domingo, 10 de março de 2013

A ESCULTURA AQUÁTICA QUE WASHINGTON LEVARÁ AO RIO - 10 DE NOVEMBRO DE 1986


JORNAL A TARDE, SALVADOR, SEGUNDA-FEIRA, 10 DE NOVEMBRO DE 1986

ESCULTURA AQUÁTICA QUE WASHINGTON LEVARÁ AO RIO

Os tubos plásticos coloridos darão
maior beleza à praia
O escultor Washington Santana é um desses artistas inquietos que enfrenta dificuldades com postura de um poeta. Rompe montanhas, rios e mares em busca de um objetivo. Às vezes até vai em locais onde a grande maioria das pessoas não se atreveria. Basta dizer que recentemente passou dias e dias enfrentando o mau cheiro do lixão de Canabrava, conviveu com os badameiros, aquelas pessoas que vivem dos restos da comunidade. Agora o artista está metido da cabeça aos pés num projeto grandioso. Ele pretende colorir uma praia do Rio de Janeiro com tubos de seis metros de comprimento, com sessenta centímetros de largura em 11 cores diferentes. Serão utilizados 25 mil tubos que ele está conseguindo com algumas empresas do Pólo Petroquímico.
Os tubos serão presos por 30 mil metros de fitas de nylon e ficarão dispostos a uns 70 metros da praia para evitar qualquer transtorno aos banhistas. A exposição terá a duração de 18 dias e o artista prevê que vai demorar cinco dias para armar os tubos e mais quatro para retirá-los. Ele acredita que os tubos funcionarão como uma verdadeira esteira colorida e móvel, bailando ao sabor das marés.
Ele espera instalar uma iluminação especial que também será movimentada, tipo um desses canhões utilizados em iluminação de shows em teatros, a qual ficará passeando por sobre os tubos, dando uma bela imagem visual.

MUITAS DIFICULDADES

O escultor Wasghinton
Lembra Washington Santana que este final de século assiste uma mudança radical no conceito e nas suas formas de produção. A arte deixa de ser uma memsagem do indivíduo para indivíduo, estabelecendo novos padrões de linguagem e ganhando novos espaços e dimensões.
Daí, partir para experiências mais arrojadas, tentando não só surpreender pela ousadia das formas, mas também pelos objetivos que pretende produzir, os quais extrapolam os limites até então concebidos.
Quanto a área deste projeto está completamente identificada com essas novas tendências onde as obras de arte se agigantam e ocupam os espaços urbanos em intransigentes e surpreendentes formulações. Inicialmente, vou expor no Rio de Janeiro, mas, também, espero trazer esta escultura que se movimenta ao sabor dos ventos e das marés para a nossa Bahia a fim de que todos vejam o meu trabalho. Para se ter uma idéia do seu esforço em realizar este trabalho devo dizer que ele não está auferindo qualquer lucro com sua realização. É simplesmente a sua vontade de criar, de enfrentar dificuldades em busca da realização como artista, e acima de tudo, desempenhar o seu papel dentro da sociedade.


O PROJETO

A esteira tubular colorida de Washington Santana terá cerca de quatro quilômetros de extensão, cada tubo ficará cerca de um metro do outro, permitindo a geração de novas formas nos diversos momentos do dia, na variação dos níveis de temperatura e intensidade da luz, irão aguçar mais os olhares dos espectadores.
Além da possibilidade do objeto ser observado em vários campos visuais, o espectador vai poder participar ativamente tocando-a e modificando a posição dos elementos que desejar. O que Washington busca é a participação do público num jogo lúdico e diuturno.
Ele batizou o seu Projeto de Aquabella e espera que não se esgote na exposição por sobre as águas do Atlântico. Para isto pretende, paralelamente, a montagem da exposição gravá-la num vídeo tape, em todas as suas etapas. Do documentário constarão ainda uma entrevista com o autor e também pequenos flashes com pessoas que estiverem observando o objeto. Posteriormente irá exibir o vídeo em universidade, centros de cultura e galerias de arte.
Uma das pessoas que está apoiando o projeto é Geraldo Araújo, da Polipropileno, além de executivos da Polialden e da CPC. Mas, estas empresas não bastam para a concretização do projeto. È preciso o apoio de outras empresas para que Aquabella seja uma realidade.

GAROTA MELADA 87 VEM DEBOCHAR OS PRECONCEITOS

Hedi Lamar com traços vigorosos na sua luta
contra preconceitos
Preocupada com os preconceitos que amarram e prejudicam o relacionamento entre as pessoas Hedi Lamar estendeu sua proposta plástica.Inicialmente, abordou a relação sexual e toda a gama de dificuldades que as pessoas enfrentam para por em prática este tipo de relacionamento. Agora volta a artista a expor na Galeria do Aluno, na Escola de Belas Artes, denunciando o machismo na sociedade brasileira e para isto criou um tipo chamado de a Garota melada 87, numa versão debochada em cima do abuso da publicidade que utiliza demais o corpo da mulher, e também, os concursos fajutos, que se multiplicam por aí, atraindo muitas jovens. Acredita Hedi Lamar que tudo isto influencia no comportamento da mulher, principalmente na sua relação com a sexualidade.
A pequenina Hedi Lamar mostrará três grandes painéis e uma escultura em relevo, que é a Garota Melada 87, onde utilizou tintas de acrílico sobre telas, isopor, tecidos e folhas de compensado.
Com traços vigorosos, acompanhados de outros mais claros, Hedi Lamar em poucos gestos compõe as suas obras. São figuras atléticas que  contrastam exatamente com a fragilidade da própria artista. Se alguém que não conhece a artista fosse fazer alguma especulação sobre quem seria o autor dessas obras jamais deixaria de descrever que o artista deve ser um jovem de corpo atlético, que gosta de ginástica, ou coisa parecida. Nada, aparentemente o levaria a esta jovem, pequenina e frágil,porém, muito forte em expressividade.
Hedi Lamar vai expor de hoje até o próximo dia 21, e certamente, a sua Garota Melada 87 será uma atração á parte na programação desta semana no movimento plástico de Salvador.

     DILSON OLIVEIRA EXPÕE

O artista Dilson Oliveira
Ao fundo um elemento fincado ao chão, e no primeiro plano, folhas brancas semelhantes a folhas de papel em movimento, querendo livrar-se de um laço pintado em cor escura.
Examinado esta obra de Dílson Oliveira me vem a mente a ideia de liberdade. Certamente ele traz dentro de sua concepção plástica a necessidade de discutir, de viver, das liberdades dentro de uma visão geometrizante.
Abandonou o figurativo em busca de formas mais livres, evitando que suas idéias e suas emoções ficassem limitadas ás linhas que delimitassem figuras. Tudo feito dentro de um rico espírito de liberdade, e o próprio gesto para a criação das formas geométricas nos leva a esta sensação, principalmente, quando surgem elementos que se movem em busca de outros espaços. Dílson está expondo no Restaurante Bom Vivant, que fica na Barra, e que, hoje, é mais um espaço para os novos artistas baianos.