS AMBIENTES
 Os seis pilares de observação da mostra (a Fé, a Celebração, a Liberdade, a Fome, o Ócio e o Sonho), matizes que sempre influenciaram e continuam influenciando a arte no País, são apresentados em Ressonâncias... em salas temáticas, repletas de experiências sensoriais, que combinam música e instrumentos musicais, obras de arte e artesanato, vídeo, fotos e o próprio ambiente.
Logo no foyer, os visitantes encontrarão uma instalação musical criada por Marco Antônio Guimarães, fundador do grupo Uakti. Nesse ambiente, o artista - com um trabalho especialmente criado para esta exposição - resgata sua própria pesquisa de instrumentos originais.
Em seguida, o público passa ao primeiro espaço, a Fé, onde faz uma caminhada entre velas, símbolo religioso no País. Na sala estão expostas obras de arte, como um São Sebastião Índio, trabalhos do Mestre Didi e de Frans Krajcberg, além de Catavento, de Bruno Giorgi, uma urna maracá e ex-votos.
O segundo ambiente é a sala do Sonho. Inspirada no otimismo brasileiro, o local une a utopia de futuro com o sentido real da palavra saudade. Este tom é criado graças a composições de Tom Jobim e Noel Rosa, de fundo sonoro, e projeções de imagens do fotógrafo Michel Gautherot sobre uma superfície de vidro. Também suscita estas sensações a presença de O Impossível, escultura criada por Maria Martins.
Celebração ocupa o terceiro espaço.Esta faceta notória da cultura nacional é vista pelo prisma do fotógrafo, cineasta e artista plástico Arthur Omar. Ele revela a enorme celebração que acontece no município de Paritins, na Amazônia. A seguir, é a vez do Ócio, traduzido como a capacidade de venerar o nada. Para concretizar essa teoria, imagens de preguiça, passividade e contemplação, captadas por Pierre Verger e que só podem ser desfrutadas se o visitante se  acomodar nas redes espalhadas pelo recinto.
Na seqüência, a Fome, que, na concepção do curador, é o motivo de mudanças, fonte de revoltas sociais e urgência por justiça. Para mostrar o tema, fotos com expressões da miséria e felicidade em meio ao som de Luiz Gonzaga, até a estética da Fome, de Glauber Rocha. E, por fim, a Liberdade, com músicas de Chico Buarque, Geraldo Vandré e Tom Zé, as obras Tudo, do artista plástico Antonio Manuel, e Você Faz Parte II, de Nelson Leiner (texto de Ceci Alves).