sábado, 15 de dezembro de 2012

A GRANDEZA DA 18.ª BIENAL INTERNACIONAL DE S. PAULO - 07 DE OUTUBRO DE 1985


JORNAL A TARDE SALVADOR, 07 DE OUTUBRO DE 1985

A GRANDEZA DA 18.ª BIENAL INTERNACIONAL DE S. PAULO
O Presidente José Sarney na rampa do terceiro pavimento da 18 ª Bienal Internacional paulista


Está aberta ao público uma das quatro mais importantes mostras de arte do mundo, a 18.ª Bienal Internacional de São Paulo. São 2.400 obras distribuídas em três andares, onde o visitante tem acesso através de rampas suaves desenhadas pelo mestre Oscar Niemeyer, em 1951. Setecentos artistas das mais variadas tendências, dos quais 300 brasileiros, participam da mostra onde o visitante tem que levar necessariamente de um dia e meio a dois para, realmente, olhar como manda o figurino cada uma das obras expostas.
É uma maratona que deve ser feita com muito boa vontade, tempo e alguém ao lado para entremear um bate-papo.Como estou de viagem marcada para a Alemanha e Áustria, pretendo visitar a Bienal tão logo retorne, talvez até desembarcando na volta em São Paulo. Mas, tenho acompanhado passo a passo a Bienal desde as primeiras reuniões das comissões organizadoras e recebi com regularidade material informativo da própria Fundação Bienal. Sabemos hoje que para se fazer uma mostra deste porte foram necessários investir um milhão de dólares e não 300 mil dólares como foi pensado inicialmente, depois refizeram os cálculos para 700 mil dólares, e terminou na realidade custando em torno de um milhão de dólares, sendo que boa parte com ajuda da iniciativa privada.

SURPRESAS

Esperam os organizadores que 200 mil pessoas percorreram os cinco quilômetros com a alegria de quem vai a uma festa. A 18.ª Bienal é uma festa cultural onde alegremente as pessoas vão tendo emoções e formações sobre as expressões mais vitais de uma sociedade organizada. Esta Bienal traz consigo a presença da música e também dos artistas cubanos que estavam há 22 anos fora de qualquer bienal. Os 43 países participantes oferecem muitas surpresas.
Um deles é o Peru, através de Herman Veja, que utilizou sua criatividade para uma descrição crítica dos clássicos. Basta citar que a tela “Lição de Anatomia”, de Rembrandt, o fotógrafo mostra na Bienal os militares bolivianos expondo o corpo morto do guerrilheiro argentino-cubano Che Guevara.
E a grande tela, onde três imensos corredores compondo seis paredes estão expondo dezenas de artistas. Tantas discussões foram alvo esta idéia de Sheila Leirner. São quadros produzidos nos mais variados países como que estão ali confrontado aos olhos dos visitantes e ela justifica esta sua idéia como “um espelho da produção artística internacional que varia em escalas de acordo com as informações dos autores e também dos visitantes capazes ou não capazes de fazer uma leitura crítica.
O visitante pode ainda entrar pelos labirintos criados com ripas pelo americano Edward Mayer sem utilizar um prego sequer. As ripas são supostas.
Além dos estrangeiros e das novidades em termos de técnicas e materiais usados como suportes de arte ou mesmo em ambientações, existem lá os xilogravadores nordestinos que estão localizados em frente aos expressionistas.
Para os que gostam da videoarte, tem um salão chamado Entre a Ciência e a Ficção.

E O FUTURO DAS BIENAIS?

