terça-feira, 5 de março de 2013

EM MOMENTO DE CRISE É PRECISO CRIAR E MUDAR - 25 DE MAIO DE 1981

JORNAL A TARDE, SALVADOR, 25 DE MAIO DE 1981

EM MOMENTO DE CRISE É PRECISO CRIAR E MUDAR

É hora de botar a cabeça para funcionar. O dinheiro está curto e está provado que as pessoas só investem em arte quando o artista pela qualidade de sua obra assegura um lucro futuro ou quando as pessoas têm dinheiro disponível  e resolvem comprar uma obra de arte.
Tem aqueles que compram obras para enfeitar salas e salões, mas estes compram qualquer coisa. Não podem ser levados em conta. A verdade é que a obra de arte não é, infelizmente, um artigo de primeira necessidade e por isto o movimento vem caindo assustadoramente em todos os locais. Tenho acompanhado com certa apreensão os leilões, as exposições realizados aqui e em outras praças, tenho conversado com colecionadores, artistas e donos de galerias e todos se queixam: dos preços altos ou da falta de movimento.
Diante desta situação temos é uma verdadeira crise e que nossos burocratas costumam camuflar com o sofisticado vocabulário do economês chamado de desaquecimento. A verdade é que este tal de desaquecimento está provocando o esfriamento em importantes setores financeiros e também culturais de nossa sociedade.
Mas, é preciso criar e mudar. É preciso entender que podemos fazer quadros mais baratos, menores, quadros estes que poderiam ser adquiridos a preços acessíveis por consumidores da classe média. É preciso que a elitização da arte seja um pouco afetada com medidas criativas e democráticas. É preciso sair dos atelieres, que são verdadeiros castelos indesejáveis para as ruas, para as galerias mais populares e convocar aqueles que gostam de arte. Os preços cobrados por alguns artistas, inclusive os sem muita qualificação, estão sempre aquém de qualquer consumidor de classe média. São preços que dão falsos status.
E assim ele vendem pouco, trabalham pouco e ganham muito. Quando a arte devia ser consumida por um maior número de pessoas se tivesse um preço razoável.Mas nada disto acontece.
Arbitram preços inacessíveis. Prefiro não citar nomes evitando desta forma áreas de atrito. Porque gostam da extorsão e quando mostramos atitudes deste tipo; as pessoas ficam espinhadas e não gostam de assumir de público. O que está ocorrendo com o mercado de arte, está também ocorrendo com outros produtos, a exemplo do mercado de discos. Segundo as últimas estatísticas, o brasileiro está comprando pouco mais da metade do que comprou no ano passado. Portanto, uma retração perigosa. Também neste setor os produtores insistem em fazer somente long-plays caros que custam quase dez por cento do salário mínimo ou álbuns sofisticados. Também se distanciam do público, da massa, como acontece com os artistas plásticos. Bastou fazer duas ou mais exposições que os preços são arbitrados a níveis inimagináveis. Ou o  mercado de arte se adapta à nova realidade nacional ou as nossas pobres galerias terão que vender balas e doces ao invés de obras de arte.

   AS MULHERES DE ANITA DANTAS

Desde ontem que a Galeria Panorama apresenta uma nova exposição de Anita Dantas. Desde sua primeira exposição, quando tateava os pincéis e as telas que venho acompanhando de perto o trabalho desta artista.
Creio que nesta exposição apresenta uma coisa muito positiva que é o seu crescimento. As figuras estão mais soltas e não tão delineadas. A preocupação com a forma pronta foi deixada de lado e surgiram as manchas indicando formas humanas, não necessariamente definidas por contornos fortes.Confesso que gostei muito dos novos quadros de Anita Dantas os quais tive a oportunidade de apreciá-los em sua residência, mas também notei que as figuras estão tristes e em quase sua totalidade são mulheres com caras de baianas.As cores são forte e exuberantes e contrastam com as fisionomias passivas e cansativas. Mas Anita Dantas é uma tranqüilidade de pessoa e as figuras refletem exatamente a sua personalidade. Ao lado de seu esposo atencioso e incentivador de sua obra a artista vai criando seu mundo mágico cheio de ingenuidade. Lembro-me das bonecas que expôs. Tenho grande afeto belas bonecas e pelo que representam para as meninas, e, agora, surgem as figuras de mulheres pensativas. Vamos em frente.

   AUTO-RETRATO DE PABLO PICASSO

Nova Iorque – um auto-retrato pintado por Pablo Picasso em 1901 foi arrematado em leilão público da Sotherby’s de Nova Iorque, por 5,3 milhões de dólares, maior preço pago por uma obra de arte do século XX.
Só outras três obras foram vendidas por somas maiores: Julieta e Sua Ama de Leite, de Turner, 6,4 milhões; Juan de Pareja, de Velásquez, 5,5 milhões; e Sansão e Dalila, de Rubens, 5,4 milhões. O quadro de Picasso intitulado Auto Retrato, Eu, arrematado por um colecionador norte americano mostra o pintor de camisa branca e lenço vermelho no pescoço e foi terminado pouco depois da chegada do pintor a Paris procedente da Espanha.
O segundo maior preço no leilão da Sotherby’s  de ontem à noite foi de 2 milhões de dólares pago pelo quadro Dois Jovens Lendo, Renoir, por um colecionador europeu.


