quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A METAMOFORSE ENRIQUECE OS PERSONAGENS DE CALÁ -11 DE NOVEMBRO DE 1985.


JORNAL A TARDE, SALVADOR, 11 DE NOVEMBRO DE 1985.

A METAMOFORSE ENRIQUECE OS PERSONAGENS DE CALÁ

Obra Transformando os Habitantes.
 Um pássaro com cara de gente
A ideia de enfocar a metamorfose dos imaginários habitantes da Lagoa do Abaeté Itapuã, onde pássaros tem cara de gente e a saudosa baleia, que encalhou á alguns anos na praia aparece em múltiplas formas, é realmente sensacional. E, neste tabuleiro baiano, onde tudo se mistura, Calasans Neto derrama a sua criatividade e o seu lado afetivo de ver as coisas deste pedaço da cidade da Bahia. O colorido é exuberante, afinal estamos num País Tropical, onde a luminosidade encanta o visitante, embora muitos de nós não se apercebam desta dádiva dos deuses brancos e pretos.
Certamente que ao pintar Calasans Neto é acima de tudo um gravador. Prefiro suas gravuras, principalmente para traduzir estes seus momentos diante da própria terra, que é o seu espaço vital. Como um velho comandante de binóculo em punho o mestre Calá divisa seus personagens que podem figurar em qualquer capa de um livro de cordel. Suas telas formam. Uma verdadeira estória em quadrinhos, destas que encantam as crianças e mesmo muitos adultos.

                                                                       AMIGO DOS ANIMAIS

Calasans pensando em
seus personagens

O artista é amigo das aves noturnas que voam ao redor de Abaeté das cabras e ainda conseguem sobrevier comendo as folhas das poucas árvores que ainda resistem a sanha devastadora dos homens, e das baleias que sumiram das águas de Itapuã, mas que Calá insiste em retratá-las. Ele guarda a imagem que uma baleia que encalhou na praia e cuja ossada, hoje, enfeita alguns bares e botecos da orla marítima. E uma ligação muito sentimental do artista com os elementos terra, água,fogo, e principalmente a água, quer de Abaeté ou do mar. Por outro lado, este registro , mesmo com uma predominância presença do imaginário é como se fosse – um documentário – de uma dessas histórias contadas de boca em boca, que as poucos vão recebendo contribuições externas, e mesmo perdendo alguns elementos. Ao final, estão parcialmente modificadas. E o registro de uma  alma que existiu e que aos poucos a gente lembra apenas do ouvir dizer. Há aqui tinha um pássaro! Lagartos, cotias, pequenos jacarés e outros bichos. Calá é um inconformado com a sanha destruidora, e assim , se enturma com seus bichos com cara de gente.
Acredito que a gente é a mesma que no dia a dia brinca e saúda este sujeito brincalhão e amigueiro. É muito bom que Calasans Neto continue cultivando os animais este seu mundo imaginário. Aqui eles são preservados e retratados voando ou nadando ao alcance dos predadores. O artista os protege numa redoma criativa para que este paraíso não seja ultrajado pelos homens diabos.E, Calá é dono absoluto deste paraíso, planeta solitário que integra estes cosmos iluminados pelo cometa de Halley,embalado pelos sons maviosos das aves noturnas.

  ARTISTAS LUTAM POR UM ESPAÇO NO RIO VERMELHO

O painel pintado pelos artistas no tapume do terreno
Existe uma vontade firme de alguns artistas e intelectuais em criar um espaço cultural no bairro do Rio Vermelho, tão decantado como o bairro dos intelectuais, mas que na realidade só alguns moram por lá e não existe nada que os reúnam. Porém, inconformados com este vazio cultural alguns artistas encetaram um movimento tentando que os órgãos governamentais desapropriasse uma velha fábrica de papel. O movimento empacou porque no estudo que realizaram chegaram a conclusão que o prédio não tinha qualquer valor histórico, e mesmo outras razões desaguassem numa atitude deste nível. Diante disto os artistas acabaram por descobrir outro espaço bem próximo a velha igrejinha de Santana. Um terreno baldio, que agora está cercado de tapumes,onde certamente pretendem erguer mais um daqueles monstrengos que tanto enfeiam a orla marítima. Tão logo tomaram conhecimento desta decisão alguns artistas se mobilizaram e transferiram aquela força em prol da cultura para este alvo. Acontece que o projeto de construção está na Prefeitura e nem mesmo requerimento de encaminhado por vereadores tiveram força para conhecer de perto o tão nebuloso projeto.

APAGARAM
Diante destas dificuldades os artistas resolveram fazer um protesto pintando os tapumes com belos painéis. Qual não foi a surpresa deles, os proprietários do terreno mandaram cobrir de tinta verde todos os painéis.Eles retornaram á semana passada e repintaram os painéis , e ainda estão por lá. Porém, é bom que se diga o movimento ainda não alcançou a ressonância que merece!.
O artista Zivé Giudice critica a insensibilidade de alguns órgãos públicos que não aproveitam ou capitalizam os quais prestam um serviço importante na luta pela preservação dos nosso bens culturais e em defesa da criação de novos espaços. Na realidade são arquitetos, músicos, artistas plásticos que necessitam de apoio dos órgãos oficiais para se expressarem em benefício da própria população.
Para a luta por este novo espaço, no Rio Vermelho, os artistas receberam a solidariedade de alguns órgãos oficiais, mas o prefeito não se pronunciou. Eles têm informação de que o então prefeito Clériston Andrade teria desapropriado aquele terreno, mas não concretizou o ato e esgotado o prazo o decreto perdeu sua validade.

XILOGRAVURA DE JUAREZ É HOMENAGEM A JOSÉ MARIA

O destaque do Museu de Arte Moderna da Bahia – Mamb – deste mês é uma das mais expressivas xilogravuras do artista e professor Juarez Paraíso, que retrata “ uma figura humana de força extraordinária na boca entreaberta e sofrida.No olhar reflexivo e penetrante e na sólida e negra cabeça”. Ao promover a exposição desta obra até o mês de dezembro o MAMB e a Fundação Cultural prestam uma homenagem ao artista baiano José Maria que morreu no dia 16 de setembro deste ano.
José Maria de Souza nasceu em Valença, em 1935. Estudou na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia. Foi aluno de Mário Cravo Junior, Henrique Oswald e Juarez Paraíso. De origem humilde conseguiu superar todas as dificuldades com força de vontade e talento. Aliás, o talento lhe levou ao reconhecimento nacional.
Suas gravuras e pinturas foram mostradas em diversas exposições coletivas e individuais em todo o Brasil e até no exterior. Sobre a arte de José Maria tanto nas suas gravuras como nas pinturas o professor Juarez Paraíso escreveu: Da mesma maneira que as suas gravuras foram fruto de uma terna observação, de suas vivências pelas madrugadas baianas, a sua pintura atual cristaliza a sua experiência com o Nordeste pernambucano: Olinda, Caruaru, São Caetano, Vitória de Santo Antão, Palmares, Bezerros. A melancolia e solidão do homem nordestino, irremediavelmente atado ao seu destino telúrico, é o que procura expressar José Maria através de uma gama tonal , onde o branco é instrumento de revelação como se tudo fosse tão claro e limpo quanto a própria miséria, ou, como declarou o próprio artista como se a miséria fosse o próprio sol”.