sábado, 1 de dezembro de 2012

A ARTE DE NOÉ É A PONTE ENTRE O REAL E O SURREAL- 30 DE JULHO DE 1984.


JORNAL A TARDE , SALVADOR, 30 DE JULHO DE 1984.

A ARTE DE NOÉ LUÍS É PONTE ENTRE O REAL E  SURREAL

O goiano Noé Luís e duas telas que estão expostas
 na Galeria Mab, na Pituba
Criado numa fazenda na região de Capelinha, município de Anicuns, Estado de Goiás, o pintor e ceramista Noé Luís está com uma exposição de seus trabalhos na Galeria Mab, na Pituba. Sua pintura surrealista nos apresenta elementos integrantes desta paisagem rural dentro de um universo cósmico. Sua opção por estes elementos acontece como um grito que rompe o silêncio das omissões. Noé Luís mostra por exemplo, na peça Proteção, como um frágil pássaro protege um imenso ovo numa tentativa desesperada de escondê-lo dos predadores. Vêm os animais, as flores e outros pássaros que povoam seu mundo pictórico, mas que na realidade habitam um mundo cada vez mais cruel e destruidor. O enfoque pode aparecer aos menos avisados como uma simples impulsão, gosto pelo surreal ou uma escolha curiosa de um artista de formação rural que foi para a cidade grande e lá abraçou uma corrente de arte da moda. Mas tenho certeza que nada disto aconteceu. Ao contrário, Noé Luís é todo simplicidade e seu jeito matuto de falar com as pessoas já deixa transparecer que tudo surge em sua arte com autenticidade. Os elementos que servem de veículo para sua expressão plástica são os mesmos que conviveu durante sua infância em Anicuns.
A obra Proteção, o pássaro e o ovo gigante
Por razões óbvias o seu contrato com a arte não aconteceu na infância. “Tive um contato tarde com a arte.Foi em Goiás quando fui levado para lá para estudar”.Mas, ao fazer seus desenhos escolares, uma professora mais sensível chamou-lhe a atenção de que deveria aproveitar a sua potencialidade artística. Noé passou a se interessar pela arte e a visitar exposições culminando com a decisão de fazer um curso livre na Universidade Federal de Goiás.
As coisas foram evoluindo e de repente o Noé estava em Goiânia decidido a fazer um Curso de Engenharia. Mas não passou de um simples impulso. “Para que ia fazer engenharia? O que gosto mesmo de fazer são minhas cerâmicas e minhas telas enfocando a flora e a fauna de meu estado”.
Permaneceu fiel às suas origens e continuou procurando melhorar a qualidade de sua arte. Porém a preocupação em manter os seus valores é demonstrada a cada frase que ele pronuncia, e isto se descobre á medida que a conversa flui com mais intensidade.
Lembro que quando indaguei o por que da irregularidade na queima das peças, pois algumas apresentam manchas mais escuras ele explicou que utiliza, como acontece com muitos de seus conterrâneos, o forno a lenha. Queima suas peças como seus patrícios fazem com as telhas rústicas e as mesmas ganham mais autenticidade e o resultado é muito significativo. Além disto, suas peças não apresentam uma textura muito lisa, bem acabada, como alguns sugerem. A textura propositadamente é rústica o que dá maior identificação com o seu mundo rural.
Uma das peças de cerâmica que me chamou atenção representa um couro de boi com cabeça e chifres. A textura do couro ficou muito sugestiva e foi conseguida com um saco de alinhagem, desses que são utilizados nas fazendas para o transporte dos produtos colhidos. Nesta peça também notamos a variação na queima, onde as manchas mais claras e escuras resultam numa composição plástica forte.
Quando examinamos sua pintura notamos o contraste entre a presença rural do forno e a própria maneira de abordar a temática de uma forma mais primitiva, o desenho cuidadoso e a leveza do traço. Como fechasse as cortinas de um teatro e as cerâmicas fossem retiradas pelos contra-regras para início de um segundo ato ou seja aquele em que o mundo rústico-rural dá lugar ao mundo surreal. Embora a presença dos elementos figurados seja constante a maneira da abordagem é diferente. São dois momentos na arte de Noé Luís, e acredito que a maneira de abordar na cerâmica traduz maior autenticidade.

O caju e o casario num envelope
Nas telas ele trabalha com os telhados de Goiás Velho e faz com eles o que quer. Consegue sinuosidades e leveza invejáveis. As cores também possibilitam a criação de uma ambientação citadina e mesmo com a introdução dos cajus e nas caras de boi é uma pintura que revela o ele da ligação entre o Noé habitante de uma cidade grande.
Não posso deixar de lembrar que embora capital, a cidade de Goiás não possui ainda um intenso movimento cultural, especialmente no campo das artes plásticas. Agora, é que um grupo de artistas está-se movimentando para construção de um espaço denominado pomposamente de Catedral da Arte, cujo projeto é do baiano Juracy Dórea.
Diz Noé Luís “Não temos um museu embora existam algumas galerias o movimento ainda é muito pequeno”. Para vencer estes problemas os artistas goianos criaram grupos de trabalho e Noé participa de um desses grupos que funciona como uma oficina livre, onde é discutida a produção artística em todos os níveis. Isto permite de certa forma a garantia da sobrevivência e uma ponte entre os artistas e o público.
Todas estas dificuldades enfrentadas por Noé Luís demonstram qualidade inata do artista que é. Venceu principalmente a barreira da desinformação, isto aconteceu no momento em que teve sua atenção despertada pela velha professora. Daí não mais parou e a sua produção prossegue num ritmo crescente revelando um artista autêntico que utiliza os elementos de seu próprio mundo na sua expressão plástica. Acredito que outros caminhos ainda serão buscados por Noé procurando uma identificação cada vez maior com o próprio mundo onde gravita.
Para finalizar quero chamar a atenção para o uso e o equilíbrio da cores que compõem os seus trabalhos .Cores que criam uma atmosfera surreal,permitem um equilíbrio cromático muito identificado com suas emoções.
O casario goiano é representado dentro de envelopes. Outra demonstração  da sua preocupação com a preservação não apenas da flora e fauna, como também com o próprio patrimônio que aprendeu a mar. Parece até o Noé Luis depois de viajar pelos campos verdejantes de seu estado resolve dar um mergulho nos eu subconsciente. Uma passagem do seu mundo real onde foi criado para o mundo surreal, onde espera proteger os seus bois, pássaros, árvores e o patrimônio das cidades que praticamente conheceu já adulto.