domingo, 31 de março de 2013

SOBEM AS PIPAS DE MÁRCIA MAGNO - 22 DE DEZEMBRO DE 1979


JORNAL A TARDE, SALVADOR, 22 DE DEZEMBRO DE 1979

               SOBEM AS PIPAS DE MÁRCIA MAGNO

As pipas ganham os céus sob o comando de garotos maltrapilhos que infestam os bairros populares da maioria das cidades brasileiras. Elas dançam nos espaços sob o comando de verdadeiros malabaristas. São meninos vivos, alegres e brincalhões que fazem os seus pegas onde as únicas vítimas são alguns metros de linha temperada e as arraias que se desprendem das mãos dos vencidos. Uma batalha portanto, onde sobrevive o mais vivo e aquele que tem uma linha melhor temperada. Foi exatamente dentro deste quadro, tão comum e belo, que a artista Márcia Magno foi encontrar o suporte que considerou adequado para realizar sua obra.
Boa observadora, encontrou ainda nas pipas os desenhos feitos sem muita pretensão por aqueles garotos humildes.
Procurou melhorar e a geometria, que aprendera na Escola de Belas Artes da Bahia e o chamamento do social que viveu na Faculdade Nacional de Filosofia do Rio de Janeiro foram suficientes para lhes dar o  estrato necessário e conceber uma obra interessante e acima de tudo vibrante. Suas gravuras ganharam forças e a batalha, pois agora mesmo Foi uma das poucas selecionadas para participar do Salão Nacional de Belas Artes e está expondo na Galeria Macunaíma, da Funarte, no Rio de Janeiro.
Confesso que fiquei contente quando soube da sua escolha e desta nova exposição.
Quando participei do júri no Salão Universitário e Nordestino em 1977 ela estava no grupo Lama, com um trabalho integrado de arte plásticas, música e dança, arrebatou o primeiro prêmio. No ano seguinte no 1º Salão Universitário Baiano de Artes Visuais, concorreu com o Projeto Papagaio 1 e 2, foi agraciada com o prêmio da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Aí apareceram as pipas e o projeto Papagaio realmente trouxe algo de novo à gravura plana.
Assim, o foyer do Teatro Castro Alves foi pequeno para receber as pipas que a todo custo queriam mais espaço. Márcia prosseguiu participando de outros salões e exposições e agora está mostrando suas pipas aos cariocas.

        TRAMA E LUZ DE MARIA ADAIR

A artista Maria Adair volta a expor, desta vez na Galeria do Praiamar Hotel, na Ladeira da Barra. São trabalhos inspirados em corpos humanos e de vegetais. Trabalhos que estão intimamente relacionados com as pulsações da vida no que diz respeito aos movimentos e ás formas sinuosas que encerram os músculos e os órgãos. Um trabalho que reflete sua visão pictórica calcada na necessidade de valorização de tudo que palpita por cima deste universo tão conturbado e tão violento.
As cores são belas e o preto (bico-de-pena) nos oferece um bom contraste com as tintas de várias cores que vão esmaecendo á medida que o preto aparece.
Maria Adair vive exclusivamente de arte. Ministrando aulas de arte nos colégios Maristas e no São Paulo, ou quando está produzindo suas telas em seu atelier. É uma mulher que vive dedicada à sua profissão. Recentemente com mais dois colegas fez toda a decoração natalina do Shopping Center Iguatemi. Nem terminara e já estava completamente envolvida com esta nova exposição. Tem uma força de vontade férrea e já está se preparando para uma bolsa de estudos que fará nos Estados Unidos.
Conheço de perto a obra de Maria Adair que a princípio sofreu uma influência marcante do professor Juarez Paraíso, como muitos outros estudantes que aprenderam com ele a manejar as formas e as tintas.
Mas, aos poucos Adair está se libertando da batuta do mestre em busca de suas próprias manifestações e sensibilidades. Não é uma artista conformada com o que faz ou está fazendo. Agora mesmo está buscando novos horizontes, buscando novas formas de realizar o seu trabalho dentro da temática que elegeu e que vem desenvolvendo há alguns anos. Creio mesmo, que a partir desta exposição Maria Adair começa a delinear o seu próprio caminho em busca do encontro com sua personalidade pictórica, que é uma das coisas mais difíceis para um artista. É aquele momento que você diz este quadro é de fulano. Isto não se consegue de uma hora para outra. E tem ainda o problema d qualidade.
Portanto é necessário buscar o encontro de uma personalidade pictórica com qualidade. Acredito que Maria Adair está chegando lá.