SINISCA VOLTA AO BRASIL E EXPÕE NA GALERIA PORTAL

Artista consagrado em todo o mundo Fábio  Sinisca é conhecido por sua versatilidade no que se refere a arte. Pintura,escultura,cerâmica,jóias e gravuras.É o que se pode dizer, um artista completo. Há dois anos afastado do Brasil volta agora para apresentar sua obra completa na Galeria Portal, 11 de maio.
Sinisca começou a ser conhecido no Brasil a partir de sua primeira exposição na Galeria Azulão,. São Paulo e um ano mais tarde no MASP, em 1973. Antes disto, realizou mais de 70 individuais por todo o mundo e participou de 300 coletivas. Natural de Napólis, transferiu-se para Roma aos 18 anos onde ainda reside até hoje num elegante bairro italiano. Começa a trabalhar numa firma de computadores, passando depois para IBM internacional. A partir daí divide-se em duas atividades: os computadores durante o dia a sua inata vocação artística à noite. Sua produção de quadros, esculturas, desenhos e gravuras, chamam a atenção da crítica italiana e é convidado a realizar a sua primeira individual em Capri. Depois disso a sua ascensão é inevitável, o governo espanhol lhe oferece uma bolsa de estudo, sendo escolhido entre todos os artistas italianos. Em 1955, a primeira individual em Roma, quando obteve o Prêmio Regional de Roma. Dois anos depois, individual em paris, Alemanha, por toda a Europa. Sua arte já transpõe fronteira e o Velho Mundo já o consagra como grande revelação artística do século. É chegada a vez da América. Através da IBM Internacional, com sede em Nova Iorque participa de uma coletiva na mesma cidade. Quando resolve dedicar-se exclusivamente à pintura, deixando suas outras atividades artísticas um pouco de lado. Em busca de inspiração , estudos e pesquisas parte para uma volta ao mundo sem jamais cessar suas atividades, colabora periodicamente com revistas especializadas escrevendo e ilustrando artigos como: A Máquina Romântica do Século XX, artigo que fala do inserimento industrial na para a Revista Civilta Della Machine , Roma. Retornando aos Estados Unidos realiza inúmeras individuais em Nova Iorque, Chicago, Palm Beach e outras. Recebe também várias encomendas de firmas multinacionais para confeccionar painéis decorativos e eletrônicos. Na IBM de Milão pintou Elementos de Eletrônica; no Banco de Roma; Centralização Eletrônica.
Sua inspiração pictórica é ligada em particular ao mundo da indústria nuclear e eletrônica , do que se aproveita da experiência dos 7 anos trabalhando na IBM.

O HOMEM, A OBRA

Na verdade , tudo aquilo que faço é uma coisa só. Um quadro meu se prolonga numa escultura e termina no colo de uma mulher ou no pulso de um homem. Há muita unidade entre minhas pinturas, esculturas , jóias e cerâmicas.
Sinisca quando de sua mostra
em Salvador-Bahia
As esculturas de Sinisca são feitas de acrílico transparente, prata ou ferro coberto por uma fina camada de prata. Houve uma época em que trabalhava durante o dia – IBM- e pintava à noite. Hoje, vive só da arte que produz. Em seus estúdios em Roma e Nova Iorque. Não critica a indústria e a tecnologia em seus trabalhos, ao contrário aproveita o tema em suas telas, jóias e cerâmicas. Sinisca mostra os quadros, as escultura, jóias, esculturas cerâmicas numa sucessão de movimentos uniformes, geométricos , simples. Diz  que para aprender a pintar levou 25 anos, para fazer escultura 3 anos, e para as jóias e cerâmicas três meses. Sua pintura é um conjunto de formas abstratas, no centro da tela várias linhas curvas convergindo para o centro.
Olhando com mais atenção o espectador percebe que as formas não são tão abstratas e descobre as silhuetas de alguns arranha céus.As esculturas são ao mesmo tempo simples e complexas: formas retas, finas e estritas que o espectador vai reunindo com total liberdade criando um bloco que o autor prefere chamar de Módulo -Objeto. Essas formas , tem um eixo central que se sustenta numa base de acrílico, mas pode também permanecer sobre qualquer superfície lisa, bastando habilidade e um certo conhecimento de equilíbrio e espaço. Esta escultura pode virar múltiplo e móbile suspensa no teto. Com a vantagem que as pessoas se entusiasma e começam a fazer sua própria obra. E é isto que Sinisca quer. Um arquiteto italiano amigo meu, através de um cálculo de análise combinada simples, chegou a conclusão que minha  obra pode ser reproduzida até 518.919.400 vezes As jóias tem as mesmas formas das esculturas e também permitem as mesmas combinações. Sinisca pode se orgulhar dos nome famosos que tem uma jóia, um quadro, uma escultura ou cerâmica com sua assinatura: Brigite Bardot,Barão Edmond Rothschild e muitos outros.
Segundo o crítico Murilo Mendes, que o apresentou na exposição do MASP em 1973, a pintura de Sinisca pressupõe uma evolução consciente, fértil de proposta positiva e se concilia com dados concretos.
O substrato romântico é superado por uma organização plástica não convencional que faz apelo freqüente a recurso de criatividade. A obra maior do consagrado artista plástico Sinisca esteve em exposição da Galeria Portal.