terça-feira, 26 de março de 2013

A PRIMEIRA DAMA DA PINTURA NO BRASIL - 02 DE JUNHO DE 1979


JORNAL A TARDE, SALVADOR, 02 DE JUNHO DE 1979

           A PRIMEIRA DAMA DA PINTURA NO BRASIL

Menina com Flores,Djanira,
pertencente ao MAM-BA
Djanira da Mota e Silva, a pintora Djanira, A grande dama da pintura do Brasil, morreu dia 31 passado de madrugada, de parada cardíaca aos 65 anos no Hospital Silvestre, no Rio, onde fora internada no início da semana.
Djanira, que na mocidade foi tuberculosa, era diabética, sofrera cerca de vinte operações, duas delas do coração em 1975, há quarenta anos vinha vencendo a morte.
Era casada com o crítico José da Mota e Silva e não tinha filhos. O enterro aconteceu ontem no cemitério Jardim da Saudade, no Rio. Seu último desejo era ser enterrada descalça com o hábito das Carmelitas, que recebeu em 1972.
Djanira Motta da Silva, (Djanira Job Pliger Paiva) nascida em 1914, em Avaré, região cafeeira do Estado de São Paulo, foi levada ainda criança para á cidade de Porto União, na divisa do Estado do Paraná e Santa Catarina, onde cresceu em contato com a natureza e o trabalho rural.
Em 1930, retorna a Avaré e pouco tempo depois casa-se, indo residir no Rio de Janeiro.Desde os 18 anos no Rio de Janeiro, antes de dedicar-se inteiramente á pintura, Djanira foi dona de pensão e costureira. Seu encontro definitivo com as artes ocorreu quando doente, internada em São José dos Campos, ocasião em que era obrigada a entreter-se no repouso a que se via obrigada a cumprir. Seu primeiro desenho, segundo se registra, foi um Cristo na Cruz, que ela conservou até o fim de sua vida.
Djanira com seu cão dálmata

Quando dona de pensão, no bairro de Santa Teresa, no Rio, as paredes de seu quarto eram cobertas de desenhos feitos de memória, das coisas que mais a impressionavam.. O pintor romeno Emeric Marcier, seu hóspede,impressionado com seu talento, ofereceu-se para seu professor durante cinco meses, mas depois disso ela preferiu seguir seu caminho sozinha.
Construindo rapidamente sua carreira, estreou em 1942 no Salão de Belas Artes, expondo a primeira fase de sua vida artística com os quadros Passo do Aleijadinho, Crucificação, Capela do Padre Farinha, Crianças na Neve, Criança na Varanda. Entre 1945 e 1947, esteve nos Estados Unidos, quando aproveitou a oportunidade para, em contatos com grandes mestres internacionais, fazer evoluir sua pintora.
Quando voltou, passou a realizar constantes viagens pelo Brasil, à procura de temas para suas obras. Em 1950 já era uma pintora consagrada.
Nenhum outro artista nacional terá fixado melhor do que ela a fisionomia do Brasil e dos brasileiros. Camponeses, pescadores, vaqueiros, operários, índios, negros, mulatos e brancos são as personagens de sua obra, povoada também ás vezes por santo católicos e orixás africanos.
Dela disse a estudiosa Thereza Cesário Alvim: uma artista, a vida inteira apaixonada por um único tema: O Brasil.
Sou essencialmente formalista em pintura disse certa vez Djanira, parto para esse formalismo da realidade por mim vivida, sentida, absorvida. E esta realidade é o Brasil é a minha Geografia, que as viagens ao estrangeiro não destruíram. Refiro-me á realidade num sentido amplo: local, universal, político, social e até abstrato Como as cores, a realidade é um jogo sem fim.
Djanira definiu a pintura dizendo que não é uma palavra abstrata, ao sabor de momentâneas inspirações. É lealdade social e compromisso. Para ela, inspiração não é método de trabalho.
Estimo a técnica que se usa no quadro, gosto da atividade silenciosa, da luta íntima frente à vida. E lembrou que a arte brasileira, quando comecei, a pintar, ainda tinha muito de uma natureza morta francesa, de soneto difícil de ser traduzido.
Djanira, neta de índio e filha de austríaca, também foi seduzida pelas cidades coloniais e pelas variadas paisagens que visitou pelo país, como as do Maranhão, Santa Catarina, as praias do litoral fluminense e as montanhas de Minas Gerais. Parte do que realizou em quarenta anos de carreira pode era apreciado recentemente numa pequena retrospectiva do Museu de Belas Artes do Rio: 122 pinturas, 70 desenhos e gravuras e uma tapeçaria cronologicamente dispostos em nove amplas salas.
O que ela pinta é sincero, profundamente sentindo disse o crítico Roberto Alves Correa, e denota tendências líricas invulgares. E há poesia sem sua arte, algo de verdadeiro que comove e externa a realidade da alma. De suas realizações depreende-se algo incorrupto, cândido e justo.
Entre os incontáveis episódios que marcaram a vida da pintora, o que a deixou imensamente feliz foi saber, em 1971, que seu nome passava a pertencer à maior pinacoteca sacra do mundo, no Vaticano. O papa Pio XII iniciara a formação de uma pinacoteca sacra com os maiores nomes da arte contemporânea e o Vaticano, decidido a retomar o trabalho,  encomendara obra de alguns artistas brasileiros, lista encabeçada por Djanira.


Outros três episódios lhe trouxeram aborrecimentos. O da localização de quadros seus falsificados, em 1968, e antes disso, em 1964, quando foi presa para averiguações, e em 1965 quando foi impedida de entrar nos Estados Unidos.
No caso dos quadros falsificados, foi à polícia. No da prisão, disse que só viajou a países socialistas por questões artísticas.
Quanto à proibição de entrar nos Estados Unidos, a dura e imbatível Djanira, como foi chamada, disse que só voltaria a entrar naquele país se lhe pedissem desculpas, o que foi feito.
Muitos dos quadros de Djanira estão em exposição no exterior, inclusive no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque.
Em novembro de 1978 ela participou de exposições em Viena e Paris, com grande sucesso e sua última apresentação no Rio foi em 1977, no Museu Nacional de Belas Artes. Seu último trabalho, segundo Flávio de Aquino, seu amigo há mais de 39 anos, foi um tríptico de 180 graus da Baía da Guanabara visto do seu apartamento.