terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O IMPRESSIONISMO E A PAISAGEM FRANCESA - 17 DE JUNHO DE 1985


JORNAL A TARDE SALVADOR, 17 DE JUNHO DE 1985

  O IMPRESSIONISMO E A PAISAGEM FRANCESA

Le Dejeuner, 1873/1974 , obra de Claude Monet, Museu d'Orsay
Paris ( Via Varig ) O estrondoso sucesso da exposição Impressionismo e a Paisagem Francesa marca o ano da França no terreno das Artes Plásticas. Desde a sua inauguração até o seu recente fechamento, a mostra deslumbrou 450 mil pessoas, entre franceses e turistas de todo o mundo. Filas intermináveis se formaram em torno do Grand Palais, o espaço nobre das exposições em Paris, no começo dos Champs Elysées, numa média de sete mil visitantes por dia. O inesperado afluxo provocou até uma greve dos funcionários encarregados da mostra, que se julgaram afinal mal remunerados face á renda obtida. Apresentada anteriormente em Los Angeles por ocasião dos Jogos Olímpicos de 84 e depois em Chicago, a pintura do final do Século XIX voltou ao seu país de origem e apagou o brilho da Nova Bienal de Paris, que reunindo trabalho de 120 artistas contemporâneos de 23 países, pretendia ser o acontecimento do ano.
Em um mês e meio de inaugurada, conseguiu atrair pouco mais de 100 mil pessoas.
Foram ao todo 125 telas, representadas por artistas que participaram de uma ou várias exposições impressionistas entre 1874 e 1886, constituindo um importante conjunto de obras, executadas por nomes como Monet, Pizarro, Sisley, Renoir, Boudin, Bazille, Caillebotte, Berthe Morisot e Guillumin. A estas foram adicionadas telas pintadas por Manet e outros artistas habitualmente considerados como pós impressionistas: Cézanne, Gauguin, Bernard, Van Gogh, Seurat, Signac e Cross.
A exposição foi montada de maneira a sobretudo ressaltar que as paisagens impressionistas são mais complexas do que a facilidade de entendê-las a uma primeira visão. Se durante muito tempo o destaque foi dado apenas à originalidade de sua técnica, em detrimento do seu valor artístico, os impressionistas, longe de serem indiferentes, escolheram, pelo contrário, seus motivos com atenção e criaram paisagens onde se equilibram uma imagem tradicional da França e elementos novos do progresso industrial que modificaram a fisionomia da paisagem francesa e em consequência introduziram a “modernidade” na pintura.

SALÃO DOS REJEITADOS
O movimento que mais tarde ficou conhecido como Impressionismo teve início em meados do século passado (1860-65), quando um grupo de pintores ligados à Escola Francesa abandonou os princípios tradicionais e clássicos da paisagem histórica e o aspecto pitoresco da paisagem romântica por uma visão mais próxima da natureza. Esta rejeição às convenções acadêmicas chocou o estado francês, que não reconhece a manifestação. Os críticos da época também não aceitam essa nova proposta de uma pintura e simples, por isso  às vezes banal. O movimento deve seu nome a uma tela de Monet, chamada Impressões, de 1872. Dois anos mais tarde, em 1874, aconteceu a primeira grande exposição impressionista, denominada Salão dos Rejeitados.
O auge do Impressionismo vai de 1875 a 1885. Neste período, os pintores, amigos, realizavam suas obras em grupo, geralmente sobre o mesmo tema em estações diferentes, razão pela qual existe uma forte semelhança entre as telas. A grande revolução estava em pintar a paisagem por ela mesma, verdadeira, e o mais próximo possível da realidade, e não mais como pano de fundo: os personagens passaram a ser elementos secundários nas telas. A dificuldade de transporte neste período faz com que os artistas não se distanciem de Paris, assim são comuns os quadros pintados ao longo do Sena e em vilas próximas á capital, como Barbizon, Mariotte e Chailly-em-Bière.
Entre elas, destacam-se de Claude Monet, o precursor do Impressionismo: uma atmosfera colorida, plantas, reflexos de vilas e pontes nas águas de riachos, portos, fumaça de vapores, jardins privados e públicos. Os personagens não são colocados ao centro dos quadros, mas retratados de costas, por exemplo; o lado nostálgico das paisagens vazias de Alfred Sisley; Camille Pissarro: cenas da vida parisiense (pintava da janela do Hotel de Louvre), campos e camponeses, pessoas que trabalham; Renoir, tido como o maior nome do Impressionismo: A pintura mais habitada, sobretudo mulheres e seu vestuário. Cores mais fortes, com o vermelho característico; Paul Gauguin, um pintor marginal; Emile Bernard com seu geometrismo e a partida para a pintura cubista do século XX.
De Cézanne, as mais belas telas de exposição: não se interessou por personagens; paisagens puras, solitárias, vilas desertas; a pintura trabalhada (uma única tela) do holandês Van Gogh, que se naturalizou francês e morou na região da Provence, no Sul, onde morreu louco. O período de 1885-90 assinala o final do movimento, quando os artistas se dispersaram por várias regiões da França. Mudança não só de lugares (Normandia, Bretanha), de temas-ondas do mar, litorais, barrancos, falésias mas também de técnica: fragmentação das cores para dar detalhes aos objetos. Uma divisão de toques chamada “pontilhismo”, um lado mais fixo e imóvel da paisagem, do qual os expoentes são Seurat e Signac. (Texto de Eduardo Jasmin Tawil)