        FERNANDO COELHO EM SÃO PAULO

Obra recente de Fernando Coelho. Foto Google
Da fria programação visual dos anúncios publicitários Fernando Coelho desembocou na pintura onde as paisagens selecionadas eram muito disputadas por colecionadores. De repente o inquieto Fernando resolveu encarar os problemas sociais e sua arte ganhou conotações de uma participação politicamente que não total, um engajamento que aos poucos foi dando lugar a um jogo lúdico de fantasias onde os palhaços se equilibravam em fios ou tocavam bumbos. Era como um protesto de alguém que estivesse cheio das agruras e desperdícios da vida e resolvera entornar o caldo.
Agora o Fernando Volta com outra mostra na Galeria Renato Magalhães Gouveia, em São Paulo, com apresentação do Jacob Klintowitz que em certo trecho afirma. Ele trata de equilibristas, figuras soltas no espaço em pleno momento ou desejo de ultrapassagem. É o seu assunto.
São figuras apresentadas com os personagens da história em quadrinhos, parentes próximos dos comics, São símbolos do homem, humanos no difícil exercício da sobrevivência e ao gesto. Mas, em todas estas pinturas, há um clima de sonho, uma atmosfera onírica, como se o artista contemplasse a realidade com os olhos mágicos de menino. Olhos jovens e esperançosos assistindo os homens no seu vôo que, também, é o vôo do artista em direção ao seu sonho.
Homens sonhando e voando, Ultrapassando obstáculos. Homens sem peso, soltos, libertos, amigos, sonhadores, homens artistas.
Propositalmente transcrevo parte da apresentação do Jacob o qual continua realçando que: Esta habilidade, o saber fazer, já lhe valeu, talvez, algumas restrições. Acredito que as restrições pela coisa bem feita, de boa qualidade é inviável. O que houve e há em certos setores é discordância da ambigüidade em ter uma visão crítica da sociedade da qual ele é um dos grandes beneficiados.
Digo da sociedade bem posta, daquela sociedade ligada ao desperdício e as delícias da vida. Aí é fácil ter uma visão  critica da vida com a barriga cheia de caviar. Mas, é preciso que sua arte seja também vista como uma objetiva fora de uma realidade, uma visão de um sonhador que tenta equilibrar-se numa visão crítica do social e falta-lhe os instrumentos para senti-la. Uma visão de alguém que olha a tragédia que vivem os palhaços e os duendes de uma vidraça e prova de odor, e outras inconveniências, a que estão livres muitos que andam por aí despreocupados com custo de vida e outras coisas mais. Uma visão diria assim colorida e bem feita, mas fora da realidade. É como o olhar de alguém que passa pela Avenida Suburbana num Mercedes e fica encantado com os casebres rústicos e miseráveis que vão desfilando no vidro fechado, refletindo na lente do seu Ray-Ban francês.

            CRÍTICO DE ARTES VENCE CONCURSO


O critico  Walmir Ayala foi o vencedor do concurso de monografias sobre o artista plástico Vicente do Rego Monteiro, com o trabalho Vicente Inventor, promovido pelo Instituto Nacional de Artes Plásticas da Funarte. O prêmio consiste na publicação do trabalho além de CR$30mil em dinheiro.
A comissão indicada para a seleção de estudos, com um mínimo de 90 páginas, realizados por críticos, pesquisadores e interessados pelo desenvolvimento das artes plásticas no Brasil, foi formada pelo diretor do INAP e mais quatro críticos. João Vicente Salgueiro, como Diretor do INAP, foi o presidente da banca composta por Antônio Bento de Araújo Lima, Antônio Alves Coelho, Ruy Sampaio Silva e Geraldo Edson de Andrade.Durante a reunião de seleção dos trabalhos foi sugerida a realização de uma retrospectiva da obra de Vicente Rego Monteiro.
Os melhores do júri, em seus votos qualificados deram as seguintes opiniões sobre o trabalho, identificado sob o pseudônimo de Aldebará, que acabou saindo vencedor:
Antônio Bento- É um trabalho difícil que analisa diversas obras do artista.
Antônio Coelho- A monografia de Aldebará (Walmir Ayala) é a mais completa, a mais detalhada e a mais interessante pois enfoca melhor vários aspectos interessantes do pintor.
Ruy Sampaio-Aldebará empregou uma boa metodologia apesar do resultado final do trabalho apresentar algumas falhas.
Geraldo Edson- o autor apresenta grande acúmulo de informações sobre um artista que nunca foi estudado e a respeito do qual não há bibliografia. Daí vem o mérito do trabalho que não precisa ser o ideal. Basta que seja o melhor, apesar de algumas ressalvas.