Os organizadores debateram o futuro das bienais, inclusive esta falácia que salões e bienais estão falidas. Mas, quando se pensa em reunir um grupo de produção ou mesmo de artistas surgem invariavelmente às coletivas, os salões ou as bienais. Não concordo com aqueles que dizem que o futuro das bienais interessa apenas aos organizadores.
Qualquer pessoa de nível intelectual médio deve interessar-se por arte e uma mostra da qualidade e da importância de uma bienal tem necessariamente que mexer com suas emoções. As bienais de Paris, Veneza, São Paulo ou na Quadrienal de Kassel (Alemanha) são realmente acontecimentos internacionais da mais alta importância.
O venezuelano Roberto Guevara disse em São Paulo que falar sobre “O futuro das bienais é falar sobre o futuro da Humanidade, é impossível de se prever”.Já Roberto Muylaert, presidente da Fundação Bienal São Paulo, argumentou com número. Uma boa exposição numa galeria atraí 2.000 mil pessoas de um mesmo estado.Nesta Bienal vamos atrair mais de 200 mil pessoas, inclusive de vários países. E contra ataca: “Se este número é importante, então a Bienal é um sucesso”.
É bom acrescentar a este argumento que as 2.000 pessoas que começaram a uma galeria, na maioria das vezes, vão através de convites pessoais. As exposições são mais elitizadas. A Bienal é democrática e aberta. Nas vezes que estive visitando outras bienais encontrei centenas de estudantes em grupos com guias especiais explicando cada manifestação. Portanto, serve para formação de novas clientelas e também para  o despertar vocações. Como acontece com qualquer organização, existem os contrários, os descontentes e eles têm o direito de protestar. Só que lá o protesto é de nível, não provinciano, desconexo e esclerosado como alguns que aqui acontecem. Ontem, em São Paulo, Aldemir Martins, Darcy Penteado, Marcelo Nistche e Ivald Granato, entre outros, promoveram uma manifestação das 12 às 17 horas, intitulada “Arte e Pensamento Ecológico”, na Avenida Paulista.
São os chamados eventos paralelos organizados por grupos ou mesmo artistas isolados, embaixadas, consulados, para promover a produção de arte em seus respectivos países ou protestar contra o evento.

LATINOS AMERICANOS

Entre as delegações latino-americanas destacam-se as do Chile, Paraguai, Uruguai, Argentina, Peru,Venezuela, República Dominicana.Para o artista Silvano Lora, de São Domingos, “esta Bienal já enfrentou muitas crises e é muito importante para nós do continente. Noto que nos últimos dois anos sofreu uma espécie de revitalização”. Certamente esta revitalização a que se refere o artista é fruto dos novos ares na política que vem espelhar ou desaguar em qualquer produção intelectual.
A uruguaia Agueda Cancro apresenta um trabalho intitulado “Ataduras”, que é formado de peças de roupas feitas de vidro branco fosco penduradas sobre um trilho de trem, sugerindo a idéia de eternidade. No núcleo histórico, o cubano (falecido) Wilfredo Lam é um dos pontos altos desta seção. O venezuelano, de 34 anos, Milton Becerra, fez “aterrissar” um meteorito que em sua visão “é o único testemunho que representa a vida humana no cosmos”. Seu trabalho sofre a influência que o famoso e tão esperado Cometa Halley vem despertando em todo o mundo.
O meteorito do venezuelano foi revestido de ceras e material inflamável e ardeu em fogo, envolto por circuitos traçados no chão com pigmento de tinta “como ondas sonoras que se estendem sem fim”, explica o autor.
O uruguaio Hugo Nantes apresenta outra obra que causa impacto aos visitantes: são esculturas de metal reproduzindo três homens dilacerados, sentados numa mesa.
Muitos outros artistas, latino-americanos demonstram que a arte nesses países vem sofrendo um grande processo de revitalização. As ditaduras que foram ou estão sendo varridas deste continente estão surtindo efeitos positivos.

A MÚSICA É VEDETE

O experimentador John Cage
Um fato curioso é que uma das grandes vedetes da 18.ª Bienal Internacional de São Paulo não é propriamente um artista plástico e sim o músico norte-americano de 73 anos, John Cage, que veio diretamente de Paris enfrentando 13 horas de voo até São Paulo. No avião, disse ao desembarcar:
“Me distraí jogando xadrez com o passageiro que estava sentado ao meu lado”. Ele esteve aqui na década de 60, mas somente no Rio de Janeiro, juntamente com uma companhia de dança. É um homem delicado, que sofre influência oriental hinduísta, zen-budista ou taoísta, mas acima de tudo é um homem “equilibrado com seu tempo, sua arte e seu pensamento”.
Disse que recentemente escreveu uma série de peças intituladas Ryoanji, que é o nome de um templo em Kioto, Japão, que apresentará no Festival de Nova Música Americana, em Houston, no Texas.Ele é muito conhecido dos músicos brasileiros e influenciou as obras de Rogério Duprat, Damiano Cozzella, Willy Correia de Oliveira e Gilberto Mendes. É interdisciplinar e trabalha com desenvoltura na música, na dança e na arte plástica.