RETROSPECTIVA DE AUGUSTE RENOIR

Paris (AFP) Mais uma centena de obras de Auguste Renoir, o pintor francês mais popular de todos os que simbolizaram o “Impressionismo”, foram expostas por mais de três meses, no Grand Palais de Paris, numa grande retrospectiva patrocinada por três grandes museus mundiais e pela ajuda generosa de coleções públicas e particulares. Incluídas da América Latina.
La Grenouillere, uma das obras expostas de  Auguste Renoir
Entre as obras que demonstram a contribuição de Renoir ao movimento impressionista e que constituem a chave da sua evolução estilística dos anos 1870/80 figuram nesta retrospectiva o seu admirável palco, propriedade da Galeria Courtauld, de Londres, La Parisiense, do Museu Britânico de Cardiff, um Estudo do Nu e O Columpio , pertencentes e expostas permanentemente no Museu e de Jeu de Paume de Paris.
Mas, como a cronologia tem a sua razão de ser e no caso de Renoir mais particularmente, convém começar a visita da mostra por suas obras dos anos 70, bem antes de que ulcerado pelo academicismo reinante decidisse incorporar-se ao Grupo de Claude Monet e Pissaro, as duas cabeças visíveis do impressionismo em 1874.
São estas as suas obras da juventude: O Cabaré da Tia Antony'm ,Os Noivos, Verão, e La Grenouillere (Chargo de Rãs), nome que Renoir deu ao famoso balneário da Ilha de Croissy, nas imediações de Paris, e são as que, muito depois dele deixar de ser pintor de flores ou de repetir interminavelmente em pratos de porcelana o perfil da rainha Maria Antonieta, rememoram aquela época.
La Grenouillére, que teve em suas origens três versões, esta representada nesta exposição por duas delas, propriedade dos museus de Estocolmo e Puschkin de Moscou.
Bem diferentes uma das outra, as duas têm uma característica comum- a luz e os tons verde-azuis quebrados por alguns toques de cor viva- e que já são o prenúncio da nova tendência do pintor.
Argenteuil, a Meca do Impressionismo, surge em suas Regatas de 1874 e é, por sua maneira de tratar os reflexos da paisagem na água, uma das particularidades, talvez a origem, do que seria a principal característica dos seguidores de Monet, cujo Sol Nascente um brilhante e alaranjado amanhecer normando com o sol refletido no mar e hoje considerado como o catalizador da nova escola.
É necessário lembrar que se a geração impressionista nasce entre os anos 1830 e 1841 (Pisarro em 1830 , Manet em 1832, Degas em 1834, Cézanne e Sisley 1839, Monet em 1840 e Renoir, Azille, Guillaumin e Berta Morisot em 1841). Nenhum destes “inovadores” da pintura tem um traço em comum até 1860 e Renoir, em particular, pelo menos até 1871/72, e mais sensível a “maneira” do naturalista Manet do que as novas teorias do grupo de Argenteuil. Dessa época datam sua Parisienses Vestidas de Argelinas espécie de transposição das Mulheres de Argel, de Delacroix, onde Renoir procurou descobrir as perdidas técnicas pictóricas dos mestres venezianos e de Rubens.
As Senhoritas Cahen de Antuerpia, do acervo do Museu de Arte de São Paulo (MASP), precede de muito pouco a década de 80, singularmente representada por um dos mais famosos e conhecidos quadros do pintor, O Almoço dos Barqueiros. Em As Senhoritas... aparece pela primeira vez a sua futura mulher, Aline Chariot, um de seus modelos favoritos com a sua prima e governanta Gabriela Renard.